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Aristóteles e a questão do mundo

BRAGUE, Rémi. Aristote et la question du monde. Paris: PUF, 1988.

Introdução

Capítulo I — Um ponto cego do helenismo

  • 1. O ideal do saber direto
  • 2. A presença em pessoa
  • 3. A latência da facticidade
    • a. A natureza (physis) como continuidade (Píndaro)
    • b. A coerência do cosmos, substituto da origem inacessível (Platão, Timeu)
  • 4. O enigma do ser-no-mundo
    • a. Os nomes do mundo
    • b. «No mundo»
  • 5. A presença total
  • 6. A ausência da presença
  • 7. Aristóteles como exemplo

Capítulo II — As ambiguidades do Protréptico

  • 8. A abordagem de conjunto
  • 9. O conhecimento
  • 10. A escolha necessária e impossível
  • 11. O encerramento no pensamento
  • 12. Três contrários da vida
    • a. A loucura
    • b. O sono
    • c. A morte
  • 13. A vida em ato
  • 14. Conhecer e ser
  • 15. Conhecer o que é

Capítulo III — Do eu ao homem

  • 16. A sabedoria para si
    • a. «Saber para si»
    • b. Tudo me diz respeito
  • 17. O eu e o homem
  • 18. Eu mesmo
    • a. O kairos
    • b. A seriedade da virtude
    • c. O sujeito inamissível
    • d. O desejo de si
  • 19. A experiência de si
  • 20. O cuidado
    • a. «Cuidar-se» (phrontizein)
    • b. A verdade sobre mim mesmo
    • c. O logos inesquecível
  • 21. A aidos

Capítulo IV — Posição do homem

  • 22. O amor de si
  • 23. «Sou homem»
  • 24. Uma ética antropológica
    • a. O eu e o espírito
    • b. «O que sou» é «aquele que sou»?
  • 25. A obra do homem
  • 26. O uso
    • a. O instrumento
    • b. «Usamos tudo»
  • 27. O homem no universo
    • a. Entre o animal e o astro
    • b. Presença total e presença no Todo
    • c. Permanência e abrangência como critérios da «bondade»

Capítulo V — O animal mundano

  • 28. Primazia do homem
    • a. O animal mais conhecido e mais cognoscível
    • b. O animal mais perfeito
    • c. O animal mais conforme ao universo
  • 29. Temporalidade
    • a. O animal não fixado
    • b. A relação com o que não é
    • c. O animal inacabado
  • 30. Diversidade
  • 31. Universalidade
  • 32. As definições do homem
    • a. O animal racional
    • b. O animal político

Capítulo VI — O lugar

  • 33. A deriva cosmológica da física
  • 34. Rumo ao lugar próprio como «teu» lugar
  • 35. A situação total e sua latência
  • 36. Entre fenomenologia e cosmologia
    • a. As dimensões estão «na natureza»
    • b. Da physis como aparecer à physis como universo
  • 37. As dimensões
    • a. A espacialidade do vivente
    • b. O alto e o baixo
    • c. A frente e o atrás
    • d. A direita e a esquerda

Capítulo VII — A alma e o todo

  • 38. Crítica da alma do mundo
  • 39. A definição da alma e suas dificuldades
  • 40. «Todas as coisas»
    • a. Percepção
    • b. Intelecto
  • 41. A alma e o acidente
    • a. Acaso
    • b. A alma movida por acidente
    • c. O tato
  • 42. Da alma à consciência
    • a. O presente no tempo e fora do tempo
    • b. Redução à consciência
    • c. Aparecimento da esfera
  • 43. A contemplação do presente

Capítulo VIII — O mundo entre mim e Deus

  • 44. A vida do mundo
  • 45. A eternidade do movimento
  • 46. O Abrangente
  • 47. A pertinência ontológica da continuidade
    • a. Geração e plenitude
    • b. O encadeamento do ser
    • c. O paradigma cosmológico da ontologia
    • d. A morte exorcizada
  • 48. A exclusão do movimento humano
    • a. Caráter não físico da ação humana
    • b. A vinda ao ser (genesis) como exemplo fundamental
  • 49. Do universo ao seu motor
  • 50. O que faz o Primeiro Motor
    • a. Rumo ao pensamento
    • b. A diagōgē
    • c. O intelecto ou o despertar?
    • d. A indecisão do pensamento do pensamento

Capítulo IX — O ser em ato

  • 51. Um texto singular (Metafísica, Θ, 6, 1048b 18–35)
    • a. Um aerólito aristotélico
    • b. Ato e movimento
  • 52. Presente e perfeito
  • 53. «Em conjunto»
  • 54. A experiência da vida
    • a. Privilégio da vida humana
    • b. A felicidade como experiência da temporalidade
    • c. Historicidade da vida
  • 55. O fato da percepção
  • 56. A interioridade da vida
  • 57. Ato e facticidade
  • 58. Movimento e facticidade
    • a. Definição
    • b. Logos

Conclusão


1. o objetivo desta obra é descrever o pensamento de Aristóteles a partir de certos traços que parecem caracterizar o centro de seu pensamento filosófico, situando-se esse centro no interior de uma constelação formada por quatro dos domínios ou disciplinas cujos nomes são também títulos de obras do corpus aristotélico: a metafísica, a ética, a psicologia e a física, permanecendo fora do quadro deste estudo, e convocadas apenas marginalmente, a lógica, a biologia, a política, a retórica e a poética.

2. são, contudo, três conceitos que não fazem parte do vocabulário de Aristóteles que fornecerão a estrutura básica a partir da qual se procederá à descrição buscada: os três domínios da ontologia, da antropologia e da cosmologia, não se tratando de tratar o conjunto por eles formado — cada qual exigindo volume próprio — nem tampouco de tratá-los sumariamente por justaposição, pretendendo-se antes mostrar como cada um exerce sobre os outros dois influência que os orienta em certa direção, e como a inflexão assim recebida faz o pensamento de Aristóteles desenhar figura determinada.

3. a mola interna de cada um desses três domínios parece ser um deslizamento no interior de um único e mesmo conceito, o conceito de mundo, não se entendendo por isso o que o próprio Aristóteles compreendia sob os termos kosmos e ouranos, a saber, a totalidade ordenada da realidade formando o universo, mas antes o conceito fenomenológico de “mundo”, que designa aquilo em que estamos — de tal modo que constitui um dos elementos de uma estrutura cuja compreensão implica ao mesmo tempo a do “nós” e a do “somos” — sendo o lugar central do conceito de mundo neste trabalho o que explica seu título.

4. o conceito de mundo, embora não seja questão tematizada por Aristóteles, é uma questão endereçada a seu pensamento, precisa e paradoxalmente na medida em que dele está ausente, sendo mesmo, para dizê-lo com Heidegger, com quem aqui incessantemente se dialoga, o grande ausente do pensamento grego clássico, razão pela qual só foi possível abordar Aristóteles depois de mostrar, num primeiro capítulo, quais aspectos desse pensamento permitem situar e interpretar essa ausência, revelando-se esta marcar tanto o helenismo anterior a Aristóteles quanto o posterior a ele.

5. é, contudo, sobretudo em Aristóteles que essa ausência produz efeitos dignos de estudo, sendo por isso a ele que convém, antes de tudo, colocar a questão do mundo, deixando de ser exercício arbitrário ou perverso ler Aristóteles ao fio do conceito de mundo, do qual se supõe que nele não se encontra: se se pode descrever toda uma dimensão do aristotelismo como resultante da ausência de um conceito, esse conceito assume valor hermenêutico que nenhum outro conceito pós-aristotélico aplicável ao estudo da obra do Estagirita poderia reivindicar.

6. além disso, o conceito de mundo não está simplesmente ausente em Aristóteles: falta — no sentido de que o pensamento aristotélico é animado por uma tensão em direção àquilo que o uso de tal conceito lhe permitiria pensar, devendo constituir a segunda tarefa deste trabalho localizar os rastros dessa tensão e, ao fazê-lo, ver como Aristóteles ultrapassa os limites do helenismo.

7. o presente texto constitui a versão revista e abreviada de uma tese de doutorado em letras apresentada à Universidade Paris-Sorbonne (Paris IV), preparada sob a orientação de Pierre Aubenque, defendida em 7 de março de 1986 perante banca que incluía também Jean-François Marquet (presidente), Jean Bollack, Jacques Brunschwig, Jean-François Mattéi e Jean Pépin, não podendo ter sido escrita sem a longa hospitalidade oferecida pelo CNRS e sem o ambiente de amizade e trabalho constituído pelo Centro de Pesquisa sobre o Pensamento Antigo (Centro Léon-Robin, UA 107).

  • a obra não teria sido publicada em sua forma atual sem as preciosas observações recebidas por ocasião da defesa de sua primeira versão, e depois de Irène Fernandez, que gentilmente releu a versão atual, nem teria sido publicada, sem mais, não tivesse Jean-Luc Marion mais uma vez feito a gentileza de acolhê-la na prestigiosa coleção que dirige.
  • o tempo necessário à redação não veio sozinho, resultando dos esforços de todos os que, ao redor, parentes e amigos, aceitaram liberar de tarefas que, por isso, tornaram-se mais pesadas para eles, encontrando-se em primeiríssimo lugar a esposa, razão pela qual é apenas justiça que este livro lhe seja dedicado.

8. o grego é transcrito quando as palavras têm valor de conceito (por exemplo, physis, logos etc.), permanecendo em caracteres gregos quando constitui citação referenciada, caso em que a frase original vem sempre acompanhada de tradução própria, como em toda vez que não se indica nome de tradutor.

9. para abreviar, suprimiram-se muitas discussões de estilo filológico destinadas a justificar escolha textual ou tradução, indicando-se, nesse caso, se se seguem os manuscritos (mss), tal manuscrito (indicando-se a sigla recebida), ou a emenda proposta por um editor ou tradutor (pela simples menção de seu nome), devendo entender-se, quando um comentador é mencionado sem referência precisa, que se remete a seu comentário no ponto estudado.

10. remete-se aos autores contemporâneos apenas pela menção de seu nome e do ano de publicação da obra (com a, b etc., quando há vários textos do mesmo ano), tal como figura na bibliografia ao final deste volume.

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