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O Amor do Romance de Tristão
DRAO
- Observação crítica sobre a aplicação seletiva das leis
- Ao revisar o resumo da lenda, nota-se fato marcante: as duas leis em jogo (cavalaria e moral feudal) são observadas pelo autor apenas nas situações que permitem ao romance prosseguir.
- Essa observação, por si só, não constitui explicação; exige aprofundamento.
- Resposta insuficiente da crítica literária convencional
- Poder-se-ia responder a cada pergunta: as coisas são assim porque, do contrário, não haveria romance.
- Resposta aparentemente convincente por força do hábito da crítica, mas que na verdade nada explica.
- Ela nos remete à questão fundamental: por que é necessário que haja um romance? E precisamente este romance?
- Questão fundamental e seu perigo implícito
- Questão que pode ser chamada de ingênua, mas com sabedoria inconsciente, pois pressente-se seu caráter perigoso.
- Coloca-nos no cerne de todo o problema, com alcance que ultrapassa o caso particular do mito.
- A convenção tácita entre romancista e leitor
- Para quem observa, por abstração, o fenômeno comum ao romancista e ao leitor, vê-se uma convenção tácita, uma cumplicidade.
- Vontade compartilhada de que o romance continue, que rebatam os acontecimentos.
- Sem essa vontade, não há verossimilhança que se sustente (como na história científica).
- Com essa vontade pura, nenhuma inverossimilhança é impossível (como no conto).
- A verossimilhança depende, para uma obra romanesca, da natureza das paixões que se deseja satisfazer.
- Licença poética e revelação do verdadeiro assunto
- Aceita-se a intervenção do criador e as distorções da lógica comum na medida exata em que fornecem pretextos para a paixão que se deseja experimentar.
- O verdadeiro assunto de uma obra é revelado pela natureza dos truques que o autor emprega, perdoados na medida em que se compartilham suas intenções.
- A gratuidade dos obstáculos como chave interpretativa
- Obstáculos externos ao amor de Tristão são, em certo sentido, gratuitos, meros artifícios romanescos.
- A própria gratuidade desses obstáculos pode revelar o verdadeiro assunto da obra, a verdadeira natureza da paixão em jogo.
- Simbolismo onírico e composição do desejo
- Tudo é símbolo, tudo se coaduna à maneira de um sonho, não da vida real.
- Pretextos do romancista, ações dos heróis, preferências secretas supostas no leitor.
- Os fatos são imagens ou projeções de um desejo, do que se opõe a ele, do que pode exaltá-lo ou simplesmente fazê-lo durar.
- Exigência profunda além da felicidade
- Comportamento do cavaleiro e da princesa manifesta exigência ignorada por eles (e talvez pelo romancista), mais profunda que a do próprio felicidade.
- Nenhum obstáculo é objetivamente insuperável, e ainda assim eles renunciam a cada vez.
- Pode-se dizer que não perdem uma ocasião de se separar; se não há obstáculo, inventam-no: a espada nua, o casamento de Tristão.
- Inventam como por prazer, ainda que sofram por isso.
- Identificação entre o demônio do amor cortês e o do romance ocidental
- Seria isso para o prazer do romancista e do leitor? É tudo um, pois o demônio do amor cortês que inspira os ardilos sofredores nos amantes é o próprio demônio do romance amado pelos ocidentais.
- Verdadeiro assunto da lenda: a separação dos amantes.
- Separação em nome da paixão, por amor do próprio amor que os atormenta, para exaltá-lo, transfigurá-lo, em detrimento de sua felicidade e de sua vida.
- Sentido secreto e inquietante do mito: paixão como vertigem
- Começa-se a distinguir o sentido secreto e inquietante do mito: o perigo que expressa e vel ao mesmo tempo.
- Paixão que se assemelha ao vertigem; não é mais hora de se desviar.
- Somos atingidos, sofremos o encanto, conhecemos o tormento delicioso.
- A impossibilidade da condenação e a tarefa da filosofia
- Toda condenação seria vã; não se condena o vertigem.
- A paixão do filósofo não seria justamente meditar no meio do vertigem?
- Talvez o conhecimento não seja senão o esforço de um espírito que resiste à queda e se defende no seio da tentação.
O Amor do Amor
- Pergunta ousada sobre a natureza do amor em Tristão
- Questão audaciosa: Tristão ama Isolda? É amado por ela?
- Apenas perguntas estúpidas podem instruir; o evidente esconde algo não evidente.
- Nada de humano parece aproximar os amantes; na primeira reunião, apenas polidez convencional.
- Na segunda vinda de Tristão, hostilidade franca substitui a polidez.
- Livremente, provavelmente nunca se teriam escolhido.
- Ausência de afeto humano e única exceção
- Após beberem o filtro, surge a paixão, mas não uma ternura que os una.
- Em milhares de versos, apenas um traço de afeto mútuo: quando vivem na floresta de Morrois, após a fuga.
- Versos indicam que, por muito que se amem de bom amor, um pelo outro não sente dor.
- As confissões paradoxais ao eremita Ogrin
- Duas visitas a Ogrin são as cenas mais belas e profundas.
- Na primeira, vão se confessar, mas em vez de admitir pecado, afirmam não ter responsabilidade, pois não se amam.
- Tristão diz: Ela me ama por causa da poção; não posso me separar dela, nem ela de mim.
- Isolda ecoa: Senhor, por Deus onipotente, ele não me ama, nem eu a ele, exceto por uma erva que bebemos; foi um pecado.
- Situação paradoxal e transcendência além do bem e do mal
- Situação passionalmente contraditória: amam, mas não se amam; pecaram, mas não podem se arrepender; confessam-se, mas não querem cura nem perdão.
- Como grandes amantes, sentem-se arrebatados além do bem e do mal, numa transcendência das condições comuns, num absoluto indizível.
- A fatalidade suprime a oposição bem/mal, conduz além da origem de todos os valores morais, além do prazer e da dor.
- O amor como potência estranha e não como relação pessoal
- Confissão formal: Ele não me ama, nem eu a ele.
- Como se não se vissem, não se reconhecessem.
- O que os prende ao tormento delicioso não pertence a nenhum dos dois, mas a uma potência estranha, independente de suas qualidades, desejos conscientes e ser conhecido.
- Características físicas e psicológicas são convencionais e retóricas (ele o mais forte, ela a mais bela).
- Como conceber afeto humano entre tipos tão simplificados?
- A amizade moral apenas surge quando a paixão enfraquece
- A amizade mencionada sobre a duração do filtro é o oposto de amizade real.
- A amizade moral só aparece quando a paixão enfraquece.
- Primeiro efeito dessa amizade nascente não é unir os amantes, mas mostrar-lhes que têm interesse em se separar.
- Cena do arrependimento e saudades da corte
- Após três anos na floresta, Tristão, caçando, lembra-se do mundo, da corte, do aparato cavaleiresco, do alto posto que poderia ter.
- Pensa também na amiga, pela primeira vez, imaginando-a em belas câmaras, entre tecidos de seda.
- Isolda, no mesmo momento, tem as mesmas saudades.
- À noite, confessam o novo tormento: Estamos usando mal nossa juventude.
- Decidem se separar; Tristão propõe partir para a Bretanha.
- Diálogo dramático com o eremita Ogrin
- Ogrin os admoesta: O amor vos domina pela força! Até quando durará vossa loucura?
- Tristão responde: Tão longamente a temos levado; tal foi nosso destino.
- Nota: O verso Amors par force vos demeine! é definição pungente da paixão, com força que faz pálido todo romantismo.
- Egoísmo da paixão e lamento da separação
- Ao receber resposta favorável do rei, Tristão exclama: Deus! que separação! Muito doloroso é aquele que perde sua amiga.
- Apieda-se de sua própria pena, não tem um pensamento para a amiga.
- Isolda parece mais feliz junto ao rei que junto ao amigo; mais feliz no infortúnio amoroso que na vida comum no Morrois.
- Retomada posterior da paixão e busca da morte
- Posteriormente, mesmo sem o filtro, os amantes serão retomados pela paixão até a morte.
- Egoísmo aparente desse amor explicaria muitos acasos e malícias do destino que se opõem à felicidade.
- Como explicar esse egoísmo em sua profunda ambiguidade? Egoísmo que busca a morte como cumprimento perfeito e triunfo.
- Resposta mítica: amor pelo ato de amar
- Tristão e Isolda não se amam; amam o amor, o próprio fato de amar.
- Agem como se soubessem que tudo que se opõe ao amor o garante e consagra em seus corações, exaltando-o infinitamente no momento do obstáculo absoluto: a morte.
- Tristão ama sentir-se amar, mais do que ama Isolda, a Loura. Isolda não faz nada para retê-lo; basta-lhe um sonho apaixonado.
- Precisam um do outro para arder, mas não do outro como é; não da presença, mas sim da ausência.
- Separação como fruto da paixão e amor à paixão
- A separação resulta da paixão mesma, do amor que dedicam à sua paixão mais do que à sua satisfação ou ao objeto vivo.
- Daí os obstáculos multiplicados pelo romance; a indiferença surpreendente desses cúmplices de um mesmo sonho no qual cada um permanece só; o crescendo romanesco e a apoteose mortal.
- Dualidade irremediável e desejada: Muito doloroso é aquele que perde sua amiga, suspira Tristão, mas já sente, no fundo da noite que vem, a chama secreta reavivada pela ausência.
O Amor da Morte
- Questão radical sobre o obstáculo
- O obstáculo é apenas pretexto necessário ao progresso da paixão, ou está ligado a ela de modo muito mais profundo?
- Ao descer ao fundo do mito, o obstáculo não seria o próprio objeto da paixão?
- Princípio do progresso romanesco: separações e reencontros
- Causas de separação: circunstâncias exteriores adversas e entraves inventadas por Tristão.
- Tristão se comporta diferentemente em cada caso; importante discernir essa dialética.
- Obstáculos externos e resposta de afirmação da vida
- Quando ameaçados por circunstâncias sociais (Marco, barões, julgamento de Deus), Tristão salta sobre o obstáculo.
- Símbolo: salto de uma cama à outra.
- Paixão violenta, quase animal, faz esquecer dor e perigo na embriaguez do deleite.
- Sangue da ferida o trai; marca vermelha que denuncia adultério ao rei e revela aos leitores o segredo: busca do perigo por si mesmo.
- Enquanto perigo é ameaça exterior, proeza de superá-lo é afirmação da vida.
- Tristão obedece à tradição feudal cavaleiresca: provar valor, ser o mais forte ou astuto.
- Respeito súbito ao direito estabelecido serve apenas para fazer rebater o romance.
- Obstáculo interior e auto-sacrifício
- Quando nada exterior os separa, atitude se inverte.
- Espada nua entre os corpos ainda vestidos é ocasião de proeza, mas contra si mesmo, às suas próprias custas.
- Obstáculo que ele mesmo cria e que não pode vencer.
- Hierarquia dos fatos e preferência pelo obstáculo mais grave
- Hierarquia dos fatos contados traduz hierarquia das preferências do contador e do leitor.
- Obstáculo mais grave é aquele preferido acima de tudo, mais próprio para engrandecer a paixão.
- Vontade de se separar assume valor afetivo mais forte que a paixão mesma.
- Morte, objetivo da paixão, a mata.
- Episódio das espadas trocadas e simbolismo da ação
- Rei substitui sua arma pela de Tristão.
- Significa: substitui obstáculo desejado e livremente criado pelos amantes pelo sinal de seu poder social, obstáculo legal e objetivo.
- Tristão aceita desafio; ação rebate, impedindo paixão de ser total.
- Paixão é o que se sofre; no limite, é a morte.
- Ação representa novo adiamento da paixão, portanto, retardamento da Morte.
- Dialética dos dois casamentos no romance
- Casamento de Isolda, a Loura, com o Rei: obstáculo de fato, simbolizado pelo marido concreto, desprezado pelo amor cortês.
- Oportunidade de proeza clássica e rebatimentos fáceis.
- Sem o marido, amor de Tristão e Isolda não duraria mais de três anos (limitação do filtro em Béroul).
- Casamento entre os amantes seria negação da paixão; ardor espontâneo consumado é pouco durável.
- Casamento branco com Isolda das Mãos Brancas como obstáculo interior
- Erro do irmão de Isolda das Mãos Brancas, provocado pelo nome, é única razão do casamento.
- Honra serve de pretexto para impedir Tristão de voltar atrás.
- Novo obstáculo representa oportunidade de progresso decisivo: vitória sobre si mesmo e sobre o casamento, arruinado por dentro.
- Castidade do cavaleiro casado responde à espada nua entre os corpos.
- Castidade voluntária é suicídio simbólico; sentido oculto da espada.
- Vitória do ideal cortês sobre tradição celta orgulhosa da vida.
- Purificação do que restava de espontâneo, animal e ativo no desejo.
- Vitória da paixão sobre o desejo; triunfo da morte sobre a vida.
- Preferência pelo obstáculo como afirmação da morte
- Preferência pelo obstáculo desejado era afirmação da morte, progresso em direção à Morte.
- Mas morte de amor, morte voluntária após série de provas purificadoras.
- Morte como transfiguração, não acaso brutal.
- Sempre se trata de reconduzir fatalidade exterior a uma fatalidade interior, livremente assumida.
- Resgate de seu destino realizado morrendo por amor; vingança contra o filtro.
- Reversão final da dialética paixão-obstáculo
- In extremis, dialética se inverte: obstáculo não está mais a serviço da paixão fatal.
- Obstáculo tornou-se o objetivo, a finalidade desejada por si mesma.
- Paixão teve apenas papel de prova purificadora, quase penitência, a serviço dessa morte transfiguradora.
- Segredo último: amor da morte dissimulado
- O amor do amor mesmo dissimulava paixão mais terrível, vontade profundamente inconfessável.
- Vontade que só podia se trair por símbolos como espada nua ou castidade perigosa.
- Sem saber, os amantes, a seu próprio pesar, nunca desejaram senão a morte.
- Sem saber, enganando-se apaixonadamente, nunca buscaram senão o resgate e a vingança daquilo que sofriam a paixão iniciada pelo filtro.
- No fundo mais secreto de seus corações, era a vontade da morte, a paixão ativa da Noite que ditava suas decisões fatais.
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