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6 Crítica do juízo

CASSIRER, Ernst. Kants Leben und Lehre. Berlin: Bruno Cassirer, 1918.

I.

1. No período mais fecundo de sua vida, entre os sessenta e os setenta anos, Kant prossegue sem descanso para novos problemas, unindo a força criadora da juventude à maturidade, e a Crítica do Juízo parece à primeira vista nascer sobretudo de exigências de articulação sistemática, pois a faculdade de julgar se apresenta como mediação entre razão teórica e razão prática, destinada a mostrar natureza e liberdade, ser e dever, não em sua separação, mas em sua relação harmônica, como meio de ligar num todo as duas partes da filosofia.

2. Os conceitos da natureza repousam na legislação do entendimento e o conceito de liberdade na legislação da razão, mas entre ambos há um termo médio, o Juízo, do qual se pode presumir por analogia que contenha, se não uma legislação própria, ao menos um princípio a priori próprio, puramente subjetivo, que, sem domínio sobre um campo de objetos, possua um território em que só ele vale.

3. Embora se tenha admitido que essa analogia sistemática foi o fio condutor da obra e que estética e finalidade da natureza se uniram apenas pelo gosto de Kant pela arquitetônica, resta inexplicável que justamente essa obra tenha influído mais que qualquer outra na cultura da época, determinando o encontro de Goethe e Schiller com Kant e o rumo da filosofia pós-kantiana, e que Goethe tenha encontrado na justaposição de arte e natureza, de juízo estético e teleológico, a chave da obra, enquanto a crítica filosófica, como Stadler, a considerou um elemento acidental, o que obriga a perguntar se não haveria entre a forma da obra e seu problema de fundo um nexo mais estreito, perdido para nós mas vivo para o século XVIII.

4. O método transcendental refere-se sempre a um fato determinado, a matemática e a física para a primeira Crítica e a razão moral comum para a segunda, mas para a faculdade de julgar falta à primeira vista um fundamento unitário desse tipo, pois nenhum caminho leva diretamente da ciência descritiva da natureza à criação estética ou da consciência estética ao conceito de fim, de modo que, para que a obra não seja um salto no vazio, é preciso identificar essa unidade de fundo remontando às origens históricas da metafísica.

II.

1. O Juízo, definido como faculdade de pensar o particular contido no universal, determinante quando o universal é dado e reflexionante quando deve ser encontrado, parece coincidir com o problema da formação dos conceitos, mas esse problema esconde a doutrina da essência desde Sócrates, que fez do conceito a pergunta pelo ser, Platão, que elevou o universal a arquétipo de que os particulares participam, e Aristóteles, para quem o conceito se converte em fim, princípio imanente aos fenômenos como forças que guiam o devir, de modo que o desenvolvimento, passagem da potência ao ato e movimento orgânico, une particular e universal, ser e devir, forma e matéria.

2. O neoplatonismo amplia o conceito de desenvolvimento à emanação do Uno ao mundo sensível e revela pela primeira vez a correlação entre o problema biológico e o estético, pois tanto na geração dos animais quanto na criação artística o logos formador imprime a forma à matéria, ideia que passa pela Academia florentina, Michelangelo, Bruno, Shaftesbury e Winckelmann, para os quais a obra de arte exprime a forma interior do universo e o fenômeno da beleza e o da vida se reúnem no fenômeno fundamental da formação, e cuja formação do real remete a um intelecto supremo, distinguindo-se o conhecimento discursivo do intelecto finito, que compara e classifica, do intelecto intuitivo divino, que, gerando a forma do real, a apreende num único olhar.

3. Essa concepção atravessa a Idade Média e a filosofia moderna, adaptando-se a cada imagem do mundo, como em Espinosa, para quem o conhecimento matemático genético garante um conhecimento intuitivo cujo correlato realista é a substância única de infinitos atributos, contraposta à imaginação, em Kepler, cujo demiurgo traz em si proporções e harmonias estéticas, e em Shaftesbury, que retorna ao conceito de forma interna e a uma forma de todas as formas, concepção ainda viva no século XVIII alemão e premissa latente da Crítica do Juízo.

4. Os conceitos da tradição metafísica da forma são os marcos sistemáticos da obra, que centra a relação entre universal e particular, une estética e teleologia, belo e organismo, conceito empírico e fim, e culmina no intelecto arquetípico, mas sua posição histórica só se esclarece estudando-a em seu ambiente e não à luz do darwinismo, pois Kant, com sua revolução no modo de pensar, não investiga a natureza das coisas, mas a direção que o conhecimento toma ao julgar algo como finalístico, e, sendo juízo e objeto correlatos, o reino da arte e o das formas orgânicas só podem afirmar-se como campos próprios pela descoberta de um novo tipo de juízo, distinto do teórico e do prático, cuja necessidade cabe determinar como subjetiva ou objetiva.

5. Essa tarefa não traz um elemento estranho, pois desde a carta a Herz a questão transcendental abrange todas as modalidades de validade objetiva, e a Crítica do Juízo apenas diferencia um novo tipo de pretensão de validade, de modo que a mediação entre natureza e liberdade não consiste em inserir um reino de essências intermediárias, mas em descobrir um modo de consideração que participe de ambos os princípios, pensando a natureza de forma que sua legalidade se concilie com os fins da liberdade, o que implica uma mudança na posição sistemática recíproca de todos os conceitos críticos.

III.

1. O problema da formação individual do real recebe sua expressão no conceito de finalidade, entendido no sentido amplo do século XVIII como concordância das partes de um múltiplo numa unidade, tradução alemã da harmonia leibniziana, pela qual um todo deixa de ser agregado e se torna sistema cujas funções se fundem num significado único, como no universo das mônadas.

2. A consideração crítica volta-se não à forma da realidade, mas à de nossos conceitos, e todo sistema de conhecimentos já apresenta essa coesão finalística, como a geometria euclidiana, construída gradualmente a partir de princípios simples num desenvolvimento ilimitado mas dominável, de modo que há finalidade não só nas formas acidentais da natureza, mas também nas formações necessárias da intuição e do conceito puro.

3. No círculo e nas seções cônicas há princípios para resolver uma infinidade de problemas, e os geômetras antigos investigavam suas propriedades sem perguntar por sua utilidade, como a parábola antes da lei da gravidade, encontrando uma finalidade na essência das coisas cognoscível a priori, o que levou Platão ao entusiasmo e às ideias, explicando-se a admiração por uma finalidade que parece destinada a nosso uso e, contudo, pertencer originariamente às coisas.

4. Após a Estética transcendental, o entusiasmo cede à concepção crítica de que a ordem dos objetos geométricos foi posta por nós por construção, mas diante de um múltiplo empírico surge um problema novo, pois toda investigação pressupõe que as próprias percepções se deixem inserir num sistema análogo ao geométrico, como fazia Kepler com as seções cônicas e as órbitas, restando perguntar donde vem a confiança de que o dado seja compreensível e seus elementos possuam uma afinidade originária.

5. A Crítica da razão pura parece já ter respondido ao mostrar que a legalidade dos fenômenos é a do próprio entendimento, mas a ciência concreta apresenta algo mais, uma articulação de leis particulares numa sucessão gradual do simples ao complexo, como na história da mecânica de Galileu a Kepler, Huygens e Newton, cujo progresso não se explica apenas pela correspondência entre os princípios newtonianos e as analogias da experiência, pois essa compreensibilidade da ordem não pode ser provada necessária a partir das leis puras do entendimento.

6. Segundo essas leis seria pensável que o real obedecesse à causalidade, mas com séries causais tão emaranhadas que não pudéssemos separá-las, de modo que a ordem da ciência empírica exige que o conceito empírico medeie progressivamente o dado com o universal por uma série contínua de estágios intermediários, especificando-se as leis supremas em leis e casos particulares e estes revelando os nexos universais.

7. Na biologia e nas ciências descritivas, diante de uma massa aparentemente ilimitada de fatos, o pensamento científico exige sem hesitar que o material se organize em gêneros e espécies, função imutável que não prescreve conteúdos, mas a forma das ciências classificatórias, revelando uma afinidade que só encontramos na natureza porque devemos buscá-la segundo um princípio do Juízo, não determinante e constitutivo, mas reflexionante e regulativo, que no particular busca conexões cada vez mais amplas, e a concordância contingente dos fenômenos com essa vontade de forma constitui uma finalidade formal, referida aos conceitos e não às coisas, mas objetiva por fundar a existência da própria ciência empírica.

8. É o progresso imanente das tarefas do criticismo, e não o mero aperfeiçoamento arquitetônico, que conduz à Crítica do Juízo, cuja descrição mais profunda se encontra na primeira introdução, depois substituída por uma versão mais breve.

9. A primeira introdução, publicada por Beck de modo abreviado e com título enganoso, começa recusando a mediação popular entre teórico e prático que chama práticas disciplinas como a política, a dietética ou a pedagogia, pois tais proposições são apenas técnicas, aplicações da teoria à produção de algo, como a regra da alavanca, enquanto a verdadeira distinção prática só existe entre causalidade natural e liberdade.

10. Além da técnica humana, há uma técnica da natureza, que consiste em considerá-la como se sua possibilidade se fundasse numa arte e numa vontade formadora, ponto de vista não dado pelo objeto, mas acrescentado pela reflexão como formação de segundo grau sobre um todo já objetivado pelas intuições e categorias, pensamento que julga a natureza apenas por analogia com a arte e em relação subjetiva à faculdade de conhecer, compatível com o entendimento somente se reivindicar uma validade de tipo diferente.

11. A técnica da natureza se esclarece em analogia com as conexões lógicas, pois a natureza é a totalidade dos objetos da experiência possível e a experiência não é soma de observações nem mero conjunto de regras abstratas, mas a ligação da singularidade com a universalidade num sistema segundo leis empíricas.

12. Embora a experiência constitua um sistema segundo leis transcendentais, a infinita multiplicidade e heterogeneidade possíveis das leis empíricas tornam o conceito de um sistema delas estranho ao entendimento, e no entanto a experiência particular precisa dessa conexão sistemática para que o Juízo possa subsumir o particular ao universal até as leis empíricas supremas, sem o que não haveria unidade empírica.

13. A essa possível falta de forma opõe-se o Juízo com uma máxima heurística que presume uma legalidade contingente para o entendimento, sem fundar conhecimento teórico nem princípio prático, e assim as sentenças da sabedoria metafísica, como a lei da parcimônia e da continuidade, aparecem como expressões transcendentais do Juízo, princípio a priori que pressupõe uma economia e homogeneidade da natureza adequadas a nós como condição de organizar sistematicamente as experiências.

14. A crítica separa-se da metafísica porque esta ligava a formação individual do real a um intelecto absoluto, ao passo que Kant converte a ideia de potência criadora nas coisas em princípio da cognoscibilidade das coisas, admitindo que a razão refira a ordem dos fenômenos a uma inteligência arquetípica, mas denunciando a ilusão de transformá-la num ente originário existente, pois o absoluto é tarefa e não dado, e o Juízo, ao pensar a unidade das leis empíricas como se produzida por um intelecto, dá lei não à natureza, mas a si mesmo, como heautonomia.

15. Dizer que a natureza especifica suas leis universais segundo um princípio de finalidade relativo à nossa faculdade de conhecer não prescreve lei à natureza nem a extrai da observação, mas exprime um princípio do Juízo reflexionante que permite investigar as leis empíricas, sem o qual não poderíamos ampliar a experiência nem adquirir conhecimento.

16. Enquanto a metafísica explica a formação individual da natureza como autodesdobramento real de um universal, a perspectiva crítica vê nisso apenas uma pergunta dirigida à natureza, cuja resposta progressiva cabe à experiência, de modo que, onde particular e universal ainda não se compenetram, o Juízo não pode deformar o material, mas afirma que a questão não é insolúvel por estar não resolvida, prosseguindo incessantemente a mediação por ser fundada numa função essencial da razão.

17. Considerar a natureza como especificando suas leis num sistema compreensível é vê-la como arte, e a esse lado objetivo corresponde, segundo a dupla caracterização própria do método crítico, uma função subjetiva da consciência, que surpreendentemente é o sentimento de prazer, antes considerado o exemplo típico do não determinável legalmente, pois toda concordância harmônica que favorece o conjunto de nossas faculdades sem razão suficiente nas leis do entendimento é acompanhada de prazer, como um acaso feliz, ao contrário das leis universais da natureza, cuja necessidade dissipa a admiração.

18. A conformidade da ordem das leis particulares da natureza, em sua possível heterogeneidade, à nossa faculdade de compreender é contingente, e sua descoberta, perseguindo um fim necessário do entendimento, gera prazer determinado por um princípio a priori e válido para todos, de modo que a unificação de leis heterogêneas sob um princípio é fonte de notável prazer, prazer que na experiência comum já se confundiu com o simples conhecimento, enquanto nos desagradaria uma natureza cuja heterogeneidade impedisse reduzir as leis particulares a leis gerais.

19. O prazer, antes puramente empírico e individual, é agora incluído no determinável a priori e ganha significado comum a todos, retificando-se o juízo da primeira Crítica que considerava fracassada a esperança de Baumgarten de uma crítica do gosto científica, e essa retificação não procede do estudo direto da arte, mas de um passo adiante na crítica do conhecimento teórico, pois a descoberta de uma conexão finalística do particular levou a buscar na consciência um momento que exprimisse a legalidade do contingente e a investigar uma formação a priori no próprio individual.

20. Da teoria lógica da conceitualização empírica e da classificação das formas naturais Kant chega ao limiar da estética crítica, pois a finalidade lógica da natureza, por si só, seria artificiosa e acessível apenas ao filósofo transcendental, o que conduz a perguntar se há uma forma finalística dos fenômenos que fale imediatamente ao sentimento e uma conformação individual com legalidade própria irredutível à ciência, ponto em que o sentido metafórico da arte na técnica da natureza passa ao sentido próprio e a teleologia geral acolhe a crítica do Juízo estético.

IV.

1. O reino da arte é um reino de formas puras, cada uma fechada em si e com centro próprio, mas em nexo dinâmico com as outras, relação que nem a teoria, em que o singular é caso de uma lei, nem a ética, em que o indivíduo é portador do imperativo universal, podem exprimir, pois só na intuição artística o singular, repousando em si e tendo em si seu fim, apresenta um novo todo, sendo ele mesmo o universal que contém simbolicamente seu significado.

2. Enquanto no plano teórico o todo da experiência é tarefa e todo juízo empírico permanece fragmento num conjunto de relações, o fato da arte, pressuposto como todo fato transcendental, apresenta outra ligação entre singular e todo, que se exprime numa nova forma de juízo distinta da subsunção do Juízo determinante.

3. A nova forma não compromete a unidade da função judicativa, sempre espontaneidade e momento da posição de objetos, e distingue-se da faculdade de julgar da estética alemã do século XVIII, que abstraía regras de obras dadas, por buscar a legalidade originária da consciência que funda toda apreensão estética, e, negativamente, por não decompor o fenômeno em condições causais, mas mantê-lo como se dá, reunindo as partes numa visão global da imaginação e captando apenas seu puro valor de presença na simples contemplação.

4. A consciência estética distingue-se também da prática, pois, se a teoria decompõe o ser em causas e efeitos e a prática em fins e meios, a contemplação estética apresenta o conteúdo numa plenitude qualitativa que dispensa todo princípio ou fim exterior e capta na momentaneidade um significado atemporal, donde a definição do belo como o que agrada na simples contemplação, distinto do agradável, que atrai os sentidos, e do bom, que agrada pelo conceito.

5. Do lado objetivo, a objetividade do objeto estético difere da realidade visada no juízo empírico ou no desejo, pois a satisfação do juízo de gosto é desinteressada, isto é, alheia a todo interesse pela existência da coisa.

6. Diante de um palácio, pode-se reprovar a vaidade dos grandes ou dizer que numa ilha deserta bastaria uma cabana, mas a questão é apenas se a simples representação do objeto é acompanhada de prazer, independentemente de sua existência, pois o juízo de beleza mesclado ao menor interesse é parcial e não puro juízo de gosto.

7. Revela-se aqui a peculiaridade da espontaneidade e da subjetividade estética, pois a espontaneidade lógica determina o objeto por leis e a autonomia moral quer realizar suas exigências no mundo, ao passo que a função estética não pergunta o que é o objeto nem quais seus efeitos, mas o que faço em mim de sua representação, substituindo a realidade efetiva pela unidade ideal da pura imagem.

8. Só nesse sentido o mundo estético é mundo da aparência, conceito que afasta a realidade efetiva e a causalidade, inclusive a da liberdade, subordinando o belo à regra da configuração interior, de modo que a abstração da existência constitui a objetividade própria da representação estética como intuição da pura forma, não alcançada enquanto o interesse pelo real se mistura ao interesse pela construção da forma.

9. A finalidade sem fim perde seu caráter paradoxal ao distinguir a formação imanente de um todo, cujo centro está em si, da destinação externa a um fim, e o desinteresse não significa quietude inerte, como objetado em nome de Herder e Schiller, pois exclui apenas a vontade e o desejo sensível e deixa livre o movimento da imaginação, transferindo a comoção dos afetos para o puro jogo dos afetos e das funções fundamentais da consciência, cuja universalidade explica a comunicabilidade universal do estado estético, sentimento do livre jogo das faculdades de representação em relação a um conhecimento em geral.

10. Para que de uma representação nasça conhecimento são necessárias a imaginação, que une o múltiplo da intuição, e o entendimento, que dá a unidade do conceito, e, como o juízo de gosto deve ser comunicável sem conceito determinado, essa comunicabilidade só pode ser o estado de livre jogo entre imaginação e entendimento em sua concordância apropriada ao conhecimento em geral, relação subjetiva que deve valer para todos.

11. Embora a união de imaginação e entendimento pareça reconduzir ao uso empírico da imaginação produtiva descrito no esquematismo, o acento recai aqui não sobre o conhecimento, mas sobre a unidade, pois a atitude estética renuncia a classificar objetos por conceitos empíricos, e o entendimento, tomado em sentido amplo como faculdade de delimitar, sustenta o movimento da imaginação dando-lhe contornos de formas estáveis, numa interpenetração harmônica das duas funções.

12. Entendimento e intuição não se opõem mais como heterogêneos a ligar por um esquematismo, mas fundem-se, pois não se subsume uma intuição singular a um conceito singular, como o prato redondo ao conceito de círculo, mas harmonizam-se as funções, num livre jogo que concerne às faculdades e não às representações, e cuja expressão atinge imediatamente o sentimento vital do sujeito.

13. Representar pela faculdade cognitiva um edifício regular é coisa distinta de ter consciência dessa representação com o sentimento de prazer, em que ela é referida inteiramente ao sujeito e a seu sentimento vital, dando lugar a uma faculdade de julgar que nada contribui para o conhecimento, mas relaciona a representação dada com a faculdade representativa em sua totalidade.

14. No juízo empírico a experiência singular é comparada com o sistema das experiências e sua unidade se constrói ponto por ponto, ao passo que no estado estético a intuição presente faz consoar de imediato a totalidade das faculdades, e a obra de arte institui de um só golpe a unidade da disposição de ânimo, expressão imediata da unidade do eu e do sentimento concreto da vida.

15. Nessa relação entre singularidade e totalidade está a chave da forma de universalidade do juízo estético, que a consciência comum confirma ao tratar o agradável como privado e o belo como exigindo validade para todos.

16. Seria ridículo dizer que algo é belo para mim, pois quem chama algo belo exige dos outros o mesmo prazer, julga por todos e fala da beleza como qualidade da coisa, não por ter encontrado concordância, mas por exigi-la, de modo que dizer que cada um tem seu gosto equivaleria a negar que o gosto exista.

17. Essa exigência não se confunde com demonstrabilidade conceitual, como supunha a estética iluminista, e a tarefa crítica é compreender uma universalidade sem mediação conceitual, pois o estado estético apreende o sentimento da vida na totalidade de seus momentos e, enquanto a comunicação teórica da sensação a traduz em grandezas mensuráveis, dissolvendo cor e som em vibrações e substituindo o conteúdo vivido por um signo abstrato, a consciência estética surge precisamente onde se trata de comunicar a experiência vivida.

18. A consciência estética afirma uma comunicabilidade universal entre sujeitos que não precisa passar pelo objetivo conceitual, de modo que no belo cada sujeito, absorto em seu estado interior, sabe-se ao mesmo tempo livre de toda particularidade e portador de um sentimento geral.

19. A universalidade subjetiva é a universalidade da própria subjetividade, que amplia e não limita a validade, pois os sujeitos que se elevam ao livre jogo das faculdades põem em movimento a mesma função fundamental que faz do eu um eu, de modo que o sentimento artístico, sendo sentimento do eu, é também sentimento de um cosmo e de uma vida universais, e o eu, objetivando-se numa obra da imaginação, conserva nela sua comoção singular e a comunica a todos os capazes de compreendê-la.

20. O sujeito está num meio universal distinto do da coisidade científica, pois, à diferença da descrição científica de uma paisagem, na pintura ou na lírica os traços do objeto, quanto mais nítidos, mais se revelam traços de uma comoção psíquica transmitida ao contemplador, revelando-se um universo não da objetividade, mas da subjetividade, que inclui o eu e todas as outras individualidades e realiza um universal que não se opõe ao individual, mas só nele se cumpre.

21. A comunicabilidade universal, que não é demonstrabilidade, resolve-se porque quem julga esteticamente, sentindo-se livre de toda condição privada, deve fundar sua satisfação no que pode pressupor em qualquer outro e esperar de todos uma satisfação semelhante.

22. Fala-se do belo como se fosse qualidade do objeto e o juízo fosse lógico, porque se pode pressupor sua validade para todos, mas essa universalidade não provém de conceitos, e o juízo de gosto postula apenas uma voz universal e exige o consentimento de cada um como caso de uma regra cuja confirmação espera da adesão alheia e não de conceitos.

23. Kant chega assim à questão central da estética do século XVIII, a oposição entre regra extraída de modelos e liberdade criadora do gênio, que Lessing resolvera dizendo que o gênio não recebe regra de fora, mas é ele mesmo a regra, tese que Kant retoma e aprofunda no quadro da autolegalidade do espírito ao definir o gênio como o talento que dá a regra à arte.

24. Toda arte pressupõe regras, mas o conceito de arte bela não permite derivar o juízo sobre a beleza de uma regra fundada num conceito, de modo que a arte bela não pode encontrar por si a regra de seus produtos e é preciso que a natureza dê a regra à arte no sujeito, sendo a arte bela possível apenas como produto do gênio.

25. A unidade objetiva da obra resulta da unidade da disposição, e no gênio máxima individualidade e universalidade, liberdade e necessidade se compenetram, sendo ele original e exemplar, encontrando no centro da personalidade a força da comunicabilidade universal que só se exprime na obra, cuja regra deve ser abstraída do produto como modelo não da imitação, mas da criação sucessiva, e distinguindo-se da produtividade científica não por diferença psicológica, mas porque o saber científico, uma vez comunicado, só tem a forma do conceito objetivo e exige o apagamento da personalidade, ao passo que tudo o que o artista dá vale pelo que ele é.

26. Historicamente, a doutrina kantiana do gênio media entre o Iluminismo e o romantismo, tornando-se ponto de partida das concepções de Schelling e Friedrich Schlegel, que deram à imaginação estética um significado cósmico absoluto, mas separa-se delas pelo apriorismo crítico, que nunca reduz o a priori a uma faculdade metafísica única e mantém a espontaneidade estética distinta da lógica e da volitiva, numa gradação de subjetividade e objetividade em que nem o ser das leis naturais nem o dever moral se entregam ao jogo da imaginação, que, contudo, tem campo próprio.

27. Limitar o gênio à arte dá ao conceito uma expressão clara contra a confusão das belas ciências na filosofia popular, já criticada por Lambert e Lessing, pois o grande pensador científico, por mais que invente, não é gênio.

28. O que Newton expôs pode ser aprendido, pois ele poderia mostrar a qualquer um todos os passos de suas descobertas, mas não se aprende a poetar genialmente, já que nenhum Homero ou Wieland sabe como suas ideias se formaram, de modo que na ciência o maior inventor difere do imitador apenas em grau, enquanto o gênio artístico difere especificamente.

29. A criação inconsciente do gênio opõe-se também à intenção do agir, e com a finalidade sem fim Kant rompe com a teoria de Baumgarten, que subordinava o belo à perfeição sensivelmente conhecida e dominava a filosofia escolar e até a ode de Schiller, pois toda perfeição pressupõe uma medida objetiva, sendo contraditória uma perfeição formal sem fim, de modo que foi o rigorista moral que rompeu com o racionalismo moral na estética, já que, excluídos prazer e desprazer da ética, abria-se para eles nova objetivação e universalidade, e o prazer desinteressado, presente já em Plotino, Shaftesbury, Mendelssohn e Moritz, só na posição sistemática kantiana fundou um novo conceito da essência e origem do espiritual.

30. A síntese mais alta entre os princípios ético e estético é alcançada na Analítica do sublime, que, ao contrário da certa frieza da Analítica do belo, une em Kant precisão conceitual, pathos moral, atenção psicológica e visão transcendental, e responde à pergunta se o ilimitado não tem valor estético próprio, pois o sublime surge diante do que ultrapassa absolutamente nossa capacidade de compreensão, matemática ou dinamicamente, grandeza absoluta que não pode estar nos objetos, onde toda grandeza é relativa, mas surge quando a medida se transfere ao sujeito e à totalidade das funções da consciência, convertendo a supressão do limite numa nova determinação positiva.

31. O infinito, que para o conhecimento teórico se desfazia numa ideia dialética, torna-se aqui totalidade sentida, e sublime é aquilo em comparação com o qual tudo o mais é pequeno.

32. Nada na natureza é tão grande que não possa ser reduzido ao infinitamente pequeno, nem tão pequeno que não possa ser ampliado num mundo, como mostram telescópios e microscópios, mas a desproporção entre a tendência da imaginação ao infinito e a exigência de totalidade absoluta da razão desperta o sentimento de uma faculdade suprassensível, de modo que sublime não é o objeto, mas a disposição de ânimo, e sublime é aquilo que, só por poder ser pensado, atesta uma faculdade do ânimo superior a toda medida dos sentidos.

33. O sublime só se eleva à reflexão estética ao transferir seu fundamento dos objetos para a disposição de ânimo, e, ao contrário do belo, em que a imaginação joga com o entendimento, aqui ela se relaciona com a razão e suas ideias, reduzindo-se por fim à ideia de liberdade, de modo que o que pertence ao sentimento de nós mesmos e de nossa tarefa inteligível é convertido por sub-repção em predicado das coisas naturais.

34. Ninguém chamaria sublimes por si mesmas massas montanhosas informes ou o mar tempestuoso, mas o ânimo se eleva em sua própria estima quando, contemplando-as sem atenção à forma, se entrega à imaginação e a uma razão que a amplia, descobrindo a inadequação de toda imaginação às ideias da razão.

35. A natureza é julgada sublime não por ser assustadora, mas por despertar em nós uma força que não é natureza e que considera insignificantes bens, saúde e vida, sem reconhecer no poder natural um domínio sobre nossa personalidade e nossos princípios supremos, elevando a imaginação a representar a sublimidade de nossa destinação acima da natureza.

36. Referido à autolegislação, o sublime parece recair inteiramente no ético, pois sua psicologia remete ao sentimento de respeito, mistura de prazer e desprazer em que nos sentimos esmagados como seres finitos e elevados pela faculdade das ideias, dificuldade que só se resolve admitindo que a sub-repção persiste mesmo reconhecida, pois a intuição permanece estética apenas ao ver a destinação do espírito através da intuição da natureza, num espelhamento recíproco de eu e mundo pelo qual a infinitude da natureza, antes mero pensamento, ganha verdade sentida no reflexo da infinitude do eu.

37. Compreende-se assim a tese de que a Crítica do Juízo mostra o fundamento da unidade entre o suprassensível da natureza e o da liberdade, sem conhecê-la teórica ou praticamente, pois, embora nada se possa conjecturar sobre como esse fundamento se cinde, há um fenômeno inegável em que natureza e liberdade entram em nova relação, a compreensão artística, cuja obra, totalmente sensível, transborda o sensível e faz do sentimento do eu sentimento do universo, como na lírica goethiana, garantindo imediatamente essa unidade sem fantasias abstratas, segundo a diretriz crítica de unir as direções da consciência num ponto imaginário além da experiência possível.

38. A doutrina do substrato suprassensível visa não uma coisa originária, mas a função originária do espiritual, pois a comunicabilidade universal do juízo estético remete a um nexo a que os sujeitos pertencem independentemente de suas diferenças, no qual se apresenta o fundamento inteligível não dos objetos, mas da humanidade.

39. O gosto visa o inteligível, no qual concordam as faculdades superiores, e nele o Juízo, livre da heteronomia das leis empíricas, dá lei a si mesmo quanto aos objetos de um prazer puro, como a razão quanto ao desejo, vendo-se ligado a algo no sujeito e fora dele, nem natureza nem liberdade, mas unido ao princípio desta, o suprassensível, em que as faculdades teórica e prática se unem de maneira comum e desconhecida.

40. Essa maneira desconhecida é conhecida ao menos pelo conceito que a funda, a autonomia ou autolegalidade do espírito, centro do sistema kantiano, pois, se a unidade objetiva de natureza e liberdade permanece tarefa infinita barrada pela antinomia, sua unidade subjetiva realiza-se no sentimento e na criação artística, em que a natureza aparece como obra da liberdade e a obra livre do gênio como produto necessário da natureza, desde que não se converta essa consideração em conhecimento teórico do real, e assim o jogo harmônico das faculdades dá à natureza o teor da vida e o Juízo estético passa ao teleológico.

V.

1. O conceito de fim sofreu a revolução do modo de pensar, deixando de ser força natural nas coisas para tornar-se princípio espiritual de conexão, tanto na finalidade formal, acordo dos fenômenos com as exigências do entendimento, quanto na estética, reflexo da unidade da disposição, mas resta perguntar se há uma consideração em que o fim seja momento objetivamente necessário do próprio fenômeno e como justificá-la criticamente.

2. A finalidade afirma uma nova unidade do múltiplo em que o todo é origem das partes, mas nos casos anteriores esse todo era ideal, postulado da reflexão, ao passo que no campo da vida o fim parece intervir como conteúdo da própria natureza, pois o conceito de vida implica uma atividade que vai da unidade à pluralidade e do todo às partes, sendo as particularidades expressões de uma única essência.

3. A tendência a essa unidade constitui o desenvolvimento, em que o todo está contido nas partes como princípio diretor e passado, presente e futuro se entrelaçam, tipo de conexão chamado organismo, no qual o todo precede as partes e cada fase só ganha sentido como meio em vista da totalidade das manifestações vitais.

4. Num produto da natureza assim cada parte existe por meio das outras e para as outras e o todo, não como simples instrumento, mas como órgão que produz as outras partes e é por elas produzido, e só então, como ser organizado e que se organiza a si mesmo, pode chamar-se fim da natureza.

5. Quando o pensamento do fim não se refere às faculdades, mas é intuído como objeto concreto, surge o conceito de organismo, pelo qual as coisas, enquanto fins da natureza, são seres organizados.

6. Essa interpretação objetiva não é metafísica da natureza, mas crítica do Juízo, que pergunta se nossa avaliação é obrigada a admitir uma forma de coisa distinta do corpo da mecânica, e essa posição é um fato inegável da consciência cognitiva, tão impossível de eliminar da interpretação da natureza quanto a vontade ou a criação estética da do espírito, mostrando-se no fenômeno o contraste entre o mecanismo de um relógio e o corpo vivo.

7. Num relógio uma parte serve ao movimento das outras, mas não as produz, nem o relógio produz outro relógio, repõe partes ou se corrige, ao passo que o ser organizado não é simples máquina com força motriz, mas possui força formadora que comunica à matéria e não se explica pelo mecanismo.

8. A árvore gera outra árvore segundo a espécie e produz a si mesma como indivíduo, renovando suas partes num crescimento que não é mero aumento mecânico de massa, pois elabora a matéria conferindo-lhe qualidade específica, de modo que o objeto natural, determinado quantitativamente pelo entendimento, ganha uma qualidade própria que é propriedade de seu devir e indica sua direção individual.

9. Os fenômenos naturais adquirem assim nova significação sem referência a fins externos, aplicando-se de novo a finalidade sem fim contra a teleologia iluminista, que, desde Wolff e Brockes, confundia finalidade e utilidade para o homem, que o jovem Kant já ironizava com Voltaire, e contra o deísmo do relojoeiro divino, pois a finalidade da natureza não remete a uma causa transcendente, mas à estrutura imanente, sendo a finalidade relativa sempre problemática, já que o fim em si pertence ao campo da liberdade, enquanto o organismo, cujas partes se voltam para um centro que se refere a si mesmo, é seu equivalente simbólico no ser objetivo.

10. Diferentemente do estético, o juízo teleológico partilha seu objeto com o juízo de experiência, e como a causalidade é o meio indispensável para objetivar a sucessão temporal, nenhum campo da natureza pode ser subtraído a ela sem sair da ordem temporal objetiva, de modo que o desenvolvimento orgânico deve ser explicável causalmente a partir do precedente e do ambiente, sem lugar para forças agentes segundo fins.

11. O fim não pode, portanto, ser princípio de explicação dos fenômenos naturais, cujo único ideal é a física matemática, que explica um fenômeno determinando-o como grandeza e deduzindo-o de leis quantitativas, exigência que deve ser mantida mesmo onde a análise ainda não foi realizada, e a Crítica do Juízo começa constatando que na ideia geral da natureza não há razão para admitir que as coisas sirvam umas às outras como meios a fins, o que seria introduzir sofisticamente o fim na natureza por analogia com a ligação de nossas representações.

12. Para que o pensamento finalístico tenha validade objetiva sem conflitar com a causalidade, deve relacionar-se com a experiência pela mediação do próprio conceito causal, promovendo-o e guiando-o como princípio regulativo, pois nos fenômenos orgânicos é preciso primeiro delimitar descritivamente o todo e isolar séries de membros reciprocamente pertencentes antes da dedução causal, função que o conceito de fim cumpre, servindo à síntese e à indução e gerando unidades relativas, como o olho estudado como destinado à visão cujo processo se explica causalmente.

13. O conceito de formas naturais segundo fins é um princípio a mais para reduzir fenômenos a regras onde a causalidade mecânica não basta, mas, se se admitissem causas intencionais e se fizesse dele princípio constitutivo da derivação dos produtos, pertenceria ao Juízo determinante e introduziria na ciência uma causalidade derivada de nós e atribuída a outros seres.

14. Na antiga disputa sobre o fim, o conceito metafísico de fim é de fato asylum ignorantiae, como dizia Espinosa, mas seu uso empírico é meio de conhecimento cada vez mais rico dos nexos da natureza orgânica, servindo como máxima do Juízo reflexionante para conhecer as leis empíricas e não a possibilidade interna das formas, e, como a explicação causal apenas determina o lugar de cada fenômeno no espaço e no tempo sem compreender o como da passagem, o princípio finalístico, sem resolver esse mistério, dispõe os fenômenos em torno de um novo centro, sendo indispensável porque toda derivação causal dos seres vivos pressupõe um estado inicial de organização e germes originários, de modo que a antinomia se dissolve no acordo entre duas máximas complementares da razão.

15. Dizer que devo julgar todos os produtos da natureza material segundo leis mecânicas não significa que sejam possíveis apenas desse modo, mas que devo refletir sobre eles segundo o princípio do mecanismo tanto quanto possível, o que não impede investigar certas formas e até a natureza inteira segundo o princípio das causas finais, pois a razão, seguindo o mecanismo, poderá conhecer outras leis, mas jamais formará o conceito do caráter específico de um fim natural.

16. A conciliação entre fim e mecanismo exige que ambos renunciem a uma teoria dogmática da origem última da natureza, pois o conceito de um ser que, por intelecto e vontade, seja princípio originário da natureza é logicamente possível, mas transcendentalmente indemonstrável e permanece um estranho na ciência, enquanto o pensamento causal deve renunciar a fornecer as causas primeiras da vida organizada, cuja complexidade infinita revela seus limites.

17. É certo que não podemos conhecer e muito menos explicar os seres organizados por princípios puramente mecânicos, sendo absurdo esperar um Newton que explique a produção de uma folha de erva por leis não ordenadas por intenção, mas seria temerário afirmar que na natureza não possa haver um princípio oculto que a explique sem intenção, pois verossimilhanças não valem nos juízos da razão pura.

18. Pode-se supor que as duas linhas se encontrem no suprassensível, como na harmonia preestabelecida de Leibniz, mas para Kant o suprassensível é a projeção de uma meta inatingível além da experiência, que indica apenas a necessidade de usar ambos os procedimentos em seus âmbitos, abandonando as afirmações objetivas da metafísica sobre matéria ou Deus inertes ou vivos e dando aos princípios o valor de máximas para um uso seguro da razão, fundadas na exposição para o Juízo reflexionante e não na explicação para o determinante.

19. O princípio que parecia conduzir à causa transcendente reconduz à estrutura da experiência, configurando a realidade como totalidade de formas de vida, e, diferentemente do estético, que se separava do mundo empírico como mundo do jogo, o juízo teleológico interage continuamente com o entendimento, chamando o princípio causal e indicando-lhe tarefas, pois atribuir um produto a uma intenção da natureza é tautológico, e a perpétua inconclusividade dessa busca é sua fecundidade, que não resolve os enigmas do mundo, mas aguça o olhar para a riqueza individual dos fenômenos vitais.

20. Kant pode então contrapor seu princípio ao da metafísica tradicional pela oposição entre intelecto discursivo e intuitivo, pois para um intelecto infinito e criador desapareceria o contraste entre possível e real, pensado e existente, contingente e necessário, ao passo que o intelecto humano só apreende o todo pela construção progressiva das partes e, mesmo deduzindo, alcança apenas a universalidade analítica do conceito.

21. Nosso intelecto vai do universal analítico dos conceitos ao particular da intuição empírica, sem determinar a variedade do particular, mas podemos conceber um intelecto intuitivo que vá do universal sintético do todo às partes, de modo que, para representar as partes como dependentes do todo, só podemos fazê-lo considerando a representação do todo como causa de sua forma, isto é, como fim, donde se segue que a causalidade dos fins depende da constituição de nosso intelecto e concerne não à possibilidade das coisas, mas ao juízo sobre elas, bastando mostrar que a comparação de nosso intelecto discursivo e ectípico com sua contingência nos leva à ideia não contraditória de um intellectus archetypus.

22. Todas as linhas da crítica convergem aqui, em páginas que Schelling julgou incomparavelmente densas, e a distinção entre intelecto arquetípico e ectípico não opõe existentes, mas pontos de orientação para caracterizar nossos meios cognitivos, rejeitando tanto Aristóteles, para quem o fim é o fundamento inteligível de todo ser, quanto Espinosa, para quem é ilusão da imaginação, pois o fim nasce do contraste entre nosso intelecto finito e a exigência do incondicionado, sendo sua subjetividade universal e expressão da condição da razão humana, inaplicável ao intelecto absoluto, para o qual não haveria contingência nem pluralidade de casos possíveis, mas indispensável ao nosso pensamento, que se move no dualismo entre universal e particular e tenta superá-lo sem nunca consegui-lo, de modo que o fim e a vida orgânica dão à experiência sua infinitude imanente e a transformam num todo vivo de fenômenos, fenômeno originário que conduz aos limites da natureza humana para compreendê-los e a eles resignar-se.

23. A síntese entre princípio finalístico e mecanismo concretiza-se no conceito kantiano de desenvolvimento, conceito finalístico que pressupõe um sujeito unitário dos fenômenos vitais, mas que deve ser explicado causalmente em todas as suas fases, exigência firme em Kant desde que encontrou o desenvolvimento no próprio mundo cósmico do mecanismo, convertendo a teoria geral do céu em história natural do céu e opondo um novo ideal de conhecimento à classificação sistemática de Lineu.

24. A história da natureza, ainda quase inexistente, ensinaria as modificações da Terra e das criaturas por migrações naturais e as variedades derivadas do tronco primitivo, reconduzindo provavelmente à mesma espécie muitas raças hoje tidas por diversas e transformando a classificação escolástica num sistema físico adequado ao entendimento.

25. A natureza só se funde numa unidade clara para o entendimento quando seguida em seu devir e não como coexistência rígida de formas, pensamento que a Crítica do Juízo justifica pelo princípio da finalidade formal, segundo o qual só compreendemos um múltiplo ao vê-lo brotar de um princípio que se especifica, chegando a um conceito de natureza que torna cognoscível o nexo na transição entre espécies, em vez de separá-las por caracteres fixos como Lineu.

26. Aplicar esse postulado ao conjunto das formas naturais não é uma invenção genial, mas conclusão necessária das premissas metodológicas, partindo da exigência de toda explicação da natureza posta pelo conceito de experiência científica.

27. É da maior importância não perder de vista o mecanismo na explicação dos produtos naturais, sem o qual não se compreende a natureza das coisas, pois mesmo admitindo que um arquiteto supremo tenha criado ou predeterminado as formas naturais, isso nada acrescentaria ao conhecimento, já que não conhecemos seu modo de agir nem podemos explicar a natureza de cima para baixo.

28. É igualmente necessária a máxima de não negligenciar o princípio dos fins, princípio heurístico que, incompatível com o mecanismo como princípio de explicação, é compatível como princípio de exposição, de modo que, devendo explicar mecanicamente tudo o que for possível e chegando por fim a uma organização originária apenas teleologicamente compreensível, é louvável percorrer pela anatomia comparada a criação orgânica em busca de um sistema segundo o princípio genético.

29. A concordância de tantas espécies animais num esquema comum, que pela simplicidade de um plano, encurtando, alongando, envolvendo e desenvolvendo partes, produziu tamanha variedade, dá esperança de algo alcançar pelo mecanismo e reforça a hipótese de um parentesco real numa mãe comum, numa gradação do homem ao pólipo, aos musgos e à matéria bruta, permitindo ao arqueólogo da natureza fazer nascer do seio da Terra criaturas cada vez mais adaptadas até que a matriz se enrijeça em espécies definidas, mas ele terá de atribuir a essa mãe universal uma organização finalística, apenas adiando a explicação sem tornar a produção dos reinos independente das causas finais.

30. Nessa passagem exprime-se todo o caráter do pensamento kantiano, unindo observação, imaginação sintética, audácia intuitiva e prudência crítica, pois Kant, como Goethe, enfrentou a aventura da razão de uma série genética unitária dos organismos guiado pela bússola crítica e vendo desde o início seus limites, tomando a evolução não como conceito metafísico da origem da vida, mas como princípio que representa a riqueza e conexão de suas formas, e, mantendo o dualismo entre coisa em si e fenômeno, mostrando que a coisa em si como ideia completa o conceito de realidade empírica numa totalidade sistemática, de modo que a Crítica do Juízo confirma o veredicto contra a metafísica dogmática, mas enfrenta-a em seu próprio campo e, permanecendo filosofia transcendental, amplia e aprofunda a concepção kantiana do conhecimento até torná-la capaz de abarcar o todo da vida natural e espiritual como um único organismo da razão.

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