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bornheim:1980:1.8

1.8 Irredutibilidade

BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.

O Idiota e o Espírito Objetivo

8. Um Conceito: A Irredutibilidade

1. A família Flaubert, longe de ser realidade perene e supra-histórica fechada às procelas do mundo, é o resultado metaestável das estruturas e da História, depositária de um conjunto institucional em transformação que explica o pai rural e citadino, feudal e burguês, e a mãe distante e submissa, de modo que a constituição de Gustavo, feita intra muros, é o oposto de uma redução, pois tudo se dá de modo particularizado e pré-fabricado, tendo no todo seu princípio de inteligibilidade, embora o universal perca sua razão de ser sem o caso concreto.

2. A socialização da psicanálise não recorta dados exteriores nem minimiza a infância à maneira culturalista de Karen Horney, mas esclarece a constituição desde seus momentos mais remotos, perguntando como a ideologia burguesa penetrou na criança, o que faz da reconstrução de Flaubert um verdadeiro romance de formação em que o microcosmo se constitui no macrocosmo e a infância revela os primórdios da relação homem-mundo num processo circular e dialético que vai do idiota, por uma série de mediações, até o Espírito Objetivo.

3. O homem é primeiramente um produto constituído, mas não pode ser reduzido a mero efeito de uma causalidade linear, pois a consciência de ser efeito e a ação que supera a passividade exigem o contrapasso da personalização, e a pessoa, nem sofrida nem construída, é a cada instante o resultado ultrapassado dos processos totalizadores pelos quais se tenta assimilar o inassimilável da infância, infância que já é o mundo e que, junto ao mundo atual do trabalho e da intersubjetividade, compõe as ambiguidades da vivência e permite definir o homem como singular universal.

4. Contra o princípio da homogeneidade, que faria do homem fantasma indiferenciado da infância ou produto do determinismo externo do marxismo vulgar, é preciso admitir as diferenciações ou ordens de significação que estruturam o real, problema que o conceito de irredutibilidade formula entre os extremos da diferença absoluta, que tornaria o real incomunicável, e da redutibilidade total, que dissolveria as diferenças num monismo, conceito pelo qual Sartre, a propósito de Kierkegaard, afirma que o Eu, o ato e a obra são irredutíveis ao psicologismo e ao economismo, pois a História é também aventura.

5. A afirmação inaugural de O Idiota da Família de que a irredutibilidade das camadas de informação sobre Flaubert é apenas aparente e esconde uma homogeneidade profunda contradiz, em seu nítido caráter ontológico, a defesa constante das diferenciações e da subjetividade, desmentindo o sentido de toda a análise subsequente e do pensamento sartriano, mais próximo da equivocidade que da univocidade, pois não se aproxima da finitude fragmentária nem se conjura o monismo do ser sem aceitá-lo roído pelo nada.

6. A questão de um fundo comum ou conaturalidade do real, que a dialética entre singular e universal pressupõe, quase não merece análise, porque tomá-lo como realidade em si ressuscitaria fantasmagorias transcendentes e místicas, sendo ele instituinte apenas na medida em que é instituído pela dialética das diferenciações, e a força do pensamento sartriano reside justamente em sublinhar essas diferenciações, como na crítica à psicanálise que reduz o sentido ao não-sentido por recusar a irredutibilidade dos níveis dialéticos.

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