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3 Iluminismo

1. O primeiro problema é o estudo do lastro romântico que atravessa toda a cultura alemã, e com isso apontar-se-á já aos antecedentes históricos do movimento romântico propriamente dito.

2. Para compreender a filosofia romântica deve-se partir da Aufklärung, do Iluminismo, e se se compreender esse movimento assim como o compreendia Kant, deve-se concluir tratar-se da fase menos germânica da cultura alemã, pois a Alemanha nessa época vivia sob a sombra da cultura latina, especialmente da francesa, idealizando a tal ponto os padrões franceses que se esquecia dos valores nacionais.

3. Exemplificativa desse ponto de vista é a corte de Frederico o Grande, reflexo da francesa frequentada por Voltaire, ou Leibniz, que escreveu quase toda a sua obra em francês, ou ainda Gottsched, cuja reforma do teatro foi integralmente inspirada na Arte Poética de Boileau e nos clássicos franceses contra o teatro popular da época.

4. Quando na Itália floresceu a Renascença, na Alemanha processou-se a Reforma, fato que viria estabelecer uma profunda cisão entre a cultura latina e a nórdica, pois no sul a palavra de ordem era a volta à natureza enquanto no norte dava-se exatamente o contrário, não a volta à natureza mas o afastamento dela e a fixação no sobrenatural.

5. Os italianos buscavam inspiração na arte antiga e os alemães concentravam-se na fé e na vida religiosa, tratando-se portanto de movimentos opostos a despeito de certos pontos de contato que contudo se desenvolviam dentro de um sentido diverso, pois o grande tema da cultura renascentista é a natureza e o caminho que conduz a ela é a razão, enquanto para Lutero o único caminho válido é a fé e o seu objeto é o sobrenatural, razão pela qual as concessões que Lutero faz à cultura encontram a sua justificação na Bíblia e na vida religiosa.

6. O homem deveria ser educado a fim de melhor atender a seu beruf, profissão ou chamado divino, e aprender a submeter-se às ordens de Deus, e assim, se a vitória nos países latinos cabe ao racionalismo, na Alemanha é o irracionalismo que se introduz, constituindo-se em uma das presenças constantes ao longo de toda a cultura alemã.

7. A primeira conseqüência da Reforma foi o isolamento da Alemanha durante cerca de dois séculos, divorciando-a da cultura latina, e depois segue-se uma série de movimentos subseqüentes que tendem não só a reintegrar a Alemanha na Europa mas sobretudo a reabilitar os seus valores.

8. No século XVIII surge o primeiro desses movimentos, a Aufklärung, que deve ser compreendida como um esforço de assimilação da cultura européia, e em seguida o Sturm und Drang, um pré-romantismo rebelado contra o classicismo francês e desperto aos valores germânicos, depois o classicismo alemão, alheio a exclusivismos exacerbados, tendendo a realizar uma síntese européia da cultura, e finalmente o romantismo, no qual a Alemanha atinge a sua máxima maturidade cultural.

9. Com o romantismo os papéis se invertem, pois se a Alemanha vence o obscurantismo graças à influência do classicismo latino, o seu romantismo impõe-se a toda a Europa.

10. Apontam-se brevemente os momentos mais essenciais desse itinerário, imprescindíveis para a boa compreensão do tema, pois neles se encontram os bastidores do movimento romântico.

11. Kant inicia um curto ensaio no qual procura definir o Iluminismo com as palavras que o caracterizam como a emancipação do homem de sua minoridade pela qual é responsável, sendo minoridade a incapacidade de se servir de seu entendimento sem a direção de outro, e conclama o homem a ousar usar o seu próprio entendimento como divisa da Aufklärung.

12. Essa definição ignora que a Alemanha precisamente no Iluminismo permaneceu na minoridade cultural, submetendo-se à maioridade francesa, e se a Reforma apresenta-se como um movimento nitidamente germânico, uma erupção nórdica, a Aufklärung bem ao contrário é uma quebra do elemento nacional, desenvolvendo-se como uma etapa bastarda.

13. Mas a definição de Kant revela um aspecto essencial e primeiro desse movimento, o racionalismo, pois Leibniz afirmara que vivemos no melhor dos mundos possíveis, e a única condição para a plena consecução desse otimismo seria a necessidade de submeter-se às forças racionais.

14. Em nome da razão havia sido desenvolvido o melhor da cultura da época: a ciência, a idéia da liberdade, da tolerância, da dignidade humana, a idéia do progresso da humanidade.

15. A res cogitans tal como Descartes a pensara exerce um papel fundamental, pois a razão seria o ponto arquimédico que permitiria dominar o mundo, e se o homem quisesse atingir a sua plenitude, quer dizer, ser soberanamente livre, deveria considerar a razão como a essência do seu ser, derivando dela as normas de seu comportamento.

16. O homem atingiria portanto o máximo de sua humanidade se racionalista, e só pode ser considerado como verdadeiro, bom e belo aquilo que resiste à crítica racional, e por isso o dado como tal perde o seu sentido.

17. A realidade em si mesma suscita a dúvida, e o homem só se deveria prender àquilo sobre o qual pode atingir certeza racional, e tudo é assim subordinado à razão, pois não valem mais as coisas e sim os objetos pensados, o mundo passa a ser o mundo do homem, Deus o Deus do homem, e a religião só é considerada válida dentro dos limites da pura razão, como exige Kant em sua última obra.

18. Essa concepção racionalista transparece magnificamente bem em um poema de M. J. Chénier, segundo o qual é o bom senso e a razão que fazem tudo, virtude, gênio, espírito, talento e gosto, sendo a virtude a razão posta em prática, o talento a razão produzida com brilho, o espírito a razão que finamente se exprime, o gosto nada mais que um bom senso delicado e o gênio a razão sublime.

19. A razão é portanto o valor supremo e todos os aspectos da cultura a ela devem estar subordinados, e mais ainda, a estrutura última da realidade é racional, levando a compreender a natureza como um significado funcional, segundo Cassirer, e Deus como uma espécie de grande arquiteto ou relojoeiro que teria construído todas as coisas more geométrico.

20. Esse racionalismo levou a um estreitamento do homem e dos valores humanos, pois a intelectualização quando ditatorial leva inevitavelmente a um afastamento da natureza, ficando esta reduzida a objeto do pensamento racional quer científico quer filosófico, e o mesmo vale para a sociedade, estabelecendo-se a atitude racionalista como princípio do individualismo.

21. Deus passa a ser o que o pensamento humano permite, e cai-se no Deus dos filósofos, e esse estreitamento racionalista explica enfim o excesso de normas e convenções a que passa a ser submetida a atividade humana.

22. O direito, a moral, a arte, assim como a ciência e a filosofia, devem ser explicados a partir de um princípio único, a razão, e Boileau pretende fornecer as normas racionais que devem presidir a toda atividade artística, idéias claras e distintas segundo o padrão cartesiano, não inventadas mas normas que correspondem à estrutura última da realidade à qual devem ser aplicadas, e Montesquieu no Espírito das Leis entrega-se a uma codificação semelhante no plano das ciências jurídicas, realizando-se assim o ideal estipulado por Descartes de uma mathesis universalis.

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