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bornheim:1980:1.10

1.10 Do homem à obra

BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.

O Idiota e o Espírito Objetivo

10. Do Homem à Obra

1. Três problemas se impõem agora, a presença da subjetividade do escritor na obra de arte, a obra enquanto expressão da sociedade e a obra em si mesma.

2. A parte publicada de O Idiota da Família não busca elucidar a obra de Flaubert, mas serve-se dos escritos para compreender a vida, recorrendo sobretudo aos contos da adolescência, especialmente dóceis à análise dos fantasmas e projeções da constituição, e apenas mais tarde e em menor medida à obra madura, sem jamais abandonar a fonte maior da correspondência.

3. Afirmar simplesmente que a obra exprime a subjetividade do artista é tratá-la como efeito redutível à fantasia subjetiva segundo um esquema abstrato de causa e efeito, que, embora reconheça a presença inegável do artista no que cria, diz tudo sobre ele e ignora inteiramente a obra enquanto arte, cuja ordem de significações se destaca desse significante para se estabelecer em outro plano.

4. Enraizada na vida sem lhe ser homogênea, a obra põe questões à vida e, como objetivação da pessoa, é mais completa e total do que ela, havendo entre ambas um hiato irredutível, de modo que a obra indica problemas à biografia, como as estruturas sociais e o drama único da infância, sem jamais revelar seus segredos, e completa e inventa o artista por meio do específico irredutível da expressão artística.

5. A irredutibilidade da obra à subjetividade se confirma pela necessidade de seu condicionamento social, pois a subjetividade não é raiz de si mesma e sua preeminência tem como pressuposto o subjetivismo histórico dos tempos modernos, de sorte que a desconfiança infantil de Gustavo em relação à linguagem só pôde converter-se em concepção positiva de estilo porque a não-comunicabilidade da vivência já era problema da época, instaurado pelos românticos ao substituir a psicologia conceitual das paixões pela tarefa de traduzir o vivido não conceituável.

6. A vivência subjetiva distingue-se da acolhida que lhe dá o Espírito Objetivo, que, a partir do Romantismo, se impregnou de valores subjetivos por razões que a psicologia não explica, já que a própria subjetividade se faz historicamente, o que torna abstratas as invariantes psicossexuais destacadas por Lacan e recomenda ampliar a distinção freudiana entre verdade material e verdade histórica sem tomar esta como menos ser, pois as raízes românticas da psicanálise evidenciam sua necessidade histórica, problemática na qual Sartre, por excesso de respeito à subjetividade, não entra.

7. A ausência de crítica ao pressuposto maior do pensamento sartriano, a subjetividade, talvez produto exclusivo da breve história da burguesia, não anula o mérito de sustentar a subjetividade irredutível num contexto empenhado em nivelar tudo, mérito que vale igualmente para o Espírito Objetivo, definido sem sentido pejorativo como a cultura enquanto prático-inerte, nascida do trabalho como natureza antinatureza e instauradora de passividades irredutíveis que desencadeiam o processo de interiorização e exteriorização.

8. A questão de como a loucura de um só pôde tornar-se loucura coletiva e razão estética de uma época mostra que o sucesso de uma obra neurótica só se explica pela neurose do próprio tempo, pois o Espírito Objetivo adquire desde o Romantismo uma determinação neurótica que cria entre público e escritores uma conaturalidade fundada numa falsa objetividade e na crise da comunicação, cabendo examinar o movimento dialético pelo qual o projeto artístico e o projeto neurótico se condicionam mutuamente até que a escrita se torne neurose e a neurose literatura.

9. O Espírito Objetivo opera como imperativo e sentido da história em que Flaubert reinventa a literatura, ou em que esta se reinventa nele a partir da literatura feita, sem que isso autorize esquemas lineares, pois a unidade da literatura é concreta e plural, e a perseguição incansável da redutibilidade da obra à subjetividade e ao social, em contraste com as simplificações marxistas e psicanalíticas, acaba por revelar, depois de tudo reduzido, a obra inteira como irredutível ao subjetivo, ao social e ao histórico.

10. O truísmo de que não se explica a arte, mas apenas a situação do artista, correto na medida em que se aplica a tudo o que existe, acaba sendo uma mentira diante de tudo o que se pode dizer, e o ideal da sensibilidade virgem de Read tornou-se suspeito, o que torna ainda mais problemático o silêncio de Sartre diante de Madame Bovary, já que a ausência do quarto volume prejudica a questão maior da passagem dos condicionamentos à obra objetiva.

11. O Idiota da Família carece de equilíbrio na dosagem de seus elementos, pois os dois primeiros volumes se dedicam à subjetividade, à constituição e à personalização, admitindo apenas microssociedades como a família, o colégio e as amizades, e somente quando o leitor está saturado de Gustavo surge vigorosamente o cenário social e histórico, de modo que o geneticamente primeiro aparece por último e a falta da análise de Madame Bovary priva a obra do elemento capaz de exorcizar os vícios da longa frequentação da subjetividade.

12. A obra incompleta não é mera tradição sartriana como a Ética prometida após O Ser e o Nada, pois a grande Ética do século ainda não pôde ser escrita por falta de sedimentação de valores, restando apenas morais provisórias, e o moralismo de Sartre consiste antes numa problematização desmascaradora da moral e do homem em situação, que finca a problemática do comportamento humano no único lugar que lhe cabe por inteiro, o político.

13. A abdicação da análise de Madame Bovary liga-se sobretudo à complacência com a subjetividade, e o recurso anunciado a técnicas estruturalistas para estudar o estilo, isto é, Flaubert inteiro, levanta a questão da autonomia da estrutura, que para Sartre se torna falsa síntese quando posta como em si, pois só a práxis unitária lhe confere unidade e o estruturalismo radical ignora a História produzindo as estruturas, assim como os modelos linguísticos se tornam ininteligíveis desligados do homem que fala.

14. Embora a parte publicada, centrada na práxis, possa sugerir que Madame Bovary seja redutível a Flaubert e seus condicionamentos, a tese decisiva é a oposta, pois se tudo se explica nada se explica, e a obra interessa justamente na medida em que não se deduz de O Idiota da Família, de modo que o mérito de Sartre está em instaurar, no interior da totalização dinâmica, o jogo dialético das irredutibilidades em que a obra de arte, ininteligível sem a subjetividade, o social e a História, não se reduz a nenhum deles, e a arte só diz o mundo dizendo-se a si própria, instituindo a história da arte na força de sua especificidade.

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