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Apel
BLEICHER, Josef. Contemporary hermeneutics: hermeneutics as method, philosophy and critique. London: Routledge, 1990.
Apel: hermenêutica crítica sob a forma de uma antropologia do conhecimento
- A hermenêutica existencial-ontológica de Heidegger foi considerada um aprofundamento da crítica transcendental kantiana do conhecimento, tendo sido possível mostrar como a estrutura prévia da compreensão fornecia por si mesma a base a partir da qual se podia colocar a questão das condições de possibilidade do conhecimento correto
- A figura do círculo hermenêutico foi usada por Gadamer para rejeitar o objetivismo inerente às Geisteswissenschaften histórico-hermenêuticas, e quando desafiado por Betti a evidenciar critérios para julgar a correção ou verdade das interpretações propostas — a quaestio iuris — Gadamer respondeu que apenas se ocupava em mostrar o que sempre acontece quando se compreende, isto é, a quaestio facti
- A referência ao enraizamento da compreensão na historicidade e na finitude do Dasein foi vista por Betti como uma recaída no subjetivismo, representando isso, para a hermenêutica crítica, não só a perda do grau de autonomia frente às forças sociais irracionais que o pensamento adquiriu com o Iluminismo, mas também o impedimento de que o pensamento hermenêutico assuma qualquer relevância metodológica
- É nesse contexto que a investigação de Apel sobre a possibilidade de uma hermenêutica filosófica guiada pelo princípio regulativo de um progresso no conhecimento adquire seu contorno, o que também a distingue da reativação por Betti da hermenêutica tradicional romanticista
- O fulcro do empreendimento de Apel é nada menos que a transformação da filosofia, reunindo as vertentes dominantes da filosofia contemporânea — o pragmatismo de Peirce, a filosofia linguística de Wittgenstein, a ontologia existencial — sendo bastante fascinantes as implicações da transformação da filosofia a priori, orientada pelo sujeito, que dominou a filosofia ocidental desde Descartes e certamente até Husserl
Diferenças com Gadamer
- O programa de Apel consiste em mediar o reconhecimento da existência do círculo hermenêutico subjacente a toda atividade de pensamento com a exigência de padrões objetivos para a determinação de pretensões de verdade e a necessidade de critérios para avaliar a validade das interpretações propostas
- Esse ato de equilíbrio, realizado tendo a análise heideggeriana do Dasein como corda de sustentação, espera conduzir a uma filosofia transcendental metodologicamente relevante
- Essa formulação precisa a crítica central de Apel à filosofia hermenêutica de Gadamer: sua pretensão de representar uma filosofia transcendental no sentido kantiano é injustificada porque rejeita explicitamente a necessidade de responder à quaestio iuris
- A execução da tarefa ambiciosa de Apel revelará de imediato a diferença entre sua abordagem e a de Betti, pois, embora ambos façam o mesmo ponto, o corretivo de Betti conduz a uma posição pré-heideggeriana, ao passo que Apel toma a historicidade da compreensão como ponto de partida
- Apel rejeita o raciocínio empregado por Gadamer em sua resposta à crítica de Betti: a tarefa de uma crítica normativamente relevante não pode ser abandonada em favor de uma mera descrição do que é, sendo impossível referir-se a uma Crítica da Razão Pura sem tentar responder à questão das condições de validade da ciência juntamente com a questão de sua possibilidade
- No contexto do problema de como a compreensão é possível, a questão toda se apresenta assim: a análise da estrutura prévia da compreensão não pode concentrar-se apenas na possibilidade da compreensão excluindo a preocupação com a validade de seus resultados
- Gadamer evidencia a estrutura da fusão de passado e presente como subjacente tanto à compreensão correta quanto à incompreensão, sentindo que nada mais é exigido para demonstrar a possibilidade da compreensão
- Para Apel, contudo, mesmo essa problemática não pode ser adequadamente exposta a menos que se pergunte também pela validade da compreensão, sendo necessários critérios para distinguir compreensão de incompreensão antes que se possa responder à questão da possibilidade da compreensão
- Nesse sentido, Apel reclama uma hermenêutica filosófica normativo-metodologicamente relevante, concepção que reafirmaria a possibilidade de progresso na interpretação, que Gadamer e Betti reduziram ao surgimento de interpretações diferentes
- Ao mesmo tempo, o intérprete pode estar em posição de compreender o autor melhor do que este se compreendeu a si mesmo, não podendo sua tarefa de julgar criticamente ser evitada atribuindo alguma forma de superioridade ao objeto ou apontando que o próprio intérprete parte necessariamente de uma base dogmática
Mediação dialética das abordagens hermenêutica e explicativa
- A possibilidade e a necessidade de um progresso na compreensão interpretativa surgem do próprio campo da hermenêutica quando, por exemplo, a comunicação é impedida ou tornada impossível, sendo tais eventos o domínio da psicanálise e da crítica da ideologia, ambas voltadas a remover barreiras à compreensão que podem operar sem que a pessoa ou o grupo social em questão tenha consciência delas, como no caso do comportamento de pessoas neuróticas e de grupos que agem com falsa consciência
- O intérprete, seja psicanalista ou sociólogo crítico, está aqui em posição de compreender o autor melhor do que ele mesmo se compreendeu, graças à sua capacidade de considerar instâncias de autocompreensão inadequada em referência a um corpo de teoria que incorpora a história de vida de agentes individuais e coletivos
- A ação que se origina de uma compreensão inadequada ou inexistente de seus motivos torna-se compreensível com o auxílio de um arcabouço explicativo que retrata suas causas
- O que pode parecer, à primeira vista, a intrusão de um modo de cognição próprio da investigação de processos naturais no campo da comunicação intersubjetiva e da mediação da tradição é utilizado no programa de Apel com o propósito da emancipação, isto é, aquele processo de reflexão através do qual os processos individuais e sociais se tornam transparentes aos próprios atores envolvidos, permitindo-lhes perseguir seu desenvolvimento ulterior com consciência e vontade, em vez de permanecerem como produto final de uma cadeia causal que opera às suas costas
- Essas motivações inconscientes, enquanto causas, representam um elemento quase natural na história do indivíduo e da espécie, variando conforme o nível de interação entre homem e natureza alcançado em uma sociedade — seu desenvolvimento econômico — e a forma de dominação política vigente em determinados momentos
- Em condições de escassez, o reino da necessidade projeta sua sombra sobre essa liberdade, exigindo dos homens que sigam imperativos econômicos em vez de seu desejo de autorrealização
- O aspecto quase natural da ação humana domina na pré-história, no sentido de Marx, da humanidade, estado de coisas que ainda caracteriza o presente
- O pressuposto idealista da hermenêutica pode, por conseguinte, ser formulado como a negligência em atender às condições materiais sob as quais a história se processa, o que levou ao fracasso em reconhecer que a História, isto é, o progresso rumo à autorrealização, ainda manca com muletas, deformada por formas obsoletas de dominação mesmo em condições em que a carência material já deveria ser um anacronismo, e sustentada apenas por concepções de dignidade humana que ainda precisam ser afirmadas desafiadoramente diante de uma realidade desumana, em vez de serem dadas por certas
- Colocado de modo mais positivo, a hermenêutica supõe erroneamente que o passo da pré-história para a história propriamente dita já foi dado e que os homens são os criadores conscientes e autodeterminados de seu próprio futuro, como a filosofia sempre prometeu
- Essas condições, em que os homens agem sob os ditames não só da natureza, mas também de uma segunda natureza, isto é, do ambiente social do homem que aparece como imutável, incontrolável e por vezes tão ameaçador quanto a natureza física ou primeira, fornecem a base material para a introdução de métodos causais e estatísticos na ciência social
- As abordagens causais implicam que o comportamento humano deva ser explicado, e não compreendido, isto é, que os motivos subjacentes ao comportamento operem de modo causal, e não como razões formadas conscientemente e imediatamente inteligíveis como tais para outros
- A aplicação da estatística só pode ter sucesso se as pessoas se comportarem de modo regular, senão estereotipado, o que é apenas outra maneira de dizer que toda, ou a maior parte, da criatividade e da espontaneidade lhes foi extirpada
- Uma vez que seu objeto é preformado de tal modo que incorpora tanto momentos explicativos quanto interpretativos, seria tarefa óbvia considerá-los conjuntamente no contexto da metodologia da ciência social
- A abordagem de Apel difere da maioria das outras tentativas nesse campo ao evitar qualquer tese de complementaridade eclética, insistindo em vez disso em uma síntese dialética que tem seu correlato concreto na existência de uma tensão fundamental dentro da totalidade da existência social entre forças que desejam confinar o homem em seu estado presente de não liberdade e aquelas que se esforçam por algo melhor
- A síntese das duas seria um evento apocalíptico ao final do qual o homem emergiria como o sujeito-objeto da história
- No plano metodológico, a constituição de seu objeto como dialético-contraditório conduziria à seguinte constelação para a hermenêutica crítica
- A metodologia das ciências sociais é caracterizada pelo choque entre os que desejam alcançar os padrões de objetividade e certeza próprios das ciências naturais assimilando seus métodos, de um lado, e os que insistem no aspecto irredutível e inalienavelmente humano da vida social, que desafia a generalização, a predição e o controle, de outro
- Enquanto os interesses de controle e de compreensão subjacentes a essas abordagens conflitantes existem em relação tensa nas ciências sociais, a hermenêutica crítica tenta uma mediação dialética sob a forma de uma crítica da ideologia
- O paradigma aqui é a psicanálise, isto é, o processo pelo qual um paciente é ajudado a superar seu comportamento sintomático mediante o uso combinado de explicação causal e autocompreensão aprofundada
- A diferença entre a hermenêutica crítica, sob a forma de uma sociologia crítica, e a ciência social positivista é evidente: a primeira espera dissolver o componente causal, natural, na ação humana tornando transparente seu mecanismo e assim permitindo aos atores humanos recuperar o domínio sobre seu destino, enquanto a segunda prossegue e tenta estender o uso dos métodos das ciências naturais que tratam os indivíduos humanos como meros objetos de quantificação, perpetuando assim o reinado da segunda natureza, em que os processos sociais aparecem como eventos naturais fora do alcance da intervenção consciente, ao fornecer os dados exigidos para a condução tecnocrático-manipulativa da evolução social
A transformação da filosofia
- A reconstrução crítica dos processos individuais e sociais supera a interpretação hermenêutica do sentido, cometendo a hermenêutica crítica, no que se refere a esta última, uma transgressão injustificável ao tentar ter acesso ao sentido fora ou por trás da autocompreensão intencional dos atores
- Os hermeneutas consideram equivocada e arrogante a pretensão de saber melhor, contravindo, por exemplo, a pré-conceção de perfeição que, segundo Gadamer, guia necessariamente a interpretação
- Como pode ser justificado o ponto de vista da hermenêutica crítica? Perguntar pelas condições de possibilidade da compreensão crítica exige uma resposta tão fundamental quanto aquela que Kant deu para a possibilidade das ciências naturais, sem partir da hipostatização de um sujeito ou de uma consciência como garantidor metafísico da validade intersubjetiva do conhecimento, mas do pressuposto de que estamos — pelo fato de que ninguém pode seguir uma regra sozinho ou apenas uma vez, segundo Wittgenstein — destinados a priori à comunicação e à compreensão intersubjetivas
- Apel formula: nesse sentido, uma filosofia transcendental hermeneuticamente transformada parte do a priori de uma comunidade comunicativa real que é, para nós, praticamente idêntica à espécie humana ou à sociedade
- É claro que as imperfeições manifestas na comunicação existente, devidas à intrusão de um elemento de força, tornam necessário estabelecer princípios regulativos com cujo auxílio os estados de coisas reais possam ser medidos e julgados e que forneçam a diretriz para o esforço de compreender melhor, o que implica por si mesmo o movimento emancipatório rumo a uma sociedade mais livre
- Apel introduz, por conseguinte, o conceito de uma comunidade comunicativa ideal que, embora pressuposta e antecipada em todo ato comunicativo, retrata um estado de coisas que só pode ser aproximado
- A possibilidade de uma sociedade mais livre, na qual os fins e os meios do progresso social possam ser discutidos de modo mais aberto e competente, permanece, contudo, uma precondição para uma melhor compreensão
- Em última instância, é a antecipação de uma forma verdadeiramente humana de existência que fornece a base para a crítica das formas de vida presentes e da comunicação intersubjetiva distorcida e da autocompreensão inadequada que lhes são coextensivas
- A compreensão de textos e autores permite criticar e ir além das verdades neles contidas porque se dispõe da ideia de um modo de vida mais verdadeiro, ideia que, reitera-se, não é uma quimera, mas já pressuposta e parcialmente realizada na comunicação e na interação contemporâneas
- A hermenêutica crítica reconhece, portanto, que as condições de possibilidade de progresso na comunicação humana só podem ser estabelecidas com o desenvolvimento rumo a uma sociedade mais livre
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