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Dialética em Hegel

BORNHEIM, Gerd. Dialética. Teoria e prática. Porto Alegre: Editora Globo, 1983.

A DIALÉTICA EM HEGEL

24. A diferença fundamental entre Hegel e Platão está na afirmação de que a vida do Espírito é aquela que suporta a morte e se conserva nela, enfrentando a separação, e não a que desvia os olhos do negativo, como em Platão, e a peça essencial para entender a inovação hegeliana é a negatividade, que não é um nada absoluto, mas oscila entre a unidade da substância e a fragmentação, emprestando dramaticidade ao processo do real.

25. A verdade em Hegel se dá como processo, e a conversão ao ser através do negativo revela que a verdade reside na unidade entre o conceito e a objetividade, sendo a Ideia o conceito adequado, e as coisas finitas são não-verdadeiras na medida em que não coincidem com a Ideia, como o Estado que não transcende a categoria de objeto.

26. O conceito hegeliano de verdade radicaliza a adaequatio, interpretando o igual como identidade, e a verdade é compreendida como um processo em busca da identidade, realizando a unificação do conceito e da objetividade, e a separação é o impulso para o processo da verdade, que tem caráter metafísico.

27. O primeiro momento da dialética, a tese, é uma identidade que traz em si o não-idêntico, e o ser, como vazio e indeterminado, nega-se a si próprio, dando origem ao movimento da contradição, que é a raiz de todo movimento e vida, e apenas quando a contradição aparece começa-se a apreender a essência das coisas.

28. A contradição não é algo exterior, mas está implícita na tese, e a antítese a explicita, mas o objetivo de Hegel é a superação da contradição pela negação da negação, alcançando a síntese final, onde a verdade é o resultado de um processo que contém e supera os momentos anteriores, visando à unidade do todo do real.

29. Hegel designa a síntese com a palavra Aufhebung, que tem o tríplice sentido de tomar, conservar e elevar, e o processo dialético não se desenvolve exteriormente, mas cada passo implica uma determinação progressiva, onde o progredir coincide com um retroceder em direção ao fundamento do momento inicial, formando um círculo de círculos.

30. A força reconciliadora de Hegel busca vencer a separação permanecendo nela, pois a verdade é imanente ao processo, e não está além, como nas Ideias platônicas, e o permanecer no negativo é relativo à conversão ao fundamento, que se alcança explorando a contradição para erradicá-la.

31. Hegel pretende, contra a lógica aristotélica, suprimir a contradição enfrentando-a, e pela suspensão dialética, cada momento é a verdade do anterior, e a Ideia absoluta é “toda verdade”, embora também constitua uma inverdade, e o que ele busca é vencer a oposição entre sujeito e objeto, guardando o oposto dentro da unidade, em uma reconciliação que acarreta uma transmutação da realidade finita.

32. A síntese hegeliana, porém, é inútil no plano ôntico, pois a separação essencial à finitude não pode ser vencida, e no plano ontológico, não se percebe por que a síntese deva ser a finalidade, pois o objeto é pensar a diferença ontológica, e não a síntese, e a abertura para o finito em Hegel é apenas uma astúcia da razão em busca da síntese superadora.

33. O Saber Absoluto e a Ideia Absoluta, nos capítulos finais da Fenomenologia e da Ciência da Lógica, constituem o mistério da concepção hegeliana, onde o ser se pensa como Eu e o Eu como ser, estabelecendo uma identidade de fundo, e a Filosofia vai além da religião porque a reconciliação se faz ato ou saber, e não fé, na imanência do processo dialético.

34. No Saber Absoluto, o espírito finito eleva-se à autoconsciência universal, abandonando sua finitude, e a Filosofia, como ciência, é o modo mais elevado de captar a Ideia absoluta, pois o conceito é o mais elevado, e a Ideia é apresentada como síntese do processo e do resultado, sendo a verdade que decorre do processo e a ele se mantém unida.

35. A dialética hegeliana tem caráter metafísico por pretender vencer a finitude em seu próprio chão, convertendo-a à Ideia, e embora a contradição subsista no seio da Ideia, ela é subordinada à síntese metafísica final, e a contradição em Deus é uma necessidade para a vida do Absoluto, mas a crítica materialista mostra que essa contradição é fictícia, e a identidade e a contradição se distinguem para se opor e se negar, sem uma síntese que as una.

36. Em Hegel, a contradição perde sua força quando a síntese a absorve, e a finitude é desfigurada, pois a contradição é derivada da relação entre o finito e o infinito a favor do infinito, e a dialética hegeliana é alienante por buscar dissolver a finitude do finito.

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