Dialética
BORNHEIM, Gerd. Dialética. Teoria e prática. Porto Alegre: Editora Globo, 1983.
A DIALÉTICA COMO PROBLEMA ONTOLÓGICO
1. A filosofia é teoria, visão crítica e interpretativa do real que se faz por perguntas radicais, sendo essencialmente problema e histórica, pois toda solução se dobra em novo problema, e isso vale também para a dialética, cujas múltiplas definições históricas voltam a se problematizar.
2. O objetivo é pensar a dialética em seu ser, numa pergunta ontológica anterior às definições instrumentais, para compreender as transformações de seu ser próprio, o que exige uma elucidação em plano ontológico, indagando se há um sentido único da dialética ou diversos sentidos que se sucedem.
3. A dialética nasceu no contexto da Metafísica, e com a crise desta, coloca-se o problema de como considerá-la ontologicamente, pois muitos autores que a defendem e recusam a Metafísica ignoram as vinculações efetivas com o que a dialética se tornou, sendo necessário pensar a necessidade interna de suas transformações.
4. A escolha da dialética como tema não é uma preferência subjetiva, mas uma necessidade imposta em nossos dias, pois, enquanto durou a Metafísica, ela não pôde ser considerada em toda sua significação, e hoje sua presença oferece dificuldades, começando pela carga quase mágica que a envolve.
5. A dialética apresenta-se hoje com um peso irracional e um caráter numinoso, funcionando muitas vezes para pacificar a consciência e tornando-se antidiálética, sendo necessário saber o que realmente se diz quando se emprega a palavra, pois as palavras dispõem do homem e a dialética é uma palavra-árvore plantada em nossa época.
6. A tarefa do pensamento é explicitar as raízes da palavra dialética para compreender sua riqueza, pois o uso familiar da palavra como uma lei aplicável ao real torna tudo mais obscuro e desfalece a problemática ontológica, sendo a dialética uma palavra dotada de estranha majestade que se impôs aos homens.
7. Sartre, após um longo itinerário, despertou para a importância da dialética, compreendendo que o concreto é história e a ação dialética, e sua Crítica da Razão Dialética parte do pressuposto de que a dialética é a grande porta para o acesso ao concreto, tornando-se a mais atual das ideias.
8. Heidegger, embora raramente se ocupe da dialética, afirma que ela deve ser pensada em relação à história do ser e determina a história atual da Humanidade, sendo talvez a única realidade mundial, um pensamento que conduz o mundo, presente tanto quando se torna objeto de fé como quando é refutado.
9. Compreender a dialética como lei é um modo deficiente que barra a possibilidade de pensá-la ontologicamente, pois se pensa a partir dela como um positum, limitando-se à sua aplicabilidade ao plano ôntico, o que conduz a uma posição positivista, como no erro de Althusser, que reduz a filosofia a uma lógica.
10. Transformar a dialética num em-si, à maneira de Kant, também a torna uma realidade numinosa e inacessível, como faz Fougeyrollas ao afirmar que só se pode pensar a dialetização, não a dialética em si, mas essa visão é compatível com a redução da dialética à sua aplicabilidade, relegando a fonte ao esquecimento.
11. Para inquirir o ser da dialética, deve-se inverter a perspectiva e pensar a dialética às avessas, procurando saber seu fundamento, ou seja, como ela se fundamenta e a partir de que região da realidade podemos aceder ao que ela é.
12. Sartre, num debate sobre se a dialética é lei da história ou da natureza, afirmou que a dialética da história apareceu em primeiro lugar, mas esse debate se processa numa confusão de planos, pois uma coisa é saber a extensão da dialética e outra é saber sua gênese, sendo a segunda questão anterior.
13. A questão da gênese da dialética pergunta pelo seu fundamento, e quando Sartre afirma que a dialética da história apareceu em primeiro lugar, ele elide a questão ontológica, barrando a possibilidade de um estudo propriamente ontológico da dialética, que poderia mostrar que a realidade é dialética.
14. Ignorar o problema da gênese metafísica da dialética não é aceitável, pois há uma profunda unidade nas transmutações da dialética, inclusive nas interpretações antimetafísicas, e a gênese da dialética coincide com a gênese do destino da Metafísica Ocidental.
15. Engels contrapõe a metafísica estática à dialética dinâmica, mas suas ideias são inconsistentes, pois ele reduz a metafísica a um modo de pensar derivado da Ciência da Natureza moderna, ignorando que os gregos já possuíam uma metafísica e que a influência da ciência sobre a filosofia foi preparada pela própria filosofia.
16. A tese de Engels, ao dividir a história em compartimentos estanques, é insuficiente porque a história não é vista em sua unidade, e ele esquece que sua asserção sobre a exclusão do positivo e do negativo se ajusta à lógica de Aristóteles, sendo necessário situar a problemática da dialética e da Metafísica em coordenadas mais amplas.
17. A tese do marxismo vulgar, de que toda filosofia pré-marxista é idealista, é ingênua, mas pode ser aceita por ver um princípio de unidade na História da Metafísica e por não aceitar a filosofia como uma questão isolada, pois está em jogo o sentido das estruturas do mundo ocidental.
18. O problema é compreender o fundamento da dialética, e do ponto de vista histórico, em sua gênese, ela é pertinente à Metafísica, mas não se deve reduzi-la a ela, pois com a crise da Metafísica, joga-se o destino da dialética, e a crítica à dimensão metafísica leva a examinar o problema do ser da dialética.
19. Heidegger afirma que os comentários sobre a dialética explicam a fonte a partir da água estagnada, e o problema de saber se o conhecimento ou a realidade é dialético é aparente enquanto não for determinado em que consiste a realidade do real, ou seja, o que se entende por ser.
20. Heidegger fala em Seinsgeschick, um mandado do ser que independe do homem, e o ser se desvela num claro-escuro, retraindo-se, e é a partir do desvelamento do ser que o discurso humano sobre o ser se torna possível, sendo a história do ser comandada pelo próprio ser.
21. A dialética pertence à história do pensamento ocidental e está imbricada no processo do ser, e seu sentido lhe advém do claro-escuro do ser, onde estaria sua fonte, e pensar é um diálogo, um dizer através desde o fundamento, que se transforma, com a Metafísica, em dialética.
22. Heidegger recusa a dialética por vê-la presa à Metafísica, mas discorda-se dessa posição, pois com a crise da Metafísica, a dialética chega a ser aquilo que realmente é, e não se deve abandoná-la, mas reconhecer sua essência, que só em nossos dias começou a se manifestar.
23. A redução da dialética à sua aplicabilidade é ontologicamente insuficiente, pois traz a redução a um problema ôntico e esquece o problema ontológico, e essa restrição ao plano ôntico redunda na dicotomia sujeito-objeto, configurando a dialética como objetivação determinada pela subjetividade do sujeito.
24. Se a dialética é limitada ao ôntico, ela é metafísica por prender-se ao subjetivismo da etapa final da Metafísica, e para superar essa contaminação, é necessário pensá-la além da dicotomia sujeito-objeto, em um plano ontológico, centrando-a na questão do ser.
25. Heidegger tem razão ao defender a transcendência do ser, que não consiste na objetivação, pois esta a pressupõe, e a única maneira de evitar o processo de objetivação e subjetivação é esclarecer o ser como transcendência, sobreposto à dicotomia sujeito-objeto, que encontra sua raiz no ser.
26. A pergunta principal, que condensa o cerne da questão da dialética, é como entender a transcendência do ser, e o estudo deverá girar em torno de dois pontos fundamentais: primeiro, a dialética na medida em que acentua a ideia de síntese ou totalidade, em seu sentido metafísico; segundo, a dialética centrada na contradição ou antítese, acompanhando as transformações internas de seu sentido.
