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Quatro questões sobre "eu" e "si"

1991:545-576

Neste livro, Paul Ricœur redefine os termos de um debate iniciado há cerca de trinta anos. Trata-se da “polêmica do Cogito” (p. 14). Ao mesmo tempo, ele recapitula uma investigação filosófica cujos primeiros resultados haviam sido publicados em 1950. Nesse intervalo, essa pesquisa se emancipou de seu quadro inicial, o de uma fenomenologia da vontade. Hoje, ela se define como uma filosofia prática, entendida no sentido de uma “segunda filosofia” (p. 31). Ou seja: uma filosofia destinada a substituir a meditação de tipo cartesiano e husserliano sobre um dado absolutamente radical que pretendia servir de fundamento para o que Ricœur chamava, em sua tese, de “as estruturas ou as possibilidades fundamentais do homem”.

É-me, evidentemente, impossível enumerar aqui todas as posições assumidas em um livro que mobiliza todas as disciplinas filosóficas, da semântica à ética e da filosofia da ação à metafísica. Limitar-me-ei, portanto, a um único ponto que diz respeito à ideia principal anunciada da seguinte forma:

O recurso à análise, no sentido atribuído a esse termo pela filosofia analítica, é o preço a pagar por uma hermenêutica caracterizada pelo status indireto da posição do eu. (p. 28, itálico do autor).

De que análise se trata? O que ela tem a ver com uma posição indireta do eu por parte do sujeito? Em que medida tal hermenêutica se distingue de uma filosofia reflexiva clássica ou de uma fenomenologia descritiva da consciência? Reunirei minhas observações em torno de quatro questões:

1) Uma questão de gramática filosófica: Quais são as diferenças notáveis, do ponto de vista do uso, entre essas palavras que classificamos com demasiada preguiça em uma única categoria de pronomes pessoais (e, particularmente aqui, eu, ele, mim, ele, ela, si)?

2) Uma questão de filosofia da ação: Qual é o status das intenções de agir? São, em primeiro lugar, propriedades da ação ou propriedades do agente?

3) Uma questão de metafísica: Deve-se distinguir, como propõe Ricœur, dois conceitos de identidade: a identidade como “idem” e a identidade como “ipse”?

4) Uma questão de filosofia da mente: O que é, afinal, esse “eu” que aparece na expressão “consciência de si”?

A “polêmica do Cogito” gira em torno dos pronomes pessoais. De um lado, a filosofia do “eu” invoca um sujeito que se recusa a qualquer “objetivação”. Esse sujeito só pode ser mencionado no discurso se decidir se colocar nele por si mesmo, na primeira pessoa. Do lado oposto, simetricamente, recorre-se a um “processo sem sujeito”, do qual se deve falar na terceira pessoa: “& Ele pensa em mim”, “isso fala”, etc. Aliás, essa doutrina do anticogito se opõe tão claramente à primeira que compartilha com ela a premissa decisiva: só existe verdadeiro sujeito na primeira pessoa.

Ora, a filosofia prática, cujo objetivo é detalhar as formas e os fins da ação humana, exige que se esclareça essa questão dos pronomes pessoais. De fato, as duas doutrinas opostas na controvérsia têm outro ponto em comum. Ambas tendem a tornar dificilmente concebível a ação humana como tal. A egologia não é favorável a uma verdadeira filosofia prática, pois inclina-se para o solipsismo. Para o Eu dos filósofos, a vida em sociedade sempre parece ser uma opção facultativa. Quanto à doutrina oposta, aquela que rejeita as pretensões desse Eu filosófico, ela sustenta precisamente que as coisas acontecem literalmente sem nós. Segundo ela, o que se considerava um agente, um sujeito prático, é antes uma espécie de bolsa de “subjetivação” no fluxo geral, bolsa suscitada por insidiosos “dispositivos” ou “aparelhos”.

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