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O Grande Mistério (Béhar)

BÉHAR, Pierre. Les langues occultes de la Renaissance: essai sur la crise intellectuelle de l’Europe au XVIe siècle. Paris: Desjonquères, 1996.

  • A noção de grande mistério constitui o núcleo especulativo no qual se concentra a problemática cabalística mais profunda do pensamento de Agrippa.
    • Esse mistério é identificado com a mutação do Pentagrama em Trigrama, apresentada como chave última da estrutura simbólica do mundo e da revelação divina.
    • A exposição aparece tardiamente no De Occulta Philosophia, sobretudo na versão de 1533, o que indica seu caráter de acréscimo decisivo, mas não plenamente integrado.
  • O grande mistério está ligado à figura do nome de Jesus enquanto síntese suprema da Cabala cristã.
    • O Pentagrama, associado tradicionalmente ao nome de Jesus, representa a condição humana e o mundo criado.
    • A transmutação em Trigrama simboliza a passagem do humano ao divino, do mundo da criação ao da redenção.
    • Essa mutação expressa a incorporação do princípio divino no mundo sensível.
  • A interpretação cabalística do nome de Jesus fundamenta-se na reorganização das letras do Tetragrama.
    • O nome divino revela-se como portador de uma potência criadora e redentora.
    • A introdução da letra associada ao princípio salvífico transforma a estrutura do nome, sem destruir sua unidade originária.
    • O mistério consiste precisamente nessa adição mínima que produz uma transformação ontológica máxima.
  • O grande mistério articula linguagem, cosmologia e soteriologia.
    • As letras não são meros signos convencionais, mas realidades eficazes.
    • A estrutura do mundo corresponde à estrutura dos nomes divinos.
    • Conhecer o mistério equivale a compreender a lógica interna da criação e da redenção.
  • A mutação do Pentagrama em Trigrama possui implicações cosmológicas.
    • Ela reflete a passagem da ordem natural para a ordem espiritual.
    • O mundo inferior é assumido e transfigurado pelo princípio superior.
    • A hierarquia dos seres encontra sua unidade nesse movimento simbólico.
  • O grande mistério funda também a eficácia da magia cabalística.
    • A operação mágica legítima baseia-se no conhecimento dos nomes e de suas transformações.
    • A prática mágica torna-se participação no ato criador e redentor.
    • A fronteira entre teologia, magia e linguagem é deliberadamente abolida.
  • Apesar de sua centralidade, o grande mistério não resolve as tensões internas da obra.
    • A exposição permanece fragmentária e alusiva.
    • A Cabala não se impõe como princípio organizador de todo o sistema.
    • O mistério aparece mais como culminação simbólica do que como fundamento rigoroso da construção teórica.
  • O grande mistério revela, assim, tanto a ambição quanto os limites do projeto de Agrippa.
    • Ambição de unificar magia, Cabala e cristianismo num único esquema simbólico.
    • Limite de uma síntese que permanece mais evocativa do que sistematicamente coerente.
    • O mistério, longe de encerrar a obra numa conclusão clara, mantém aberta a tensão entre revelação, linguagem e poder mágico.
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