Existencialismo de Sartre
(Bornheim1989)
Definição
1. O existencialismo constitui uma das doutrinas mais características do século, empenhando-se em pensar o indivíduo concreto a partir de sua existência cotidiana desprovida de qualquer relevo especial, sendo Sartre o único filósofo que aceita o termo para designar sua própria doutrina, retomando de Heidegger a fórmula segundo a qual a existência precede a essência, o que significa a inexistência de uma natureza humana anterior ao próprio ato de existir.
O Método
2. A questão do método revela-se ampla, pois o pensamento sartriano se desdobra em três fases fundamentais.
- a primeira fase, dominada por O ser e o nada de 1943, constitui o existencialismo propriamente dito e adota o método fenomenológico
- a segunda fase, inspirada em preocupações marxistas, assimila também a metodologia dialética, condensando-se na Crítica da razão dialética de 1960
- a terceira fase retoma a inquietação nunca abandonada com o indivíduo concreto, somando à biografia de Flaubert também os recursos da psicanálise, sem que Sartre chegue a elaborar as bases teóricas dessa interpretação
3. Em A náusea, de 1937, uma descrição fenomenológica livremente entendida associa-se ao emprego da dúvida cartesiana, com a diferença de que Sartre busca destituir de suas bases tudo o que possa emprestar sentido à existência humana, sendo a náusea o nome assumido por essa dúvida em seu despojamento inaugural.
As teses fundamentais do existencialismo
4. A experiência da náusea revela três coisas fundamentais: a necessidade de converter a revelação do absurdo em sentido que justifique a existência humana, fazendo do existencialismo um humanismo; que o eu é consciência, núcleo instantâneo da própria existência; e que essa consciência não pode existir sem o outro que não ela mesma, existindo apenas por aquilo do qual tem consciência.
- o ser é o objeto, tudo aquilo do qual se tem consciência, e a consciência precisa do objeto para ser, pois sem objeto não vai além de seu próprio vazio, sendo o sujeito nada
- é a partir do modo como o sujeito se relaciona com o objeto que pode ou não instaurar-se o humanismo, cujo grande entrave é a má-fé
5. Sartre dedica poucas páginas ao ser, que se define pelo princípio de identidade, sendo pleno, total, perfeito e ilimitado, sem a menor consciência de si mesmo, enquanto a consciência, ao contrário, não é idêntica consigo mesma, deixando-se definir apenas pelo princípio de contradição.
- Sartre chama o ser de em-si e a consciência de para-si, colunas mestras de todo o seu pensamento
6. A má-fé consiste na tendência inerente à condição humana de fazer com que a consciência esqueça o nada que é seu fundamento, para identificar-se de algum modo com o ser, sendo o nada essa distância inaugurada pela consciência que corrói o ser em seu próprio cerne.
- o homem é habitado pelo desejo de ser, que é o desejo de fundamentar-se a partir do outro que não ele mesmo
- o humanismo existencialista exige que o homem seja o fundamento sem fundamento de todos os valores, inventando-se a partir do nada que é, ao invés de autodeterminar-se por algo exterior a si
A intersubjetividade
7. O grande desbravador da questão da intersubjetividade foi Hegel, cuja dialética do senhor e do escravo mostrou que a consciência depende, em seu próprio cerne, do reconhecimento de outra consciência, enquanto Heidegger afirmou que o homem é originariamente ser-com; em Sartre, porém, as coisas se complicam a partir do olhar.
- apreender os olhos do outro como objeto é diferente de captar seu olhar, que me faz sentir visto e revela atrás de si uma consciência
- o olhar do outro me reduz à condição de objeto, de um em-si, do que deriva o sentimento originário da relação com o outro, a vergonha
- a relação intersubjetiva dá-se necessariamente no horizonte do conflito, pois nem a relação objeto-objeto nem a relação sujeito-sujeito se verificam, concretizando-se a intersubjetividade apenas pelo recurso à dicotomia sujeito-objeto
A liberdade
8. O tema da liberdade constitui o núcleo central do pensamento sartriano, sustentando a tese insólita de que a liberdade é absoluta ou não existe, recusando Sartre todo determinismo, seja divino, seja materialista, encontrando o fundamento da liberdade no nada, no indeterminismo absoluto.
- nenhum ser consegue ser princípio de explicação do comportamento humano, não havendo essência divina, biológica, psicológica ou social que anteceda e justifique o ato livre, sendo o próprio ato que tudo justifica
- até o nascimento é de certo modo escolhido, pois é a consciência que a cada instante está escolhendo, para mim, aquilo que meu nascimento foi
- a falsificação da liberdade, ou má-fé, reside precisamente na invenção dos determinismos de toda espécie, que põem no lugar do nada o ser
9. A liberdade constitui o único fundamento dos valores, sendo o homem apenas seu projeto, existindo somente na medida em que se realiza, conjunto de seus próprios atos, e todo homem que se refugia na desculpa das paixões ou inventa um determinismo é homem de má-fé.
- a responsabilidade de cada um é muito maior do que se poderia supor, pois engaja a humanidade inteira, sendo cada um responsável por si mesmo e por todos ao escolher uma certa imagem do homem
Existencialismo e marxismo
10. Na primeira fase Sartre fala em ontologia, buscando dar conta da condição humana como tal, mas a partir dos anos sessenta prefere a palavra antropologia, publicando a Crítica da razão dialética, guiado pela descoberta da história compreendida através do marxismo.
11. Sartre faz o elogio do marxismo como filosofia jovem correspondente às exigências do tempo, mas procede também a uma crítica severa dos caminhos percorridos pelas ideias de Marx em sua evolução histórica.
- o marxismo frequentemente marginaliza e esquece o sentido da existência humana, o valor insubstituível do indivíduo e da liberdade, transformando a doutrina em princípio de terror
- no fundo, Sartre retoma e amplia sua doutrina da má-fé, agora sob a forma de um processo de socialização, permanecendo inimigo ferrenho de qualquer forma de materialismo
- sempre que a história é interpretada a partir da categoria do objeto, a subjetividade humana é abandonada e o homem desfigurado, tornando-se necessário colocar na base da doutrina o indivíduo concreto, livre e consciente, fazendo convergir existencialismo e marxismo na configuração de um novo humanismo
