1.4 Movimento IV
GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. São Paulo: Editora Unisinos, 2001.
1. Pretende-se retomar a questão deixada em suspenso, que diz respeito às relações entre Nietzsche, Dostoiévski e a psicologia.
2. Até o presente momento abordou-se sobretudo a tarefa negativa do novo psicólogo, a dissipação dos fetiches e a diluição dos erros da razão petrificados na gramática da linguagem, tarefa que consiste na preparação do terreno para a instauração de uma psicologia desprovida de compromissos ontológicos infundados.
3. No movimento seguinte, pretende-se abordar um aspecto mais positivo, a saber, um exercício teórico de psicologia a modo nietzscheano.
4. Pretende-se elucidar uma importante teoria psicológica de Nietzsche, a saber, a psicologia do ressentimento, para surpreender em ação os procedimentos, métodos e hipóteses do primeiro psicólogo da Europa num importantíssimo e fecundo campo de investigação.
5. Ao fazê-lo, pretende-se também revelar o grau de profundidade dos vínculos que unem, como desbravadores dos labirintos da alma moderna, os psicólogos Nietzsche e Dostoiévski.
6. Gostaria de iniciar pelo registro de alguns dados biográficos legados por uma personagem feminina excepcional, uma amiga muito estimada e admirada pelo filósofo, Meta von Salis-Marschlin, mulher dotada de refinada sensibilidade e enorme talento intelectual que, em junho de 1887, havia obtido o grau de doutora em história e, com isso, se transformado na primeira mulher suíça a conquistar tal distinção.
7. Nietzsche privava de sua amizade e reconhecimento, e no mesmo ano lê pela primeira vez as Memórias de Subsolo, leitura que nele produz um impacto tremendo, expresso tanto em sua correspondência e nos apontamentos privados quanto na obra publicada.
8. Essa leitura estará destinada a influenciar decisivamente não apenas as reflexões que estão na origem de Para a Genealogia da Moral, texto em que a psicologia do ressentimento recebe seu mais aprofundado e extenso tratamento teórico, como também boa parte de sua produção filosófica, até a síncope mental que o acometeu em 1889.
9. Numa carta escrita ao amigo Franz Overbeck, datada do dia 23 de fevereiro de 1887, Nietzsche registra que há algumas semanas não sabia sequer o nome de Dostoiévski, ele, esse homem inculto que sequer lê jornais, e que um achado casual numa livraria trouxe aos seus olhos, completamente por acaso, a obra recém-traduzida para o francês O Espírito Subterrâneo, tal como ocorreu com Schopenhauer aos 21 anos de idade e aos 35 com Stendhal.
10. O instinto do parentesco, ou como se deva nomeá-lo, falou de imediato, e sua alegria foi extraordinária, tendo que retornar até seu contato com O Vermelho e o Negro, de Stendhal, para se recordar de uma alegria igual, pois são duas novelas, a primeira propriamente uma peça de música muito estranha e não alemã, e a segunda um golpe de gênio, uma espécie de auto-escárnio do conhece-te a ti mesmo.
11. O registro desse arrebatamento tem por objetivo introduzir a hipótese de acordo com a qual a psicologia do ressentimento, justamente o tour de force do talento de Nietzsche como psicólogo, encontra sua versão literária perfeita e acabada no personagem central das Memórias de Subsolo, como se essa novela traçasse os contornos de uma figura prototicamente ressentida, no exato sentido nietzscheano desse termo.
12. Nesse movimento conclusivo, o procedimento consistirá em analisar dois grupos de textos: de um lado, passagens selecionadas de Para a Genealogia da Moral, e de outro, excertos das duas novelas cuja reunião dá corpo às Memórias de Subsolo.
