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METAFÍSICA POSTA DE LADO

(G. Gusdorf, ib. cahier 2, p. 15).

«A Bonaparte, que o questionava sobre suas concepções e lhe perguntava o que ele fazia de Deus, Laplace respondeu que não tinha nada a ver com essa “hipótese” sem fundamento científico. A rejeição de toda transcendência denota, portanto, um novo humanismo para o qual tanto o metafísico quanto o teólogo não passam de vozes inúteis. Além disso, eles só podem desviar a pesquisa positiva, de modo que, no fim das contas, sua influência é nefasta. Já os espíritos brilhantes do século XVIII, não podendo proscrí-los, dedicavam-se, com Voltaire, a ridicularizá-los. D’Alembert constata essa depreciação constante da metafísica e do metafísico: «Não duvido, escreve ele (Discurso preliminar à Enciclopédia, 117), que esse título em breve seja um insulto para nossos bons espíritos, assim como o nome de sofista, que, no entanto, significava sábio, degradado na Grécia por aqueles que o ostentavam, foi rejeitado pelos verdadeiros filósofos». O prognóstico viria a ser confirmado pelos acontecimentos: a própria denominação de metafísica tende a desaparecer do uso no século XIX, e os programas universitários do século XX substituem esse termo ultrapassado pela expressão prudente de “filosofia geral”, que, na verdade, não significa nada e parece destinada, sobretudo por sua modéstia, a desviar suspeitas sempre ameaçadoras.

A metafísica não busca mais do que ser esquecida. Ela está confinada a uma dessas “reservas”, territórios sem valor para onde os povos civilizadores relegam, após a vitória, os restos das populações indígenas, que são ao mesmo tempo campos de concentração e museus folclóricos. O conhecimento positivo, os métodos rigorosos da ciência ocupam todo o espaço útil » (G. Gusdorf, Vers une métaphysique, p. 7).

A pretensão de Platão, de Aristóteles, de Descartes, de Kant ou de Hegel de determinar a priori as estruturas do conhecimento nunca resultou senão em castelos de cartas ideológicos, rapidamente destruídos pelo progresso real do conhecimento. A história da filosofia surge, à luz do conhecimento positivo, como um catálogo de absurdos que se ridicularizam mutuamente; nunca serviram para outra coisa senão para desviar os pesquisadores que neles confiavam. A razão deve renunciar a todos os seus privilégios e colocar-se resolutamente à escola da ciência. A metafísica não trazia nenhuma verdade específica; contentava-se com palavras e reduzia-se inteiramente a uma espécie de gigantesca doença da linguagem. Toda certeza válida se reduz a uma constatação da experiência, e o pensamento humano autêntico representa um sistema convencional que deve se contentar em repetir, sem distorção, o continuum experimental dos “protocolos” corretamente estabelecidos.

É por isso que a linguagem metafísica e a atitude metafísica representam uma espécie de depravação da qual é preciso preservar o pensamento por meio de medidas radicais” (G. Gusdorf, ib., p. 8).

Segundo o próprio reconhecimento de especialistas eminentes, não há, portanto, autonomia da ciência em relação à metafísica… A experiência humana precisa ser compreendida em sua totalidade com base em uma inteligibilidade complexa que atribui às leis e fórmulas matemáticas apenas uma função secundária de correlação e explicitação. O mito do cientificismo era uma espécie de romance de ficção científica que a experiência não confirmou. » (G. Gusdorf, ib. caderno 2, p. 14. e Tratado p. 94-95.)

É possível observar em muitos cientistas uma nostalgia pela metafísica. As sólidas certezas do homem de ciência têm alcance limitado; elas o tornam prisioneiro do domínio restrito de sua competência. Ele experimenta, portanto, um sentimento de incompletude ao se ver confinado a um raio de ação tão estreito. Homem de uma experiência objetiva e restrita, o cientista parece deslocado, à vontade em qualquer lugar que não seja seu laboratório. Falta-lhe a satisfação de alcançar o homem, de lhe propor uma satisfação plena. Em suma, a ciência inveja à metafísica o privilégio de ser um conhecimento da totalidade humana e de poder prescrever fins, enquanto a técnica oferece apenas um leque de possibilidades, um repertório de meios, que não se disciplinam por si mesmos. O cientista de hoje sofre por ser aquele especialista que, nas palavras de um humorista, sabe cada vez mais sobre um campo cada vez mais restrito, enquanto aguarda o momento em que saberá tudo sobre nada.”

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