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Ferreira dos Santos

Mario Ferreira dos Santos (1907-1968)

Luís Mauro Sá Martino

A obra de Mário estava em constante reconstrução, com trabalhos posteriores modificando o sentido de anteriores em um processo contínuo de reelaboração intelectual.

  • Análise Dialética do Marxismo, publicado em 1952, foi retirado de circulação pelo próprio autor e transformado em Análise de Temas Sociais no início dos anos 1960.
  • Problemas da Arte e do Símbolo, prometido na lista de “A publicar” da edição de 1952 de Filosofia e Cosmovisão, não chegou a ser escrito nessa forma — tornou-se o Tratado de Simbólica.
  • Os livros anteriores se adaptam conforme o pensamento do autor explora novos domínios e atinge terrenos até então desconhecidos.

Não fica claro em que momento Mário percebeu que sua exposição da Filosofia se convertia em uma gigantesca análise dos fundamentos de todo o conhecimento humano a partir de um conjunto relativamente pequeno de definições.

  • A apresentação dos temas filosóficos nos primeiros livros torna-se progressivamente a busca por um princípio do conhecimento humano.
  • Essa busca encontraria sua expressão na Filosofia Concreta.

A trajetória das obras revela uma progressão do material introdutório rumo a sínteses cada vez mais originais e abrangentes.

  • Filosofia e Cosmovisão ainda oscila entre o livro-texto e a apresentação.
  • Lógica e Dialética já apresenta quantidade substancial de material novo.
  • Teoria do Conhecimento, Filosofia da Crise e Noologia Geral combinam material familiar da história da filosofia com terrenos inexplorados.
  • O Tratado de Simbólica constitui uma primeira e magistral síntese, indispensável para a compreensão da Filosofia Concreta.
  • A Filosofia da Crise é um primeiro resultado das questões sobre o Ser, o Nada e os limites do conhecimento humano.
  • A essa altura, Mário tinha plena consciência do que estava fazendo — a menção a uma Enciclopédia das Ciências Filosóficas aparece plenamente desenvolvida no índice de suas obras.

É possível identificar dois eixos principais ao redor dos quais a maior parte dos livros de Mário se orienta.

  • O primeiro eixo consiste em apresentar a Filosofia para o público a partir da exposição dos temas filosóficos mais importantes.
  • O segundo consiste em examinar o fundamento dos conhecimentos específicos de todas as áreas do saber humano a partir de um critério filosófico irrefutável.
  • Definir com rigor se existe uma solução de continuidade ou uma ruptura entre esses dois elementos é tarefa da interpretação futura de sua obra.
  • A leitura em sequência revela uma mescla dos dois elementos, à medida que Mário reconstruía a posteriori suas obras antigas conforme atingia, nas novas, outros rumos.
  • Para Mário, a filosofia é uma atividade cotidiana do pensamento — a última tese da Filosofia Concreta indica isso, deixando claros os parâmetros em que isso pode e deve ser feito.
  • Não parece existir, para Mário, uma região do pensamento humano chamada “Filosofia”: um pensamento que não seja filosófico não é uma atividade mental digna desse nome.

O trabalho de reconstrução dos próprios livros pode gerar dúvidas nos leitores, sobretudo por conta das referências cruzadas a obras inexistentes ou transformadas.

  • Mário não se refere apenas aos livros já escritos, mas também aos que pretende publicar — e muitas vezes mudava esses planos.
  • A expressão comum é “Isso é discutido em nosso livro x”, sem que haja nenhum título com esse nome entre os publicados nem nos manuscritos.
  • Mário faz referência a obras inacabadas ou que, uma vez manuscritas, tornaram-se capítulos de outras.
  • Nas várias edições de seus trabalhos ele não poupava alterações — é necessário prestar atenção em qual edição está sendo lida e em sua posição na coleção de obras.
  • Uma obra escrita em 1952, mas reeditada em 1954, pode se referir a um livro escrito em 1953, o que pode induzir o leitor a imaginar que algo está muito errado quando um texto de 1952 cita um publicado no ano seguinte.

A publicação da Filosofia Concreta em 1957 coincide com um conjunto de obras que formam sua base conceitual direta.

  • No mesmo ano são publicados Sociologia Fundamental e Ética Fundamental.
  • Do ano anterior vêm Noologia Geral, O homem perante o infinito, o Tratado de Simbólica e Pitágoras e o tema do número.
  • Apesar das inúmeras diferenças de forma, conteúdo e objetivo, o Tratado de Simbólica e Pitágoras e o tema do número formam uma espécie de base conceitual direta para a leitura da Filosofia Concreta.
  • Esses dois livros abrem caminho para a necessidade do pensamento simbólico como forma de se chegar ao conhecimento e estabelecem as relações formais entre esse tipo de atividade mental e a percepção da realidade última.
  • Tal percepção se dá num continuum dos níveis mais altos do espírito à sua complementaridade material na dimensão formal-simbólica do universo — abstração inapreensível senão pela mente educada na atividade do pensamento, a Mathesis, ensinamento mais alto do pitagorismo.
  • Os limites do pensamento racional, para Mário, não conduzem ao irracional ou ao a-racional, mas ao simbólico.
  • Apenas na simbólica é possível ultrapassar as fronteiras do pensamento discursivo comum, baseado nas articulações da linguagem, e chegar ao logos — ao mesmo tempo razão e discurso.
  • A partir do logos se dá a integração dialética com as formas simbólicas no crescente da Mathesis Magiste — o conhecimento absoluto, isto é, da unidade do real em várias dimensões.

Depois de apontar esses dois caminhos e examinar as várias atividades do pensamento humano nos primeiros volumes da Enciclopédia, Mário chega à necessidade de uma síntese como ponto de partida para uma mudança de grau em seus estudos — e é esse o momento da Filosofia Concreta.

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