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descombes:1996:0.1

0.1 Intencionalidade

DESCOMBES, Vincent. Les institutions du sens. Paris: Éditions de Minuit, 1996.

As concepções intencionalistas do espírito

1. Na sequência de La denrée mentale, trata-se de apresentar e defender uma concepção intencionalista do espírito, cujo qualificativo, pertencente ao vocabulário especial dos filósofos, exige uma explicação que não cabe numa simples definição e cujo esforço de esclarecimento precisa antes ser justificado.

Os termos intencionais

1. A abordagem das questões disputadas do espírito pela via da intencionalidade justifica-se por duas razões ligadas ao estado dessas questões na filosofia contemporânea.

2. A primeira razão é que se admite geralmente que a descrição de tudo o que implica o mental, das opiniões e atitudes às condutas, costumes e instituições, deve ser feita em termos intencionais, que, por oposição aos termos naturais, que dizem simplesmente o que as coisas são, dizem como as coisas se apresentam a alguém, como quando o que acontece não é que chove, mas que é dito, pensado ou temido que chove.

3. Que chova é um fato meteorológico, mas que seja dito que chove é um fato das ciências do espírito, cujas descrições intencionais se reconhecem formalmente pelo uso do discurso indireto, a oratio obliqua dos latinos, após verbos declarativos, de opinião, de percepção e de atitude, os quais criam um contexto oblíquo em que tudo o que figura na completiva fala não do mundo, mas do que alguém pensa, diz, crê ou espera dele.

4. A oposição entre eventos naturais e intencionais, transponível a capacidades e relações, faz dos eventos intencionais eventos mentais apenas no sentido de serem significantes, de modo que o critério do mental não é a interioridade, mas a significação, havendo completa equivalência entre interior e exterior do ponto de vista do sentido, pois as ideias de um pensador devem ser buscadas em seu livro, já que só se pode identificar e analisar uma ideia identificando e analisando sua expressão.

5. A segunda razão é que se admite geralmente a irredutibilidade da linguagem intencional à natural, o que obriga a renunciar ao projeto positivista de uma ciência unificada de todos os fenômenos, a menos que se decrete que só os fenômenos descritíveis em termos naturais merecem esse nome e que as ciências do espírito não passam de construções pessoais ou livres interpretações.

6. Admitida a impossibilidade da redução, alguns filósofos tentam contorná-la pelas teorias da inteligência artificial, coordenando sistematicamente uma descrição intencional do ser inteligente e uma descrição natural do funcionamento de uma máquina capaz de substituí-lo, programa que, porém, supõe uma concepção atomista do mental e trava por isso um combate de retaguarda.

7. Os naturalistas podem aceitar a irredutibilidade do intencional sem admitir o fracasso de seu programa, negando caráter descritivo aos enunciados intencionais em nome do “holismo do mental”, que recusa compor a vida mental com átomos psíquicos, como as imagens do associacionismo ou os significantes do inconsciente estrutural, restando saber se, rejeitado o atomismo, se renuncia a todo conceito inteligível de espírito ou se é possível propor outro, o que exige esclarecer se há pelo menos dois intencionalismos, um derivado de Brentano e Husserl, outro de Peirce e Wittgenstein.

A psicologia de Aquiles

1. Propor uma concepção do espírito não é fazer psicologia, pois uma filosofia do espírito não descreve condutas ou operações, mas explica o que é descrever a vida ou a atividade de um ser do ponto de vista do espírito, isto é, o que há de específico nas descrições de tipo “psicológico”.

2. As atribuições psicológicas têm duas dimensões, o ato e o conteúdo, e, consideradas como atribuição de um ato, são individuais e pessoais, como a cólera de Aquiles, que exige alguém encolerizado e segue o mesmo esquema lógico-metafísico do atributo e seu sujeito aplicado às coisas familiares, como a porta e sua altura ou o muro e sua cor.

3. Do ponto de vista do conteúdo, porém, o que se atribui a Aquiles ao dizê-lo encolerizado não é uma qualidade ou um estado, pois restituir esse conteúdo exige ultrapassar por todos os lados a pessoa de Aquiles, falando de seu lugar entre os guerreiros gregos, de Agamêmnon, de Briseida e de todas as circunstâncias de seu pathos.

4. A cólera é um conceito intencional porque exige que o ato ou estado do sujeito seja especificado por um objeto, não por ser deliberada, mas por visar Agamêmnon enquanto este tomou a parte do butim devida a Aquiles, de modo que seu conteúdo, como o das descrições psicológicas em geral, deve ser especificado em termos públicos ou impessoais, tal como um conceito de porta só é conceito de porta se não for um atributo inteiramente pessoal.

5. O conceito de espírito exige ser individuado, pois são pessoas vivas que manifestam espírito, mas recusa ser tratado como conceito de um atributo pessoal, pois o conteúdo manifestado é em boa parte impessoal, de modo que, em vez de alojar o espírito numa cabeça, é o sujeito que, para adquirir espírito, deve ser alojado num meio “moral” ou “espiritual” formado pelas instituições enquanto provedoras de um sentido que os indivíduos podem apropriar-se, o que explica tratar do espírito em termos de instituições.

6. O espírito objetivo das instituições precede e torna possível o espírito subjetivo das pessoas particulares, tese que define o holismo antropológico.

A tese de Brentano

1. Num certo sentido, “concepção intencionalista do espírito” equivale a “concepção contemporânea do espírito”, pois a tese da intencionalidade, amplamente aceita e sem concorrência, deixa de ser propriamente uma tese, embora esse acordo seja trivial por evitar explicar a famosa propriedade da intencionalidade.

2. Uma escola entende a intencionalidade como “tese de Brentano”, segundo a qual a intencionalidade delimita o domínio do mental, sendo intencional tudo o que é mental e mental tudo o que é intencional, com a contrapartida de que o não intencional é físico e nada do que é físico é intencional, restando saber se essa é a única concepção intencionalista possível do espírito.

3. O núcleo da tese de Brentano é bem expresso por Findlay ao afirmar que não se pode conceber que uma coisa apenas física se refira a algo distinto de si mesma, de modo que, se as pedras, imagem da inércia e da indiferença ao mundo, se referissem a objetos, teriam ou seriam espíritos.

4. Essa concepção pode ser chamada cartesiana não por filiação histórica, já que Descartes não empregou o termo intencionalidade, mas por satisfazer o grande princípio cartesiano de distinguir as operações do espírito das operações do corpo.

5. A tese de Brentano leva a conceber duas maneiras de um sujeito relacionar-se com um objeto, física e mentalmente, como dirigir o próprio carro ou apenas pensar nele e admirá-lo, cabendo ao filósofo destacar a diferença entre esses dois tipos de atos.

6. Toda concepção intencionalista opõe o intencional ao físico, mas essa oposição não tem necessariamente sentido cartesiano e dualista, pois a cólera de Aquiles, que tem evidentemente um aspecto físico, seria antes a conjunção de um evento sentido como insulto e de um evento futuro que deverá oferecer reparação, o que abre espaço a uma posição não cartesiana da intencionalidade cujos elementos se encontram em Peirce e Wittgenstein.

7. Numa concepção não cartesiana, a diferença entre descrição natural e descrição intencional não reside em falar de operações físicas ou imateriais, mas no modo de integração do sujeito em seu meio, pois a descrição natural trata de estados internos ou de interações com o meio imediato, enquanto a descrição intencional situa Aquiles num episódio da guerra de Troia e lhe confere um meio mais amplo, sem com isso atribuir-lhe ação a distância ou efeitos telepáticos.

A intenção do termo

1. A palavra intenção, que no uso ordinário provém do vocabulário da ação e no uso filosófico também da lógica, onde designa o sentido de um termo, tem seus dois empregos unidos pela imagem medieval do arqueiro que estende o arco para um alvo, de onde vêm a intenção do arqueiro e, por transferência, a intenção da flecha.

2. Ter uma intenção não é exercer uma atividade mental acrescida à manipulação do arco, mas usar os meios julgados apropriados para alcançar um fim próprio, de modo que a intencionalidade prática não é uma atividade de “visar”, mas uma relação intencional entre a atividade presente e um resultado esperado, noção comum aos empregos prático e lógico.

3. A flecha tem uma intenção não em sentido animista, como agente que deseja um fim, mas como elemento da ação inserido numa estrutura intencional de meios e fins, com ao menos o contraste entre o tentado e o efetuado, por estar destinada pelo arqueiro a atingir o alvo.

4. O uso dos lógicos medievais não está tão distante quanto parece, pois o próprio Brentano declara usar um termo escolástico, embora remeta antes às doutrinas do verbum mentis, enquanto Peirce, fundador da lógica moderna, serve-se da noção de relação intencional para introduzir uma teoria lógica da proposição.

5. No verbete “sujeito” que redigiu para o dicionário de Baldwin, Peirce define o sujeito lógico como a parte da proposição que indica aquilo sobre o que versa o todo, o objeto da proposição.

6. Definida a proposição como signo que contém uma parte indicando distintamente seu objeto, Peirce toma como exemplos o retrato, cujo sujeito é a inscrição com o nome do modelo, e o cata-vento, que indica de onde vem o vento por estar construído numa relação real com ele.

7. Pode-se objetar que o cata-vento tem com o vento uma relação real, natural e causal, enquanto o retrato não recebe relação real com o modelo pela inscrição de seu nome, sendo o pintor ou o espectador que lhe conferem uma relação de intenção.

8. A objeção é exata, mas, para Peirce, o nome, embora não esteja em relação real com o modelo, esteve, o que basta à comunicação, pois os nomes derivam dos pronomes e substituem-nos para falar das coisas em sua ausência, de modo que a inscrição sob o retrato indica que houve uma relação real entre o signo que nomeia e a pessoa nomeada.

9. Há proposição sempre que se distinguem no signo uma parte predicativa e uma parte que é ou substitui uma relação real com outra coisa, como no exemplo do bebê que aponta uma flor dizendo “bonita”, em que a palavra é um símbolo ligado à flor por uma relação de intenção, enquanto o dedo estendido tem com a flor tanto uma relação real, independente de sua função significante, quanto uma relação intencional, adquirida ao ser compreendido como signo da identidade do objeto da proposição.

10. A relação intencional do discurso com o mundo é assegurada pela inserção no discurso de algo que faz como que entrar a coisa na linguagem, contato que se dá na linguagem, mas não na parte predicativa, pois nada no predicado indica a que coisa se destina, informação que deve ser fornecida separadamente por palavras e construções que apoiam uma relação intencional numa relação real.

11. A chave de toda a questão é a oposição entre conexão real e conexão apenas intencional das coisas, pois é real ou naturalmente que o cata-vento se relaciona com o vento, e intencionalmente que o retrato se refere ao modelo e a proposição a seu objeto.

12. A oposição entre essas duas relações é o princípio de toda filosofia intencionalista, encontrando-se, por exemplo, em Husserl, para quem a relação do eu com o mundo no cogito é uma relação intencional com um objeto real, distinta da relação real, causal, entre o objeto e o eu corporal, que desaparece se a coisa não existe, enquanto a relação intencional subsiste.

13. Toda filosofia intencionalista opõe dois tipos de relação, mas não da mesma maneira, pois, enquanto para Husserl um sujeito pode ter ambas as relações com um objeto real ou apenas a intencional com um objeto irreal, Peirce aplica de outro modo a distinção entre real e irreal ao fenômeno do sonho.

14. “Real” é uma palavra criada no século XIII para significar o fato de ter propriedades suficientes para identificar seu sujeito independentemente de qualquer atribuição humana, de modo que o conteúdo de um sonho não é real, por ser o que é apenas porque alguém o sonhou, mas o fato do sonho é real, pois sua data, o nome do sonhador e demais circunstâncias o distinguem de todos os outros eventos, sendo efetivo o que se encontra no passado, no presente ou no futuro.

15. O sonho é real, mas os personagens que nele aparecem são irreais e, por isso, não se pode ter com eles relação alguma, nem mesmo intencional, pois a relação intencional deve ir a um objeto real, sem o que haveria a intenção de uma relação, mas não a relação de intenção.

16. A imagem husserliana de duas relações paralelas com o objeto real levanta uma questão central, pois, se não se encontram e a relação intencional sobrevive ao desaparecimento da real, não se vê como seriam relações com o mesmo objeto sem desdobrá-lo em objeto real e objeto intencional, desdobramento que Husserl critica vigorosamente e cuja evitação ele precisará explicar.

17. Para Peirce, as duas relações não são paralelas, pois devem encontrar-se no objeto, já que o predicado só tem com o objeto uma relação intencional e a proposição só versa sobre o objeto visado se contém um meio de identificá-lo apoiado numa relação real, como o nome “Sócrates”, cujo portador deve ser conhecido por outros meios, à maneira de um mapa que nada diz da posição dos objetos reais enquanto não se localiza nele o ponto onde se está e outro ponto que oriente sua leitura.

18. Por mais que se descreva, jamais se poderá descrever uma data ou uma posição, e, embora pareça extravagante sustentar que nunca se pode dizer de que se está falando, isso é, em certo sentido, a própria verdade.

19. Esse suposto “defeito da linguagem”, como o chama Arthur Prior, não o é para a comunicação ordinária, sempre contextual, e só aparece como defeito para uma concepção diádica da relação semântica, que esperaria encontrar no signo o suficiente para determinar inteiramente seu objeto.

20. Resta examinar se as relações intencionais podem subsistir sem uma relação real, como sustentam brentanianos e husserlianos.

A presença intencional

1. Roderick Chisholm, que muito contribuiu para restaurar o tema da intencionalidade nas escolas alheias à fenomenologia, partiu da frase de Wittgenstein “posso procurá-lo quando ele não está aqui, mas não posso enforcá-lo quando ele não está aqui”, que alude ao adágio sobre enforcar o ladrão em pessoa ou em efígie e destaca o próprio dos verbos intencionais como “procurar”, restando saber se essa oposição corresponde à tese de Brentano.

2. A primeira dessas atividades seria, para Brentano, intencional, podendo ter por objeto algo inexistente, enquanto a segunda seria “apenas física”, não podendo ser realizada sem a presença de seu objeto.

3. Chisholm impõe uma ligeira distorção à frase de Wittgenstein, passando do ladrão procurado por estar em outro lugar a um objeto inexistente, de modo que o exemplo da atividade intencional deixa de ser a procura e passa a ser a ficção ou o erro, transição que não se sustenta, pois quem descobre que sua procura não tem objeto a abandona, enquanto quem fala de Pégaso não interrompe seu discurso ao lembrar que se trata de um cavalo mítico.

4. Mais grave ainda, se se pode procurar o ladrão quando ele não está presente, não se vê como procurá-lo se ele não existe, pois não haveria ninguém a quem o pronome se referisse, o que sugere que, como diz Peirce, atribuir um objeto a uma atividade intencional exige apoiar-se numa relação real.

5. Na frase de Wittgenstein não se opõem uma atividade física e outra mental, pois enforcar e procurar o ladrão são ambas atividades físicas e exteriores, sendo a procura do ladrão, diferentemente da busca mental de onde se guardou um dossiê, exterior e nem por isso menos intencional.

6. O sentido da frase é que o enforcamento pode ser narrado falando apenas do que está presente no instante da atividade, enquanto a ação do detetive só é descrita de modo completo e inteligível dizendo-se quem ele procura, o que obriga a acrescentar o ausente ao presente.

7. Quando o xerife procura um ladrão de cavalos chamado Smith, não há relação direta entre ambos, mas uma relação direta do xerife com coisas a seu redor, seu cavalo, seu mapa, seus vizinhos, estabelecida para chegar ao ponto em que poderá pôr as mãos em Smith, passando a relação com o objeto da procura pela antecipação de uma situação de êxito ou de fracasso.

8. Smith deve estar presente em pessoa na cena de seu enforcamento, enquanto na cena da procura importa pouco que esteja presente, contanto que seja tido por ausente e tenha uma presença intencional, que significa apenas que nenhum elemento natural da cena é o homem procurado e que o efetivamente presente é a procura de alguém chamado Smith, presença que nenhuma fotografia ou descrição tornaria natural, pois o retrato só é de Smith por uma relação intencional.

9. Falar em presença intencional do ladrão não é descobrir um novo modo de fazer ato de presença, mas apenas dizer que a descrição da cena é incompleta enquanto se limita às presenças naturais.

10. Para dar a Smith uma presença intencional numa cena em que não pode ter presença natural, o intencionalismo clássico da tese de Brentano sustenta que é preciso acrescentar atos mentais dotados de um poder intrínseco de visar os objetos independentemente de toda presença real, aqui ou alhures, o que resta compreender.

Toda consciência é consciência de algo

1. A tese de Brentano propõe um critério do mental de aplicação absolutamente geral, segundo o qual todo caso de mentalidade é caso de intencionalidade e todo caso de intencionalidade é caso de mentalidade, pouco importando como esse critério foi elaborado.

2. A intencionalidade, entendida como propriedade característica de todos os atos e estados mentais e apenas deles, recebe na literatura filosófica três fórmulas.

3. Segundo a primeira fórmula, toda consciência é consciência de algo, de modo que perceber uma árvore é ter ou ser uma consciência visual de árvore e lembrar uma visita a fazer é ter ou ser uma consciência mnêmica dessa visita, sendo toda atribuição de um evento mental a atribuição de um evento que se refere a um objeto.

4. Segundo a segunda fórmula, toda consciência visa um objeto, isto é, ser consciente é ultrapassar-se rumo a um objeto, como representar-se é estar presente pelo pensamento a algo distinto do próprio pensamento.

5. Segundo a terceira fórmula, em toda consciência algo é apresentado ao sujeito, como em toda representação algo é representado e em todo amor algo é amado, tratando-se em todo ato mental de algo distinto desse ato.

6. Cada fórmula leva a conceber a intencionalidade segundo uma categoria particular, que se apreende atentando para a forma gramatical de sua expressão.

7. Pela primeira fórmula, a intencionalidade é algo como um estado transitivo do sujeito consciente, e os fenômenos mentais definem-se como estados intencionais.

8. A segunda fórmula considera a intencionalidade como tipo de atividade e modo de existência de um sujeito que só é sendo fora de si junto às coisas, fórmula preferida pelos filósofos que veem nos atos mentais a marca de um “êxtase” ou de uma “transcendência” do sujeito, que existe projetando-se para fora de si, enquanto as coisas naturais permanecem junto a si mesmas.

9. A terceira fórmula associa ao fato ativo um fato passivo, pois quando alguém percebe, representa ou ama, algo é percebido, representado ou amado.

10. A primeira fórmula torna intencionais os estados mentais do sujeito, a segunda o ser ou modo de ser do sujeito e a terceira o ser ou modo de ser dos objetos de pensamento.

11. Todas essas fórmulas enfrentam duas dificuldades, pois definem a intencionalidade por uma transitividade, o que faria de toda ação transitiva um fenômeno mental, e atribuem aos fenômenos mentais uma transitividade obscura, já que pensar na torre Eiffel não a afeta como repintá-la, objeção formulada por Anthony Kenny ao observar que, se onde há amor algo é amado, onde há aquecimento algo é aquecido, de modo que Brentano parece ter tomado um traço comum a todos os verbos transitivos por uma particularidade dos verbos psicológicos.

12. A questão gramatical a colocar ao partidário de Brentano é se sua definição assimila a intencionalidade à transitividade, fazendo de todo verbo transitivo um verbo de ato mental, questão à qual responderia uma página das Ideias diretrizes de Husserl que inclui entre os vividos intencionais o agir e o fazer, levando Kenny a perguntar se Husserl não considerou intencional toda ação que tem um objeto.

13. Nesse caso, para o fenomenólogo, aquecer não seria necessariamente aquecer algo, nem cortar cortar algo, pois, se a transitividade é a marca do mental, só haveria transitividade onde houvesse visada mental e consciente do objeto da ação.

14. Essa sugestão, embora desconcertante, não deve ser descartada precipitadamente, como mostra um comentário de Dummett sobre as definições de Brentano.

A transitividade incondicional do mental

1. Ao comparar as ideias de Husserl e Frege sobre a percepção, Dummett julga mal enunciada a “famosa tese de Brentano” e propõe corrigi-la, não para expor ideias próprias, mas para formulá-la como Brentano deveria tê-lo feito diante de objeções gramaticais como a de Kenny.

2. A distinção de Brentano está mal traçada, pois do lado dos fenômenos psíquicos figura uma lista de atos significados por verbos transitivos, representações sensíveis ou imaginárias, pensamento de conceitos gerais, juízo, lembrança, expectativa, inferência, opinião, dúvida e emoções como alegria, temor, cólera, amor, ódio, desejo, vontade e admiração, todos dotados de objeto.

3. Do lado dos fenômenos físicos, Brentano cita qualidades sensíveis, como uma cor, uma figura, uma paisagem, um acorde, o calor, o frio, um odor e as imagens imaginárias correspondentes, que não comportam intrinsecamente objeto, o que leva Dummett a observar que, não sendo atos nem significáveis por verbos transitivos, seria agramatical dizer que têm ou que carecem de objetos, e que o contraste visado por Brentano seria antes com um ato físico como chutar uma bola, cujo objeto é extrínseco ao ato enquanto físico.

4. Pouco importa saber se a correção de Dummett se justifica pela exegese histórica do conjunto dos escritos de Brentano, bastando que se justifique filosoficamente em relação à fórmula canônica corrente na literatura, a fim de compreender a tese da transitividade dos atos mentais.

5. Dummett censura Brentano por ter comparado adjetivos e verbos transitivos, em vez de verbos transitivos e intransitivos, comparação que conduziria à objeção inevitável de que há verbos de ação física transitivos, como chutar uma bola, que pelo critério de Brentano seriam intencionais, fazendo de toda ação um ato psíquico, paradoxo que decorre das próprias definições brentanianas.

6. A correção de Dummett permite ao brentaniano aceitar simplesmente o paradoxo, distinguindo a transitividade contingente dos verbos de ação física da transitividade necessária dos verbos de operações mentais, de modo que, em certo sentido, só os verbos psicológicos são verdadeiramente transitivos.

7. Os verbos psicológicos são transitivos intrinsecamente, como mostra o chute na bola, que até o ponto de contato seria exatamente o mesmo se a bola não estivesse ali, sendo o objeto intrínseco apenas à intenção subjacente, de modo que a relação do ato físico com seu objeto é externa e a do ato mental com seu objeto é interna.

8. A resposta atribuída por Dummett ao brentaniano-husserliano é que os verbos de ação física exercida sobre um objeto não são o exemplo por excelência dos verbos transitivos, havendo algo ainda mais transitivo, argumento que se desdobra em quatro pontos.

9. A descrição de uma ação como chutar uma bola não é estritamente física, pois a ação poderia ocorrer tal como ocorre até o choque sem a bola, cuja menção é extrínseca à realidade física da ação, que tem lugar onde estão a perna e o pé, permanecendo a bola indiferente ao movimento até ser tocada, a menos que fosse um ser animado capaz de detectar e temer o que se passa à sua volta.

10. Falar vulgarmente de uma ação física de chutar a bola é reunir diversos episódios físicos sob uma intenção, de modo que uma descrição estritamente física exige uma decomposição dualista entre a componente física, a gesticulação contingentemente associada a seus efeitos, e a componente intencional ou mental.

11. A descrição do jogador que chuta a bola é, portanto, híbrida e emprega conceitos bastardos que misturam o mental e o físico, a intenção e o choque, o que justifica falar de uma filosofia cartesiana da intencionalidade, não por derivar de Descartes, mas por respeitar a partilha do vocabulário dos assuntos humanos em dois léxicos disjuntos, o das operações do corpo e o das operações do espírito.

12. O raciocínio de Dummett funda-se na temporalidade própria das ações, pois falar da ação de chutar a bola é descrever um processo por um resultado futuro e apenas possível, havendo entre o instante presente e o choque um intervalo em que toda sorte de interrupções é concebível, inclusive a aniquilação da bola por uma potência superior, como uma divindade homérica.

13. Como toda mudança orientada para um resultado pode ser interrompida, não se pode falar de tendências puramente físicas sem atribuir aos movimentos naturais uma antecipação intelectual de seus resultados, pois visar um resultado aconteça o que acontecer é precisamente a visada intencional do objeto, o que reencontra a exigência cartesiana de eliminar do universo físico toda tendência, propensão ou continuidade do movimento.

14. A tese de Brentano, por ser tese sobre a diferença entre o mental e o não mental, é uma tese metafísica sobre todas as coisas, que agora se exprime assim: toda ação expressa por um verbo transitivo versa sobre um objeto, e há duas maneiras de uma ação ter um objeto.

15. As ações físicas só têm objeto se o mundo lhes conceder um, não tendo objeto no presente, mas apenas a posteriori e durante o breve instante do choque, de modo que é o mundo exterior, e não o ato, que fixa seu objeto, permanecendo externa a relação.

16. Outras ações têm objeto por si mesmas, quer o mundo lhes forneça ou não um objeto exterior, determinando-se seu objeto pelo exame do próprio ato, e não do mundo.

17. Os atos mentais revelam-se tanto mais transitivos quanto menos o mundo lhes fornece um objeto real, o que explica a predileção pelos casos de visada de objetos fictícios ou impossíveis e faz do critério do mental a intencionalidade redefinida como transitividade incondicional.

18. Sendo a intencionalidade uma transitividade incondicional, a relação do ato com o objeto é garantida pela própria natureza do ato e dispensa toda relação real, indo por si mesma a seu objeto, de modo que na filosofia husserliana-brentaniana-cartesiana a relação intencional pode e deve permanecer paralela à relação real.

19. Resta responder à questão do desdobramento do objeto, isto é, explicar como duas relações paralelas podem ligar o sujeito ao mesmo objeto sem que os atos intrinsecamente transitivos tenham dois objetos, um intencional em todos os casos e outro real ao sabor do mundo exterior, questão que é a da passiva intencional.

A passiva intencional

1. A doutrina da transitividade incondicional do mental pode ser entendida como tentativa de resolver uma dificuldade da doutrina clássica da intencionalidade, encontrada na Gramática geral e racional de Arnauld e Lancelot, a Gramática de Port-Royal, que parte da divisão tradicional dos verbos em ativos, passivos e neutros.

2. Chamam-se propriamente ativos os verbos que significam uma ação à qual se opõe uma paixão, como bater e ser batido, amar e ser amado, quer essas ações terminem num sujeito, chamando-se então ação real, como bater, romper ou matar, quer terminem apenas num objeto, chamando-se então ação intencional, como amar, conhecer ou ver.

3. Distinguem-se assim dois tipos de acusativo, dois termos possíveis de um verbo transitivo, o sujeito e o objeto, tomados em seu sentido tradicional.

4. Os verbos que significam ações que passam para fora do agente, como bater, curar, amar ou odiar, têm sujeitos que as recebem ou objetos que elas olham, exigindo um nome que seja o sujeito ou o objeto da ação, ao qual as línguas com casos deram a terminação chamada acusativo.

5. Para Port-Royal, o “sujeito de uma ação” não é o agente, mas o paciente que recebe a ação, como o que é batido ou curado.

6. Uma ação real termina num sujeito e não pode realizar-se sem que outra coisa seja, por ela, sede de uma mudança, exprimindo a forma ativa essa mudança como o que o agente faz e a passiva como a paixão que o paciente sofre ao receber do agente a mudança.

7. Uma ação intencional termina apenas num objeto, que não sofre nenhuma mudança real ao ser tomado por objeto, sendo apenas objeto de pensamento ou de discurso, de onde a teoria, retomada por Descartes, da “realidade objetiva” das coisas nas ideias.

8. Desse ponto de vista, a ação intencional assemelha-se ao agir significado pelos verbos neutros ou intransitivos, dos quais alguns significam qualidades e outros ações.

9. Os demais verbos neutros significam ações que não passam para um sujeito distinto do agente nem olham outro objeto, como jantar, cear, andar ou falar.

10. Port-Royal distingue três tipos de agir, a ação imanente, que não transita do agente ao paciente, a ação real, que transita, e a ação intencional, nem imanente nem transitiva, ao passo que as filosofias da intencionalidade tendem a reduzi-los a dois, por exemplo reduzindo as ações intencionais a imanentes, redução criticada pelos fenomenólogos ao denunciarem o objeto intencional concebido como objeto na cabeça e fadada ao fracasso, pois uma ação imanente não pode olhar outro objeto.

11. Pode-se também desconhecer a originalidade das ações intencionais fazendo delas ações transitivas puras e simples, tentação à qual brentanianos e husserlianos sucumbem, pois, segundo Dummett, a transitividade dos atos mentais implica a intransitividade dos atos físicos, restando apenas o agir intransitivo físico e o agir transitivo mental.

12. A doutrina clássica é insatisfatória por não explicar o estatuto de um agir que apenas olha seu objeto, pois os verbos intencionais têm a sintaxe dos verbos de ação física, mas nada passa do agente ao paciente, de modo que à ação intencional, real do lado do sujeito, corresponde, como convém a uma ação transitiva, uma paixão do lado do objeto que, no entanto, não é nada.

13. Para o gramático da língua, o problema das paixões intencionais não oferece dificuldade, pois em toda língua em que se pode dizer que Romeu ama Julieta pode-se dizer que Julieta é amada por Romeu, sendo essas paixões puramente gramaticais.

14. O filósofo também se interroga sobre a gramática das frases passivas, mas sua gramática é filosófica, como a de Port-Royal, que distingue, diferentemente da língua francesa, verbos transitivos de ação real e de ação intencional, e cabe-lhe perguntar se os verbos intencionais possuem um autêntico passivo intencional, como quando se diz que no amor algo é amado.

15. Para a doutrina clássica, as ações intencionais são antes quase transitivas, tendo um objeto que a ação não atinge e formando uma categoria bastarda, transitiva pelo verbo e imanente pela ação, ao passo que a tese de Brentano bem compreendida, tal como a entendem todos os husserlianos ao recusarem o objeto intencional como objeto imanente ao espírito, exige que o ato mental seja autenticamente transitivo e atinja a própria coisa.

16. Se a ação mental deve passar para fora do sujeito em virtude de sua transitividade incondicional, precisa ser algo fora do sujeito, como a ação física é algo que o paciente sofre, de modo que já não se pode dizer que nada acontece ao objeto intencional nem que a paixão intencional é mera sombra da ação, cabendo ao partidário do caráter transitivo ou extático dos atos intencionais conferir uma realidade plausível às paixões intencionais.

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