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1 Discípulo?

BOUVERESSE, Jacques. Philosophie, mythologie et pseudo-science: Wittgenstein lecteur de Freud. Combas [France]: Editions de l’Eclat, 1991.

Wittgenstein: discípulo de Freud?

1. A psicanálise parece constituir menos a ciência de uma geração do que sua última paixão remanescente, conforme a observação de Karl Kraus em “Psicologia não autorizada”, de 1913.

2. A psicanálise não recebe uma discussão sistemática na obra de Wittgenstein, mas aparece em observações dispersas e conversas como exemplo de problemas filosóficos mais amplos, sobretudo os relativos à distinção entre razões e causas, às modalidades de explicação e à natureza da linguagem, do simbolismo, da mitologia e das ciências.

3. O reconhecimento de Freud como uma revelação intelectual e a disposição de Wittgenstein para se declarar seu discípulo coexistiam com críticas severas às pseudoexplicações psicanalíticas, numa atitude que admitia a importância de uma teoria sem deixar de considerá-la equivocada, como também ocorria em sua relação com o próprio Tractatus.

4. As leituras freudianas de Wittgenstein concentravam-se sobretudo nas obras anteriores à Primeira Guerra Mundial, especialmente A psicopatologia da vida cotidiana e A interpretação dos sonhos, embora sua familiaridade com a psicanálise provavelmente fosse mais ampla e incluísse algum conhecimento dos Estudos sobre a histeria, de Breuer e Freud.

5. A originalidade intelectual pode residir na maneira singular de desenvolver ideias recebidas, como um solo que transforma as sementes nele lançadas, sendo possível reconhecer em Breuer o germe da psicanálise e em Freud a coragem original de fazê-lo crescer.

6. A convicção de que a prática de Freud dependia de qualidades pessoais insubstituíveis levou Wittgenstein a considerar que a psicanálise morrera com seu fundador, sem diminuir seu interesse pela obra escrita em colaboração com Breuer.

7. A ausência de Freud na relação de pensadores que Wittgenstein reconhecia como influências de seu trabalho de esclarecimento enfraquece a hipótese de uma ascendência decisiva da psicanálise sobre sua filosofia, cuja relevância não se media pela popularidade cultural de uma doutrina.

8. A descrição wittgensteiniana de palavras como “alma” e “mente” como instrumentos de linguagem não favorece o espiritualismo nem autoriza uma apropriação psicanalítica de sua filosofia, enquanto a valorização de suas observações sobre temas culturalmente prestigiosos ameaça obscurecer os problemas filosóficos que efetivamente constituíam o centro de seu trabalho.

9. A possibilidade de exercer a psiquiatria ao lado de Drury chegou a integrar os projetos de Wittgenstein, que em 1936 sugeriu uma prática conjunta caso obtivesse a qualificação médica.

10. O conhecimento adquirido pela psicanálise pode criar novos problemas éticos sem fornecer sua solução, razão pela qual a reserva pessoal de Wittgenstein, sua resistência ao exibicionismo e sua desconfiança das certezas psiquiátricas sustentavam uma atitude de perplexidade diante da loucura e até o questionamento de sua classificação necessária como doença.

11. A convivência de Wittgenstein com familiares e amigos analisados, especialmente sua irmã Margarete, tornou praticamente inevitável seu contato com Freud e permitiu-lhe perceber que a psicanálise despertava tanto resistência quanto entusiasmos especulativos cuja intensidade estava longe de garantir respeitabilidade científica.

12. A curiosidade especulativa também levou Wittgenstein a submeter-se à hipnose em 1913, na expectativa de ampliar suas capacidades de resolver problemas lógicos, mas a experiência fracassou ao produzir um estado no qual se sentia incapaz de exercer a vontade ou realizar qualquer esforço intelectual.

13. A curiosidade de Wittgenstein pela psicanálise nunca se converteu em adesão, distinguindo-o de integrantes do Círculo de Viena que a acolhiam como empreendimento racionalista e progressista, pois ele rejeitava a concepção científica do mundo e considerava as construções freudianas especulações anteriores até mesmo à formulação de hipóteses.

14. As reservas de Wittgenstein à psicanálise raramente foram submetidas a diagnósticos psicanalíticos, embora Stephen Toulmin tenha sugerido que sua formação, semelhante à de Virginia Woolf, lhe impusera a expectativa historicamente situada de um domínio completo sobre a própria vida psíquica.

15. A hipótese de que uma orientação terapêutica teria corrigido o perfeccionismo destrutivo de Wittgenstein permanece incerta diante de testemunhos como o de Fania Pascal, que não o considerava neurótico e atribuía sua distância de Freud à ausência de uma necessidade pessoal de análise.

16. A comparação entre filosofia e psicanálise preocupava Wittgenstein sobretudo pelos equívocos que provocava, pois a existência de analogias entre ambas não eliminava a diferença entre suas técnicas nem justificava transformar uma semelhança parcial numa identidade de métodos.

17. A possibilidade de sua filosofia sofrer a mesma mecanização e vulgarização que identificava na psicanálise fazia Wittgenstein temer os efeitos de seus seguidores, capazes de converter um trabalho exigente de esclarecimento em fórmulas disponíveis para tratar indiscriminadamente supostas enfermidades filosóficas.

18. A filosofia da psicologia de Wittgenstein não manifesta uma filiação freudiana, pois a distinção entre consciente e inconsciente pode ampliar as confusões conceituais, enquanto o esclarecimento filosófico exige reconhecer o que já está acessível, em vez de desenterrar conteúdos supostamente ocultos.

19. A aproximação entre Wittgenstein e Freud exige procurar o fundamento da analogia em uma direção diferente da adesão à teoria psicanalítica.

20. A influência exemplar de Freud sobre Wittgenstein pode residir tanto na substituição de interpretações aparentes por outras mais profundas e menos lisonjeiras quanto na demonstração do poder de fascinação de uma mitologia, favorecendo uma atitude simultânea de aceitação e recusa.

21. O trabalho filosófico aproxima-se de uma autoanálise porque transforma a própria maneira de interpretar e ver as coisas, exigindo a superação de resistências afetivas e a renúncia a formas de expressão cuja inutilidade conceitual não impede que sejam emocionalmente difíceis de abandonar.

22. As dificuldades infantis diante da matemática, frequentemente reprimidas pela educação sem serem resolvidas, devem recuperar o direito de formular suas dúvidas e exigir esclarecimento, mesmo que os matemáticos tenham aprendido a desprezá-las como manifestações imaturas.

23. A terapia filosófica apresenta analogias com a psicanálise ao tornar exprimível aquilo que perturba, depender do reconhecimento da descrição por quem sofre a dificuldade e avançar de modo indireto, permitindo que o contrassenso se manifeste antes de esclarecer suas fontes, em vez de impor imediatamente um diagnóstico.

24. Os ensinamentos filosóficos e psicanalíticos podem embriagar seus receptores com a impressão de terem encontrado uma fórmula universal, de modo que sua utilização sóbria exige uma atitude crítica particularmente difícil quando a adesão à doutrina se transforma em submissão intelectual.

25. A recusa de Wittgenstein em fundar uma escola, associada à esperança de que uma transformação da vida tornasse supérfluos os problemas filosóficos, aproximava sua cautela da de Breuer e a afastava da segurança de Freud ao organizar um movimento destinado a difundir suas descobertas.

26. A humildade de Breuer diante dos fatos e das explicações alheias aparece com especial clareza na conclusão de sua contribuição teórica aos Estudos sobre a histeria.

27. O ecletismo pode ser legítimo quando diferentes explicações de um fenômeno preservam parcelas de verdade, cabendo a uma compreensão futura integrar perspectivas parciais numa descrição mais completa, em vez de descartá-las em favor de uma interpretação exclusiva.

28. Mesmo que o conhecimento disponível sobre a histeria permanecesse semelhante a um jogo impreciso de sombras, seria razoável esperar alguma correspondência entre os processos reais e as representações teóricas elaboradas para compreendê-los.

29. A afinidade de Wittgenstein com o ceticismo de Breuer decorria de sua oposição à exigência freudiana de uma explicação única e correta, pois a determinação de preservar um paradigma sedutor a qualquer custo constitui uma fonte de confusão filosófica e um caminho para a produção de mitologias.

30. A construção da imagem do cientista heroico que vence preconceitos para impor descobertas revolucionárias não impressionava Wittgenstein, que recusava tanto tomar a resistência sofrida como prova de verdade quanto aceitar o sensacionalismo científico como medida da importância filosófica de Freud, Cantor ou Gödel.

31. A admiração de Wittgenstein pela inteligência e pela imaginação de Freud coexistia com a desconfiança de seus preconceitos e de sua falta de sabedoria, numa avaliação que não se reduz ao puritanismo católico e se relaciona antes à busca de clareza e honestidade consigo mesmo, encontrada no exame de consciência e na literatura de Gottfried Keller.

32. A identificação de Wittgenstein com os conflitos pessoais do protagonista de O verde Henrique e sua prática de registrar reflexões em diários revelam uma preferência pela autoanálise literária e pessoal, considerada potencialmente mais sábia do que as promessas sedutoras de um conhecimento psicanalítico cientificamente autorizado.

33. A aplicação indiscriminada da psicanálise a escritores e artistas, inclusive mortos e incapazes de contestar os diagnósticos, exemplificava a falta de prudência que alimentava as reservas de Wittgenstein e que levara Karl Kraus a romper com o movimento após ser submetido a uma interpretação depreciativa de sua personalidade.

34. A interpretação psicanalítica pode encerrar seus alvos num sistema sem saída quando transforma qualquer manifestação, inclusive a contestação do diagnóstico, em confirmação de complexos e impulsos inconscientes cuja existência somente o analista se considera autorizado a determinar.

35. A suspeita de Wittgenstein diante das explicações psicanalíticas da arte e da literatura provavelmente envolvia a insuficiência de sua diversidade explicativa diante da complexidade dos fenômenos, produzindo uma confusão entre ordens distintas semelhante à que ele identificava em certas pretensões abrangentes da teoria evolucionista.

36. A crítica wittgensteiniana à compreensão freudiana da religião decorre da impossibilidade de tratar determinadas crenças fundamentais como simples erros ou superstições desmentidos pela ciência, pois algumas imagens constituem o próprio solo sobre o qual o pensamento e a vida encontram apoio.

37. A dificuldade central da explicação freudiana da religião não está na expectativa de converter os fiéis por argumentos científicos, cuja ineficácia o próprio Freud reconhecia, mas no psicologismo que confunde a investigação das origens das crenças com a compreensão da função do simbolismo religioso.

38. A definição freudiana de ilusão como crença dominada pela realização de desejos não se ajusta à concepção de Wittgenstein, para quem a impossibilidade de confrontar certas crenças religiosas com a realidade decorre de sua natureza lógica, e não apenas de mecanismos psicológicos de evasão.

39. A crença religiosa pode constituir uma decisão apaixonada por um sistema de referência que orienta a vida e seus julgamentos, sendo sua transmissão uma apresentação desse modo de ver acompanhada de um apelo à consciência capaz de suscitar uma adesão livre.

40. Um sistema de referência adotado para julgar a realidade não pode ser avaliado simplesmente pela correspondência com essa mesma realidade, de modo que exigir sua justificação como se fosse uma hipótese revela um equívoco conceitual que a investigação psicológica das motivações não resolve.

41. A analogia com a paranoia permite a Freud interpretar como irracionais as concepções de mundo presentes na mitologia, na religião e na própria filosofia.

42. A concepção freudiana da mitologia como projeção de processos psíquicos inconscientes no mundo exterior atribui à ciência a tarefa de reconduzir as construções sobrenaturais à psicologia, transformando a metafísica em metapsicologia.

43. A objeção de Wittgenstein à redução da metafísica à metapsicologia reside no caráter igualmente mitológico da ciência que pretende realizá-la, pois o esclarecimento das ilusões filosóficas não dispõe de uma fundamentação científica nem depende da descoberta de processos inconscientes que expliquem sua origem.

44. Embora Freud reconhecesse que a determinação psicológica de uma teoria não invalida sua verdade, seu projeto de substituir a metafísica pela metapsicologia ultrapassava essa prudência e retomava a pretensão, considerada ingênua por Wittgenstein, de eliminar os sistemas filosóficos em favor de uma concepção científica do mundo.

45. A censura de Wittgenstein ao excesso de engenhosidade de Freud também refletia uma autocrítica, pois ambos compartilhavam imaginação e habilidade para explorar analogias, enquanto o brilho intelectual, por mais sedutor que fosse, não garantia profundidade, seriedade ou sabedoria.

46. O reconhecimento do poder sedutor das explicações freudianas não demonstra que Wittgenstein tenha vivido sob sua soberania intelectual, sendo exagerado transformar suas observações críticas numa narrativa de emancipação da psicanálise ou pressupor, sem comprovação suficiente, que Freud tenha sido um interlocutor privilegiado de sua filosofia.

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