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descombes:1996:0.2

0.2 História intencional

DESCOMBES, Vincent. Les institutions du sens. Paris: Éditions de Minuit, 1996.

As concepções intencionalistas do espírito

A história intencional

1. A filosofia francesa contemporânea desenvolveu, sob outros nomes, a ideia de uma história intencional do objeto, segundo a qual a história de certos objetos não é a história positiva de uma realidade independente dos homens, mas a de uma realidade que se constitui nos e pelos pensamentos dos atores humanos, isto é, pelos sistemas conceituais mobilizados nas “práticas discursivas” e nas ações, de modo que os eventos discursivos pertencem à história da própria coisa, que muda diretamente sob o efeito dos discursos e passa a depender do que dela se diz.

2. As diversas facetas da ideia de história intencional, geralmente conhecidas sob outros nomes, aplicam o princípio da transitividade incondicional do mental, que permite conceber um relato histórico filosófico e não positivo por superar a separação entre sujeito humano e objeto, sendo interno o vínculo entre ambos, já que a humanidade não pode mudar de ideias ou de linguagem sem que seu mundo mude pelo próprio fato.

3. Para um pensamento dialético da história, que busca na história universal o destino da relação entre o sujeito pensante e o objeto de seu pensamento, todos os objetos, quaisquer que sejam, devem ter uma história intencional.

4. O evento intencional por excelência, conforme a origem do emprego lógico de intentio, é a imposição de um nome a uma coisa, que, vista do lado do objeto, deve ser concebida como entrada da coisa na linguagem e como evento de sua própria história, a qual deixa de ser independente da história dos signos a partir do dia em que a coisa se torna objeto de discurso.

5. Essa ideia, popularizada pela fórmula de Lacan segundo a qual o símbolo é o assassinato da coisa e oriunda das lições de Kojève sobre a Fenomenologia do Espírito, descreve a imposição do nome como evento que afeta a própria coisa, o que só parece absurdo até se notar que a aparição da linguagem, ordinariamente vista como manifestação de um poder de abstração do homem, costuma ser descrita como mudança do objeto, pois o nome comum libera o universal “cão” dos limites do indivíduo particular, que o homem passa a apreender post rem, em seu discurso e pensamento.

6. Kojève atribui ao exercício da abstração as consequências mais graves para os cães, com base numa teoria original dos universais que identifica pura e simplesmente essência real e essência nominal, de modo que, quando o primeiro homem nomeia os cães, a essência do cão torna-se o sentido da palavra “cão”, permitindo um jogo de palavras especulativo que desliza da abstração do universal ao aniquilamento dos indivíduos empíricos.

7. Sem a intervenção do Entendimento, a essência “cão” existiria apenas nos e pelos cães reais, que a determinariam de modo unívoco numa relação natural e imediata, mas pelo poder absoluto do Entendimento a essência torna-se sentido e encarna-se numa palavra, sem relação natural com seu suporte, pois do contrário palavras foneticamente sem nada em comum, como chien, dog e Hund, não poderiam sustentar uma mesma essência e um mesmo sentido.

8. Kojève adere sem reservas ao que Quine chamará de mito da significação, concebendo a essência ou sentido como portada primeiro por um organismo, seu suporte natural, e depois por uma palavra, suporte simbólico e material ao qual se associa arbitrariamente uma entidade ideal, o Sentido.

9. Na interpretação kojeviana da função do signo em Hegel, a marca pessoal está na ênfase no caráter “negativo” dessa operação, entendida como anulação ou supressão, com apoio na passagem do prefácio da Fenomenologia em que Hegel defende o entendimento contra os românticos, que o acusavam de apenas abstrair e dissecar, respondendo que o espírito é forte o bastante para não temer o negativo, pois sabe reencontrar a unidade real num nível superior.

10. Kojève interpreta a abstração hegeliana como execução ou sacrifício, pois, sendo a supressão dos aspectos particulares e individuantes, ela assume o aspecto de um assassinato.

11. Essa interpretação é arbitrária, pois em Hegel a primeira operação do espírito, a concepção ou intelecção, nada tem de assassina e assemelha-se antes a uma recriação ou novo nascimento da coisa no universo espiritual, como o próprio Kojève reconhece ao falar do universal “mesa”, embora consiga dar verossimilhança a sua tese escolhendo sistematicamente exemplos de nomes impostos a espécies vivas, cuja presença natural é a de um animal que vive.

12. Quando o Sentido ou Essência “cão” passa à palavra “cão”, morre, pois a palavra não corre, não bebe e não come, de modo que a compreensão conceitual da realidade empírica equivale a um assassinato.

13. Kojève esclarece que tudo isso deve ser tomado em sentido especulativo, pois Hegel sabe que não é preciso matar o cão para conceber o que é um cão, tratando-se apenas do contraste entre os indivíduos empíricos, que nascem e morrem, e o conceito do tipo, que se aplica indiferentemente a todos.

14. Em nota, porém, Kojève admite a leitura literal e brutal, observando que a compreensão conceitual ou científica do cão leva cedo ou tarde à sua dissecação, o que permite opor, em termos pascalianos, uma leitura dos hegelianos espirituais e outra dos hegelianos carnais do aforismo segundo o qual o símbolo é o assassinato da coisa.

15. Lacan retoma com brilho a leitura carnal num seminário de 1954, sustentando que o nome é imposto à coisa para dominá-la, de modo que a palavra “elefante” faz o elefante entrar nas deliberações humanas que conduzem a decisões sobre os elefantes, cujo destino depende assim muito mais de sua história intencional, nos espíritos e nas palavras dos homens, do que de sua história natural.

16. Apenas com a palavra elefante e o uso que os homens fazem dela, acontecem aos elefantes coisas favoráveis ou desfavoráveis, em todo caso catastróficas, antes mesmo que se levante contra eles um arco ou um fuzil.

17. A ideia de que os eventos intencionais sejam sofridos pelos objetos que concernem é profunda à maneira de um mito, que busca dizer tudo por um atalho impressionante sem elucidar como ações dos sujeitos podem ser paixões realmente sofridas pelos objetos, dando uma resposta única a várias questões que os filósofos, com razão, mantêm distintas.

18. A primeira dessas questões é a da operação psicológica da abstração, isto é, de como se ultrapassam as imagens das coisas para obter o conceito, ultrapassagem atestada pelo uso dos símbolos e que, não podendo explicar-se pela extração de semelhanças entre imagens mentais, exige a intervenção de um intelecto ativo criador do conceito.

19. Outra questão é a de como o sujeito humano trata os outros humanos não como congêneres que lhe devolvem a própria imagem, mas como parceiros em relações de diálogo e troca de símbolos, questão que o mito condensa com a anterior na passagem do “imaginário” ao “simbólico”.

20. A terceira questão é se os conceitos reproduzem uma ordem real dos gêneros naturais ou são criados pelos sujeitos, caso em que a ordem das coisas que permitem conceber é criada e histórica e as coisas assim ordenadas têm uma história intencional, sem que haja nisso assassinato ou aniquilamento, pois tudo se passa numa ordem intelectual ou ordem do discurso, o que conduz à leitura espiritual da especulação neo-hegeliana.

21. Um primeiro exemplo de leitura espiritual vem da fenomenologia, pois a história do número π ou de figuras como o Círculo e o Trapézio é necessariamente intencional, história das intenções que visam esses objetos, o que sugere um princípio para a história de tudo o que adquire sentido no pensamento e na vida dos homens.

22. Na introdução a sua tradução de A origem da geometria de Husserl, Jacques Derrida aproximava o tema neo-hegeliano da supressão da coisa empírica no conceito da redução fenomenológica, sugerindo uma “virada linguística” da fenomenologia em que a redução se operaria no simples fato de falar, de modo que os eventos intencionais seriam eventos discursivos que anulam o objeto como empírico e efêmero e o reencontram como idealidade.

23. Derrida observava que Husserl chama preferencialmente de objeto o que tem estatuto análogo ao do número, condição de toda tentativa de conceber a história como intencional, e que atribui à palavra, como “leão”, esse estatuto objetivo, pois, assim como é sempre o mesmo número três, é sempre a mesma palavra que se apresenta em cada ocorrência, neutralização da existência empírica dos exemplares em favor da idealidade do tipo que ele comparava à anulação hegeliana, recorrendo a Blanchot, Hyppolite e, por meio deles, a Mallarmé.

24. Para Husserl, segundo Derrida, essa neutralização linguística não basta para transformar as coisas em puros objetos intencionais, pois nem a palavra “leão”, nem seu sentido comum às diversas línguas equivalem à espécie dos leões, realidade natural e contingente cuja história não pode ser intencional, ao passo que a história do objeto geométrico só pode sê-lo e é discursiva, pois a fala, retomada em sua pureza originária, não exprime um objeto já existente, mas o constitui como condição jurídica concreta da verdade.

25. A história intencional deve ser a de realidades intencionais de ponta a ponta, como os números e os objetos geométricos, pois, para que a história do discurso seja simultânea e necessariamente a história da coisa de que fala, é preciso que a coisa seja totalmente criada ou recriada na linguagem.

26. Outra expressão da ideia de história intencional encontra-se em Foucault, cujo “nominalismo dinâmico”, segundo Ian Hacking, faz dos conceitos puras criações humanas sem gêneros naturais correspondentes, tese insustentável para as ciências naturais, que exigem distinguir a palavra e o objeto para experimentar, mas plausível para as ciências sociais, onde se pode escrever uma história intencional da loucura, e não do cólera, prolongando-se em história real à medida que novos sistemas conceituais produzem novos fenômenos, como os casos de desdobramento de personalidade, raros na França até 1875 e multiplicados após sua teorização.

27. A ideia de uma história intencional da loucura contém algo de justo contra uma história positiva que ignorasse os conceitos históricos da doença mental, mas um nominalismo dinâmico autêntico atribuiria um estranho poder demiúrgico aos autores do discurso, como se um novo conceito de inteligência produzisse novas aptidões, razão pela qual o nominalismo plausível de Hacking é mais moderado, sustentando que os psiquiatras põem em circulação classificações e sintomas que as pessoas podem adotar, de modo que a passagem do intencional ao real repousa na atividade pela qual essas pessoas se apropriam das categorias e significações elaboradas pelos especialistas.

28. Os filósofos não parecem, portanto, ter conseguido dar sentido à ideia de uma autêntica história intencional das coisas deste mundo, pois ou a história é apenas das ideias e não das coisas, ou não é verdadeiramente uma história intencional, isto é, uma história da paixão intencional do mundo de que se fala.

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