1 A Vítima
GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978.
O MECANISMO VITIMÁRIO: FUNDAMENTO DO RELIGIOSO
J.-M. O.: A investigação psiquiátrica do desejo encontra uma exigência anterior de fundamentação antropológica, segundo a qual somente o religioso permite desvendar o segredo do homem, tornando necessário justificar a possibilidade de uma ciência do religioso em uma época que considera inacessível uma verdadeira ciência do homem.
R. G.: A possibilidade de uma ciência do religioso decorre do movimento pelo qual a investigação científica transforma mistérios aparentemente insondáveis em enigmas solucionáveis, processo favorecido pelo recuo histórico das religiões e pela acumulação de conhecimentos etnológicos que permitem comparar suas manifestações e interrogar a universalidade do sagrado, dos ritos, dos interditos e da fundamentação sobrenatural das ordens sociais.
- O distanciamento em relação às religiões enfraquece a proteção que os tabus conferiam ao mistério religioso e permite investigar como problemas concretos a crença no sagrado e sua presença nas sociedades anteriores à sociedade moderna.
- Entre aproximadamente 1860 e 1920, a expectativa de explicar cientificamente a origem das religiões mobilizou a etnologia, alimentando a ambição de produzir uma obra que desempenhasse nas ciências humanas e sociais um papel comparável ao de A origem das espécies nas ciências da vida.
- O fracasso sucessivo das teorias do religioso disseminou a suspeita de que a própria formulação do problema seria equivocada, mas a amplitude de uma questão não basta para desqualificá-la cientificamente, pois semelhante restrição teria comprometido o desenvolvimento da biologia.
G. L.: A defesa da abordagem estrutural, exemplificada por Georges Dumézil, restringe o trabalho científico às formas já simbolizadas e às estruturas de linguagem, considerando princípios excessivamente gerais, como o sagrado, inadequados ao método que efetivamente produz resultados.
R. G.: A exclusão dos princípios religiosos gerais carece de fundamento, pois eles também se apresentam em cada cultura por palavras determinadas, como mana e sacer, cuja investigação não deveria ser menos legítima que a dos demais elementos simbólicos, enquanto a rejeição definitiva de toda teoria do religioso revela um investimento passional incompatível com a prudência científica.
- A exclusão do religioso como problema constitui um traço central da etnologia contemporânea, e a intensidade com que se procura torná-la irreversível indica que nela estão implicadas questões decisivas para a organização desse campo de conhecimento.
- A condenação de todas as teorias do religioso por E. E. Evans-Pritchard estende-se até às teorias futuras, convertendo a avaliação crítica de tentativas anteriores em uma interdição antecipada de pensamentos ainda inexistentes.
J.-M. O.: As previsões categóricas sobre a impossibilidade de determinadas descobertas são frequentemente desmentidas pela experiência e podem manifestar a resistência de uma organização histórica do saber ameaçada por transformações importantes, chegando talvez a intensificar-se diante da proximidade da descoberta que pretendem excluir.
R. G.: Embora o abandono de perguntas reconhecidas como vazias possa representar um progresso científico, a questão do religioso permanece legítima, e a ausência de uma terminologia compartilhada nas monografias etnológicas evidencia uma dificuldade teórica que ajuda a compreender tanto a repetição das descrições quanto o surgimento do estruturalismo como restrição metodológica às relações internas dos sistemas simbólicos.
- A comparação das monografias produzidas desde Malinowski, sobretudo na tradição britânica, revela a inexistência de definições consensuais para termos elementares como ritual, sacrifício e mitologia, impedindo que resultados já estabelecidos sejam retomados por referências e conceitos estáveis, como ocorre nas ciências consolidadas.
- A compreensão da situação das ciências humanas exige considerar o descrédito das grandes teorias em meados do século XX, quando a influência de Durkheim havia diminuído e Totem e tabu não obtivera reconhecimento efetivo, compondo o contexto em que o encontro entre Claude Lévi-Strauss e Roman Jakobson, durante a guerra em Nova York, deu origem ao estruturalismo etnológico.
- A perspectiva estrutural compreende os dados culturais como signos cujo sentido resulta de suas relações recíprocas em sistemas internamente coerentes, cabendo à etnologia decifrar essas relações para reconhecer a individualidade de cada cultura e instituição.
- A limitação da pesquisa às formas simbólicas implica abandonar as grandes perguntas tradicionais quando elas apenas projetam categorias da cultura do pesquisador sobre sociedades que não formulam o religioso como uma questão autônoma.
- Esse recuo metodológico restringe o conhecimento à reconstrução das operações de significação de diferentes culturas e identifica o homem como produtor de sistemas simbólicos particulares que, ao tornarem a realidade significativa, acabam confundidos com a própria realidade.
J.-M. O.: A antropologia estruturalista alcançou resultados notáveis ao decifrar as formas culturais com um rigor que, longe de empobrecer ou desumanizar sua compreensão, torna perceptível uma riqueza poética extraordinária e permite apreciar de maneira inédita a singularidade dessas formas.
R. G.: A renúncia estruturalista às grandes perguntas formuladas no âmbito de um humanismo impressionista constituiu uma necessidade histórica para a renovação da etnologia, permitindo localizar o sentido onde ele efetivamente se constitui e desacreditar definitivamente uma problemática herdada do século XIX, sustentada por reflexões inconsistentes sobre o homem.
G. L.: A crítica estruturalista às antigas concepções antropológicas abriu caminho para a proclamação pós-estruturalista da morte do homem, sucedendo à morte de Deus e tornando quase ausente a própria questão humana.
R. G.: A questão do homem conserva sua centralidade e tende a adquirir importância crescente mediante um deslocamento da investigação para a origem e a gênese dos sistemas de significação, domínio que o estruturalismo ajuda a delimitar e que as ciências da vida abordam, sob outra perspectiva, como processo de hominização.
- As noções de homem e humanidade permanecem no centro de questões e respostas que justificam a continuidade da denominação ciência do homem, enquanto disciplinas como a etologia e os próprios resultados do estruturalismo contribuem para redefinir seu campo.
- A gênese dos sistemas significantes constitui um problema concreto ainda não resolvido, cuja investigação se articula à confiança na possibilidade de uma explicação científica da hominização, conferindo à questão humana um futuro particularmente promissor.
