Ser e Nada
BORNHEIM, Gerd A. Sartre: metafísica e existencialismo. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.
O SER E O NADA COMO CISÃO INSUSTENTÁVEL
1. O problema fundamental da obra de Sartre reside na relação entre o ser (em-si) e o nada (para-si), cuja análise parece instaurar um dualismo invencível entre os dois termos.
2. O em-si é o ser e o para-si fundamenta-se no nada pelo poder nadificador que o constitui, o que gera a impressão de um dualismo insuperável que tornaria a inteligibilidade irrealizável e o homem seria abandonado ao mutismo absoluto.
- Sartre reconhece a gravidade da questão e a necessidade de transcender o dualismo para evitar a incomunicabilidade entre as duas regiões do real.
- A solução proposta pelo autor é que o para-si e o em-si são reunidos por uma ligação sintética que é o próprio para-si, que atua como princípio de reunião do que está separado.
3. A reunião entre os dois reinos se dá pelo poder nadificador do para-si, que tem sua origem no seio do ser, o que exige um exame minucioso da noção de ser para compreender a problemática inerente a essa relação.
4. Sartre utiliza o exemplo da microfísica para ilustrar que uma força minimamente nadificadora, originada no em-si, é suficiente para provocar um transtorno total que não resulta na destruição, mas na constituição do mundo, sendo o para-si a própria nadificação do ser.
5. O para-si é definido como uma “privação singular” e não como uma substância autônoma, o que elimina o problema da cisão entre os dois reinos, pois a consciência é uma “pente glissante” que sempre remete ao em-si, sendo a sua ligação com o ser algo natural e não problemático.
6. A eliminação do problema da cisão é contestável, pois a diferença entre o em-si e o para-si no plano ontológico é plenamente constatável no plano fenomenológico, mas ao passar para o ontológico, Sartre parece fazer um salto injustificável, tratando a diferença como se não existisse mais.
7. O para-si, embora tenha sua origem no em-si e tenda a ele, mantém-se como outro que não o em-si, e essa diferença perde consistência ontológica, pois o problema do fundamento do diferente não é justificado, o que tende a um monismo metafísico.
8. O pensamento de Sartre tende a um monismo ontológico, onde o em-si esgota a realidade do real, mas, ao contrário de Platão, a dicção do fundamento (o em-si) é tautológica e inútil, enquanto o para-si só pode ser dito pela contra-dicção, o que torna a análise existencial uma mera aparência de dicção ontológica.
- A dicção propriamente ontológica não encontra fundamento, pois a pergunta pelo fundamento do para-si é frustrada ou truncada.
- Não se verifica a dicção do fundamento do para-si como diferente do em-si, nem como idêntico a ele, pois a dicção é ou tautológica ou restrita ao plano fenomenológico.
9. Sartre afirma a primazia do ser sobre o nada para negar a cisão ontológica, mas, ao fazê-lo, o para-si não pode mais ser pensado ontologicamente, sendo necessário admitir uma primazia tanto do ser quanto do nada para pensar a contradição que é o para-si, pois o fundado é irredutível ao fundamento.
10. O para-si deveria ser pensado a partir de duas raízes (ser e nada), pois ele é composto de um idêntico ao ser e de um diferente do ser, mas o fundamento do diferente do em-si não é pensado, o que impede a compreensão plena do para-si.
11. O para-si, por ser interrogação, tem o direito de se voltar sobre sua origem, mas essa origem, o nada, permanece um terreno vedado, e Sartre reconhece que a ontologia não pode explicar esse acontecimento, o que leva ao impasse de sua ontologia.
- O em-si não pode ser dito, e Sartre teria que elaborar uma ontologia do nada para explicar o elemento original do para-si.
- A fundamentação do para-si a partir do ser é impossível devido à tautologia, e a participação não pode ser estabelecida a partir do fundamento.
12. A ambiguidade radical do para-si exige uma explicação ontológica, mas Sartre só consegue pensar a diferença no plano fenomenológico, não justificando o salto ao ontológico, o que faz com que a contra-dicção da realidade humana autorize apenas uma aparência de dicção.
13. O problema do fundamento do para-si como outro que não o em-si não pode ser colocado, pois o outro, na medida em que é outro, não tem fundamento, o que parece dar razão a Sartre e ao poder nadificador do para-si.
14. A questão da origem do nada permanece sem resposta, o que torna inelutável a tarefa de uma ontologia negativa, mas Sartre, de modo metafísico, encobre o problema ao definir o nada como privação singular, o que leva a um impasse tautológico, pois o ser não pode ser dito e o nada não pode ser esclarecido.
15. A possibilidade de uma ontologia do nada pode ser considerada absurda, mas o pensamento de Sartre conduz necessariamente a essa problemática, e a inevitabilidade do problema do nada deve ser elucidada, pois, dentro das coordenadas sartrianas, ou se pensa o nada ou a ontologia termina superada.
16. A conclusão do impasse sartriano não é uma palavra final, mas um marco inicial para uma problemática mais ampla, que revela que Sartre não pensa ontologicamente o para-si como outro que não o em-si, nem o nada como outro que não o ser, o que condena ao fracasso a tentativa de dizer ontologicamente a contradição do para-si.
17. A fundamentação última do para-si seria possível se estabelecida a partir do fundamento, uma premissa platônica que acompanha a metafísica, onde a verdade da dicção pressupõe um fundamento último de natureza metafísica, mas em Sartre essa dicção do fundamento é tautológica, o que leva ao impasse do próprio platonismo e da crise da metafísica ocidental.
- A diferença fundamental entre Platão e Sartre é que neste a dicção do fundamento não se verifica mais, sendo apenas tautologia.
18. A conclusão se converte na pergunta sobre o sentido em que o existencialismo é platônico, pressupondo que o impasse da filosofia sartriana coincide com a dificuldade da metafísica platônica, o que levaria a compreender Sartre como um momento de radicalização do platonismo e a questão de como Platão determina a metafísica de Sartre e vice-versa.
