1.2 Sartre
BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.
O Idiota e o Espírito Objetivo
1. O percurso de Sartre com Flaubert, lido na infância, retomado nos anos 30 e aprofundado durante a guerra pela correspondência, transformou a aversão inicial por personagens que projetavam o sadismo e o masoquismo de seu criador numa empatia que, distinta da simpatia subjetiva, se dirige apenas ao outro e floresce no solo da objetividade, tornando-se parte constitutiva do método voltado à compreensão do homem.
2. Essa objetividade exige distinguir o conceito científico, intemporal e exterior, da noção filosófica, definição com interioridade que inclui a temporalização do objeto e do próprio conhecimento, de modo que a empatia pela vivência conduz à compreensão e esta gera a noção, esquema já elaborado por escolas alemãs no início do século, mas agora enriquecido pela forte carga de psicanálise e de marxismo.
3. Embora a teoria da vivência nunca tenha sido elaborada e reste apenas em indicações esparsas, fica claro que essa categoria toma o lugar da consciência translúcida de O Ser e o Nada, reduzida agora a satélite de uma realidade mais ampla, definida como o processo dialético e opaco da vida psíquica, totalização que abarca a própria consciência e por isso é sempre suscetível de compreensão, jamais de conhecimento.
4. A distância percorrida desde O Ser e o Nada aparece no fato de a presença a si ser agora entendida como processo e história e de se reconhecer algo abaixo da consciência que abre espaço para a dialética, permanecendo como convicção primeira do método a ideia de que tudo é racional e, portanto, cognoscível, mesmo o que é vivido de modo irracional.
5. As definições mais globais da vivência silenciam sobre dois elementos centrais do último Sartre, o fazer, que com a dialética marca a revolução marxista de seu pensamento e se exprime na pergunta leninista sobre o que fazer, e o Espírito Objetivo, conjunto de condições sociais, culturais e ideológicas sem as quais o indivíduo não existiria e que, para além do romance familiar, manifesta de modo particularizado em Flaubert o espírito de toda uma época.
6. Guiada por essa compreensão ampla da vivência, a investigação aplica o método progressivo-regressivo para aprofundar reciprocamente biografia e época, articulando a constituição, condicionamento abstrato da proto-história familiar, a personalização, pela qual cada um se faz ultrapassando o que dele foi feito, e o Espírito Objetivo como constituição segunda, trilogia que engloba o todo do homem e relega a consciência, antes absoluta, a um momento essencial, ainda que sem abandonar a carga ontológica do ser e do nada.
7. A trilogia e a vivência formam como que círculos superpostos cuja coincidência permanece problemática, pois a vivência se desenvolve num claro-escuro em que Flaubert, sem se conhecer, se compreende admiravelmente, num autossaber que não dispensa a consciência mas também não se reduz a ela, embrenhando-se no opaco e no que se quer escondido.
8. O alcance desse opaco não é discutido teoricamente, mas elaborado na imanência da análise concreta, em que, com o recuo da perspectiva histórica, se torna possível caracterizar o Espírito Objetivo da época de Flaubert e mostrar sua consciência personalizando-se entre amarras não translúcidas, numa inversão do prisma hegeliano que já não persegue a univocidade das formas gerais, mas a equivocidade original de um singular que é a única razão de ser do universal.
9. Toda essa problemática se condensa na expressão singular universal, cujas facetas, assim como o diálogo com o marxismo e a psicanálise que a tornou possível, constituem o próximo objeto de exame.
