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CARTAS

SPINOZA, Baruch; ROVERE, Maxime. Correspondance. Paris: Flammarion, 2010.

  • A correspondência de Spinoza revela um homem em construção permanente de seu pensamento junto aos outros, respondendo como pode às perguntas de conhecidos próximos e leitores distantes, de modo que suas páginas mais belas e inspiradas surgem justamente quando ele se encontra em dificuldade, e não na pose de um mestre distribuindo ensinamentos.
  • As cartas de Spinoza ocupam lugar peculiar na história da filosofia, sobretudo na França, sendo estudadas desde o ensino médio por exprimirem com clareza teses de audácia incomparável sobre Deus, a liberdade e o mal, mas, quase quatro séculos depois de sua publicação, permanecem traduzidas integralmente ao francês apenas uma vez, em 1924, por Charles Appuhn, sem que nos oitenta anos seguintes se tenha buscado integrar cartas recuperadas, corrigir erros ou incorporar os avanços da pesquisa, o que sugere um mal-entendido em torno de uma correspondência ao mesmo tempo célebre demais e ignorada demais.
  • Esse mal-entendido consiste em supor que as cartas nada acrescentariam ao restante da filosofia de Spinoza, pois nelas não se encontraria tese que não esteja defendida em outro lugar; embora isso seja exato do ponto de vista doutrinário, a filosofia spinozista não consiste no ensino de uma doutrina, mas num certo modo de relação com o mundo que se afirma com particular vivacidade justamente nessa correspondência.
  • Mais do que demonstrar o interesse já reconhecido dessas cartas, convém indagar como lê-las para perceber os deslocamentos que nelas se operam, condição para que o prazer imediato de frequentar o filósofo em textos por vezes íntimos e divertidos adquira sua dimensão propriamente filosófica.

O que é uma correspondência?

  • O gênero epistolar tal como Spinoza o pratica é hoje inteiramente estranho, pois nele as fronteiras entre o privado e o público, entre verdades eternas e atualidade, entre trivialidades e meditações profundas não coincidem com as nossas, de modo que uma mesma carta pode reunir traços de ensaio, artigo de revista, resenha ou crônica, além de notícias afetuosas entre amigos.
  • Ao seguir o uso de seu tempo, Spinoza participa de uma prática epistolar rápida, segura e barata, forma de escrita mais difundida no século XVII e vital para a vida cotidiana dos sábios e homens de letras, permitindo que uma descoberta científica percorra toda a Europa em poucas semanas.
    • Esse modo de escrita compreende dois momentos: primeiro os correspondentes escrevem-se sob o selo da amizade, confiando o conteúdo à discrição do destinatário; depois o texto pode ser retrabalhado, com supressão dos elementos mais pessoais e eventual publicação e tradução, de modo que a correspondência não é um intercâmbio estritamente privado, mas uma conversa aberta que ainda assim permite uma liberdade de tom impensável numa obra impressa, como quando Spinoza confessa a Oldenburg que afirmar a divindade de Jesus equivaleria a dizer que um círculo se tornou quadrado.
    • Essa liberdade entre homens de letras repousa numa confiança que ultrapassa a lealdade pessoal, enraizando-se numa confiança mais profunda na própria razão, o que dá origem a um grupo unido além das divergências, a República das Letras, comunidade de sábios e escritores cuja rede de comunicação, apoiada em grandes intermediários como Peiresc, Mersenne, Hartlib ou Boulliau, redefine os lugares e modalidades do saber ao permitir que a disputa conviva com uma benevolência de princípio.

A filosofia epistolar de Spinoza

  • A principal dificuldade está em estabelecer a relação entre as cartas e os grandes tratados demonstrativos, pois reservar a estes últimos o privilégio exclusivo de exprimir o pensamento de Spinoza arrisca não apenas ignorar a especificidade das cartas, mas empobrecer o próprio sentido do exercício filosófico.
    • Uma primeira hipótese, inspirada em Leo Strauss, supõe que Spinoza avança mascarado nas cartas, adaptando seu vocabulário a cada interlocutor para não expor bruscamente suas posições, o que é parcialmente verdadeiro, embora muitos argumentos da Ética venham justamente desses intercâmbios epistolares.
    • Outra leitura, defendida por Pierre-François Moreau, considera a escrita epistolar um trabalho de extrair o núcleo racional dos termos comuns usados pelo interlocutor, distinguindo textos-remissão, textos-espelho e casos intermediários, para concluir que a carta possui caráter de comentário e não de texto primeiro, análise que ainda assim mantém os tratados como lugar definitivo das ideias de Spinoza.
  • A tradição do comentário convida a desconfiar das cartas como se nelas Spinoza não expusesse um pensamento próprio, mas diversos trabalhos mostram que mesmo as passagens mais demonstrativas da Ética dialogam com tradições filosóficas e religiosas variadas, de modo que a correspondência oferece antes a vantagem de mostrar com clareza com quem, sobre que ideias e em que vocabulário Spinoza dialoga, captando o pensamento no ponto vivo do intercâmbio, onde a filosofia adquire sentido prático de transformar nossa compreensão do mundo.
  • Assim como observaram os primeiros editores, as cartas lançam luz considerável sobre as demais obras, pois o mesmo trabalho de conciliação entre terminologias heterogêneas e de redefinição dos termos em uso preside tanto o intercâmbio epistolar quanto a arquitetura aparentemente rígida dos tratados, ainda que o método da demonstração e o do diálogo permaneçam distintos.
  • A importância das cartas reside em desenvolverem um método filosófico específico, distinto do exposto nos tratados, respondendo a uma questão de método central no século XVII, evidenciando que a filosofia spinozista é essencialmente prática, sempre atenta às circunstâncias precisas da reflexão, sem as quais as discussões filosóficas permaneceriam vagas e sem efeito.
  • Esse método consiste em instalar-se na terminologia dos interlocutores para, a partir de suas próprias premissas, subvertê-la e aperfeiçoá-la em conjunto, substituindo o dispositivo escolástico de opositor e respondente, ainda presente em Descartes, por um trabalho de partilha que busca valorizar a força dos discursos alheios mais do que apontar suas falhas, como sintetiza a máxima de que objetar dificuldades não é avançar razões.
  • Essa mesma lógica infunde a Ética inteira ao propor uma prática de pensamento voltada a corrigir ideias, sejam elas de quem for, desde que se possa aderir a elas com plena consciência, revolução comparável à que Spinoza opera em filosofia política ao substituir a pergunta pelo melhor regime pela pergunta sobre como fazer funcionar melhor um regime existente, tornando toda ideia disponível à apropriação, pois o que importa é apenas que ela seja compreendida como verdadeira.

Os correspondentes de Spinoza

  • A dedicatória de várias obras de Spinoza a seus amigos revela que sua filosofia se elabora no intercâmbio, a partir dos pensamentos e sobretudo das expressões de seus interlocutores, contrariando a imagem tradicional de um pensador solitário e recluso.
  • O historiador Meinsma mostrou já em 1896 que Spinoza teve numerosos amigos em diferentes classes sociais, mas acabou por colocá-lo indevidamente no centro de uma rede da qual era apenas um ator relativamente marginal, perspectiva ainda hoje predominante apesar dos esforços recentes de Klever e Bordoli, e que dificulta situar o filósofo em seu ambiente tal como este se apresentava a ele, já que os círculos que frequentou ora lhe preexistiam, ora se desenvolveram sem ele.
  • Por isso é mais instrutivo situar Spinoza nos diversos meios que frequentou ao longo do tempo, apresentados a seguir em ordem cronológica.

1. Os amigos livre-crentes

  • Após a morte do pai, em 1654, as funções comerciais na Bolsa de Amsterdã levam Spinoza a ligar-se a protestantes liberais próximos ao cartesianismo e à Segunda Reforma, comerciantes de classe média geralmente sem formação universitária, mas bons conhecedores de Descartes.
    • Jarig Jelles, importante negociante de especiarias possivelmente ligado ao pai de Spinoza, abandonou o comércio pela busca da verdade, financiou a edição e tradução dos Princípios da filosofia de Descartes, contribuiu para a publicação do Tratado teológico-político e redigiu, em resposta a acusações, sua própria Profissão de fé cristã e universal.
    • Pieter Balling, comerciante poliglota que talvez tenha iniciado Spinoza ao cartesianismo, publicou anonimamente A Luz sobre o candelabro, defendendo o conhecimento de Deus pela experiência natural, e teria traduzido ao neerlandês os Princípios cartesianos e as duas primeiras partes da Ética antes de morrer de peste, como o filho, no mesmo ano.
    • Simon Joosten De Vries, amigo próximo de família abastada, participou das primeiras reuniões em que Spinoza organizava sua filosofia, abrigou-o durante a epidemia de peste e deixou-lhe uma pensão anual que o filósofo reduziu voluntariamente.
    • Jan Rieuwertsz, editor de todos esses autores, mantinha em sua livraria o ponto de encontro de colegiantes e outros espíritos liberais, e publicou traduções neerlandesas de Descartes e, mais tarde, de Spinoza.

2. Os amigos da Universidade

  • Entre 1654 e 1656 Spinoza empreendeu estudos humanistas, aprendendo latim com Van den Enden antes de frequentar a Universidade de Leiden, onde possivelmente assistiu a aulas de Heereboord, De Raey e Gueulincx, e onde conheceu Meyer, Bouwmeester e Koerbagh, tornando-se já em 1661 reconhecido especialista em Descartes.
    • Franciscus Van den Enden, ex-jesuíta expulso da Companhia, ensinou latim a Spinoza em sua escola de Amsterdã, onde este talvez tenha até lecionado após seu banimento da comunidade judaica, mas o programa seguido era ainda humanista jesuítico e não propriamente cartesiano; posteriormente Van den Enden desenvolveu escritos políticos de defesa da tolerância religiosa e da educação pública próximos das ideias de Spinoza, tendo sido enforcado em 1674 por participação em complô contra Luís XIV.
    • Ludowijk Meyer, homem de letras e médico, editou os Princípios cartesianos de Spinoza, aprimorou seu latim, dedicou-se ao teatro e publicou A Filosofia intérprete da Escritura Sagrada, obra cuja prática hermenêutica se aproxima da de Spinoza, tendo cuidado dele no fim da vida e participado da edição das Opera Posthuma.
    • Johannes Bouwmeester, amigo próximo de Meyer, dedicou-se sobretudo às ciências naturais e à teoria literária, sem aprofundar-se na filosofia, ainda que tenha escrito o poema-epígrafe dos Princípios cartesianos de Spinoza.
    • Adriaan Koerbagh, um dos pensadores mais radicais da época, aplicou aos termos jurídicos e teológicos uma crítica racionalista que lhe custou a condenação e a morte na prisão.
    • Niels Stensen, conhecido como Sténon, rompeu com o cartesianismo ao negar a possibilidade de explicação material do pensamento, converteu-se ao catolicismo e, após a publicação do Tratado teológico-político, denunciou os livros de Spinoza à Inquisição, resumindo mais tarde o desacordo entre ambos na fórmula de que em Spinoza não havia cuidado com a virtude, apenas com a verdade.

3. Os primeiros leitores de Spinoza

  • Instalado em Voorburg em 1661, Spinoza manteve contato com um círculo de leitura reunindo De Vries, Jelles, Balling, Meyer, Bouwmeester e Koerbagh, aos quais apresentou uma primeira versão de sua filosofia sob a forma do Breve Tratado, grupo heterogêneo cujos interesses ultrapassavam Spinoza e que não deve ser descrito como um grupo espinozista propriamente dito.

4. Os contatos na República das Letras

  • Spinoza integrou-se à rede europeia da República das Letras sobretudo por meio de Henry Oldenburg, com quem manteve a correspondência mais bem conservada, e cujas relações com sábios locais evidenciam o alcance científico desse tecido epistolar, que fez os intercâmbios de Spinoza percorrerem temas que iam do cálculo de probabilidades à existência de fantasmas.
    • Henry Oldenburg, secretário fundador da Royal Society, conheceu Spinoza em visita à Holanda e tornou-se peça central de sua integração à rede europeia, embora a publicação do Tratado teológico-político e a leitura do manuscrito da Ética tenham gerado reservas que interromperam por dez anos sua correspondência com o filósofo.
    • Christiaan Huygens, matemático e astrônomo de primeira ordem e vizinho de Spinoza, manteve com ele relações limitadas a questões de óptica.
    • Johannes Hudde, matemático e físico especialista em óptica, compartilhava com Spinoza e Huygens seu trabalho de polimento de lentes.
    • Johannes Van der Meer, matemático voltado à pesquisa aplicada, interessou-se por estatística no mesmo espírito que John Graunt.
    • Jacob Ostens, pregador liberal mennonita, foi quem solicitou a Van Velthuysen uma recensão do Tratado teológico-político e pediu a Spinoza sua resposta.
    • Lambert Van Velthuysen, médico e filósofo cartesiano, reagiu inicialmente de modo hostil ao Tratado teológico-político, mas depois de conviver com Spinoza em 1673 manteve relações cordiais, sem deixar de escrever, após a publicação das Opera Posthuma, uma refutação da Ética.
    • Johannes Georges Graevius, professor de retórica em Utrecht, correspondeu-se com Spinoza num tom próprio de amizade próxima.
    • J. Ludwig Fabricius, professor de teologia em Heidelberg, escreveu a Spinoza por ordem do Eleitor palatino para oferecer-lhe uma cátedra de filosofia, proposta que, por conhecer o Tratado teológico-político, formulou de modo a levar Spinoza a recusá-la.
    • Hugo Boxel, jurista com quem Spinoza trocou plaisanteries francas que testemunham verdadeira afeição, não possuía, contudo, conhecimento aprofundado da filosofia espinozista.
    • Willem Van Blyenbergh, comerciante e autor teológico já publicado antes de contatar Spinoza, revela-se um polemista e não um simples amador ingênuo, cujas cartas constituem a primeira reação do meio calvinista à obra do filósofo.
      • O intercâmbio entre ambos combina o desejo sincero de Blyenbergh de progredir em filosofia com uma desconfiança prévia em relação a ela, levando Spinoza a excluí-lo definitivamente de seus correspondentes após um encontro pessoal, e Blyenbergh a tornar-se, anos depois, autor de refutações publicadas contra o Tratado teológico-político e a Ética.

5. A nova geração

  • Por volta de 1660 Spinoza representava um cartesianismo extremo num momento em que os fundamentos da filosofia natural ainda se afirmavam, mas quinze anos depois a nova geração já não discutia a favor ou contra Descartes, e sim o que fazer de sua herança, contexto em que Spinoza deixou de parecer extremista para tornar-se referência, tanto como estandarte quanto como ponto de apoio, ainda que também funcionasse, para outros, como contraexemplo temido, o que fez nascer quase simultaneamente o espinozismo e o receio de conjurá-lo.
    • Georg Hermann Schuller, um dos últimos discípulos de Spinoza, apresentou-o a Tschirnhaus e participou da edição das Opera Posthuma, atraindo depois a hostilidade dos demais amigos por sua pressa em vender manuscritos.
    • Ehrenfried Walther von Tschirnhaus, matemático e filósofo introduzido junto a Spinoza por Schuller, formulou observações pertinentes mesmo antes de conhecer a Ética e foi considerado pelos demais leitores o melhor intérprete do pensamento espinozista.
    • Albert Burgh, possivelmente aluno de Spinoza na escola de Van den Enden, converteu-se ao catolicismo durante viagem à Itália e entrou na ordem franciscana, gerando a carta que Spinoza lhe dirigiu a pedido do pai.
    • Gottfried Wilhelm Leibniz manteve com Spinoza uma relação complexa, marcada por admiração e desconfiança moral simultâneas, tendo se correspondido com ele sob pretexto de discutir óptica, visitado-o pessoalmente em 1676 e recebido em mãos o manuscrito da Ética sem tempo de copiá-lo.
  • Os primeiros editores optaram por silenciar diversos documentos e correspondentes, como Abraham Johannes Cuffeler, além de suprimir passagens íntimas das cartas preservadas.

Como ler a correspondência

  • Existem duas grandes opções editoriais para a correspondência de Spinoza: organizá-la como coletânea de textos filosóficos por intercâmbio, como fizeram os primeiros editores nas Opera Posthuma e, mais tarde, Mignini e Proietti, ou tratá-la como reflexo de uma biografia que deixa entrever a vida e o pensamento de Spinoza e de seu círculo.
  • A organização por correspondente valoriza a continuidade das trocas e da terminologia entre uma carta e outra, mas apresenta o grave inconveniente de não levar em conta a evolução do próprio filósofo, já que o Spinoza de uma carta de 1661, jovem cartesiano hesitante em publicar, não é o mesmo autor sulfuroso e conhecido em toda a Europa em 1675.
  • Por isso convém preferir a ordem cronológica, que respeita a inserção da correspondência na história de Spinoza e de seu círculo e revela como as questões filosóficas se entrelaçam com a atualidade e a vida cotidiana, compondo, de maneira necessariamente lacunar, o retrato de uma vida do espírito.
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