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chauvire:1989:1

1 Silêncio

CHAUVIRÉ, Christiane. Ludwig Wittgenstein. Paris: Seuil, 1989.

O direito ao silêncio

1. O indizível, aquilo que parece cheio de mistério e não se é capaz de exprimir, talvez constitua o pano de fundo do qual o que se pode exprimir recebe sua significação.

2. A publicação do Tractatus foi marcada por sucessivas decepções, com as recusas de Frege, que aconselhou refazer o livro, do editor de Kraus e do editor de Weininger, e depois de Ludwig von Ficker, a quem Wittgenstein explicou que o sentido do livro é ético, que ele se compõe da parte escrita e de uma parte não escrita, a mais importante, e que traça por dentro os limites da esfera ética, única maneira rigorosa de fazê-lo, pondo tudo em seu lugar pelo silêncio onde tantos outros tagarelam.

3. À proposta de Ficker de submeter o manuscrito a um professor de filosofia, Wittgenstein respondeu que seria lançar pérolas aos porcos, acrescentando que todo livro, mesmo honesto, pode ser considerado sem valor de certo ponto de vista, pois ninguém deveria precisar escrever livros quando há no mundo coisas inteiramente diferentes a fazer, mas que, publicando autores como Dallago e Haecker, nada impedia Ficker de publicar o seu, cujo valor, medido por uma medida absoluta, só Deus conhece.

4. Diante da objeção de Ficker quanto ao risco financeiro, Wittgenstein lembrou que livros estranhos ao jargão em uso foram publicados sem arruinar seus editores e tentou em vão obter a intervenção de Rilke.

5. O Tractatus foi finalmente aceito, com o apoio de Russell, por Wilhelm Ostwald em seus Annalen der Naturphilosophie, numa edição que Wittgenstein considerou pirata e cheia de erros, até que C. K. Ogden, compreendendo o alcance da obra, a publicou em edição bilíngue em 1922, com prefácio de Russell, que Wittgenstein não apreciou, e tradução do jovem Ramsey.

Dizível e indizível

1. O título Tractatus Logico-Philosophicus, sugerido por Moore em analogia com o Tractatus Theologico-Politicus de Espinosa, convém ao tom bíblico de um tratado que começa por uma espécie de Gênese, o mundo é tudo o que acontece, e termina com uma injunção mística ao silêncio diante do inefável, no estilo da teologia negativa.

2. O conjunto evoca uma revelação transmitida por um novo Zaratustra convertido à lógica matemática, cujo conteúdo é inseparável do estilo, que mostra algo, de modo que o valor do livro reside tanto nas verdades definitivas que traz quanto na maneira de exprimi-las, embora contraste com essas verdades a aparência de autorrefutação de uma obra que termina mostrando sua própria inutilidade, pois quem a compreende reconhece suas proposições como contrassensos e deve jogar fora a escada depois de ter subido por ela, para então ver o mundo corretamente.

3. A filosofia ordinária é um conjunto de contrassensos que nada dizem do que pretendem dizer, mas têm importância pelo que mostram, e as três disciplinas normativas tradicionais perdem seu estatuto de descrições do verdadeiro, do bom e do belo, pois a ética não enuncia propriedades de um objeto, mas reflete a vontade de dar certa forma à vida, sendo o mundo em si ética e esteticamente indiferente e cabendo ao olhar e ao querer do sujeito conferir valor às coisas, de modo que bem e mal são predicados do sujeito e não propriedades do mundo.

4. A distinção entre dizer e mostrar, que subsiste na segunda filosofia, liga o Tractatus aos escritos posteriores, assim como a dicotomia entre vontade e representação reaparece como distinção entre regras gramaticais e proposições, e na falsa clareza de aforismos que condensam páginas de argumentação o mundo é definido como totalidade dos fatos, compostos de estados de coisas formados por objetos simples nomeáveis, cujas combinações de nomes formam proposições elementares independentes, das quais se constroem por um único operador as proposições complexas como funções de verdade, com a tautologia e a contradição como casos-limite, sem que as equações matemáticas se reduzam a tautologias, e sendo desprovidas de sentido as proposições filosóficas, lição que o Círculo de Viena aplicou à metafísica, embora Wittgenstein nunca tenha usado o termo pejorativamente e situasse grandes sistemas metafísicos entre as mais nobres produções do espírito.

5. Nem todo discurso ético, estético ou religioso é mero palavrório, pois o fato de as proposições éticas carecerem de sentido segundo os critérios rigoristas do Tractatus não retira importância à ética, que é um contrassenso importante, e a distinção implícita entre esse contrassenso precioso e o jargão agramatical, duas espécies de indizível, basta para desacreditar a leitura neopositivista.

6. O que o homem visa com as proposições da ética, da estética e da religião não tem o mesmo valor que o contrassenso literal de suas palavras, pois esses discursos visam algo que o discurso não pode dizer e sua visada é tão importante quanto seu fracasso, diferentemente de um palavrório como a pergunta sobre se o bem é mais ou menos idêntico que o belo.

7. O limite entre dizível e indizível, sentido e contrassenso, passa entre as ciências empíricas e o discurso empírico ordinário, de um lado, e a metafísica, a ética, a estética e a religião, de outro, mas há outro limite, entre discurso importante e discurso sem importância, que não é traçado num espírito positivista.

8. Entre as coisas importantes reconhecidas no Tractatus figuram em primeiro lugar os problemas da vida, que nenhum discurso positivo poderia ajudar a resolver, pois mesmo quando todas as questões científicas possíveis tiverem resposta, eles permanecerão intactos.

9. Permanecerem intactos os designa como pseudoproblemas, cuja solução se vê no desaparecimento do problema, o que explica que homens a quem o sentido da vida se tornou claro sejam incapazes de dizer em que ele consiste, pois há o inexprimível, que se mostra e é o místico.

10. O indizível visado pela metafísica, pela ética, pela estética e pela religião pertence ao que pode mostrar-se, e chamá-lo de místico não tem intenção depreciativa, de modo que o grande objetivo do Tractatus, delimitar por dentro o que pode e o que não pode ser dito, não condena essas disciplinas, mas as autentica como o místico inacessível às palavras e talvez acessível à arte, terminando a obra não numa condenação positivista da metafísica, mas na reivindicação do direito ao silêncio sobre as questões mais importantes da vida.

11. Sobre aquilo de que não se pode falar deve-se calar, sem negar sua importância existencial, cabendo à filosofia convidar ao silêncio sobre o inexprimível e clarificar a linguagem para apreender sua lógica correta, frequentemente mascarada pela gramática superficial, sendo ela uma atividade de crítica da linguagem e não um corpo de doutrinas, que se aplica às próprias proposições do Tractatus, a serem superadas como uma escada que se joga fora.

12. O Tractatus se autodestrói em sua penúltima proposição e termina numa injunção que não é proposição, o convite ao silêncio filosófico, o que constitui de certo modo o fim da filosofia e inaugura uma estratégia da frustração, pela qual a filosofia deve renunciar a teses, explicações, intervenções no mundo e descobertas inéditas, ao passo que a desmistificação da linguagem que disfarça o pensamento retoma uma preocupação vienense de Kraus, Mauthner e Hofmannsthal, superada por Wittgenstein graças ao instrumento poderoso da lógica de Frege e Russell, a única capaz de analisar o discurso em proposições atômicas e frustrar as armadilhas de uma linguagem complicada como o organismo, cuja forma exterior, como a de uma roupa, não permite inferir a forma do pensamento disfarçado.

13. O empreendimento do Tractatus repousa no postulado da unicidade e da completude da análise lógica, cuja decomposição dá acesso à substância do mundo, os objetos absolutamente simples, nos quais todo enunciado sobre complexos pode ser resolvido.

14. O objeto tem no Tractatus o estatuto de uma condição transcendental para que a linguagem, concebida como série de proposições analisáveis em proposições simples e independentes, seja possível, sendo os simples, como Wittgenstein reconheceria mais tarde, apenas aquilo a que se podia referir sem temer que não existisse.

15. Cabe à lógica pôr que há objetos, mas não dizer o que são, o que pertence à sua aplicação, consistindo a simplicidade do objeto em ser nomeável, e distinguindo-se várias formas das coisas, espacialidade, tempo e coloridade, definidas como possibilidades de ocorrência em estados de coisas, sendo a coloridade representante de todas as dimensões qualitativas do objeto, o que neutraliza a oposição entre qualidades primárias e secundárias.

16. Espaço e tempo são a priori constitutivos da objetividade, enquanto a forma lógica é condição imprescritível de toda representatividade, fundando em última instância toda objetividade o espaço lógico, no qual se distinguem implicitamente o espaço das coisas, o espaço dual dos estados de coisas e o espaço dos fatos, o único explicitamente mencionado.

17. A exigência de coisas simples é a exigência de determinação do sentido, componente essencial do atomismo lógico herdado de Frege, de modo que a simplicidade do objeto é uma propriedade transcendental e não empírica, um nó na rede de referência do espaço lógico, assim como a existência de proposições elementares, protótipo transcendentalmente necessário mas nunca realizado num conteúdo de experiência, formando uma totalidade fechada mas não enumerável a priori, mutuamente independentes e verdadeiros átomos de sentido.

Figuratividade da linguagem

1. O Tractatus apresenta uma concepção figurativa das proposições elementares, inseparável do atomismo lógico, e põe em obra a tese de que o pensamento é uma espécie de linguagem, sendo a proposição elementar ao mesmo tempo um arranjo articulado de nomes e um quadro vivo.

2. A proposição não é um agregado de palavras, assim como a melodia não é um agregado de notas.

3. A proposição elementar é um arranjo específico de nomes num fato, ao mesmo tempo fato pertencente ao mundo e signo pertencente à representação, e, contra Frege, que a assimila a um nome, constitui um fato estruturado cuja organização interna responde pela significação, de modo que, inertes os elementos, a proposição como todo é viva, concepção cuja sedução e perigo o Caderno Azul denunciará, por levar a crer que algo imaterial deve ser acrescentado aos signos mortos para torná-los vivos.

4. O sopro que anima a proposição aplicada é o pensamento, pois o signo proposicional aplicado e pensado é o pensamento e o pensamento é a proposição com sentido, opondo-se a imaterialidade do sentido e do pensamento à materialidade do signo proposicional pelo qual ele se exprime.

Dizer e mostrar

1. A proposição elementar tem por função figurar um fato ao menos possível, mostrando como as coisas são se ela é verdadeira e dizendo que elas são assim.

2. Dizer um fato, e só fatos e estados de coisas podem ser ditos, não objetos, é figurá-lo como uma imagem que tem a mesma forma lógica que ele, e ao dizê-lo a proposição mostra, sem poder dizê-la, a estrutura que partilha com o fato, duplo funcionamento da linguagem que justifica a rejeição de toda metalinguagem e funda a tese explosiva da inefabilidade das relações semânticas, que desautoriza a teoria dos tipos de Russell e, por antecipação, a Sintaxe Lógica de Carnap, já que para Wittgenstein a sintaxe se mostra no uso correto e não pode ser formulada em teoria.

3. A proposição pode dizer algo porque é mais que um fato e mais que um signo, sendo o signo proposicional em sua relação projetiva com o mundo.

4. A metáfora dominante da projeção sugere que a proposição é viva porque visa intencionalmente o mundo no ato de pensar que a anima, sendo o método de projeção o pensar do sentido proposicional.

5. A equação entre proposição em uso e pensamento mantém a distinção entre proposição e signo proposicional, expressão sensível do pensamento entendido no sentido fregeano de conteúdo objetivo, distinto do ato de pensar, e é nesse sentido que o Tractatus traça um limite não ao pensar, mas à expressão dos pensamentos, já que para limitar o pensar seria preciso pensar dos dois lados do limite, isto é, pensar o impensável.

6. Uma limitação essencial da linguagem aparece na impossibilidade de uma metalinguagem, pois o limite da língua se mostra na impossibilidade de descrever o fato que corresponde a uma proposição sem repetir a própria proposição, o que constitui a solução kantiana do problema da filosofia.

7. O problema do limite tem também uma conotação ética, pois onde se atingem os limites da própria honestidade nasce um turbilhão de pensamentos, uma regressão infinita que não leva a parte alguma.

8. Querer pensar além do limite é ao mesmo tempo antiético e impossível, pois, traçado o limite apenas de dentro da linguagem, o que está do outro lado é contrassenso, e indizível e impensável equivalem a contrassenso, cujo pano de fundo parece indispensável para que se possa dizer algo sensato, a prosa do mundo, os fatos, a positividade.

9. O pensamento, como a proposição, é uma imagem, distinta das outras por ser imagem logica e apenas lógica de um fato, pois toda imagem figura logicamente e eventualmente de outros modos, espacial, temporal ou cromático, tendo sempre uma forma de figuração comum com o fato que lhe permite substituí-lo, podendo a espacialidade ser ou não pertinente para a representação e a estrutura espacial da imagem figurar no fato uma sequência temporal, como a partitura figura a melodia.

10. No caso privilegiado da proposição, a forma de figuração coincide com a forma lógica, que basta para assegurar a representatividade, havendo, além das condições específicas de cada categoria de imagens, uma condição universal e transcendental de representatividade, a forma lógica, ponto de partida da linguagem e da proposição.

11. Uma proposição tem sentido antes de toda confrontação com a experiência, independentemente de seu valor de verdade e do ato ilocucionário, pois ter sentido é figurar um estado de coisas possível inscrito no espaço lógico, não como apresentação concreta de qualidades empíricas, mas como localização dos fatos nesse referencial, sendo a imagem um modelo da realidade, uma miniatura tomada da própria realidade.

12. A figuração é formada por elementos coordenados aos elementos do fato, num isomorfismo ou homomorfismo termo a termo e sobretudo relação a relação, abstraindo a imagem de seu conteúdo empírico imediato para tornar-se pensamento de um fragmento do mundo e fixar a posição do fato entre os possíveis antes de toda confrontação com a experiência.

13. A metáfora concorrente do modelo mecânico de Hertz, sistema representativo que fixa a priori a forma e os limites de toda descrição, mostra que o problema da figuração lógica é próximo do de Hertz e Boltzmann, e a originalidade de Wittgenstein está em fundir essa problemática com a herança de Frege e Russell, oferecendo uma solução ao problema transcendental das condições a priori da representação figurativa, seja na lógica, na física ou na música, numa transposição da problemática kantiana à linguagem muito distante do empirismo indutivista de Mach.

14. O Tractatus revela-se uma filosofia de engenheiro, que transpõe à filosofia transcendental noções físicas e matemáticas como espaço lógico, coordenadas, multiplicidade e sistema de representação, sendo chave a noção de modelo e essencial a de projeção, que completa a iconicidade da proposição e a ajusta à situação como uma régua aplicada em cada ponto ao objeto medido, metáfora que subsistirá com outro sentido na última filosofia.

15. A imagem mostra imediatamente seu sentido, figuração de uma situação possível, e o fato de a proposição mostrar a priori seu sentido, independentemente de ser verdadeira ou falsa, garante a compreensão de frases nunca ouvidas e a criatividade da linguagem, sendo a proposição uma norma de referência pela qual se dispõem os fatos, capaz de representar todo o real e só o real, mas não o impensável, pois o que é pensável é também possível.

“Em vez de ‘eu penso’, deveríamos dizer ‘ele pensa’”

1. Se o Tractatus nega o sujeito pensante portador das representações, afirma um eu metafísico do qual nada se pode dizer, mero ponto no limite do meu mundo, sem relação com o eu psicológico nem com o eu penso kantiano, despojado de todo psicologismo e reduzido a um ponto geométrico de onde se projeta a realidade na linguagem, que não está no mundo como o olho não está no campo visual, pressuposição transcendental que garante que os limites de minha linguagem signifiquem os limites de meu mundo.

2. O solipsismo, como a maioria das doutrinas filosóficas, é desprovido de sentido e ao mesmo tempo designa algo importante e indizível, pois o que ele quer dizer é inteiramente correto, mas não pode ser dito, apenas mostrar-se.

3. O solipsismo como contrassenso significativo identifica-se ao realismo puro, pois ambos tentam dizer a mesma coisa indizível, consistindo sua verdade apenas em que o mundo é meu mundo, o que não contradiz o egotismo prático do Tractatus nem sua ética a-histórica.

4. Menos de dez anos depois Wittgenstein elaborará uma segunda filosofia constituída em grande parte por uma autocrítica do Tractatus, atacando a sublimação da lógica como linguagem ideal das leis de uma superfactualidade imutável, denunciando as superstições dos matemáticos e usando o Tractatus como repertório de ilusões filosóficas, sem que isso seja a fase negativa de um movimento dialético, pois a segunda filosofia é uma continuação disfarçada da primeira, cujas novas ideias só se mostram sob a verdadeira luz contra o fundo da antiga maneira de pensar.

5. Wittgenstein não renega a obra antiga, mas a assume, reconhecendo seus graves erros e censurando a arrogância de seu tom.

Onde o “suposto intelectual” crê encontrar a salvação entre os “supostos humilhados e ofendidos”

1. Enquanto as irmãs se dedicavam à beneficência no pós-guerra, Wittgenstein deixou o palácio familiar por uma moradia modesta, pensou seriamente em entrar para uma ordem religiosa, a ponto de Russell julgá-lo completamente místico, e acabou decidindo tornar-se professor primário, participando, como Popper e Zilsel, do movimento de reforma escolar de Otto Glöckel.

2. Entre 1920 e 1926 deu-se a célebre experiência de Wittgenstein como professor em três aldeias montanhesas austríacas, primeiro em Trattenbach, depois em Puchberg, onde Ramsey o visitou.

3. Nutrindo, por influência de Tolstói, muitas ilusões sobre os camponeses, Wittgenstein logo se desencantou, julgando os homens de Trattenbach piores que os de qualquer outro lugar.

4. Em Puchberg, vivendo em austeridade evangélica e inteiramente dedicado à pedagogia, entusiasmou alunos que o venerariam cinquenta anos depois e tentou em vão tirar os mais dotados da miséria contra a vontade dos pais, mas em Otterthal fracassou diante de uma cabala dos pais que o acusaram de maus-tratos e chegaram a um processo, provavelmente movidos pelo ódio e pela inveja diante de um homem rico que escolhera ostensivamente a pobreza, o que o levou a renunciar aos nobres servos de Tolstói.

5. Desse período resta o Dicionário para Escolas Primárias, impresso em 1926, ano em que Wittgenstein abandonou definitivamente o magistério e voltou a Viena.

6. Em 1924 Schlick pediu para encontrá-lo, pois o Tractatus se tornara a bíblia do Círculo de Viena, iniciando uma relação complicada marcada pelo desagrado de Wittgenstein por certos membros, como Carnap, pelo mal-entendido de uma leitura positivista e antimetafísica que ele tentava dissuadir lendo poemas de Tagore nas sessões, e por um jogo perverso com Waismann, encarregado de expor suas ideias num livro várias vezes desautorizado, embora as Conversas com o Círculo já mostrem mudanças teóricas importantes do período intermediário, como o tema do xadrez e a transformação do conceito de aplicação, sendo sua atitude explicada em parte pelo temor obsessivo do plágio e da deformação, que o levaria a publicar as Investigações por irritação com as versões mutiladas de suas ideias.

7. Esse temor é em parte desculpável pelo esforço com que retrabalhava seus manuscritos até uma formulação sempre julgada imperfeita, comparando suas ideias a papel de prata amarrotado que nunca mais se pode alisar.

8. Wittgenstein chegava a não preparar suas aulas em Cambridge, porque por escrito as ideias lhe pareciam fixas e mortas, e o medo do plágio o levou a não querer fazer escola, já que sua maneira de filosofar era inimitável e ele não suportava ser imitado.

9. Quando voltou a Viena em 1926, Margarete e Engelmann, talvez para distraí-lo do fracasso pedagógico, associaram-no à construção da casa da Kundmanngasse, cujas obras ele dirigiu até 1928, num estilo vanguardista inspirado na recusa de ornamentação de Loos, manifesto de uma arte austera e ética, com interior e exterior inteiramente repensados e cada janela, porta e radiador desenhados com a precisão de instrumentos de precisão.

10. O trabalho de arquiteto é ao mesmo tempo aplicação e prolongamento artístico do Tractatus, cujo dogmatismo juvenil permitia despedir-se da filosofia uma vez resolvido o problema da delimitação do dizível, permanecendo intactos os problemas da vida, que só podem resolver-se na própria vida, por uma mudança de vida, uma conversão ou uma confissão.

“A ética e a estética são uma só” (6.421)

1. A significação do livro é ética, pois ele traça por assim dizer de dentro os limites da ética.

“Uma casa para os deuses”

1. O Tractatus dirigia-se mais a artistas e intelectuais vienenses como Kraus e Loos, empenhados numa moralização da arte, do que a Russell ou Frege, partilhando com Mauthner, Kraus, Musil e Loos o objetivo de identificar ética e estética, de modo que seu leitor ideal seria um Kraus convertido à lógica matemática, e seu aforismo final tem valor de injunção ética, ordenando a quem quiser exprimir o que não pertence ao discurso que busque outros meios, como a arte, numa ética do silêncio forçado que abrange tanto o delírio metafísico quanto o palavrório sobre a ética e o belo.

2. A condenação ao silêncio não paralisa o aprendiz de filósofo, que pode ainda tentar dizer algo pela criação artística, como Wittgenstein na casa da Kundmanngasse, cujo funcionalismo inspirado em Loos, para quem tudo o que não responde a uma necessidade é imoral, faz de seus radiadores milimetricamente concebidos um manifesto ético e estético, revelando por trás da beleza severa da casa a mesma problemática vienense que anima a crítica da linguagem, sendo Wittgenstein o filósofo da tábula rasa como Loos o arquiteto da tábula rasa, e cabendo à arte mostrar por seus meios privilegiados o inexprimível inexprimivelmente contido no que é expresso.

3. Afirmar que uma obra diz algo supõe que haja algo a dizer, pois a arquitetura eterniza e glorifica e não pode existir onde nada há a glorificar, e se o grande arquiteto numa época ruim tem tarefa diversa da do grande arquiteto numa boa época, como talvez o grande filósofo ou o grande músico, Wittgenstein julga ter apenas reproduzido em sua casa, fruto de ouvido fino e boas maneiras, mas desprovida da vida originária e selvagem, isto é, da saúde.

4. O modo de expressão próprio da arte participa do dizer e do mostrar, pois a obra mostra o indizível dizendo-se a si mesma, como o quadro que diz algo em sua própria estrutura e em suas próprias formas.

5. Semanticamente autônoma, a obra de arte não exprime senão a si mesma, ao contrário do discurso que descreve uma situação exterior, e contra a concepção causal que faz da música um meio para produzir sentimentos, como um remédio, opõe-se a tese de que a música transmite a si mesma, sem negar que desperte sentimentos, mas recusando que esse seja seu fim essencial, assim como uma visita não visa apenas produzir sentimentos, mas visitar e ser bem-vindo.

6. Mais que autorreferência, trata-se de uma autossuficiência semântica da frase musical, comparada a uma tautologia fechada sobre si mesma que tem seu fim em si, na qual o inexprimível está inexprimivelmente contido no expresso, o que ajuda a compreender que a significação do enunciado ordinário também está inteiramente contida nele, e confere à arte, sobretudo à música, a missão mística de exprimir o inefável que a linguagem não pode dizer, reconduzindo a oposição tradicional entre ciência, que diz a positividade, e arte, que diz por seus meios o inexprimível.

Fato e valor

1. Como na estética, trata-se de pôr fim à tagarelice sobre a ética, sobre se há conhecimento moral, se há valores ou se o bem é definível, pois a tendência a querer dizer a essência da ética, impossível de formular, é condenada como contrassenso, mas reconhecida como contrassenso importante que indica algo.

2. Rejeitada na segunda filosofia toda busca essencialista e reduzida a filosofia à descrição, só se pode descrever o valor descrevendo que há preferências, sem jamais explicar por que um quadro ou um ato é preferido a outro, pois qualquer explicação seria afastada não por ser falsa, mas por ser uma explicação, numa das declarações antiteóricas mais nítidas de Wittgenstein.

3. Não se pode dizer a essência da ética sem destruí-la, pois uma ética explicável por teoria não teria valor algum e um livro que fosse realmente sobre ética aniquilaria como uma explosão todos os outros, sendo a ética, se existe, sobrenatural, enquanto as palavras só exprimem fatos, no domínio dos quais só há valor, justeza e bem relativos.

4. A dicotomia radical entre fato e valor impede comparar códigos morais, já que a realidade não corrobora uma ética como corrobora uma teoria física, de modo que designar a moral cristã como a boa é adotá-la, ver de repente a ética de outro modo e impregnar a vida com ela, escolha de vida e não posição teórica, pois o valor absoluto está fora do mundo dos fatos e o juízo de valor pertence à vontade e não à representação, como mostra a descrição completa de um assassinato, que contém apenas fatos e nenhuma ética.

5. É igualmente um contrassenso afirmar que todos os sistemas éticos se equivalem, o que só poderia significar que cada um julga como julga, de modo que a pluralidade de códigos éticos, sem privilégio nem igualdade de valor entre eles, é paralela à pluralidade dos sistemas de enunciados positivos e dos sistemas lógicos e matemáticos.

6. Se nenhum sistema ético pode ser privilegiado nem servir para estudar a essência da ética, é legítimo estudar os ares de família entre sistemas, sublinhar sua variedade e imaginar por variação contínua sistemas fictícios segundo o método antropológico, o que é tudo o que a filosofia pode e deve fazer, como no caso da linguagem ordinária.

“O modo como empregas a palavra ‘Deus’ não indica quem visas, mas o que visas”

1. Dizer que um livro foi escrito para a glória de Deus seria hoje uma canalhice, porque não seria compreendido corretamente, significando apenas que foi escrito com boa intenção e que, na medida em que o foi por vaidade, seu autor gostaria de vê-lo condenado, embora a dedicatória de Bach ao Altíssimo e ao bem do próximo seja o que se gostaria de dizer da própria obra.

2. O discurso religioso não tem especificidade verdadeira, sendo uma maneira disfarçada de exprimir preocupações éticas ou existenciais, de modo que a ética absorve o religioso e a fé religiosa pode ser apenas uma decisão apaixonada em favor de um sistema de referência, uma maneira de viver ou de julgar a vida.

3. Religião e paixão são indissociáveis, o que distingue a religião da ética concebida como sabedoria, pois a sabedoria é cinzenta e sem paixão, enquanto a vida e a religião são cheias de cor e a fé, como diz Kierkegaard, é uma paixão.

4. Instruir alguém numa fé equivale a obter sua adesão espontânea e apaixonada a um sistema de referência, que o faz passar do desespero à certeza da salvação, adesão que não pode ser obtida artificialmente, pois toda sabedoria é fria e não se endireita a vida por ela, assim como não se forja ferro a frio, sendo lição do cristianismo que as boas doutrinas de nada servem e que é preciso mudar a vida ou sua orientação.

5. Aderir ao cristianismo consiste em dar deliberadamente aos Evangelhos um estatuto privilegiado, diferente do dos relatos históricos, percebendo o que eles mostram sem dizer, de modo que a demonstração de sua falsidade nada tiraria da fé, pois o jogo da prova histórica não diz respeito a ela, e a segurança desse ter-por-verdadeiro vem apenas de ter sido vivido pelos homens com fé, isto é, com amor.

6. A fé consiste em viver no horizonte da salvação, que exige certeza e não sabedoria, sonhos ou especulação, certeza que é a fé naquilo que pedem o coração e a alma, e não o entendimento raciocinante, pois é a alma com suas paixões, sua carne e seu sangue, que deve ser salva, e não o espírito abstrato.

7. A revelação deve dizer algo à alma ou nada é, e talvez só o amor possa crer na ressurreição, ou o que crê na ressurreição seja o amor, o que transforma tudo e torna capaz do que antes era impossível, assim como um homem suspenso tem a mesma aparência de um homem em pé, mas um jogo de forças inteiramente diferente.

8. Viver de modo religioso ou ético é aderir a um sistema de referência que permite pronunciar juízos de valor, sendo a escolha de uma ética a escolha de uma forma de vida, e religião, ética e matemática são tratadas como práticas antropológicas sem que a pluralidade das éticas implique relatividade, pois a ética não tem estado puro ou essencial, mas apenas estado civil, e diante da dificuldade existencial de resolver um único problema moral concreto as teorias éticas nada dizem nem servem, importando apenas pôr a existência no bom caminho, o que nenhuma teoria filosófica pode ensinar.

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