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cavell:1979:4

4 O que uma coisa é (chamada)

CAVELL, Stanley. The Claim of Reason: Wittgenstein, Skepticism, Morality, and Tragedy. Oxford; Nova Iorque: Oxford University Press, 1979.

1. Os critérios de Austin e de Wittgenstein permitem identificar ou reconhecer algo, em vez de comprovar sua existência, mas, nos casos de Austin, conhecer uma coisa consiste em saber aplicar seu nome convencional com base em características estabelecidas, cuja apresentação expressa plenamente o conhecimento pertinente à identificação.

2. Os casos de Wittgenstein envolvem estados de consciência ou fenômenos físicos cujo nome específico não constitui o problema, tornando necessário esclarecer o sentido de perguntar como algo é chamado quando a identificação procurada não pode ser realizada simplesmente mediante a apresentação de um nome.

3. A importância daquilo que chamamos alguma coisa na investigação de Wittgenstein fornece motivos relevantes para a desconfiança de Albritton em relação a determinadas afirmações sobre os critérios.

4. A distinção de Albritton entre duas concepções de critério opõe uma condição convencional que permite conhecer determinado fato à identificação dos critérios com aquilo que recebe o nome desse próprio fato, considerando defensável apenas a primeira concepção.

5. A aparente deformação de uma concepção de critério pela outra pode orientar a compreensão da introdução desse conceito, desde que sejam questionados tanto o pressuposto de que os critérios dependem de convenções aceitas pelos seres humanos quanto a concepção segundo a qual alguém pode estar justificado ao afirmar que sabe algo e, ainda assim, não sabê-lo porque aquilo não é verdadeiro.

6. Os pressupostos envolvidos nessas posições sugerem uma separação radical entre questões de linguagem e questões de fato, ou entre natureza e convenção, além de uma compreensão do conhecimento essencialmente subordinada à certeza e à evidência.

7. A interpretação de Albritton depende das formulações segundo as quais o critério de algo seria aquilo que recebe seu nome e todo critério diria respeito à ocorrência de determinado fato, mas a primeira formulação resulta de uma leitura problemática da passagem do Livro azul que aproxima explicações de critérios e explicações gramaticais.

8. A explicação do critério para atribuir dor de dente a outra pessoa pertence à gramática dessa expressão, assim como reconhecer o que se chama sentar numa cadeira ou explicar um significado pertence à gramática das palavras correspondentes.

9. A leitura de Albritton estabelece um paralelismo pelo qual o critério da dor de dente alheia seria aquilo que se chama ter dor de dente, conduzindo à objeção de que as ações e palavras de alguém não podem receber literalmente o nome de sua dor.

10. Reduzir os critérios a bases para aplicar conceitos evita identificar comportamento e experiência, mas enfraquece excessivamente a concepção de Wittgenstein ao permitir que toda aplicação permaneça apenas provável e ao apagar a diferença fundamental entre critérios e sintomas.

11. Um sintoma pode justificar uma afirmação sem integrar o significado do conceito empregado, enquanto os critérios determinam aquilo que se entende ao aplicá-lo, de modo que eventuais hesitações podem decorrer da insuficiente explicitação desses critérios ou de seu cumprimento apenas parcial, sem constituírem necessariamente uma incerteza sobre os fatos.

12. Existem situações ótimas em que os critérios de dor de dente estão plenamente satisfeitos, sem razões para suspeitar de fingimento ou de identificação equivocada, tornando o reconhecimento da dor inseparável do próprio conhecimento do que essa expressão significa.

13. A dúvida sobre o sofrimento efetivo do outro pode persistir mesmo quando todos os critérios estão satisfeitos, mas nesse ponto a invocação de uma certeza aproximada perde sua função, pois a dificuldade já não consiste em reunir melhores provas e se manifesta como uma incapacidade de alcançar a experiência alheia.

14. A passagem do Livro azul não identifica aquilo que alguém faz ou diz com sua dor de dente, pois o paralelismo relevante aproxima a explicação de um critério da explicação gramatical de uma palavra, em vez de equiparar diretamente o critério à experiência designada.

15. A equivalência entre explicar critérios e explicar a gramática estabelece uma comunidade de função entre essas explicações, sem determinar previamente sua forma, enquanto a referência ao que chamamos alguma coisa introduz relações entre conceitos mediante os usos da palavra examinada.

16. O modo de utilizar um objeto para sentar integra os critérios para reconhecê-lo como cadeira, mas a possibilidade de empregar uma mesa ou um toco como assento não os transforma em cadeiras, pois a própria ideia de algo servir como cadeira pressupõe o reconhecimento de cadeiras propriamente ditas.

17. Conhecer o que é uma cadeira exige dominar essas relações de uso e outras semelhantes, porque elas determinam tanto o significado da palavra quanto aquilo sobre o que se poderia ter certeza ou dúvida ao identificar um objeto como cadeira.

18. Mesmo em condições perceptivas ótimas, uma situação cultural desconhecida pode produzir incerteza sobre a aplicação de um conceito, como ocorre diante de um artefato no qual alguém parece sentar de maneira muito diferente daquela reconhecida como habitual.

19. A incerteza diante desse artefato parece atingir simultaneamente o observador e o próprio fato a ser reconhecido, desafiando a explicação segundo a qual toda hesitação decorreria apenas de critérios insuficientemente estabelecidos ou de um exemplar imperfeito.

20. A dificuldade intercultural diz respeito aos critérios empregados pelos outros e à possibilidade de estabelecer uma transição entre seus conceitos e os nossos, exigindo também esclarecer a gramática das próprias palavras, cujo domínio prático não assegura a capacidade de explicitar imediatamente as razões e a finalidade de suas aplicações.

21. O demonstrativo presente nas explicações gramaticais remete a fatos gerais da natureza e da cultura que já orientam a vida compartilhada, distinguindo os critérios gramaticais das características especializadas de Austin e vinculando sua posse à iniciação na participação plena de uma cultura.

22. O esclarecimento de expressões como possuir um conceito não exige previamente uma teoria geral dos conceitos, mas uma investigação daquilo que se faz ao empregar essas expressões.

23. Nos casos de Austin, possuir critérios significa reconhecer e nomear objetos específicos, enquanto, nos casos de Wittgenstein, possuir um conceito significa saber empregá-lo em relação com outros conceitos e reconhecer os contextos necessários à competência dessas combinações.

24. A possibilidade de apontar para algo depende do conceito envolvido e das circunstâncias da indicação, de modo que a dificuldade de apontar para Manhattan no interior da própria cidade não impede indicá-la facilmente de um avião ou num mapa.

25. A dificuldade filosófica de apontar para uma cor nasce da imposição de um modelo inadequado de indicação, enquanto os usos efetivos mostram que uma amostra pode permitir apontar para a cor de outro objeto sem exigir um esforço interior especial, pois a distinção entre os atos depende de suas circunstâncias e não de um sentimento único que os acompanhe.

26. Apontar para o significado de uma palavra pode constituir uma atividade perfeitamente comum, como num exercício de correspondência entre palavras e definições, revelando que o conceito de significado admite diferentes objetos de indicação conforme o contexto.

27. A objeção de que uma definição consiste apenas em outras palavras não resolve a disputa sobre o significado, pois certas palavras podem constituir, em determinadas circunstâncias, o significado de outra palavra, assim como uma sequência de movimentos pode constituir uma jogada de xadrez e um percurso pode constituir o caminho para um destino.

28. Os critérios gramaticais estabelecem a posição de um conceito no sistema de conceitos, distinguindo-se dos critérios de Austin porque esclarecem categorias gerais de objetos, como cores e significados, em vez de identificarem espécies particulares dentro de categorias já conhecidas.

29. Desconhecer os critérios de um objeto específico representa uma falta de informação, enquanto desconhecer os critérios gramaticais de uma categoria impede a própria aquisição de informações sobre seus objetos, pois certas condições conceituais precisam estar disponíveis para que algo possa ser reconhecido e receber um nome.

30. A investigação gramatical dirige-se às possibilidades dos fenômenos mediante a recordação dos tipos de afirmação que fazemos sobre eles, em vez de tentar penetrar uma realidade supostamente oculta por trás de suas manifestações.

31. Um conceito consiste no esquematismo gramatical que articula os critérios e as possibilidades de emprego de uma palavra em contextos diversos, de modo que possuí-lo significa acompanhar suas aplicações reconhecíveis sem pressupor uma enumeração completa de todos os contextos futuros.

32. As explicações dos critérios de dor de dente esclarecem o que significa possuir esse conceito e reconhecer algo que lhe corresponda, embora sua gramática pareça relativamente restrita e dependa amplamente da gramática mais geral da dor.

33. A gramática da dor compreende suas durações, localizações, intensidades, comparações, formas de manifestação e possibilidades de alívio, compondo uma geografia do sofrimento cujo esclarecimento desloca a preocupação imediata com a certeza sobre a dor alheia e permanece situado no quadro de nossa sintonia compartilhada.

34. A enumeração de descrições e reações corporais pode parecer incapaz de alcançar a própria dor do outro, convertendo os critérios em simples evidências probabilísticas e acrescentando a dificuldade de confiar na sinceridade e no significado de suas palavras.

35. O reconhecimento cotidiano da dor depende frequentemente de manifestações mínimas e variadas, cuja aparente distância em relação ao sofrimento alimenta a imagem de uma realidade inteiramente interior, embora a proximidade corporal, a supressão de seus sinais e a exigência de suportá-la pertençam ao próprio conceito de dor.

36. As palavras pronunciadas por quem sofre podem expressar a dor tão diretamente quanto um gemido, mas também podem suprimi-la ou desviar dela a atenção alheia, mostrando que a dificuldade de alcançar o sofrimento por meio da linguagem pode ocorrer igualmente na relação com a própria experiência.

37. A fala na presença da dor pode adquirir um tom de respeito, como no diálogo de Hemingway em que dois pacientes relativizam o próprio sofrimento e relacionam a contenção dos gritos à consideração pelos demais internados.

38. Uma palavra discreta ou uma alteração mínima do corpo pode exigir compaixão ou admiração de quem compreende seu significado e aceita suportar esse conhecimento, embora permaneça possível questionar a adequação da resposta.

39. A decepção filosófica com os critérios surge quando a expressão corporal é separada da dor que nela se reconhecia, fazendo o gesto parecer uma coisa e o sofrimento outra e restabelecendo o círculo da dúvida sobre aquilo que estaria por trás da manifestação.

40. O conhecimento da dor permanece incompletamente descrito enquanto se omitem as respostas que suas manifestações exigem, pois reconhecer o sofrimento envolve também a convocação para consolar, socorrer e curar, ou para reconhecer a impossibilidade de reparar aquilo que a dor rompeu.

41. A distância profissional do médico pode expressar conhecimento e cuidado em vez de indiferença, quando sua atuação oferece ao paciente uma nova relação com o sofrimento, conferindo-lhe lugar e proporção e produzindo o consolo que pode acompanhar a verdade.

42. A resposta de Keats à miséria de Burns manifesta uma atenção capaz de impedir que o sofrimento alheio seja esquecido, mesmo quando a tentativa de escrever com leveza ou de se distrair mostra-se impotente diante dessa experiência.

43. Conhecer a dor envolve responder a ela, sem exigir uma reação tão intensa quanto a de Keats, pois até o entorpecimento da sensibilidade constitui uma resposta que pode ser reconhecida e ainda deixar aberta a liberdade para responder de outra maneira.

44. A afirmação de que alguém sente dor pode expressar um conhecimento solicitado pela presença do outro, mas a resposta precisa preservar sua liberdade diante do envolvimento excessivo, enquanto a transformação desse encontro num problema de certeza pode revelar que a interrupção da comunicação ocorre em quem procura conhecer.

45. Os critérios só desempenham sua função quando são aceitos e utilizados no horizonte das formas de vida, no qual a atribuição de sensações se dirige aos seres humanos vivos e àquilo que se lhes assemelha, sendo o corpo humano reconhecível como expressão da alma.

46. Suspender os conceitos psicológicos porque seus critérios não alcançariam uma interioridade oculta significa recusar a própria resposta ao ser vivo, esvaziando o corpo de expressão e privacidade e tornando os critérios inertes, em vez de simplesmente produzir uma incerteza sobre a existência de outras mentes.

47. Quando os critérios perdem sua força, as palavras deixam de alcançar não apenas o outro, mas também a própria expressão de quem fala, mostrando que enunciá-los exige a vitalidade de um chamado, e não somente a emissão de sinais.

48. A vida interior do outro exige reconhecimento mediante uma resposta que combine desejo e coragem de precisão, enquanto a busca cética de certeza pode excluir justamente aquele que pretendia encontrar e romper a sintonia com os demais, embora a própria descrição dessa ruptura ainda precise enfrentar a dúvida sobre uma participação anterior efetivamente compartilhada.

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