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descombes:1996:0.3

0.3 Resposta fenomenológica

DESCOMBES, Vincent. Les institutions du sens. Paris: Éditions de Minuit, 1996.

As concepções intencionalistas do espírito

Uma resposta fenomenológica

1. A questão continua sendo saber se há direito de usar a forma da passiva intencional, o que é gramaticalmente legítimo, mas resta saber se o é logicamente.

2. A fenomenologia parece ter por objetivo principal justificar o emprego da passiva intencional, ao afirmar que são as próprias coisas que são percebidas, concebidas, amadas ou esperadas, de modo que o percebido é a casa, e não uma imagem dela, e o amado por Romeu é Julieta, e não uma ideia que ele faz dela.

3. A primeira geração de fenomenólogos franceses, como Sartre e Merleau-Ponty, viu na fenomenologia husserliana uma libertação em relação às teorias tradicionais do conhecimento, para a qual o núcleo do intencionalismo não era a possibilidade de pensar ficções, que confirmaria o representacionismo, mas a orientação constitutiva do homem para as próprias coisas, cabendo a essa concepção extática mostrar que sonho, imaginação, delírio e ilusão também são formas de presença ao mundo.

4. O emprego da passiva intencional torna-se, assim, não apenas legítimo, mas capital, pois serve para afirmar o caráter extático ou transitivo da consciência, que só é presença à coisa se a própria coisa recebe esse ato de presença do sujeito ao tornar-se presente à consciência.

5. Entendida desse modo, a passiva intencional exige que se diga o que acontece à coisa quando ela é objeto de uma paixão intencional, pois, se nada lhe acontece, essa forma passiva nada diz e existe apenas do ponto de vista linguístico.

6. Algo acontece à coisa quando se torna objeto intencional, não algo real, como pretendia brutalmente a versão neo-hegeliana do intencionalismo, mas o fato de aparecer, de se mostrar e de ser dada a alguém, de modo que o evento intencional consiste, do lado do objeto, numa doação ou manifestação.

7. Na distinção de Port-Royal entre sujeito-paciente e objeto-olhado, quando uma coisa é objeto de um pensamento ou sentimento, nada acontece ao sujeito das relações naturais, mas algo acontece ao objeto das relações intencionais.

8. Na percepção de um cubo, constitui-se um objeto intencional no encadeamento dos atos perceptivos, cada um limitado a um perfil da coisa, mas cada um percepção de um perfil de cubo de seis faces, de modo que uma intenção que visa o cubo inteiro organiza todas as operações, correspondendo do lado do sujeito a um encadeamento de atos e do lado do objeto a um movimento progressivo de manifestação ou constituição, que é justamente a paixão intencional expressa pela passiva intencional.

9. Os gramáticos de Port-Royal não usavam um vocabulário pós-kantiano que separasse coisas meramente objetos e seres de estatuto superior chamados sujeitos, mas distinguiam dois pontos de vista sobre uma mesma coisa, como sujeito de suas mudanças sob a ação de outra coisa e como objeto de um ato intencional, tal como o criminoso passional que diz ter matado a mulher porque a amava passa do ponto de vista do sujeito de ser morto ao do objeto do amor.

10. O fenomenólogo parece operar distinção análoga, pois, embora seja a própria coisa que se vê, o que se constitui na experiência só pode ser objeto, e não sujeito de paixões reais, de modo que perceber uma casa sob todos os ângulos é talvez constituí-la como objeto, mas não construí-la como algo habitável, aquecível ou mobiliável.

11. Essa questão é abordada por Husserl no célebre paradoxo da árvore que não pode queimar, formulado nas Ideias diretrizes e retomado em A crise das ciências europeias, segundo o qual a árvore que pode queimar, coisa natural e realidade vegetal, não interessa ao psicólogo que descreve apenas a experiência de um sujeito, cujo objeto é a árvore percebida, a árvore intencional, que não pode queimar.

12. A declaração é desconcertante, pois é evidentemente possível ver uma árvore queimar, e a árvore percebida pode ser percebida em chamas, sem poder estar em chamas, mas não se entende como se pode perceber uma árvore incombustível e sem composição química, já que o que não é combustível simplesmente não é uma árvore, o que justifica o sentimento de paradoxo.

13. A resposta husserliana, válida para a psicologia descritiva e para a filosofia primeira, é que o psicólogo não se interessa por saber se o que o sujeito vê é uma árvore, mas se o sujeito tem a experiência de ver uma árvore, lidando apenas com o que se mostra na experiência como árvore e visando descrever as sínteses pelas quais uma árvore se constitui para o sujeito consciente no encadeamento de seus atos mentais.

14. O psicólogo husserliano adota a atitude depois chamada “solipsismo metodológico”, cujos princípios receberam de Husserl sua elaboração mais completa e sistemática.

15. Em A crise das ciências europeias, Husserl declara que o paradoxo é apenas aparente, pois a proposição das Ideias só parece paradoxal fora de seu contexto.

16. De uma árvore pura e simples pode-se enunciar que queima, mas dizer o mesmo de uma árvore percebida enquanto tal é um contrassenso, pois exige de um componente de uma pura percepção algo que só tem sentido para um corpo de madeira.

17. O psicólogo, para descrever apenas a experiência, abstrai as relações naturais do sujeito com as coisas, sobretudo as ações causais sobre seu organismo, sem com isso reduzir a experiência a “dados psíquicos” associacionistas, pois nada desaparece com a suspensão das relações naturais e as percepções continuam sendo percepções da árvore, de modo que é preciso falar da árvore para falar da percepção.

18. O erro do psicólogo naturalista é crer que se trata ainda da árvore pura e simples, quando o objeto considerado após a abstração ou redução é a árvore tal como vivida na percepção, na imaginação ou na lembrança, a qual não pode servir de sujeito passivo de verbos de ação física ou causal, não podendo ser destruída pelo fogo nem cortada.

Filosofia descritiva

1. A árvore enquanto percebida, não podendo sofrer ações físicas de agentes naturais, só pode sofrer uma coisa, ser levada a aparecer, sendo assim o sujeito das paixões intencionais.

2. Essa tese, difícil de enunciar satisfatoriamente, compreende-se melhor ao notar que Husserl se colocou ao mesmo tempo um problema de psicologia descritiva e um problema de filosofia descritiva.

3. Um problema de psicologia descritiva é, por exemplo, saber se há uma diferença vivida, e não apenas nas consequências, entre percepção e alucinação, cabendo em geral a essa disciplina inventariar as formas de consciência e suas relações sistemáticas.

4. O problema de filosofia descritiva é saber o que distingue a descrição de uma árvore da descrição da percepção de uma árvore, já que é preciso falar da árvore, ou fazer como se dela se falasse, para falar da percepção enquanto percepção dessa árvore e não do campanário ou da nuvem, sendo os termos da atitude natural retomados pelo psicólogo em outra acepção, marcada pelo uso de aspas.

5. Toda filosofia intencionalista do espírito deve colocar a questão, formulada por Husserl, do estatuto do objeto intencional, isto é, do que é essa árvore que não pode queimar, pois trata-se de saber o que faz de uma descrição não a descrição da árvore por suas disposições naturais, mas a descrição de um evento intencional como a percepção ou o discurso sobre a árvore.

6. A descrição da percepção da árvore parece duplicar a descrição da árvore e produz mal-estar, pois se têm duas descrições aparentemente incompatíveis, uma que atribui à árvore poderes naturais de ser abatida, cortada e queimada, e outra que lhe retira essas propriedades conservando apenas as visíveis, como cor e forma exterior.

7. O paradoxo dos objetos intencionais, embora expresso no vocabulário estranho de Husserl, não foi inventado pela fenomenologia e encontra-se em Proust a propósito das telas de Elstir, que em seu ateliê procede a uma nova criação do mundo, extraindo do caos das coisas vistas, para fixá-las em retângulos de tela, uma onda do mar ou um rapaz de paletó branco.

8. O paletó do rapaz e a onda espumante adquiriram uma dignidade nova por continuarem a ser, embora desprovidos daquilo em que pareciam consistir, já que a onda não pode mais molhar, nem o paletó vestir ninguém.

9. A passagem de Proust, salvo o estilo, parece de Husserl, pois a redução aparece como nova criação do mundo visível, a atitude natural como os preconceitos que buscam no quadro algo além da pura presença visual, e a dignidade nova das coisas como uma presença pintada análoga à presença ao espírito descrita pelo fenomenólogo, em que a onda e o paletó estão ainda presentes sem molhar nem vestir.

10. O problema descritivo comum ao psicólogo e ao historiador da pintura exige introduzir algo que não seja nem a árvore do jardim nem o ato de percebê-la, como a onda pintada por Elstir, que não é realidade natural nem elemento real do quadro como ser físico, o que se vê imaginando uma restauração da matéria do quadro, ou de um mosaico que reproduzisse a onda de Hokusai, para que a onda reapareça.

11. Para poder dizer que aparece uma onda num quadro e que a mesma onda está em vários exemplares, é preciso tratá-la como idealidade, à maneira dos números, o que significa que há duas formas de identificar um quadro, individuando-o por sua matéria e especificando-o por sua realidade icônica, sendo que esta última o descreve, mas não o individua, pois o quadro de um rapaz de paletó branco não é individuado por sua relação com o rapaz, como um carro por seu proprietário, já que o rapaz só é conhecido por esse quadro, salvo meios independentes de identificá-lo.

Onde se vê a árvore do jardim?

1. Husserl rejeita vigorosamente a ideia de dois mundos ou de um desdobramento da árvore em árvore real e árvore percebida, talvez por ver renascer sem cessar a tentação de reduzir o intencional ao imanente, advertindo nas Ideias contra o erro de atribuir a árvore natural ao mundo exterior e a árvore intencional ao vivido.

2. Entendida assim a diferença entre objeto real e objeto intencional, duas realidades teriam de se defrontar quando só uma se apresenta e só uma é possível, a coisa natural percebida, a árvore lá no jardim, que é ela e nada mais o objeto real da intenção perceptiva.

3. A árvore percebida não deve ser buscada senão onde deve estar uma árvore, por exemplo no jardim, declarações que inspiraram páginas eloquentes aos fenomenólogos franceses, como Sartre, que celebrou a expulsão dos objetos intencionais para fora da esfera íntima e a restituição do mundo real.

4. Se fosse preciso falar de duas árvores, uma sujeito de paixões reais e outra de paixões intencionais, haveria uma árvore a mais, e uma delas deveria apagar-se em favor da outra.

5. Pode-se crer que a árvore a mais é a que se interpunha entre o ato perceptivo e a árvore natural, de modo que o objeto intencional seria a árvore natural e o ato teria apenas um conteúdo, e não um objeto, interpretação proposta por filósofos que aproximam Husserl de Frege, aplicando ao ato e a seu noema a relação semântica triádica entre signo, sentido e referência, mas que fracassa, pois Husserl admite atos que visam objetos inexistentes, ao passo que para Frege um nome que nada designa é vazio de objeto.

6. Se a fenomenologia pudesse ser naturalizada, como quer a escola sincrética, as paixões intencionais do objeto deveriam ser sofridas pela coisa sujeita a paixões reais, e um objeto imaginário não poderia aparecer nem constituir-se nas sínteses da consciência, quando Husserl pretende incontestavelmente que Júpiter e Pégaso sejam constituídos por visadas intencionais sem poderem sofrer nenhuma ação real.

7. Resta explicar as declarações de Husserl sobre o absurdo de distinguir objeto intencional e objeto real e sobre a árvore percebida lá fora no jardim, que parecem não fazer nenhuma diferença entre a árvore do jardim e a árvore intencional.

8. Essas declarações significam o contrário do que pretende a leitura sincrética, não que o objeto intencional seja apenas o objeto puro e simples, mas que o objeto puro e simples não é senão o objeto intencional, não havendo outros objetos além dos visados pela consciência, o que torna a resposta fenomenológica idealista, incapaz de fundir-se com a semântica fregeana numa teoria naturalista do espírito e destinada a constituir as coisas físicas sobre o solo dos objetos intencionais.

9. Nas Investigações lógicas, anteriores à virada idealista oficial, Husserl declara ser grave erro estabelecer diferença real entre objetos imanentes ou intencionais e objetos verdadeiros e transcendentes, pois o objeto intencional da representação é o mesmo que seu objeto verdadeiro e seria absurdo distingui-los, já que o objeto transcendente não seria objeto da representação se não fosse seu objeto intencional.

10. Os comentadores citam essa passagem com alívio, por afastar a doutrina representacionista que interpõe uma representação entre sujeito e coisa, concluindo que a percepção da árvore versa sobre a árvore e nada de imanente, e que a árvore intencional não é outra senão a árvore real do jardim que pode queimar.

11. A leitura sincrética repousa num equívoco, pois para Husserl pode haver relação com o objeto mesmo que este não exista, nada mudando para o fenomenólogo se o objeto visado é inexistente, de modo que ele põe em pé de igualdade a relação com Júpiter e com Bismarck, com a catedral de Colônia e com a torre de Babel.

A idealidade do objeto

1. Bons conhecedores da tradição fenomenológica já haviam concluído que a lição de Husserl é a tese da idealidade dos objetos, como mostra um comentário de Jean Beaufret sobre o problema de haver uma ou duas árvores, uma para a relação real e outra para a intencional.

2. Segundo a reconstrução de Beaufret, o fenomenólogo quer acabar com o objeto imanente como solução representacionista para atos mentais que versam sobre objetos sem agir sobre eles, pois dois pomares igualmente reais, um que cresce no jardim e outro como imagem na cabeça, não fazem uma percepção de pomar, e desdobrar o objeto nada explica.

3. A solução de Husserl consiste em situar o objeto intencional no jardim, suprimindo o pomar exterior estranho à consciência sem colocá-lo na consciência como dado mental, num idealismo fenomenológico em que o pomar é irrealizado, perdendo a realidade natural independente da consciência, mas ganhando a presença à consciência que não tinham nem o pomar exterior do senso comum nem a imagem da psicologia naturalista.

4. O pomar é, num sentido, irrealizado, despojado de sua existência fora da consciência, e, em outro sentido, muito mais real que uma simples imagem interior, pois está diante de nós no jardim, de modo que o verdadeiro pomar não está nem na consciência nem fora dela, e por isso lhe é tanto mais presente.

5. Assim compreendida, a fenomenologia opõe-se ao senso comum ao afirmar que não há outra realidade das coisas além de sua realidade intencional, o que vale tanto para o pomar do jardim quanto para a idealidade abstrata dos sete sólidos regulares, conferindo o mesmo estatuto às árvores e às idealidades numéricas e geométricas.

6. A realidade intencional de um objeto só pode ser sua paixão intencional, recebida de uma ação intencional que o visa ou constitui, o que aproxima Beaufret da fórmula de seu mestre Léon Brunschvicg, para quem a história do Egito é a história da egiptologia, motivo idealista que os discípulos de Beaufret reencontrariam ao falar das práticas discursivas em que se constrói a entidade histórica chamada Egito.

7. A “redução” de algo a sua realidade intencional não passa de uma boutade filosófica para despertar o leitor sonolento, pois dizer que a realidade das macieiras é inteiramente intencional seria negar-lhes atividades naturais como crescer ou dar maçãs, tal como dizer que não há outra realidade da guerra além do que dizem os jornais, frase que se compreenderia caridosamente como limite do conhecimento dos leitores, e não como tese ontológica de que só há jornalistas escrevendo sobre batalhas.

8. Beaufret parece sustentar que se pode dispensar o pomar exterior do senso comum porque o pomar intencional ocupa seu lugar no jardim, de modo que nada se perde pela redução e algo se ganha, pois esse pomar está presente ao espírito, enquanto o exterior só se fazia representar por duplicatas mentais insuficientes.

9. Essa solução repousa numa ambiguidade entre “a árvore percebida está no jardim” e “a árvore é percebida no jardim”, sendo esta última resposta a perguntas ordinárias sobre onde se viu uma árvore, enquanto a primeira supõe uma entidade, a árvore percebida enquanto objeto da intenção, à qual se poderiam atribuir características, como a de estar diante de mim no jardim e não na cabeça.

10. Uma árvore que está no jardim pode ser percebida no jardim, mas a árvore percebida não está no jardim, nem na cabeça, nem em lugar algum, pois não existe algo que seja a árvore percebida, e falar dela é falar da árvore sob uma descrição, locução cuja lógica precisa ser explicada.

11. A lógica da locução “objeto sob uma descrição”, familiar aos teóricos da ação, aparece no exemplo aristotélico do homem que vai ao mercado fazer compras e encontra por acaso seu devedor, deslocamento intencional sob uma descrição e não sob outra, distinção que Anscombe apresenta como retomada do contraste clássico entre a coisa considerada sem mais e considerada enquanto tal, observando que “enquanto + descrição” integra o predicado e não o sujeito, como o homem que pode ser mal pago enquanto empregado e bem pago enquanto cantor.

12. Os gramáticos de Port-Royal têm razão em fazer da diferença entre sujeito de paixões reais e objeto da intenção uma diferença entre dois pontos de vista sobre a mesma coisa, de modo que não há uma árvore pura e simples e uma árvore percebida que não pode queimar, mas uma árvore considerada ora nas propriedades que figuram na descrição de sua percepção, ora sob outros aspectos, sendo logicamente impossível tomar “a árvore enquanto percebida” como sujeito do predicado “não pode queimar”.

13. Se “o objeto enquanto percebido” não constitui uma unidade lógica capaz de ser sujeito de uma proposição declarativa, a solução idealista do fenomenólogo desmorona, pois não se pode eliminar o pomar exterior e substituí-lo pelo objeto intencional, já que não há objetos intencionais, mas objetos sob uma descrição intencional, e para referir-se a eles é preciso primeiro referir-se ao pomar puro e simples.

14. A resposta fenomenológica fracassa em dar estatuto à passiva intencional, pois satisfaz apenas uma das duas condições exigidas, dando sentido à paixão intencional do objeto mediante uma teoria idealista que reduz o existente à série de suas aparições, como no início de O ser e o nada de Sartre, mas não estabelece uma autêntica relação entre sujeito ativo e objeto passivo, já que identificar o existente cujo ser se esgota em suas manifestações exigiria uma relação real com algo, precisamente o que a fenomenologia não permite.

Recapitulação

1. Examinada uma das soluções mais elaboradas do problema, convém fazer um balanço antes de considerar outra solução possível.

2. Toda filosofia intencionalista do espírito distingue relações naturais, de uma coisa com outras, e relações intencionais, primeiro de um signo com um objeto e, por extensão, de um ato com um objeto.

3. A escola brentaniana, que reúne todos os que definem a intencionalidade pela tese de Brentano, distingue-se por admitir relação intencional com objetos talvez inexistentes, entendendo a irredutibilidade das relações intencionais às reais como separação, de modo que pode haver relação intencional sem nenhuma relação real, como no caso dos seres fictícios, imaginários ou impossíveis.

4. Daí decorrem o paradoxo da transitividade incondicional, segundo o qual há relação intencional com o objeto mesmo quando não há objeto com o qual se relacionar, e o paradoxo husserliano da árvore que não pode queimar, segundo o qual mesmo havendo uma árvore real ela só interessa como árvore intencional, que como tal não pode queimar, embora possa ser vista queimando.

5. A fenomenologia parece permitir dar valor real à passiva intencional, ao insistir que a redução visa descrever o aparecer das próprias coisas, mas na verdade proíbe dar-lhe por sujeito o objeto de uma relação real, não distinguindo Júpiter de Bismarck, quando uma autêntica passiva intencional exigiria por sujeito uma coisa real tomada enquanto objeto de uma intenção, o que reencontra a ideia de Peirce de que as descrições não dão a relação com o objeto e de que a intenção de uma relação não basta para estabelecer uma relação de intenção.

6. Restam duas possibilidades, a de que as relações intencionais sejam pseudorrelações, meras aparências incapazes de gerar uma passiva intencional, o que tornaria os verbos intencionais intransitivos, e a de que sejam fragmentos de um sistema mais amplo que une relações internas e externas, segundo a concepção holista, o que os tornaria nem intransitivos como os verbos de estado, nem transitivos como os verbos de ação real.

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