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Brague

Rémi Brague (1947–)

Filósofo, historiador da filosofia e ensaísta francês, membro do Institut de France (Académie des Sciences Morales et Politiques), professor emérito da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e titular da cátedra Romano Guardini na Universidade Ludwig-Maximilians de Munique (2002–2012), Rémi Brague é uma das maiores autoridades mundiais na história do pensamento medieval e na fenomenologia das religiões monoteístas. Poliglota e profundo conhecedor das fontes gregas, latinas, hebraicas e árabes clássicas, Brague notabilizou-se pela reconstrução genealógica das matrizes ontológicas e teológico-políticas do Ocidente. Sua obra magna articula uma vasta trilogia sobre as transformações históricas dos conceitos fundamentais da civilização: a representação do cosmos (La sagesse du monde), a justificação existencial da humanidade (La loi de Dieu) e a legitimação do ser humano perante o niilismo moderno (Le règne de l'homme). Recebeu o prestigioso Prêmio Ratzinger de Teologia em 2012 por suas contribuições ao diálogo entre a razão filosófica, a revelação cristã e a herança do Islão e do Judaísmo.

1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais Francesas)

  • BRAGUE, Rémi. Le restant: Supplément aux commentaires du Ménon de Platon. Paris: Vrin, 1978.
    • Foco: Tese de doutorado orientada por Pierre Aubenque; exegese fenomenológica rigorosa do diálogo Mênon de Platão, investigando a natureza do resíduo aporético da anamnese, a virtude e os limites da transmissão do saber filosófico.
  • BRAGUE, Rémi. Du temps chez Platon et Aristote: Quatre études. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1982.
    • Foco: Exame filológico e ontológico das concepções de tempo na Grécia clássica; contraposição entre a imagem móvel da eternidade no Timeu platônico e a medida do movimento segundo o antes e o depois na Física de Aristóteles.
  • BRAGUE, Rémi. Aristote et la question du monde: Essai sur le contexte cosmologique et anthropologique de l'ontologie. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1988.
    • Foco: Tese de Estado; monumental investigação sobre o conceito grego de cosmos e a sua vinculação estrutural com a morada e o agir do ser humano, demonstrando que a ontologia aristotélica é inseparável de uma cosmologia de inclusão física do vivente.
  • BRAGUE, Rémi. Europe, la voie romaine. Paris: Criterion, 1992. (Edição aumentada: Paris: Gallimard, 1999).
    • Foco: Obra seminal de filosofia da história e da cultura; introdução do conceito fundacional de “romanidade” (romanité) como a estrutura própria da identidade européia. Demonstra que a Europa não possui um conteúdo substantivo autóctone exclusivo, definindo-se antes pela consciência de sua própria exterioridade e dependência em relação a fontes que lhe são anteriores e externas (Atenas e Jerusalém), apropriadas segundo o modelo formal de Roma (a transmissão, a tradução e a modéstia de saber-se tributária de uma herança alheia).
  • BRAGUE, Rémi. La sagesse du monde: Histoire de l'expérience humaine du cosmos. Paris: Fayard, 1999.
    • Foco: Primeiro volume da grande trilogia cosmo-antropológica; traça a evolução da relação ontológica entre o homem e o universo físico desde a Antiguidade e a Idade Média até a revolução científica moderna. Examina a perda contemporânea da “cosmologia sapiencial”, na qual o universo operava como modelo moral e harmonioso para a conduta ética do homem.
  • BRAGUE, Rémi. La loi de Dieu: Histoire philosophique d'une alliance. Paris: Gallimard, 2005.
    • Foco: Segundo tomo da trilogia; investigação genealógica comparada sobre as relações entre religião, lei e ordem política nas três grandes tradições monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islão). Demonstra que, enquanto o Islão concebe a Lei divina como uma ordenação totalizante e insuperável das ações práticas humanas (Sharia) e o Judaísmo a inscreve no pacto comunitário da Torá, o Cristianismo operou a dessacralização da lei positiva profana, dissociando a salvação da legislação civil mundana.
  • BRAGUE, Rémi. Le règne de l'homme: Genèse et échec du projet moderne. Paris: Gallimard, 2015.
    • Foco: Terceiro e conclusivo volume da trilogia; diagnóstico implacável da crise da modernidade. Analisa a substituição da cosmologia e da teologia pelo “projeto moderno” do domínio técnico absoluto da terra pelo homem, mostrando como a emancipação do sujeito que recusa todo fundamento transcendente termina por privar a própria sobrevivência biológica e moral da humanidade de qualquer razão intrínseca de existir.
  • BRAGUE, Rémi. Les ancres dans le ciel: L'infrastructure métaphysique. Paris: Seuil, 2011.
    • Foco: Tratado de epistemologia e ontologia cultural; demonstração de que a civilização moderna consome os capitais metafísicos herdados da Idade Média e da Antiguidade sem repô-los, postulando que uma sociedade não pode justificar a bondade da própria existência terrena sem recorrer a “âncoras no céu” (fundamentos transcendentes e supramundanos).
  • BRAGUE, Rémi. Modérément moderne. Paris: Flammarion, 2014.
    • Foco: Coletânea de ensaios e debates contemporâneos sobre os limites do iluminismo instrumental, a laicidade, a genealogia dos direitos humanos e os riscos de implosão demográfica e espiritual das sociedades democráticas liberais.
  • BRAGUE, Rémi. Des vérités devenues folles. Paris: Salvator, 2019.
    • Foco: Aprofundamento do aforismo de G. K. Chesterton sobre o mundo moderno estar repleto de “virtudes cristãs enlouquecidas”; exame de conceitos desvirtuados como humanitarismo abstrato, liberdade emancipada de limites morais e justiça punitiva divorciada da verdade ontológica.

2. Edições Críticas, Traduções de Fontes Árabes e Hebraicas

  • MAÏMONIDE. Traité d'éthique: Huit chapitres. Traduction de l'arabe, introduction et notes par Rémi Brague. Paris: Desclée de Brouwer, 2001.
    • Foco: Tradução direta do árabe medieval dos Huit Chapitres (Shemonah Perakim) de Moisés Maimônides, introdução fundamental aos comentários sobre o tratado mishnaico Pirkei Avot, explicitando a integração judaica da ética aristotélica.
  • IBN RUSHD (AVERROÈS). Discours décisif sur l'accord de la religion et de la philosophie. Introduction et apparat critique en collaboration. Paris: Flammarion, 1996.
    • Foco: Participação e comentários exegéticos em torno do tratado jurídico e filosófico no qual Averróis defende a legitimidade e a obrigatoriedade religiosa do estudo da filosofia racional pelos crentes letrados no Islão.

3. Principais Edições e Traduções em Língua Portuguesa

  • BRAGUE, Rémi. Europa, a via romana. Tradução de José Gabriel Pereira Bastos. Lisboa: Editorial Teorema, 1994.
    • Foco: Tradução em língua portuguesa de Europe, la voie romaine; texto essencial para os estudos de filosofia política e história das mentalidades, definindo a identidade européia como uma apropriação secundária e humilde de heranças clássicas e bíblicas.
  • BRAGUE, Rémi. A sabedoria do mundo: História da experiência humana do cosmos. Tradução de Joana Chaves. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.
    • Foco: Edição integral de La sagesse du monde; indispensável para os currículos universitários de epistemologia e cosmologia filosófica, analisando o colapso da harmonia cósmica após Galileu e Descartes.
  • BRAGUE, Rémi. A lei de Deus: História filosófica de uma aliança. Tradução de Maria do Rosário Pernas. Lisboa: Instituto Piaget, 2008.
    • Foco: Tradução portuguesa de La loi de Dieu; obra canônica de teologia política e história comparada dos monoteísmos, adotada nos estudos das relações entre religião civil, direito e sagrado.
  • BRAGUE, Rémi. A legitimidade do humano: O projeto moderno e a questão do homem. Tradução brasileira. São Paulo: É Realizações, 2021.
    • Foco: Versão integral de Le règne de l'homme; obra que desmonta os pressupostos antropocêntricos da técnica planetária e expõe a urgência do resgate de uma justificação metafísica para o ser humano.

4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica

  • O Modelo da “Segundidade” e a Via Romana (La Romanité): Ao investigar o enigma da identidade ocidental, Brague recusa as visões essencialistas que pretendem definir a Europa por uma essência nacionalista homogênea ou por um milagre autóctone puro. A marca distintiva da civilização européia é a sua “estrutura romana” ou “segundidade” (secondarité). Diferentemente dos gregos, que se consideravam originários e superiores aos bárbaros, os romanos sabiam-se herdeiros secundários de uma civilização cultural e intelectualmente superior à sua (a Grécia helênica), assim como assumiram uma religião nascida fora de suas fronteiras (o cristianismo judaico). Essa consciência de não ser a própria fonte geradora impele a Europa a uma atitude permanente de tradução, renascimento e descentramento contínuo: a Europa é o continente que sempre vai buscar fora de si mesmo os textos, modelos e ideais que a fundam.
  • Da Cosmologia Antiga à Morte da Sapiência Cósmica: Para os filósofos da Antiguidade clássica e da Idade Média cristã, judaica e árabe, o cosmos era compreendido como uma ordem harmoniosa (taxis / ordo), bela e ontologicamente boa, reflexo direto do Intelecto divino. O ser humano encontrava no mundo sua pátria física e moral: viver retamente significava harmonizar a alma com a ordem perfeita dos corpos celestes. Com a revolução copernicana, a física galileana e o mecanicismo cartesiano do século XVII, essa cumplicidade foi irremediavelmente rompida. O universo deixou de ser uma morada ontológica providencial para converter-se em um conjunto silencioso de massas materiais extensas movidas por forças matemáticas cegas desprovidas de valor moral. A partir de então, o homem vê-se lançado como um intruso alienado em um espaço vazio, tendo de inventar para si mesmo um sentido que a natureza não mais lhe oferece.
  • O Fracasso do Projeto Moderno e a Justificação do Humano: A consequência suprema da perda da cosmologia e da recusa da teologia foi o nascimento do “reino do homem” moderno: a pretensão prometeica de submeter a totalidade do real ao império do cálculo, da indústria e da técnica instrumental autônoma. Contudo, Brague aponta a aporia suicida inscrita no coração desse humanismo autosuficiente: se o ser humano é fruto de um acaso cego evolutivo em um cosmos indiferente, e se nenhuma transcendência divina confere dignidade inalienável à sua existência, não subsiste razão metafísica sólida pela qual o homem seja superior a qualquer outro ente biológico, nem argumento definitivo para justificar por que é imperativo que a espécie humana continue a existir sobre a terra. Para Brague, a humanidade não pode fundar a si mesma a partir de si mesma; o ser humano só pode ser defendido e legitimado perante a tentação do niilismo se for acolhido como dom e vocação inscritos em uma realidade que o transcende e ultrapassa ontologicamente.
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