User Tools

Site Tools


giacoia:2001:start

Nietzsche como psicólogo

GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. São Paulo: Editora Unisinos, 2001.

Introdução

1. Para um bom leitor, a primeira constatação acerca dos escritos de Nietzsche é que neles fala um psicólogo sem igual, capaz de revelar como ingenuidade do erro a crença universalmente compartilhada na oposição entre egoísmo e altruísmo, uma vez que o ego não passa de um embuste superior e não existem ações egoístas nem altruístas.

2. A psicologia ocupa uma função central no conjunto do pensamento nietzschiano, pois dela emana uma voz tão inaudita e temerária que pode surpreender os filósofos adormecidos em seu sono dogmático, embalado por fantasias como a crença na oposição entre egoísmo e altruísmo.

3. Egoísmo e altruísmo não podem ter efetiva realidade quando aquilo que lhes dá conteúdo e sustentação, o próprio ego, não passa de uma espécie de vertigem ou farsa superior, um sentimento forte cujo fundamento está longe de ser evidente e inabalável.

4. A investigação da natureza e da origem do ego constitui a tarefa distintiva do psicólogo Nietzsche, da qual depende em grande parte a transvaloração de todos os valores, já que por ela se traz à luz o erro fundamental subjacente aos edifícios teóricos da metafísica e se quebra o encantamento que mantém adormecido o filósofo, destinado, porém, a estar desperto.

5. Essa é uma das razões pelas quais o estatuto e o papel da psicologia constituem assunto de importância central no pensamento de Nietzsche, merecendo, por isso, esforço de elucidação.

6. Embora a importância da psicologia nunca tenha deixado de ser percebida e mencionada na recepção da obra de Nietzsche, até muito recentemente o tema quase nunca recebeu atenção e cuidado filosófico compatíveis com sua relevância.

7. Walter Kaufmann, precursor no reconhecimento dessa importância, assinala como espantoso que Nietzsche se considerasse o primeiro grande psicólogo da Europa e quase nenhum comentador clássico levasse isso a sério, sendo ainda mais espantoso que ninguém se espante com tal fato.

8. Desse espanto nasce uma investigação, originada em conferências proferidas em 2001 na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, sobre as razões pelas quais Nietzsche, sempre avesso a convicções últimas, pôde convencer-se de que a psicologia deveria ser a senhora das ciências, por conduzir aos problemas fundamentais do espírito.

9. Na esteira de Thomas Brobjer, importa mais apreender e explicitar os genuínos insights psicológicos de Nietzsche, parte integrante e fundamental de sua filosofia, do que deter-se no fascínio de suas asserções provocativas, pois quem não reconhece isso deixa de compreender seu pensamento.

10. Ao autorreconhecimento de Nietzsche como primeiro grande psicólogo corresponde uma concepção ampliada, a grande psicologia, peça constitutiva de seu programa genealógico e operador estratégico em suas análises da moral, da religião, das grandes personalidades históricas, da ciência, da arte, da educação e da política, enfim, em sua tarefa de médico e sintomatologista da cultura.

11. O traço mais próprio do talento psicológico de Nietzsche consiste numa visão aguçada para a difícil e intrincada retroinfluência na qual se cometem a maioria dos erros, aquela que vai da obra ao autor, do ato ao agente, do ideal a quem dele carece e de todo modo de pensar e valorar à necessidade que o comanda.

12. Em Nietzsche contra Wagner figura a direção fundamental do olhar da grande psicologia, que parte de qualquer fenômeno significativo da cultura espiritual rumo às condições originárias de seu surgimento e modificação, de modo que, como arte da inferência retroativa, ela abrange um campo semântico muito mais amplo que o da psicologia tradicional.

13. Além de reportar a esfera espiritual da cultura a seus condicionantes afetivos e pulsionais, o programa da grande psicologia inclui desconstruir o primado da consciência, reconhecer e valorizar um vasto psiquismo inconsciente e propor um novo conceito de unidade subjetiva, ou de processos de subjetivação, orientado por uma compreensão ampliada do corpo e da racionalidade.

14. A psicologia nietzschiana é radicalmente interdisciplinar, convocando filosofia, filologia, fisiologia, história, antropologia cultural, etnologia, semiótica, linguística e literatura para fazer do pensamento uma escola da suspeita permanente, que parte do sentido manifesto das produções culturais em busca do sentido oculto em suas condições de surgimento, desenvolvimento e transformação.

15. Para conceitualizar o tratamento psicológico que Nietzsche dá à filosofia e sua diferença em relação aos demais filósofos, Brobjer propõe dividir o campo de investigação em quatro níveis de abstração psicológica, associados respectivamente à fisiologia, à psicologia, à psicologia social e à metafísica ou idealismo.

16. A grande psicologia abrange todos esses níveis de observação e análise, mas tal esquematização cumpre apenas função didática, pois nas análises concretas de Nietzsche esses níveis nem sempre aparecem claramente separados.

17. Contra uma inveterada maneira simplista de considerar tais distinções, a inferência retroativa que vai da superfície dos fenômenos culturais às suas condições fisiopsicológicas e sociais não implica reduzir o metafísico ao psicológico e este a uma infraestrutura fisiológica derradeira.

18. Em vez de autorizar reducionismos, a grande psicologia opera de modo variado e complexo, fazendo atuar em conjunto diferentes perspectivas para alcançar a compreensão mais vasta e completa possível das múltiplas dimensões de todo fenômeno cultural relevante.

19. A caracterização nietzschiana do tratamento psicológico da cultura como fisiopsicologia pode sugerir um privilégio da fisiologia como instância última de julgamento, impressão reforçada pelas teses sobre o enraizamento fisiológico da linguagem, sobretudo da gramática, e de todas as representações conscientes e inconscientes.

20. Nietzsche jamais deixou de considerar, porém, que a gênese da linguagem, da consciência e da socialidade é simultânea e que esse complexo influi decisivamente na estruturação de toda visão de mundo, a qual não apenas organiza as mentes, mas também influencia os corpos.

21. Conforme a penetrante observação de Brobjer, religião, moralidade e filosofia são em última instância fisiologicamente fundadas, mas, como crenças conscientes e semiconscientes, afetam a interpretação do mundo e a própria fisiologia, podendo gerar doença e doença mental, assim como perspectivas podem, pelo hábito, converter-se em instinto.

22. Essas linhas gerais orientam uma apresentação, sem pretensão de exaustividade, de algumas noções fundamentais da grande psicologia tal como Nietzsche a concebeu e praticou, explicitando, com apoio da bibliografia, certos elementos estruturais que sustentam sua teoria da psicologia.

23. A análise da psicologia do ressentimento ilustra o modo de atuação do psicólogo Nietzsche, constituindo o movimento inicial de uma reflexão voltada a compreender a teoria e a prática da psicologia no interior do programa filosófico nietzschiano.

24. A Simone Paulon, Carlos Alberto Gianotti e Marcelo de Aquino, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, cabe profunda gratidão pelo estímulo, apoio, solidariedade e empenho que tornaram possível esta publicação, concluída em maio de 2001.

giacoia/2001/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki