0 Introdução
AXELOS, Kostas. Vers la pensée planétaire: Le devenir-pensée du monde et le devenir-monde de la pensée. Paris: Éditions de Minuit, 1964 (Coleção Arguments).
Introdução ao pensamento planetário
1. O devir-pensamento do mundo, que é ao mesmo tempo devir-mundo do pensamento, é balizado pelos grandes pensadores e pelas grandes doutrinas do Ocidente, de Heráclito e Parmênides até Marx, figuras dominantes que, dominadas tanto pelo que pensam quanto pelo que deixam impensado, iluminam também a história, já que pensamento e história não se deixam separar artificialmente.
2. As grandes pensadores não se refutam, mas se sucedem segundo filiações nem arbitrárias nem necessárias, formando constelações epocais que pensam todas, de modos diferentes, o Mesmo, isto é, o ser em devir da totalidade fragmentária do mundo, fixado em palavras-mestras como Logos-Physis, Deus, Homem, História e Sociedade.
3. Ao lado dos pensadores sistemáticos atravessam o céu pensadores meteóricos como Pascal, Novalis, Nietzsche e Heidegger, e tanto o pensamento discursivo quanto o fragmentário revelam que nenhuma palavra, nenhum conceito e nenhum método esgotam o curso do mundo, pois toda linguagem é elíptica, nada é dito em sua totalidade e, para falar e agir, sempre se esquematiza.
4. Estrelas fixas e meteoros misturam sua luz e remetem, junto com vida e pensamento, genialidade e cotidianidade, a um fundo comum que se esquiva, enquanto as exigências de transformar o mundo e mudar a vida geram movimentos e contramovimentos nos quais os homens, ao mesmo tempo astutos e ingênuos, aceitam e recusam o que é, até que a própria dialética apareça como uma máquina girando em círculo diante do enigma do jogo do mundo.
5. Pensadores e pensamentos estão presos na rede das grandes potências que desvelam, regem e transformam o mundo, a saber, mitos e religião, poesia e arte, política, pensamento, ciência e técnica, potências interligadas que aspiram cada uma à dominação sem que se possa indicar seu centro comum nem o móvel último do devir histórico.
6. A técnica tende doravante a encarregar-se de tudo o que é, sendo não algo exterior, mas a mola íntima de tudo o que se faz e que informa até a interioridade humana, prendendo em sua engrenagem todas as demais potências e ligando produção e consumo.
7. Realizando melhor que Prometeu o antigo trabalho mitológico de domar a natureza, a técnica segrega sua própria mitologia planetária, instala-se como potência dominante criadora e desveladora, abre a possibilidade de uma nova gênese e de um apocalipse técnicos e leva a termo a modernidade europeia tornada mundial, enquanto se passa sonambulicamente ao largo dos pensadores que começaram a pensá-la, como Hegel, Marx, Nietzsche e Heidegger.
8. Ao assumir linguagem, trabalho, amor, luta e jogo, a técnica liga Natureza e História e se torna não o Todo, mas a constelação que forja e abraça tudo, diante da qual o humanismo, do qual ela própria resulta como humanismo solidificado, é impotente, exigindo uma abordagem meta-humanista que não seja inumana e na qual o homem passe a compreender-se não como um sol, mas como um planeta.
9. Abrir-se à dominação da técnica requer superar o subjetivismo e o objetivismo da propriedade num modo de ser nem possessivo nem ascético, capaz de responder à técnica como provocação da matéria, da vida e do pensamento, questão que talvez só surja com clareza após os avanços na energia atômica, na criação artificial da vida e na cibernetização do pensamento, uma vez que o tempo permanece o problema maior.
10. Culminando a rede das grandes potências, a técnica é instrumento e arma do diálogo-duelo entre homem e mundo, pensamento realizado que não consegue absorver totalmente o pensamento, de modo que através de seu desdobramento surgirá a potência do pensamento, e o sentido do mundo fica suspenso a esse enfrentamento entre técnica e pensamento.
11. As grandes potências servem às forças elementares que colocam homem e mundo em confronto, a saber, linguagem, trabalho, amor e morte, luta e poder, e jogo, forças que se interpenetram e põem em movimento as instituições, as obras, as famílias, os Estados e as paixões humanas.
12. Mais originariamente, potências, forças e instituições remetem ao diálogo entre o dizer e o fazer, versão do problema do pensamento e da realidade, que não se resolve nem pela unidade nem pela dualidade, pois se o dizer é um fazer e toda ação é linguagem, pensar em mil francos não é tê-los no bolso, e a própria realidade, vinda de res, deixa entrever um nada.
13. No começo não estava nem o Verbo nem a Ação, pois o problema do início é antes uma pergunta que uma resposta, e o jogo unitário do dizer e do fazer, do logos e da práxis, não se reduz a nenhum de seus componentes, remetendo ao próprio jogo do mundo que se diz e se faz através do homem.
14. Grandes potências e forças fundamentais se desdobram como jogo, que não é uma força entre outras mas aquilo que penetra e engloba todas, sem ser jogo de alguém ou de algo, fazendo do homem inteiro jogador e brinquedo em correspondência com o Ser como tempo, tal como Heráclito o disse ao comparar o tempo a uma criança que brinca, palavra retomada de modo ainda idealista e romântico por Hegel, Schiller e Marx.
15. Foi Nietzsche quem soube ecoar Heráclito ultrapassando o plano antropológico e humanista ao proclamar a inocência do devir e compreender o mundo como jogo, enquanto Heidegger chegou a admitir que a essência do Ser é o próprio jogo, sem porquê, no qual se fundam e se abismam as perguntas e as respostas.
16. O jogo poderia ser a palavra-mestra que diz o ser em devir da totalidade fragmentária e aberta do mundo, no qual se fundam e se abismam pensadores, potências e forças fundamentais, desde que não seja fixado como slogan ou chave-mestra, lembrando que todos os jogos humanos são intramundanos e que jamais se está diante do Jogo mesmo, mas sempre dentro de seus fragmentos.
17. As regras do jogo permanecem uma questão aberta, pois os jogos particulares têm regras feitas para serem respeitadas ou transgredidas, ao passo que o jogo do mundo se desdobra sem regras exteriores, restando ao homem jogá-lo aceitando-o e mudando-o, num jogo que não é nem tragédia nem comédia e que organiza até suas próprias formas de revolta.
18. O mesmo jogo parece manter ligados pensamento e mundo, o que leva a perguntar onde está o pensamento, se no mundo, se como seu logos ou se como próprio do homem.
19. O pensamento joga em toda parte, nos atos míticos, religiosos, poéticos, políticos, científicos e técnicos, e a filosofia, surgida num mundo já constituído com os sofistas, Sócrates e Platão e chegando aos sinais de sua desaparição com Hegel, foi sua morada privilegiada, enquanto o pensamento metafilosófico, ao tentar superá-la, faz se apagar a diferença entre filosofia e não filosofia e coloca a questão da diferença entre pensamento e não pensamento.
20. Todo pensamento, sobretudo desde o judeo-cristianismo, contém um esquema trinitário e unitário, circular, que parte do logos, abraça a natureza e chega ao homem que o reconhece, esquema presente da Bíblia a Platão, Hegel, o evolucionismo e o materialismo dialético, e ao qual quase nenhum pensamento escapa.
21. O esquema logos-physis-homem gira como um círculo cuja rotundidade jamais foi problematizada, esquivando os problemas do tempo e da linguagem, atribuindo ao Ser um sentido único e supremo, fazendo girar em círculo começo e fim e pretendendo salvar o mundo pela reabsorção do mal e do erro no desdobramento do Verdadeiro, do Bem e do Belo.
22. O pensamento se desdobra em dimensões que formam um todo, da lógica à metafísica, à teologia, à cosmologia, à antropologia e à filosofia da história, e, em fidelidade ao grande esquema, desembocou num recorte em ontologias regionais e disciplinas científicas, ciências da natureza e ciências humanas, que retomam pela segunda vez o esquema logos-physis-homem, retomado uma terceira vez pelo historicismo.
23. Onde quer que se comece, pelo Logos, por Deus, pela Natureza, pelo Homem ou pela História, reencontra-se tudo e o Todo, num jogo combinatório que cabe à humanidade continuar teórica e praticamente, a partir de qualquer tema, evitando fixações e ficções e sem poder distinguir as coisas tais como são das coisas tais como são vistas e feitas.
24. A volta parece fechada e tudo parece em ordem, pois essa ordem móvel contém suas próprias inquietudes, contestações, pesquisas e aberturas, ligando tudo a tudo e seguindo adiante, orgulhosa de seus estatutos e aberta ao futuro.
25. O pensamento diz o Mundo apenas no que se revela e se forja na linguagem humana, deixando o Mundo impensado, e mundo e pensamento são congêneres sem serem idênticos, pois não há nem mundo sem pensamento nem pensamento sem mundo, dificuldade insolúvel que nem a identidade parmenidiana, kantiana e hegeliana nem a tentativa evolucionista ou materialista conseguem liquidar.
26. O mundo se desdobra como jogo do tempo e o pensamento é o tempo que se pensa, num único devir que porta e arrasta mundo-e-pensamento, sendo à luz do pensamento que o mundo se desvela como mundo, sem que o segredo de seu acordo discordante jamais seja desvendado.
27. O pensamento sistematizado em lógica é regido por princípios primeiros, identidade, não contradição, terceiro excluído e razão suficiente, que, não fundados e axiomaticamente postos, governam a gramática, o raciocínio e a própria realidade, permanecendo dominantes mesmo quando são negados e necessariamente transgredidos para falar, pensar e agir.
28. Os princípios lógicos confrontam o pensamento com o problema da identidade e da tautologia, com o abismo do lugar da contradição, com a alternativa do terceiro excluído, cujo meio geralmente triunfa, e com o problema do fundamento, abrindo à apreensão do jogo como único fundamento e abismo de um Ser que é sem razão de ser.
29. A situação criada pelos princípios do pensamento é turva, pois, pretendendo-se formais, falam de conteúdos, são verdadeiros e reais como mostram o sedento no deserto e quem procura a causa de um incêndio, e seu enunciado completo em Aristóteles é astuto ao precisar que a impossibilidade vale ao mesmo tempo, para o mesmo e sob a mesma relação.
30. Como habitualmente se move em vários planos, negligencia-se essa precisão, e a lógica dialética conserva e supera o princípio sem aniquilá-lo, como faz Hegel ao afirmar que a contradição é a raiz de todo movimento e de toda vida.
31. Generalizando a contradição, Hegel a deixa embaraçada, mas talvez seja possível algo além de respeitar e contradizer os princípios, preparando outra linguagem, reconhecendo que o Mesmo, que é o Um-Todo onde se desdobram as diferenças, não é o idêntico, que não há critério da verdade como verdade e que o pensamento, origem do saber, não se deixa encerrar nele.
32. O pensamento só pode dizer o que é, e o que é não é idêntico a si, é contraditório, não exclui o meio e não tem razão suficiente, pois está no movimento, no tempo e no jogo da errância, de modo que à sua pergunta correspondem várias respostas.
33. Os princípios onto-lógicos, que regem toda a geometria plana e euclidiana da linguagem, do pensamento e da realidade, são difíceis de superar sem curto-circuitá-los, mas se deixam englobar pelo horizonte de uma pan-topologia temporalizada que buscaria corresponder ao jogo global e múltiplo em todos os planos.
34. Só o homem pensa, mas o pensamento pensa o homem, e a coexistência de homem e mundo no tempo é mais que uma unidade dialética, sendo o enigma maior de uma copertença na qual nenhum dos polos é ponto de partida, de modo que antropocentrismo e cosmocentrismo erram igualmente esse encontro, e tudo se situa no terreno humano sem que este seja o único nem o principal.
35. O jogo que mantém ligados, na proximidade e na distância, mundo e homem só se deixa dizer por balbucios.
36. O Mundo é o horizonte supremo, total e aberto de tudo o que no devir do tempo se mostra fragmentariamente ao homem, ilimitado mas talvez não infinito, sem fundamento exterior, cujo jogo espaço-temporal foi interpretado como physis, Deus, ideia, espírito, matéria ou atividade humana, e que não se divide em natureza e história nem se deixa captar por nenhuma lógica.
37. O homem é um ser vivo, falante e pensante, finito e limitado, que vem do fundo do mundo e a ele retorna, aspira ao conhecimento, à conquista e ao reconhecimento, e que, sem ser medida de todas as coisas nem senhor do mundo, é aquele para quem somente os seres e as coisas existem e se tornam problema, sendo mais do mundo do que no mundo.
38. O jogo que liga homem e mundo é o tempo, ritmo errante que porta e arrasta tudo o que é, idêntico ao Ser, sem eternidade que se lhe oponha, nem retilíneo nem circular, de começo inapreensível e fim imprevisível, tridimensional, insuperável por ser ele próprio a superação, e morada de tudo o que passa e se passa.
39. O devir-pensamento do mundo encontra um certo desfecho no século XIX com a Revolução Francesa, Napoleão, o romantismo e o idealismo alemães, desfecho que Hegel sistematiza ao ver na sociedade civil e no Estado o acabamento de uma grande época, permanecendo insuperado, sem que se esconjure o enigma da circularidade do tempo e da possível repetição em espiral de tudo o que já se desenrolou.
40. O inicial que nunca deixou de ser rege presente e porvir através de metamorfoses nas quais o que se manifesta não é o sempre idêntico, pertencendo tanto ao passado não findo quanto ao futuro, e esse inicial só é reconhecido depois.
41. Ainda não se está pronto para abrir-se ao tempo que tritura nem para compreender por que a ordem atual e suas organizações regerão seres e coisas por longo tempo, já que do trabalho ao amor, da linguagem ao poder do Estado e aos jogos de toda sorte se desprende o mesmo ritmo que comanda o que é e seu desenvolvimento.
42. Marx quis inverter a Ideia e, pela crítica da alienação, traçou a perspectiva da conquista do mundo, mas o que se realizou foi um mundo hegeliano-marxista onde toda negatividade se converte em positividade, a crítica se impõe enquanto a solução tarda, e a marcha para a apropriação total suprime não a alienação, mas a própria diferença entre próprio e estranho, identidade e alteridade, comédia e tragédia.
43. A crise e a crítica de Nietzsche, Freud e Heidegger pertencem organicamente a esse mundo burguês generalizado no niilismo produtivo e cansado, onde vazio e tédio, trabalho e lazer se misturam, onde um certo esgotamento dos estilos de vida faz com que nenhum princípio novo surja e tudo apenas se repita e se combine, e onde subjetividade e objetividade se dissolvem num mundo tornado espetáculo.
44. A história parece ter chegado a um impasse, sem crença em paraísos perdidos ou futuros, sem possibilidade de retorno ao arcaico, com todas as verdades superadas e toda dimensão espiritual suspeita, o que coloca a questão de como seguir adiante, como abrir-se aos seres e às coisas e como continuar a viver o pesadelo da humanidade massificada, sufocada no prático e no técnico.
45. A humanidade é muito pobre em pensamentos, pois apenas três se impuseram, a natureza, Deus e o homem com sua sociedade, eixos em torno dos quais giraram, da pré-história à era planetária, a visão de mundo e a ética humanas.
46. Enquanto a humanidade arcaica e oriental girava em torno da natureza e dos deuses, no Ocidente os três círculos coexistem com predominância alternada, o logos da physis divina para os gregos, Deus criador para os judeo-cristãos e o homem para os modernos, numa linhagem que vai do cristianismo ao humanismo liberal e ao socialismo e caminha para um ecumenismo cristiano-capitalo-socialista.
47. A força dos ismos, miseráveis mas incorporados aos costumes, vem de sua impureza, já que prometem mais do que cumprem e nenhuma tarefa jamais se completa, pois nenhum indivíduo ou sociedade foi absolutamente cristão, democrata ou socialista, e é nesse mais ou menos que seres e coisas se fazem e desfazem.
48. Nem a nostalgia, nem a mera constatação do presente, nem o progressismo, nem o desespero abrem caminho, restando viver e encarar esse Todo que vira Nada e esse Nada que se eleva ao Todo, numa experiência niilista inseparável de um holismo metafilosófico em que a experiência do vazio se torna tarefa imediata e futura.
49. A era das grandes individualidades e do gênio parece encerrada, com a humanidade coletiva tornando-se portadora do que engendra e todos se tornando suspeitos e suspeitosos, embora os grandes homens e o gênio continuem a se manifestar, enquanto uma certa cultura caminha para sua supressão pela generalização, a arte se funde com a técnica e as redes de informação neutralizam tudo.
50. Na paisagem terrestre e cósmica que se abre, simultaneamente excitante e entediante porque tudo foi dito e tudo resta por dizer, a marcha errante é iluminada pelas grandes sombras, e as mortes anunciadas do grande Pã por Pascal, de Deus por Nietzsche e do Homem por Rimbaud dizem o fim de um modo de ser e de ser apreendido da Natureza, de Deus e do Homem.
51. Os jogos estão feitos, mas o jogo continua, e o homem, ser da finitude, entra num além da subjetividade e da coletividade cujo fim durará longo tempo, podendo destruir-se, desaparecer, sofrer uma muda ou ultrapassar-se ao compreender-se como jogador e brinquedo do jogo do tempo, aprendendo que as coisas não vão nem melhorando nem piorando, mas giram e retornam.
52. Nenhum profetismo ou utopia consegue ultrapassar o estado móvel das coisas, e cabe perguntar se as mudanças quantitativas trarão mudanças qualitativas, se após a saturação das conquistas modernas poderá instaurar-se uma relação mais descontraída com seres e coisas, se o homem poderá mudar sua natureza e se trocas inéditas entre matéria, energia, vida e pensamento redistribuirão as peças no tabuleiro.
53. Outras possibilidades vão das pequenas catástrofes técnicas, acompanhadas de desregramentos e de uma loucura branda dos brinquedos humanos, até uma grande catástrofe cósmica ou técnica, parcial ou total, que poderia mergulhar o planeta no silêncio estrelado, deixando aberta a questão do que resta quando a linguagem e o homem não existem mais.
54. Diante das perspectivas catastróficas, a humanidade busca vias de conquista cósmica, instalando-se e explorando outros astros, sem que se saiba se daí resultará algo novo ou apenas a exportação das riquezas, da miséria e do tédio terrestres para outros astros errantes.
55. Resta a possibilidade do encontro com outros seres no cosmos, sobre a qual nada se pode dizer e que, esteja o universo vazio ou povoado, nada muda ainda no destino humano nem no Ciclo que liga seres e coisas e que pode crescer enormemente permanecendo o mesmo.
56. Talvez se caminhe para um pensamento planetário inseparável da experiência planetária, retomada do passado e preparação do futuro, sem passadismo nem escatologia, que uniria a verdade errante da metafísica à da antimetafísica e, depois de superar naturalismo, teísmo, panteísmo, ateísmo, humanismo e historicismo, promoveria uma nova relação com tudo o que é.
57. Conhecer o pensamento planetário significaria meditar e experimentar como atores-espectadores, num além da representação, num pensamento metacrítico, questionador, fragmentário e multidimensional da totalidade aberta, que se abriria ao Ser-Nada, isto é, ao tempo e ao jogo do mundo, como jogo poliscópico correspondente ao jogo caleidoscópico do mundo.
58. O pensamento é dito planetário porque abarca o globo terrestre, porque é itinerante e errante como uma trajetória no espaço-tempo, porque designa a era da planificação, porque nomeia o reino da platitude que tudo aplaina e porque se refere a uma engrenagem, num jogo em que conceitos, intuições e imperativos da ação terão de se transformar sem ideias supremas, ídolos ou modelos.
59. O pensamento planetário responde à errância do ser em devir da totalidade do mundo, onde não há mais absoluto nem relativo, mas o jogo do inapreensível, e verdade e realidade, antes compreendidas como desvelamento, adequação ou presença objetiva, tornam-se questões desse jogo do Ser-Nada, podendo designar provisoriamente o que corresponde à errância e contribui para equilíbrios passageiros ou duráveis.
60. A antiga trindade do verdadeiro, do bem e do belo, despedaçada, permanece no fundo do horizonte, e talvez não se trate de edificar nova lógica, ética ou estética, mas de aprender a construir menos teorias e a agitar-se menos, jogando o jogo do tempo com o máximo de intensidade e de descontração, como atores-espectadores voltados para a abertura da totalidade e esbarrando em limites.
61. Como espectadores em todo tempo e lugar, voltados para tudo e nunca para além, os homens são submergidos por algo que organizam, que cai aos pedaços, que reorganizam, até caírem eles próprios aos pedaços.
62. Essas palavras foram ditas por quem perguntou por que os errantes, façam o que fizerem, têm sempre o ar de quem está partindo.
