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2.C.32 Intencionalidade da paixão

O afetivo e o cognitivo

1. Contra um intelectualismo que reduzia o espírito a funções lógicas e, nesse ser desencarnado, ainda falava de paixões da alma, vários contemporâneos atribuem à afetividade um papel cognitivo, uma intencionalidade e um poder de penetração que faltariam à inteligência.

2. O equilíbrio consiste em não cair num excesso que compense o primeiro, reconhecendo, com razão, que toda consciência é consciência de algo e que os estados afetivos, enquanto conscientes, também são intencionais por visarem sempre algum objeto.

3. Todo fenômeno psíquico contém algo a título de objeto, mas cada um o contém a seu modo, de sorte que na representação algo é representado, no juízo algo é admitido ou rejeitado, no amor algo é amado, no ódio algo é odiado e no desejo algo é desejado.

4. Reivindica-se assim um modo de ser objetivo para aquilo que fora facilmente relegado ao plano subjetivo, numa época em que a dicotomia simplista entre objeto e sujeito substituía, numa filosofia decadente, a existência dominante e prévia que parecia ter perdido consistência.

5. Max Scheler pretende uma intencionalidade dispensada de toda referência ao ser, pois o temor de ver qualificado de intelectual um conhecimento que é de fato afetivo o leva a afirmar a inconsistência da teoria segundo a qual tais sentimentos implicariam um conhecimento vago e confuso do ser.

6. Ainda assim, convém conservar para esses sentimentos o qualificativo de sentimentos intencionais, cujo papel cognitivo consistiria, segundo Scheler, em influir sobre a significação que todo objeto presente à consciência assume para nós.

7. Nessa linha, acusa-se Tomás de Aquino de ter sacrificado a concepção agostiniana do conhecimento, embora ele certamente se alegrasse, desde que não se caísse no excesso inverso, com a valorização atual da qualidade objetiva daquilo a que se está sujeito, tal como Sartre a descreve ao mostrar que, para Husserl, amar, temer ou odiar são modos de descobrir o mundo, que devolveram às coisas o horror e o encanto.

8. Assim como alguns hipertrofiam o fenômeno do tempo e outros o da ação, era previsível que se hipertrofiasse também o fenômeno do pathos, a ponto de tomar o sentir como equivalente ou acompanhante indispensável do pensar, num excesso que se pode chamar de panpatismo, em que a simpatia se torna critério do pensamento.

9. Segundo Lavelle, onde não se experimenta sentimento algum a pessoa do outro está ausente, pois não é preciso conhecer um ser para sentir algo por ele, mas é pelo sentimento que se começa a conhecê-lo, de modo que, sem sentimento, ele permanece objeto e coisa, e não pessoa, o que confere ao sentimento um valor privilegiado de acesso ao real quando se trata de um ser.

10. A distinção entre objeto e ser assim reintroduzida é falaciosa, como se um objeto não fosse justamente um ser e como se o ser da pessoa não devesse ser reconhecido objetivamente no feto que o médico manipula sem sentimento particular, e por isso o generoso apelo ao sentimento, apoiado em argumentos frágeis, arrisca voltar-se contra o próprio fim visado ao permitir que os menos generosos neguem a condição de pessoa àquilo que não desperta afeto.

11. A verdade é que esse objeto, essa coisa, por mais humilhada e incapaz de despertar sentimento que seja, é precisamente uma pessoa, e mais profundamente humanos são aqueles que, sem parecê-lo de imediato, concedem ao sentimento um lugar objetivo contra o subjetivismo passado sem lhe atribuir uma função intencional exorbitante.

12. Sartre, como Brentano, considera os estados afetivos intencionais, mas precisa que os sentimentos têm intencionalidades especiais e visam seu objeto de maneira afetiva, sem que se deva cometer o erro intelectualista, de modo que amar as mãos finas, brancas e vivas de alguém é uma das maneiras que essas qualidades têm de aparecer à consciência.

13. Trata-se, mais exatamente, de uma maneira de padecer a finura, a brancura e a vivacidade dessas mãos, ao passo que outro poderia experimentar diante delas repulsa ou cólera.

14. Esse modo afetivo não é conhecimento intelectual, e o representativo conserva certa primazia, pois as mãos aparecem primeiro como complexo representativo que depois determina uma consciência afetiva portadora de nova significação, a significação do padecer, distinta da do agir, que merece ser considerada em si mesma sem esquecer que se exerce sobre o ser que padece como efeito de uma ação que o afeta, de modo que a afetividade é intencional pela mediação do ato.

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