2 Admiração
BORNHEIM, Gerd A. Introdução Ao Filosofar: O Pensamento Filosófico Em Bases Existenciais. Porto Alegre: Editora Globo, 1996.
II. Análise da Admiração Ingênua
1. A análise deve começar pelo fenômeno da admiração em sua manifestação primária, no primeiro desabrochar ainda ingênuo e espontâneo, em busca de suas características mais fundamentais e de sua compreensão.
2. A primeira característica da admiração é a abertura, que se esclarece por contraste com o pessimismo, atitude antiadmirativa por excelência em que o homem não se admira de nada e só se surpreende com quem se admira, numa admiração pessimista contraditória, acompanhada de comiseração, piedade e revolta, que solapa a natureza da postura admirativa.
3. O pessimismo ingênuo, quase instintivo, assume duas formas segundo a distinção de Nietzsche, o pessimismo da inteligência, que recusa e neutraliza a realidade por meio de uma doutrina ingênua ou de fórmulas como nada há de novo sob o sol, e o pessimismo da sensibilidade, talvez geneticamente anterior, que sofre o real como um mal, numa espécie de alergia ou inconformismo vivido, pré-crítico e próximo da apatia.
4. Ao comportamento do pessimismo ingênuo, marcado por uma desconfiança básica e negativa diante da realidade, opõe-se a admiração ingênua, semente do reconhecimento de um sentido no real e primeiro gesto de abertura do homem para uma realidade que o transcende, sem ressentimento ou desgosto, mas com gosto e afeição numa atitude receptiva de pura disponibilidade.
5. Na admiração verifica-se um simpatizar, um sentir unido ao real, cuja disponibilidade apreende a realidade como presença insofismável ao deixá-la ser em toda a sua plenitude, de modo que o expor-se ao ente e o deixar-ser se entrelaçam, revelando que a admiração ingênua se processa sobre um fundo amoroso que, em silêncio, deixa a realidade falar.
6. O dar-se do homem combina-se com o dar-se do real numa total reciprocidade de confiança, entendendo-se por realidade não apenas a natureza, mas também o homem e o mundo da cultura, pois tudo o que tem força de ser é passível de admiração.
7. Essa abertura não significa omissão nem indiferença, mas um deixar-se entrar no desvelamento do ente que retorna diante dele para que se manifeste no que é, numa intimidade de participação que não se confunde com fusão entre o admirante e o admirado, pois a admiração consiste no reconhecimento do outro como outro, num respeito enraizado numa inocência ingênua e piedosa.
8. O abismo entre querer e conhecer que define o pessimista perfeito segundo Nietzsche não se verifica na admiração ingênua, em que ideal e real como que coincidem e a realidade se manifesta dotada de plenitude de sentido, anulando o pessimismo e toda forma de comportamento egocêntrico.
9. A primeira característica da admiração ingênua é, portanto, a afirmação, como abertura, do outro como outro, nascida de uma disponibilidade amorosa e desinteressada, que conduz à segunda característica e pressuposto fundante da primeira, a consciência.
10. A observação de Pascal de que os animais não se admiram mostra que o animal, imbricado em seu meio por um imanentismo funcional, não pode destacar-se da natureza nem reconhecê-la como heterogênea, o que constitui o abismo irrefutável entre animal e homem, pois o animal apenas age, enquanto o homem age e sabe que age, e sua dignidade, como caniço pensante que sabe que morre, consiste no pensamento.
11. O que distingue o homem é a consciência, nervo de todo fenômeno humano e segredo de sua interioridade, pois o homem se sabe homem e esse saber-se transforma toda a sua relação com o mundo, de modo que a consciência ingênua, espontaneamente voltada para fora, só se justifica pelo pressuposto da subjetividade, ainda que a consciência reflexiva seja geneticamente segunda.
12. A consciência ingênua apresenta duas características básicas que permitem compreender sua estrutura.
13. A primeira característica é a distância pela qual o homem se sabe separado do que o cerca, distância que não é a de duas exterioridades, pois a pura exterioridade dissolveria a consciência e a pura interioridade suprimiria a distância da consciência encarnada, resultando numa ambiguidade radical.
14. A consciência está toda tendida para fora, habitando o mundo e pactuando com a exterioridade, mas sem jamais confundir-se com ela, o que torna irremediável a distância que a separa do exterior e define sua relação ambígua com o mundo como interioridade exterior e exterioridade interior, presença ausente e ausência presente, uma inadaptação profunda em comparação com a vida animal.
15. A segunda característica da consciência ingênua é a experiência da heterogeneidade, do radicalmente outro, pois no próprio ato de tensão para o exterior o mundo repele a consciência na exata medida em que esta o penetra, fazendo de toda penetração uma faca de dois gumes que manifesta a separação entre homem e mundo e impõe este como heterogeneidade reconhecida.
16. O homem é uma totalidade destotalizante, segundo Theodor Litt, porque o mundo rejeita sua tendência a unir-se a ele e a consciência, ao reconhecer a heterogeneidade, o afirma como objeto contraposto a um sujeito, de modo que a distância não é ilusão nem ponte provisória, mas pertence à estrutura da consciência e funda toda comunicação e todo diálogo, e pretender suprimi-la em nome de mitos naturalistas de integração plena equivale a suprimir o próprio homem.
17. A admiração ingênua já contém as duas características da consciência espontânea, pois, como indica a palavra ad-miratio, supõe distância, ruptura da imanência e entrega ao transcendente, ocorrendo apenas na medida em que o admirado se apresenta como objeto, o que a torna impossível onde não há vida consciente.
18. A consciência é o pressuposto fundante do ato admirativo, que, ao lado da distância, implica o reconhecimento do outro como outro, e, entre a ampla gama de compromissos da consciência com o objeto, que vai da afirmação absoluta à negação, a admiração se especifica pela abertura ao real numa dimensão puramente afirmativa.
19. A admiração ingênua é um ato de confiança e fidelidade amorosa que reduz ao mínimo a distância da consciência ao entregar-se sem reservas, daí sua inocência, sua degustação desprevenida do real e seu caráter dogmático, quase religioso, de piedade e oração natural, expressão de uma bondade inata como a virtude original de Goethe, ligada ao respeito e ao fascínio diante do excepcional que se destaca da familiaridade rotineira e deve ser resguardado de tudo o que possa desmerecê-lo.
20. A consciência, segunda característica da admiração ingênua, permite compreender a primeira, a modalidade de afirmação do real admirado.
21. O avanço da análise exige saber a razão de ser dessa presença da consciência para esclarecer a dimensão última e o significado humano mais radical da admiração, o que conduz à sua terceira característica.
22. Para alcançar o significado último da admiração ingênua, cuja consciência distingue o homem do animal e lhe serve de pressuposto, é preciso distingui-la de outras atitudes humanas aparentadas.
23. A admiração ingênua não se identifica com o pasmo, mais primitivo, marcado por uma confusão diante do real e por uma abertura que coincide com o autodescontrole e a perda de si, mais próximo do puro apetite que se sacia na confusão do que do respeito que se contenta com a distância, de modo que algo do pasmo pode estar presente na admiração, mas esta se dá num plano mais elevado.
24. A surpresa, superior ao pasmo, suprime a indecisão e a indistinção ao tornar as coisas não só atraentes mas problemáticas, aproximando-se da admiração por sua capacidade de desarmar, mas implica um imprevisto que também descontrola, embora de modo menos indeterminado.
25. Pasmo e surpresa são indiferentes ao caráter afirmativo ou negativo de seu objeto, podendo ser suscitados por um gesto magnânimo ou por um assassinato, ao passo que a admiração ingênua se refere exclusivamente ao que tem significação positiva, como a perícia de um crime e nunca seu aspecto danoso, sendo inacessível ao comportamento desprezível, mas capaz de encontrar humanidade até no mais desprezível dos homens e de abranger a totalidade do real.
26. Embora a admiração ingênua contenha muito do pasmo e da surpresa, possui dimensão e humanidade maiores, e todas essas experiências são exclusivamente humanas, pois, mesmo que se falasse em pasmo ou surpresa no animal, nele haveria apenas reação determinada pela rotina da sobrevivência e refúgio imediato no meio ambiente, e não entrega.
27. A especificidade humana das três experiências provém de sua ligação com o primeiro despertar da vida consciente, surto original de uma atitude espiritual em que as potencialidades do homem, antes integrado no seio que o gerou, desabrocham pela primeira vez, trêmulas e indecisas, na admiração, de modo que a consciência espontânea nasce num claro-escuro entre as trevas do inconsciente e a luz que busca seu triunfo.
28. A admiração ingênua assume assim uma densidade metafísica por ser o princípio que confere ao homem sua humanidade, pois, enquanto o animal se prolonga na natureza numa adaptação plena, a partir dela o espírito começa a revelar-se como realidade sobreposta à natureza, numa espécie de aseidade.
29. A definição de Friedrich Schlegel do homem como retro-olhar criador da natureza sobre si mesma esclarece essa aseidade, cuja raiz está na consciência e cuja primeira modalidade é a admiração ingênua, momento de ruptura em que a natureza se detém e se contempla, caracterizável como respeito, re-spectus, olhar para trás impregnado de piedade, gratidão e amor numa atitude contemplativa que eleva o homem acima de toda pragmaticidade exclusivista, pois admirar é, segundo Franz von Baader, submeter-se, receber um fundamento e ser fecundado.
30. Apesar de sua riqueza e de certa importância para o surgimento da filosofia, a admiração ingênua não basta para suscitar a atividade filosófica, por estar presa a um dogmatismo total, já que a filosofia é impensável sem problematização e espírito crítico, exigindo caminhos pré-filosóficos e existenciais, e não métodos internos ao filosofar, que transformem em problema a própria existência e o mundo e obriguem a viver o problema do real como problema próprio.
31. A superação da pragmaticidade pode ser compreendida em dupla perspectiva, como afirmação do plano humano e espiritual que se destaca da pura animalidade e como revelação de que o comportamento cotidiano do homem, embora predominantemente pragmático, já contém elementos que transcendem o utilitário e justificam de fato um comportamento desinteressado.
32. A grande barreira à problematização é o dogmatismo da ingenuidade, cuja superação exige conhecer os caminhos que o homem percorre em seu próprio solo de vida para transpô-la e que condicionam a instauração da filosofia, o que requer analisar o comportamento dogmático, perspectiva geral em que surge a admiração ingênua, e buscar as experiências humanas que levam a transcendê-lo, na medida de sua projeção sobre o tema.
