1.1 Paixão útil
BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.
O Idiota e o Espírito Objetivo
1. Uma Paixão Útil
1. O Idiota da Família, biografia de exaustividade sem precedentes que dispensa a mera cronologia exterior para se deter com paciência infatigável nos menores detalhes da vida de Flaubert, toma esse caso particular como exemplo da pergunta que atravessa toda a obra sartriana, a de saber até que ponto se pode conhecer o homem, revelando que ele é sempre um singular universal no qual se lê o Espírito Objetivo de uma época.
2. A grandeza da obra, nascida de um fascínio de quarenta anos por Flaubert como oposto simétrico de Sartre, não se justifica por capricho subjetivo, pois prolonga a temática de Questões de Método e acrescenta à pergunta originária um “hoje” que a insere num tempo social preciso e convoca as figuras de Freud e de Marx.
3. A partir da presença efetiva de um homem num ponto do espaço e do tempo, um inusitado otimismo epistemológico sustenta que, com o método apropriado e os documentos necessários, todo homem é perfeitamente cognoscível enquanto sujeito-objeto, e Flaubert, que se punha inteiro na correspondência e em tudo o que escrevia, oferece-se como presa particularmente dócil a essa investigação.
4. O decisivo é o desvelamento do indivíduo como único, cuja unicidade alberga o universal, e o empenho em compreender Flaubert como ele próprio se compreendia transmite ao leitor uma empatia que permite ler a obra quase como romance sem perda de rigor, despertando, por sua própria riqueza, o desejo de uma análise infinita diante de um sujeito-objeto inesgotável.
5. O que está em jogo é a finitude, e é impressionante que o último grande livro de Sartre se perca num homem entre milhões, assim como O Olho e o Espírito de Merleau-Ponty mergulha no elemento sensível de um quadro, o que mostra quão distante a filosofia contemporânea está das sumas teológicas empenhadas em esquadrinhar Deus.
6. Situar-se no âmago do indivíduo irrepetível, único e datado revela que o desfecho da História da Filosofia está, de modo anti-hegeliano, na descoberta da finitude, na reconciliação com ela e no reconhecimento de sua progressiva desalienação.
7. O aparente paradoxo de estudar um caso concreto que é ao mesmo tempo apenas exemplo devolve a investigação ao plano do geral e das questões de método, pois não há análise do particular sem teoria, e a teoria que guia esse conhecimento de Flaubert se serve, com critérios sartrianos, de toda a metodologia produzida pelo nosso tempo.
8. Três pontos devem ser considerados nessa teoria norteadora: o pensamento do próprio Sartre, a psicanálise e o marxismo.
9. A bibliografia sobre Sartre, ingrata e carente de um estudo abrangente sobre a evolução de seu pensamento tão representativo de nosso tempo, exige que O Idiota da Família seja interpretado como síntese dessa evolução, ficando ainda obscura a relação com a psicanálise e mais clara a relação com o marxismo, amplamente debatida pelo próprio filósofo.
10. Sem interesse pela exatidão das análises sobre o caso Flaubert nem pelos muitos parênteses valiosos da obra, como os relativos ao Romantismo, ao riso e ao ator, cujo comentário exigiria um livro inteiro, a discussão se limita a um único tema, a outra grande paixão sartriana pelo abstrato, isto é, às questões de método.
