America
CAVELL, S. This new yet unapproachable America: lectures after Emerson after Wittgenstein. University of Chicago Press ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1989/2013 / Esta America Nova, Ainda Inabordável. São Paulo: Editora 34, 1997.
Trabalho em andamento: um relatório introdutório
- I. O declínio do declínio
- II. Encontrar como fundar
Trabalho em andamento
1. O convite do Departamento de Inglês da Universidade de Chicago para as conferências Carpenter, com a esperança expressa de ouvir trabalho em andamento e não um livro acabado, provoca uma reflexão mais contínua do que nunca sobre o que é o trabalho filosófico e o que constitui o seu progresso.
2. As ideias que dão título às conferências, declinar o declínio e encontrar como fundar, são formulações de tarefas filosóficas em andamento, que correspondem ao “reconduzir as palavras para casa” de Wittgenstein e às imagens emersonianas do pensar como caminho, condensadas na sabedoria de encontrar o fim da jornada em cada passo da estrada.
3. A revisão das provas, feita em Santa Cruz durante um Instituto sobre Interpretação, coincide com a preparação de outros dois volumes de conferências, e essa acumulação inédita de manuscritos, somada a três incidentes ali ocorridos, intensifica a ansiedade de ver o trabalho separar-se de si para a publicação.
4. A apresentação de Hubert Dreyfus sobre “A origem da obra de arte” de Heidegger, segundo a qual também os pensadores realizam o trabalho de deixar a verdade acontecer, suscita uma série de perguntas sobre se arte e filosofia se tornam a mesma coisa, sobre como se dá esse trabalho no próprio texto heideggeriano e sobre o que significa que a política possa ter sido vista como lugar desse acontecer.
5. Diante da observação de Richard Rorty de que se trata de um processo de recanonização e de que preocupar-se em saber se certos textos são filosofia ou literatura é coisa de diretores de faculdade, importa antes saber como um texto é descoberto e assumido e o que ele mostra ser, algo que nenhuma classificação institucional pode decidir.
6. A proposta de “O absoluto literário” de basear uma leitura filosófica do romantismo alemão nos textos do Athenaeum faz confrontar uma ignorância amarga desses escritos, apesar de a ideia schlegeliana da união entre poesia e filosofia orientar já, por meio de Coleridge, Wordsworth, Emerson, Thoreau, Heidegger e Wittgenstein, a compreensão da filosofia como continuação do romantismo.
7. A frase de Schlegel evoca a lembrança das piadas ameaçadoras de um influente professor de filosofia dos anos 1950, no fim do reinado do positivismo lógico, quando ambições como a de unir poesia e filosofia, levadas a sério, não seriam admitidas numa tese e podiam tornar-se, como órgãos vestigiais, inflamadas e perigosas.
8. Sensibilidades filosóficas talentosas foram desviadas pela desaprovação institucional ou buscaram outro cânone em outras disciplinas, e como certos textos e modos de ler permanecem reprimidos por desaprovações que não se sabe nomear, a recanonização, se pretende ser alegoria do levantamento da repressão, exige mais explicação do que o gesto sugere.
9. Ler os textos do Athenaeum como se tivessem sido proibidos levanta a questão do que se está pronto para ler, isto é, do currículo, cuja dimensão de preparação a ideia de recanonização apaga, o que revela que filosofia e humanidades existem em permanente condição de crise, já que nelas sempre se pergunta se o que se ensina é de fato filosofia.
10. A pergunta dos professores mais jovens sobre o quanto os termos das discussões eram ditados pelas condições do próprio Instituto, somada à lembrança do professor alemão cujas palavras filosóficas se esvaziaram numa pequena faculdade americana e à frase de Santayana sobre o mesmo céu, leva a indagar se ainda resta algum céu que sirva de abóbada para a filosofia e quais ambientes são hoje promissores para instituí-la.
11. A ênfase de “O absoluto literário” na dialética romântica entre fragmento e obra e no problema kantiano da apresentação, ligado à Bildung, justifica prosseguir a educação em público a partir da passagem de “O estudioso americano” em que Emerson anuncia a revolução pela domesticação gradual da ideia de Cultura e pela edificação do homem a partir de materiais espalhados pelo chão.
12. Nessa passagem a edificação do homem praticamente pronuncia a Bildung, e a palavra “chão” ganha o peso capaz de deslocar a ideia filosófica de fundamento, sugerindo ao mesmo tempo os fragmentos e ruínas das batalhas filosóficas, o comum que se abraça e os homens e mulheres ainda dispersos a partir dos quais o humano está por ser construído.
13. Prosseguir nesses pensamentos é assumir o perfeccionismo moral, entendido como o trabalho emersoniano da escrita de atrair o leitor para o tornar-se humano, expresso na distinção entre o mundo com que se conversa e o mundo que se pensa, juízo sobre o mundo que é busca de um eu em devir e não de um estado dado de perfeição.
14. Situar essa busca como algo semelhante a uma exigência moral e mostrar a escrita de Emerson engajada nela constitui o principal empreendimento das conferências Carus, que derivam diretamente da ideia de sabedoria como encontrar o fim da jornada em cada passo e da intuição de que Wittgenstein e Heidegger carregam uma urgência moral sem conceder ao ético o estatuto de campo separado.
15. Perguntar se o texto de Heidegger se inclui entre as obras que deixam a verdade acontecer conduz a indagar pela socialidade e pela genialidade desse texto, cuja pathos ele insiste em negar como juízo moral ou aspiração religiosa, termos tomados do Athenaeum para marcar a continuidade de suas ideias de obra e poiesis.
16. A socialidade problematiza a noção de público, pois nenhum conjunto dado de leitores é buscado, e a genialidade problematiza a noção de intenção, pois autor e leitor devem ser gerados um pelo outro, o que abre também a região da insociabilidade de um texto, de seu poder de repelir e de suas defesas contra ser lido, que define a repulsa da própria filosofia ao ler e ser lido do modo habitual.
17. O fervor heideggeriano se deixa notar na alusão a Parmênides, na pergunta sobre o que parece mais fácil do que deixar um ente ser o que é, que insinua que se vive no parecer e na facilidade, e na observação de que um homem não é uma coisa, o que sugere que “A origem” talvez realize como obra humana aquilo que “Ser e tempo” apenas teorizava.
18. A escolha do templo grego, que dá às coisas seu aspecto e aos homens sua perspectiva sobre si mesmos, mostra os humanos como seres para quem as coisas contam, e a referência ao fragmento 53 de Heráclito confirma que a obra linguística transforma a fala do povo de modo que cada palavra essencial trave a luta que decide o sagrado e o profano, o nobre e o vil, o senhor e o escravo.
19. Embora haja aí matéria suficiente para um fervor moral, permanece a dúvida sobre se em Heidegger cada palavra essencial de fato trava essa luta, sobre quais palavras são essenciais e sobre que evidência permitiria saber que as próprias palavras foram transformadas, condição sem a qual não se poderia pertencer à socialidade desse texto nem saber o que constitui seu ensinamento.
20. O modo como Heidegger, assim como Kant, consegue estabelecer tais apostas dentro de uma prosa acadêmica sistemática permanece enigmático, mas merece ser comparado com a atenção contemporânea de Wittgenstein à apresentação assistemática, artífice mais autoconsciente.
21. A autoconsciência de Wittgenstein sobre a apresentação aparece atenuada na tradução padrão do parágrafo 122 das “Investigações”, onde o conceito de representação perspícua é declarado de importância fundamental para a forma de exposição e para o modo de ver as coisas.
22. O termo traduzido é Darstellung, mais bem entendido como apresentação, que enfatiza o lado do significante, como no uso romântico, e que Wittgenstein emprega também ao falar da prova lógica, que deve ser perspícua, um procedimento claro à vista em que é a própria prova que prova.
23. Não se trata de identificar a filosofia com dar provas, mas de apelar, por cima da argumentação filosófica estabelecida, ao objetivo da lógica de alcançar completa clareza, que em filosofia significa fazer desaparecer os problemas, exigindo transfigurar outros traços da prova, como sua memorabilidade e sua capacidade de convencer.
24. O aparente pesar de Wittgenstein por ter escrito apenas observações curtas pode ser lido à luz da problemática do fragmento e do sistema, da defesa da filosofia contra certa leitura e da ideia de uma escrita que deixa a verdade acontecer e busca uma socialidade que não seduz o leitor com a promessa de uma solução, cabendo a cada um encontrar o fim da jornada em cada passo, no próprio passo.
25. Ao lado das imagens do caminho em Emerson, Heidegger e Wittgenstein, a ideia de que a prova oferece um caminho marcado pelas pegadas dos que o percorreram e de que a prova não é movimento mas rota pede ser transposta para a filosofia, podendo talvez ecoar a crítica de Kierkegaard à introdução hegeliana do movimento na lógica.
26. O exemplo wittgensteiniano, ao contrário, não oferece caminho prévio nem deixa pegadas, como mostra a qualidade onírica da cena inicial das “Investigações”, em que alguém é mandado às compras com um bilhete escrito “cinco maçãs vermelhas”.
27. As perguntas sobre esse exemplo, como a de por que as mercearias não organizam as mercadorias por cor, levam a indagar se é mero acidente de nossas instituições que se opere com as palavras com tanta casualidade, e evocam a insistência de Emerson no vínculo entre o casual e a fatalidade, segundo a qual o ordinário é fatídico.
28. Tanto Heidegger quanto Wittgenstein figuram o modo como suportam ser lidos pelo modo como leem os outros, um segundo o mito de ter lido tudo o que é essencial, o outro segundo o mito de não ter lido essencialmente nada, pressionando de lados opostos a pergunta curricular sobre o que é preciso saber para dizer o que se deve dizer, e ambos acabam convertendo suas obras na leitura de uma passagem única, de Parmênides ou de Agostinho.
29. Afirmar que um ensaio emersoniano anuncia as condições de sua própria compreensão não significa que elas estejam completas, mas que sua realização é questão de cada ensaio, e a tese de Lacoue-Labarthe e Nancy de que o romantismo consiste em a literatura tornar-se sua própria teoria permite ver a obra de Emerson não como apelo inacabado à filosofia, mas como realização da visão schlegeliana da união entre poesia e filosofia, na qual a fragmentariedade é mantida.
30. “Experiência” apresenta precisamente uma teoria do fragmento, pela imagem do embrião que cresce e da distração em que partes se tornam membros, de modo que a recordação, nome do trabalho da filosofia, nasce do desmembramento, condição congênita que faz do fragmento de Schlegel sobre obras modernas fragmentárias desde o nascimento a possível epígrafe do ensaio.
31. Para a comparação entre o esboço wittgensteiniano e o fragmento romântico, serve a observação do parágrafo 183 sobre os diversos sentidos de “agora posso continuar”, com a advertência contra imaginar uma totalidade de condições que, cumpridas, tornariam impossível não caminhar.
32. Essa nova associação entre pensar e caminhar remete à palavra alemã Umgangssprache, cuja ideia de comunicação como circulação inclui o andar em conjunto, passo a passo, e nisso se localiza a diferença em relação à desconstrução, pela insistência na diurnalização das ambições da filosofia, chamada a encontrar-se, na imagem de Emerson, numa escada, meditando uma direção.
33. Essa imagem é também a de uma socialidade ou circulação desconfiada pela desconstrução, entregue a cada passo à reação do outro e à possibilidade de esgotar as palavras, pois do fato de sempre se poder dizer mais sobre uma palavra não se segue que, ao não dizê-lo, se esteja retendo ou adiando uma explicação, já que se pode saber uma palavra sem prová-lo continuando a falar.
34. Antes de encerrar, duas passagens, uma familiar de Nietzsche e outra pouco conhecida de Emerson, assinalam novos caminhos de circulação filosófica entre os textos aqui postos em reação.
35. O prefácio da “Genealogia da moral” afirma que os homens do conhecimento são desconhecidos de si mesmos porque nunca se buscaram, ocupados apenas em levar algo para casa, ausentes das próprias experiências e incapazes de contar corretamente as badaladas de sua vida, de modo que permanecem necessariamente estranhos a si mesmos.
36. A segunda frase de Nietzsche, sobre como poderiam encontrar-se a si mesmos, responde à pergunta que abre “Experiência”, e os demais temas do prefácio, como a incapacidade de contar as experiências, o levar algo para casa, a descoberta de uma terra nova, a leitura ferida por cada palavra e a vindicação do humano diante do mal, ecoam o ensaio em que Emerson, diante da morte do filho, compreende o trabalho filosófico de realizar o mundo como trabalho de luto.
37. A passagem dos Diários de 1855 retoma a questão de quando se está pronto para ler, ao confiar na fama comum para reconhecer o pensador que realmente encontrou a passagem do Destino à Liberdade e ao concluir, com a fábula do porco que atravessa o tronco torto e continua fora do campo, que Fichte, Kant, Schelling e Hegel não realizaram essa travessia, razão para não ler um livro antes de ouvir falar dele nos jornais.
38. Deixando de lado as perplexidades sobre o que ler agora e depois, a ideia emersoniana de realizar a travessia contribui para a questão do avançar no caminho filosófico, e a fábula, expressão espirituosa do atraso americano, lembra que quem deseja juntar-se a Emerson no choque do reconhecimento deve manter contato com Grumphy.
