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ESCRITURA
Barthes - Sobre “escritura”. Excerto de O Grau Zero da Escritura
O QUE É A ESCRITURA?
- A língua é um corpus de prescrições e hábitos comum a todos os escritores de uma época, funcionando como horizonte e limite, não como fonte de materiais nem como lugar de compromisso individual.
- A língua desliza inteiramente através da palavra do escritor sem lhe dar forma alguma; é como um círculo abstrato de verdades fora do qual começa a depositar-se a densidade de um verbo solitário.
- É objeto social por definição, não por lição; propriedade indivisa dos homens e não dos escritores, permanecendo fora do ritual das Letras.
- Dizer que Camus e Queneau falam a mesma língua é apenas presumir, por operação diferencial, todas as línguas arcaicas ou futuristas que não falam.
- A língua é para o escritor o lugar geométrico de tudo o que não poderia dizer sem perder, como Orfeu ao voltar-se, a estável significação de sua marcha e o gesto essencial de sua sociabilidade.
- O estilo, situado quase além da literatura, nasce do corpo e do passado do escritor e constitui um idioma autárquico que se afunda na mitologia pessoal e secreta do autor.
- Sob o nome de estilo forma-se a primeira união das palavras e das coisas, onde se instalam de uma vez por todas os grandes temas verbais da existência do escritor.
- O estilo é sempre algo em bruto: forma sem objetivo, produto de um impulso e não de uma intenção, dimensão vertical e solitária do pensamento.
- Suas referências situam-se no nível de uma biologia ou de um passado, não de uma História; é a coisa do escritor, seu esplendor e sua prisão, sua solidão.
- Indiferente e transparente à sociedade, o estilo não é de modo algum produto de uma escolha ou reflexão sobre a literatura; é a parte privada do ritual, eleva-se das profundidades míticas do escritor fora de sua responsabilidade.
- Funciona ao modo de uma Necessidade, como se o estilo fosse o termo de uma metamorfose cega e obstinada saída de um infraliinguagem que se elabora no limite da carne e do mundo.
- A palavra tem estrutura horizontal, seus segredos estão na mesma linha de suas palavras e o que esconde se desata na duração de seu contínuo; o estilo tem dimensão apenas vertical, afundando-se no passado fechado da pessoa.
- O estilo é sempre metáfora, equação entre a intenção literária e a estrutura carnal do autor; seu segredo é uma lembrança encerrada no corpo do escritor, fenômeno de densidade e não de velocidade como na palavra.
- Por sua origem biológica, o estilo situa-se fora da arte, isto é, fora do pacto que liga o escritor à sociedade.
- Gide é o tipo do escritor sem estilo cuja maneira artesanal explora o prazer moderno de certo ethos clássico; a poesia moderna de Hugo, Rimbaud ou Char é saturada de estilo e é arte apenas por referência a uma intenção da Poesia.
- O horizonte da língua e a verticalidade do estilo desenham para o escritor uma natureza, pois ele não escolhe nem um nem outro; entre ambos existe espaço para outra realidade formal: a escritura.
- A língua funciona como negatividade, limite inicial do possível; o estilo é uma Necessidade que ata o humor do escritor a seu idioma.
- Língua e estilo são antecedentes de toda problemática da linguagem, produto natural do Tempo e da pessoa biológica; são forças cegas.
- A escritura é um ato de solidariedade histórica: a relação entre criação e sociedade, o idioma literário transformado por seu destino social, a forma captada em sua intenção humana.
- Mérimée e Fénelon estão separados por fenômenos de língua e por acidentes de estilo, mas praticam uma linguagem carregada da mesma intencionalidade, referindo-se à mesma ideia de forma e fundo — têm a mesma escritura.
- Mérimée e Lautréamont, Mallarmé e Céline, Gide e Queneau, Claudel e Camus, quase contemporâneos e falando o mesmo estado histórico da língua, utilizam escrituras profundamente diferentes; tudo os separa — o tom, a elocução, o fim, a moral, o natural de sua palavra.
- A escritura é essencialmente a moral da forma, a escolha da área social no seio da qual o escritor decide situar a natureza de sua linguagem, e constitui uma realidade ambígua.
- Essa área social não é a de um consumo efetivo; a escolha da escritura é escolha de consciência, não de eficácia.
- Porque o escritor não pode modificar os dados objetivos do consumo literário, transporta voluntariamente a exigência de uma linguagem livre às fontes dessa linguagem e não ao momento de seu consumo.
- Por um lado a escritura nasce de uma confrontação do escritor com sua sociedade; por outro, remete o escritor, por uma espécie de transferência trágica, dessa finalidade social até as fontes instrumentais de sua criação.
- Não podendo oferecer-lhe uma linguagem livremente consumida, a História propõe ao escritor a exigência de uma linguagem livremente produzida.
- A liberdade da escritura não tem os mesmos limites nos diferentes momentos da história, e há uma História da Escritura determinada pela pressão da História e da Tradição.
- Essa história é dupla: quando a História geral propõe ou impõe uma nova problemática da linguagem literária, a escritura permanece ainda cheia da memória de seus usos anteriores, pois o idioma nunca é inocente — as palavras têm uma memória segunda que se prolonga misteriosamente em meio às significações novas.
- A escritura é precisamente o compromisso entre uma liberdade e uma memória, liberdade que só é liberdade no gesto de escolha, não mais em sua duração.
- Uma remanência obstinada, proveniente de todas as escrituras precedentes e do passado da própria escritura do autor, cobre a voz presente de suas palavras; toda marca escrita precipita-se como elemento químico em que a simples duração faz aparecer aos poucos um passado em suspensão, uma criptografia cada vez mais densa.
- Como Liberdade, a escritura é apenas um momento, mas esse momento é um dos mais explícitos da História, pois a História é sempre e antes de tudo uma escolha e os limites dessa escolha.
- A unidade da escritura clássica, homogênea durante séculos, e a pluralidade das escrituras modernas, multiplicadas há cem anos até o limite do fato literário, correspondem a uma grande crise da História total.
- O que separa o pensamento de Balzac do de Flaubert é uma variação de escola; o que opõe suas escrituras é uma ruptura essencial, no instante mesmo em que duas estruturas econômicas se imbricam, arrastando em sua articulação mudanças decisivas de mentalidade e de consciência.
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