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Pensando com Heidegger

Thinking with Heidegger: displacements. Bloomington: Indiana Univ. Press, 2003

  • Prefácio
  • Introdução: A proveniência do pensamento
  • 1. Homo heideggerianos
  • 2. A política da repetição
  • 3. Tédio: entre existência e história
  • 4. Ciência, «serva da filosofia»?
  • 5. Arte, «irmã da filosofia»?
  • 6. O lugar da arquitetura
  • Posfácio: Traduzir essencialmente

1. tratando-se de obra claramente temática, dedicada não tanto a um único aspecto do pensamento de Martin Heidegger, ou à sua relação com figuras centrais da história da filosofia, quanto a diversos temas ou tópicos centrais à tradição filosófica, cada qual servindo por direito próprio como ponto de entrada na essência desse pensamento, todos ressoando de uma mesma origem, levanta-se a objeção de haver algo deslocado, senão mesmo provocador, em organizar aspectos do pensamento heideggeriano segundo as próprias linhas de áreas e categorias que esse pensamento precisamente procura evitar, uma vez que, ao pensar a natureza da humanidade, de seu ethos e de sua pólis, da ciência, da arte, da poesia e da arquitetura, Heidegger busca superar as próprias categorias e disciplinas em que tais domínios são tradicionalmente pensados — “antropologia”, “história” e “política”, “ciência” e “estética” —, na tentativa de pensar mais “originariamente”, submetendo o pensamento à exigência de superar a metafísica à qual todas essas áreas permanecem devedoras.

  • reinscrever tais categorias como rubricas para pensar a contribuição heideggeriana à história da filosofia arrisca-se, desde o início, a apagar a própria tarefa que Heidegger atribui ao pensamento em sua diferença essencial da metafísica, anulando a operação pela qual ele tenta arrancar tais categorias do domínio do pensamento metafísico.
  • assume-se conscientemente esse risco, insistindo-se e demorando-se precisamente nessa operação, testemunhando de perto o modo mesmo pelo qual esses temas tradicionais, centrais à filosofia, são revisitados, ao mesmo tempo reinscritos e deslocados — em suma, repensados à luz da única questão que Heidegger jamais reivindicou ter pensado, e a partir da qual pensou, a saber, a questão concernente ao sentido ou à verdade do ser.
  • ancora-se esse movimento de pensamento, por razões estrategicamente essenciais, no próprio vocabulário e nas construções metafísicas com que ele se vê obrigado a negociar, não se tratando de abandonar os sítios ou problemas que as categorias clássicas da antropologia, da estética, da história e da política até então serviram para definir, a fim de dirigir o pensamento a um objeto novo, até então ignorado ou negligenciado, mas antes de, ao voltar-se a esse “objeto”, simultaneamente retornar aos próprios sítios ou problemas tradicionalmente tematizados sob as categorias clássicas e os domínios da metafísica: o problema do sentido de ser humano, da arte e da arquitetura, da ética e da política, da ciência e da própria filosofia.

2. esclarece-se, neste ponto, o título da obra: Pensando com Heidegger — se algo assim há de ocorrer, se é possível reivindicar pensar com Heidegger, então a própria natureza do pensamento, em sua tentativa e ambição de levantar questões e articular problemas de modo simplesmente outro que metafísico, em sua ambição de retornar a alguns dos tópoi mais tradicionais do pensamento filosófico devolvendo-os ao seu fundamento esquecido, porém ainda decisivo, deve ela mesma ser posta em questão, tornando-se questão explícita, começando a obra, assim, por levantar a questão da origem ou da proveniência do pensamento, o lugar de onde recebe sua própria direção, que não se pode supor de antemão disponível.

  • apenas à luz dessa questão inicial, brevemente tratada na introdução, será possível voltar-se às questões e sítios mais específicos que a obra se propõe a analisar, permanecendo essa questão de abertura operativa ao longo de todo o livro e dos diversos itinerários nele esboçados.
  • pensar com Heidegger significa, antes de tudo, deixar-se atrair pelo movimento geral do pensamento tal como por ele concebido, e questionar e analisar a partir de dentro desse espaço, significando, por vezes, estender algumas de suas análises em direções não fornecidas por seu próprio texto, questionando para além de Heidegger.
  • ainda que a determinação do pensamento operante ao longo da obra, o sentido mesmo de pensamento, seja fornecida pelo próprio Heidegger, havendo genuína tentativa de segui-lo em sua própria jornada, e por vezes de estendê-la e ampliá-la à luz de desenvolvimentos ou domínios com os quais não estava familiarizado ou não poderia ter antecipado, há também tentativa igualmente genuína de confrontá-lo sempre que se sentir que suas próprias análises excluem certas questões e considerações.
  • mais significativa, nesse sentido, é sua relação com a ciência, e com as ciências naturais em particular, tão radicalmente diversa de sua relação com a arte, e com a poesia em particular, questionando-se, no capítulo “Ciência, 'Serva da Filosofia'?”, se o desenvolvimento de uma relação mais livre e produtiva com a ciência não exigiria um relato mais matizado e menos traumático da ciência e de sua relação com a natureza.
  • do mesmo modo, no capítulo “Arte, 'Irmã da Filosofia'?”, questiona-se se a “relação especial” da filosofia com a arte não precisaria ser reconsiderada, e se a centralidade da linguagem para a arte não deveria ser posta em questão.
  • ainda a título de exemplo, a exploração da relação heideggeriana com a arquitetura (Capítulo 6), embora encontrando seu impulso inicial no próprio pensamento de Heidegger, levantará a questão de sua compatibilidade com a atual era das teletecnocomunicações e da economia globalizada, indagando-se, além disso, se o relato heideggeriano não permaneceria cego a uma dimensão central da arquitetura, seja antiga ou contemporânea.

3. quanto ao subtítulo, Deslocamentos, este qualifica a operação característica do pensamento heideggeriano ao voltar-se aos domínios clássicos abordados ao longo da obra, operação já exposta com considerável detalhe em relação à política em Heidegger and the Political: Dystopias, sendo essa operação retomada e justificada, no Posfácio da presente obra — ao qual o leitor pode desejar recorrer desde já —, como designando um gesto singularmente heideggeriano em que se implica o próprio movimento da essência ou da verdade.

  • no Posfácio, essa operação revela-se mais de perto em conexão com a questão da tradução, de modo a iluminar retrospectivamente todos os capítulos anteriores e destacar a natureza singular dessa questão para o próprio sentido do que significa pensar de uma perspectiva heideggeriana.
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