8 Ciência dos mitos
GIRARD, René. Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982.
1. As formas, ideias e instituições religiosas em geral devem ser reconhecidas como reflexo deformado de violências excepcionalmente bem-sucedidas quanto às suas repercussões coletivas, e a mitologia em particular como rememoração dessas violências tal como esse êxito obriga seus perpetradores a representá-las, rememoração que, transmitida de geração em geração, evolui, mas jamais reencontra, antes perde e enterra cada vez mais fundo o segredo de sua distorção originária, já que religiões e culturas dissimulam essa violência para fundar-se e perpetuar-se, de modo que descobrir seu segredo é trazer uma solução que se deve dizer científica ao maior enigma de toda ciência do homem, o da natureza e da origem do religioso.
2. Afirmar esse caráter científico contradiz o dogma atual segundo o qual a ciência em sentido estrito é impossível no domínio do homem e encontra ceticismo extremo sobretudo entre os especialistas das ciências, ou antes das não ciências do homem, sendo que mesmo os menos severos concedem indulgência apesar, e não em virtude, dessas pretensões exorbitantes, benevolência reconfortante, mas surpreendente, pois se a tese nada valesse, nada valeriam também livros inteiros dedicados à sua defesa.
3. As circunstâncias atenuantes concedidas são compreensíveis, pois num universo que já não crê em nada as reivindicações excessivas não têm consequências, e o número sempre crescente de livros obriga o autor a exagerar a importância de seu propósito para chamar a atenção, fazendo sua própria publicidade, de modo que seus excessos de linguagem seriam perdoáveis, já que quem delira não é ele, mas as condições objetivas da criação cultural.
4. Essa interpretação generosa deve ser desmentida, pois quanto mais se reflete menos se vê possibilidade de falar de outro modo, o que obriga a voltar à carga com o risco de perder simpatias fundadas num mal-entendido.
5. No turbilhão cada vez mais acelerado de métodos e teorias e na valsa de interpretações que gozam por um instante do favor do público antes de cair num esquecimento provavelmente definitivo, parece não restar estabilidade nem verdade capaz de sustentar-se, e a última moda afirma até que as interpretações são em número infinito e se equivalem, nenhuma sendo mais verdadeira ou mais falsa que as outras, havendo tantas interpretações quantos leitores, destinadas a suceder-se sem fim na alegria geral da liberdade conquistada, sem que nenhuma jamais prevaleça decisivamente sobre as rivais.
6. O extermínio recíproco e ritualizado das metodologias não deve ser confundido com a totalidade da inteligência atual, pois esse drama distrai, mas, como as tempestades no oceano, desenrola-se na superfície sem perturbar a imobilidade das profundezas, e quanto mais se agita, mais essa agitação parece a única realidade e mais o invisível escapa.
7. Os pseudodesmistificadores podem devorar-se mutuamente sem enfraquecer realmente o princípio crítico de que todos derivam de modo cada vez mais infiel, pois as doutrinas recentes descendem todas de um mesmo procedimento de decifração, o mais antigo inventado pelo mundo ocidental e o único verdadeiramente durável, que, por estar além de toda contestação, passa despercebido como o próprio Deus e exerce tal domínio que parece confundir-se com a percepção imediata, a ponto de causar espanto em seus usuários quando se lhes chama a atenção para ele no momento mesmo em que o utilizam.
8. Esse procedimento é a decifração das representações persecutórias, banal no contexto da história ocidental, mas que, retirada desse contexto, logo parece desconhecida, ignorância que não é exatamente a de Monsieur Jourdain fazendo prosa sem saber, pois a banalidade local do procedimento não deve dissimular o que ele tem de excepcional e mesmo de único num quadro antropológico, já que fora da cultura ocidental ninguém jamais o descobriu e mesmo nela há algo de misterioso no modo como é usado sem jamais ser olhado.
9. No mundo atual esse procedimento é banalizado e serve constantemente para que uns acusem os outros de tendências persecutórias, contaminado de espírito partidário e de ideologia, razão pela qual, para reencontrá-lo em sua pureza, convém ilustrá-lo com textos antigos cuja interpretação não é afetada pelas controvérsias parasitárias do presente, como a desmistificação de Guillaume de Machaut, que faz unanimidade e serve de ponto de partida e de retorno para cortar as intermináveis chicanas dos gêmeos miméticos textualizados, já que as controvérsias por ninharias nada podem contra a solidez granítica dessa decifração.
10. Há sempre alguns extravagantes, sobretudo numa época tão perturbada, para rejeitar as evidências mais fortes, mas seu espírito de chicana não tem a menor importância intelectual, e mesmo que a revolta contra esse tipo de evidência ganhe um dia novo vigor e se reencontrem as legiões de Nuremberg ou seu equivalente, as consequências históricas seriam catastróficas, mas as intelectuais nulas, pois essa verdade não admite compromisso, nada nem ninguém pode alterá-la e, mesmo que não reste ninguém na terra para testemunhá-la, ela permanecerá verdade, escapando ao relativismo cultural e a toda crítica do etnocentrismo, fato que a maioria reconhece quando obrigada, mas cuja obrigação desagrada pelo vago temor de que leve mais longe do que se deseja.
11. Essa verdade poderia ser qualificada de científica, como muitos teriam admitido quando o termo ciência se aplicava às certezas mais fortes e como muitos ainda hoje responderiam ao afirmar que só o espírito científico pôs fim à caça às bruxas, pois é a causalidade mágica e persecutória que a sustenta e renunciar a uma exige deixar de crer na outra, coincidindo a primeira revolução científica no Ocidente, mais ou menos, com o abandono definitivo da caça às bruxas, de modo que, na linguagem dos etnólogos, uma orientação resoluta para as causas naturais prevalece cada vez mais sobre a preferência imemorial pelas causas significativas no plano das relações sociais, suscetíveis de intervenção corretiva, isto é, as vítimas.
12. Há uma relação estreita entre a ciência e o fim da caça às bruxas, mas isso talvez não baste para chamar de científica a interpretação que subverte a representação persecutória ao revelá-la, pois os filósofos da ciência, talvez afetados pelo espírito da época, apreciam cada vez menos as certezas estáveis e desdenhariam uma operação tão isenta de riscos e dificuldades quanto a desmistificação de Guillaume de Machaut, a propósito da qual invocar a ciência parece incongruente.
13. A renúncia ao termo glorioso para um caso tão banal é aceitável, e tanto mais quanto, à sua luz, torna-se manifesto o estatuto necessariamente científico do empreendimento proposto.
14. Trata-se de aplicar a textos aos quais ninguém ainda pensara aplicá-lo um procedimento de decifração muito antigo, de eficácia a toda prova e de validade mil vezes confirmada no domínio atual de sua aplicação.
15. O verdadeiro debate sobre a hipótese ainda não foi travado, e para colocar a boa questão é preciso reconhecer os limites estreitos da iniciativa, cuja novidade não é a que se imagina, pois limita-se a ampliar o ângulo de visada de um modo de interpretação cuja validade ninguém contesta, sendo a verdadeira questão a do fundamento dessa ampliação, de modo que ou se descobriu realmente algo ou se perdeu tempo, mas, como a hipótese não é inventada, mas deslocada, exigindo apenas adaptações menores para aplicar-se ao mito como já se aplica a Guillaume de Machaut, o único epíteto que lhe convém, tenha ou não razão no fundo, é científico, pois se estiver errada será logo esquecida e, se estiver certa, será para a mitologia o que já é para os textos históricos, impondo-se pelas mesmas razões e da mesma maneira e inscrevendo-se nos espíritos com a mesma força.
16. O único motivo para recusar o epíteto de científico à leitura unânime de Guillaume de Machaut não é a incerteza, mas o excesso de certeza, a nulidade do risco e a ausência de alternativa.
17. Deslocada para o domínio mitológico, a velha desmistificação sem problema muda de caráter, pois a evidência rotineira dá lugar à aventura, o desconhecido reaparece e as teorias rivais, numerosas, passam por ora como mais sérias.
18. Supondo-se que a hipótese esteja correta, o ceticismo que hoje se lhe opõe não é mais significativo do que teria sido, no século XVII, um referendo nacional na França sobre a feitiçaria, no qual a concepção tradicional teria triunfado e a redução da feitiçaria à representação persecutória teria reunido poucos votos, ao passo que menos de um século depois o resultado teria sido inverso, e o mesmo ocorrerá com a mitologia, que se habituará a ser considerada sob o ângulo da representação persecutória, como ocorreu com a caça às bruxas, já que os resultados são perfeitos demais para que o recurso à hipótese não se torne tão maquinal e natural para os mitos quanto já é para as perseguições históricas, chegando o dia em que não ler o mito de Édipo como Guillaume de Machaut parecerá tão bizarro quanto hoje parece aproximar os dois textos, desaparecendo a surpreendente defasagem entre a interpretação de um mito em contexto mitológico e a do mesmo mito transplantado para um contexto histórico.
19. Quando isso ocorrer, já não se falará de ciência para a desmitificação da mitologia, como não se fala mais para Guillaume de Machaut, mas a recusa atual do título de científico à hipótese tem razão inversa à da recusa futura, pois então ela terá se tornado evidente demais e recuado para muito aquém das fronteiras efervescentes do saber, de modo que só durante o período intermediário entre a recusa quase universal de hoje e a aceitação universal de amanhã ela passará por científica, assim como a desmistificação da feitiçaria europeia foi percebida como científica no período equivalente.
20. Há certa repugnância em qualificar de científica uma hipótese demasiado isenta de riscos e incertezas, mas uma hipótese feita só de riscos e incertezas também não seria científica, pois esse título exige combinar o máximo de incerteza atual com o máximo de certeza potencial.
21. Essa combinação é precisamente a da hipótese proposta, e os pesquisadores, apoiados apenas em fracassos passados, decidiram apressadamente que ela só seria possível em domínios matematizáveis e passíveis de verificação experimental, quando ela já está realizada, pois a hipótese existe há séculos e, graças a ela, a passagem da incerteza à certeza em matéria de desmitificação já ocorreu uma primeira vez e poderia ocorrer uma segunda.
22. Isso é difícil de ver porque as certezas hoje repugnam e tendem a ser exiladas em recantos obscuros do espírito, como há cem anos se exilavam as incertezas, esquecendo-se que a desmitificação da feitiçaria e de outras superstições persecutórias constitui uma certeza inabalável.
23. Se essa certeza se estendesse amanhã à mitologia, não se saberia tudo, longe disso, mas haveria respostas rigorosas e provavelmente definitivas para certas questões que a pesquisa necessariamente se coloca ou se colocaria se não tivesse perdido toda esperança de dar-lhes respostas rigorosas e definitivas.
24. Para tal resultado, matematizável ou não, não há razão para renunciar ao termo ciência nem outro termo a usar, e a censura de arrogância presumida, que julga poder ensinar modéstia sem risco algum, impede de ouvir o que realmente se procura fazer entender com esse uso.
25. Opõe-se também a falsificação de Popper e outras belas coisas vindas de Oxford, Viena e Harvard, segundo as quais a certeza exige condições tão draconianas que talvez nem as ciências mais duras as satisfaçam.
26. A desmistificação de Guillaume de Machaut certamente não é falsificável no sentido de Popper, e se nem aqui se admite certeza, mantendo-se a grande democracia da interpretação jamais verdadeira nem falsa que triunfa hoje fora do matematizável, seria preciso condenar retrospectivamente os que puseram fim aos processos de feitiçaria, mais dogmáticos ainda que os caçadores de bruxas por julgarem possuir a verdade e declararem única boa sua interpretação contra mil outras de eminentes caçadores de bruxas e universitários distintos, por vezes progressistas como Jean Bodin, e denunciar sua arrogância, intolerância e puritanismo, deixando desabrochar as cem flores da interpretação, feiticeira e não feiticeira, as causas naturais e as mágicas, as suscetíveis de intervenção corretiva e as que jamais recebem a correção merecida.
27. Deslocar levemente os contextos sem mudar nada de essencial nos objetos mostra facilmente o ridículo de certas atitudes contemporâneas, ao menos em sua aplicação a esses objetos, pois o pensamento crítico encontra-se num estado de decadência extrema, espera-se que temporária, mas aguda por tomar-se pelo refinamento supremo do espírito crítico, e se os antepassados tivessem pensado como os mestres do momento jamais teriam posto fim aos processos de feitiçaria, não sendo de espantar que hoje mesmo os horrores mais incontestáveis da história recente sejam postos em dúvida por pessoas que só encontram diante de si uma intelligentsia reduzida à impotência pelas escaladas estéreis de que é presa e pelas teses delas resultantes, cujo caráter autodestrutivo já não atinge ou atinge como um desenvolvimento positivo.
