4 Rousseau e Hamann
1. Os ideais iluministas sofreram contudo em toda Europa forte reação, pois Voltaire, embora fiel ao classicismo francês e admirador do siècle de Louis XIV, publica as suas Lettres anglaises e com elas derrama sobre a Europa a cultura inglesa, e a religião, a política, a filosofia, a estética e os poetas da ilha vizinha são fatores que irão abalar profundamente os alicerces do classicismo e do iluminismo.
2. O classicismo inglês, com Pope e Samuel Johnson, desenvolvera-se escassamente, e a filosofia inglesa, o empirismo, é todo o contrário do racionalismo francês, constituindo mesmo forte crítica ao pensamento cartesiano, e a confiança na razão passa a esmorecer-se, sendo bem conhecida a frase de Diderot de que nunca se persuadirá o coração de que ele erra ao fremir.
3. E assim aos poucos é toda uma nova ordem de coisas que se estabelece, e em diversos países surgiram críticas à razão, Rousseau na França, Hume na Inglaterra, Kant na Alemanha, críticas estas informadas pelas exigências de novos ideais de maior amplidão.
4. O tema da razão dá lugar ao tema da natureza, cujas exigências já haviam sido bem compreendidas por Lessing, para quem a corte não é um lugar onde o poeta possa estudar a natureza, e se a pompa e a etiqueta transformaram os homens em máquinas, deverá o poeta fazer deles novamente homens.
5. Essa reação manifesta-se fortemente com Rousseau, o grande precursor do romantismo, em cuja obra o tema da natureza ocupa um lugar central.
6. Genebrino protestante, mais nórdico do que latino, fala-nos Rousseau do que chama de espírito romanesco, assim definido por ele: de que se goza em semelhante situação? De nada exterior a si, de nada senão de si mesmo e de sua própria existência, e enquanto esse estado dura a pessoa se basta a si mesma como Deus.
7. O ponto de partida da doutrina de Rousseau é a interioridade, um voltar-se sobre si mesmo, e na base não só da filosofia de Rousseau mas de todo o pensamento moderno encontramos uma atitude subjetiva, sendo o subjetivo ponto de partida tanto do racionalismo cartesiano como do pensamento de Rousseau.
8. E é precisamente neste ponto onde melhor se pode medir a distância que separa Descartes do novo sentido da interioridade, pois em Descartes, como na filosofia que dele derivou, a interioridade esgota-se em uma dimensão racionalista expressa no cogito, e os filósofos fazem a análise da razão, estudam a razão e o conhecimento racional, enquanto a interioridade de Rousseau é bem outra, pois para ele interioridade é sinônimo de sentimento, e este é considerado superior à razão.
9. Rousseau declara ter deixado de lado a razão e consultado a natureza, isto é, o sentimento interior que dirige a sua crença independentemente de sua razão, e o sentimento passa a ser considerado o fator básico na vida individual, pois só nele se traduz a autêntica interioridade do homem.
10. A razão não só é inferior, mas passa a depender do sentimento, e a profissão de fé do Émile diz que sentimos necessariamente antes de conhecer, que os atos de consciência não são juízos mas sentimentos, e que ainda que todas as nossas idéias nos venham de fora, os sentimentos que as apreciam estão dentro de nós.
11. Só através dos sentimentos é que as idéias e o mundo racional podem adquirir um sentido, podem de fato ser apreciados, porque o sentimento é a medida da interioridade do homem, e no sentir, no viver-se, o homem é de fato ele mesmo desde as suas raízes, espontânea e livremente.
12. E a esse sentimento interior chama Rousseau de natureza, uma natureza que se opõe portanto à da concepção cartesiana e enciclopedista, que via na natureza algo de exterior, de objetivo, de matematizado e racional, e essa concepção racionalista, fria e mecânica constitui para Rousseau a maior fonte de erros pelo que representa de artificial e desvitalizado.
13. É a natureza vista através dos olhos da ciência, produto portanto da cultura, e de fato natureza e cultura segundo Rousseau são mundos que se opõem, são termos antitéticos que se excluem reciprocamente.
14. Bem que Rousseau pretendesse estender seu pessimismo a toda e qualquer cultura, compreende-se facilmente que ele se opunha, como também Lessing, à cultura do racionalismo clássico que tendia sempre mais a aprisionar o homem em convencionalismos estéreis, mas não existe suficiente perspectiva histórica em Rousseau, e o seu protesto permanece assim reduzido à cultura de sua época, que consegue atingir vivamente.
15. Volta-se então à natureza, mas a uma natureza que deve ser compreendida a partir da interioridade, tal como ela transparece nas Rêveries du promeneur solitaire, e Rousseau entrega-se em devaneios solitários a uma atitude bucólica, tendendo em longos passeios pelo campo a fundir-se misticamente com a natureza.
16. Ele relata que da superfície da terra elevava as suas idéias a todos os seres da natureza, ao sistema universal das coisas, ao ser incompreensível que abarca tudo, e então, perdido o espírito nessa imensidão, não pensava, não raciocinava, não filosofava, sentia-se com uma espécie de voluptuosidade, e oprimido com o peso desse universo abandonava-se com arrebato à construção dessas grandes idéias, amando perder-se com a imaginação no espaço, sufocando-se com o universo e gostando de lançar-se ao infinito.
17. Trata-se como se vê de uma natureza com a qual o espírito tende a confundir-se, desenvolvendo uma espécie de volúpia cósmica, e essa interiorização da natureza permite segundo Rousseau um mergulho na própria interioridade humana, um alargamento da humanidade do homem.
18. Quando na profissão de fé o vigário saboiano diz que se entre novamente em nós mesmos, resume toda a filosofia de Rousseau, porque a partir dessa interioridade podemos compreender a natureza, e uma natureza isenta ainda da mácula de mãos humanas, estranha e anterior à cultura, de uma pureza divina e que nos pode revelar o Absoluto, pois tudo está bem ao sair das mãos do Autor das coisas e tudo degenera entre as mãos do homem, como rezam as primeiras palavras do Émile.
19. Essas idéias de Rousseau encontraram profunda repercussão no espírito dos gênios do chamado pré-romantismo alemão, o Sturm und Drang, e esses jovens gênios levam a sério a oposição estabelecida por Rousseau entre natureza e cultura, exagerando-a a ponto de se entregarem a uma rebelião frenética a todos os valores estabelecidos.
20. A despeito de toda a sua oposição, o bon sauvage de Rousseau não se confunde com o primitivo, pois deve aceitar a cultura embora submetendo-a a uma perspectiva nova, o sentimento da interioridade, e os jovens poetas alemães tendem ao contrário a pintar um bon sauvage no qual ressaltam os aspectos mais primitivos, valorizando-o contra ou independentemente da cultura.
21. A incompreensão que revelou Voltaire quando disse sobre Rousseau que, se devêssemos seguir a doutrina deste, em pouco tempo estaríamos caminhando de quatro como os animais, aplica-se muito mais ao Sturm und Drang, pois à mordacidade de Voltaire responde um jovem poeta, Seume, cansado da cultura, dizendo que vede, nós selvagens somos melhores homens.
22. Assim os gênios, como o Werther de Goethe, também buscam refúgio na natureza, e inspirados em Rousseau procuram uma participação que dá primazia ao sentimento, dizendo que o sentimento é tudo, e procuram portanto a autenticidade do homem, crendo que ela só se pode desenvolver a partir do sentimento interior da natureza, insatisfeitos com a impessoalidade da razão e dando vasa à pessoalidade do sentimento.
23. Mas à lição de Rousseau acrescentam a de Hamann, o mago do norte, para quem a expressão máxima da natureza é o gênio, insubmisso a qualquer tentativa de definição, pois o gênio não pode ser explicado por nenhuma forma de combinação de faculdades ou pela alquimia de elementos psíquicos, já que ele é indefinível e a sua força é a força da própria natureza.
24. Hamann ensinara que só podemos compreender o gênio a partir daquilo que em última análise é incompreensível, e devemos partir não de um exame do racional mas de um sentir unitário que mergulhe em regiões mais profundas, pois não é a razão que define o gênio mas o berço último de nossas idéias, aquela região subterrânea que nos habita e que logo mais será batizada pelos românticos de inconsciente.
25. Essa zona obscura é que deve ser explorada, pois ela é a zona original, raiz coincidente com o divino, verdade última e ponto de partida do homem, e Hamann diz que só o conhecimento de nós mesmos, essa descida aos infernos, nos abre o caminho da divinização, de modo que a salvação está conseqüentemente na irracionalidade.
26. Introduz-se assim a crença, à qual todo o romantismo permanecerá fiel, de que a irracionalidade é uma força positiva: o caos constrói, compõe, daí o tema do demoníaco no Sturm und Drang que leva a considerar o gênio como o valor máximo.
27. O gênio é o Kraftmensch, o homem habitado pela força da natureza que faz dele um demiurgo apto a manifestar todas as suas possibilidades, o infinito da pulsação cósmica que traz consigo e que o anima, e antecipando Nietzsche é caracterizado como uma espécie de super-homem.
28. A ordem, a virtude e a moral são substituídas pelo caos criativo, pela força do gênio, pelas paixões vitais além de toda medida, e o gênio por isso mesmo não conhece leis, pois ele é a sua própria lei, tornando-se um rebelado contra tudo o que tende a reprimir e a subordinar a sua força.
29. Os jovens gênios apresentam-no freqüentemente como um revoltado contra a sociedade, as convenções sociais, o despotismo do estado ou da religião, como em Goetz von Berlichingen de Goethe e em Os Ladrões e Intriga e Amor de Schiller.
30. Outro fator importante no Sturm und Drang, na base do qual encontramos Herder, é o despertar para uma consciência nacional que tende a acentuar-se sempre mais, e diante da catedral gótica de Estrasburgo Herder convencera Goethe da necessidade de valorização do elemento nacional, da tradição germânica, desviando os olhos do poeta da arte francesa e mostrando-lhe a importância da arte alemã.
31. Goethe escreve então em 1773 um ensaio, Da Arquitetura Alemã, dedicado a Ervino von Steinbach, arquiteto da catedral, no qual exalta e elogia a organicidade do estilo gótico que confunde com o germânico, entendendo a catedral como as bodas da natureza e da história, fazendo alçar o solo popular até o divino, à revelação do Absoluto.
32. O Sturm und Drang foi sem dúvida um grande precursor do romantismo, e a filiação a Rousseau sobretudo apresenta-se com características eminentemente românticas, mas é precisamente essa filiação que permite medir toda a distância que há entre o Sturm und Drang e o movimento romântico propriamente dito, pois este parte não do genebrino protestante mas do criticismo transcendental de Kant e do idealismo de Fichte.
33. A despeito disso o Sturm und Drang revela-se um antecipador do romantismo, pois constitui uma etapa decisiva na evolução da cultura germânica a caminho de seu apogeu romântico, e a influência de Rousseau sobre os gênios não pode ser compreendida meramente como uma importação, pois o fato de Rousseau ter sido protestante é altamente significativo, e a valorização que nele encontramos da vida do sentimento casa-se perfeitamente com as mais profundas tendências religiosas alemãs da época.
34. De fato, como se viu, o Iluminismo na Alemanha permaneceu cultura de uma pequena elite, não conseguindo infiltrar-se nas camadas populares, e estas continuaram fiéis à cultura pré-iluminista, desenvolvendo de modo especial uma corrente religiosa de enorme importância pelas conseqüências que viria a trazer: o pietismo.
35. Contra a teologia racionalista oficial Spener fundou em 1670 em Frankfurt os seus collegia pietatis, que incentivavam a vida piedosa, fazendo da religião algo de estritamente individual e desenvolvendo uma interioridade calcada sobre o sentimento religioso, e o irracionalismo pietista preparou um solo propício à eclosão do Sturm und Drang, abrindo as portas no plano intelectual a uma larga receptividade das doutrinas de Rousseau.
36. Assim o Sturm und Drang, a despeito de todas as influências estrangeiras sofridas, permanece fundamentalmente um movimento germânico, mais em continuidade com a Reforma do que com a Aufklärung, sendo uma das primeiras manifestações importantes da cultura alemã.
