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Sephiroth - Introdução (Abellio)
RA1965
A obra que ora apresentamos constitui a segunda parte de nosso estudo de conjunto sobre a Bíblia, documento cifrado. O conhecimento do tomo I, intitulado Clefs générales, é indispensável para a leitura desta segunda parte. Remeter-nos-emos, aliás, frequentemente a este estudo anterior, que designaremos pela sigla CG.
Desta vez, buscamos mais verificar e estender o emprego das chaves propostas do que construir um sistema. É por certo seguro, entretanto, que a ciência numeral nada é enquanto não ilumina uma metafísica, uma ontologia e uma cosmologia. Teorias como a da gravitação das três pessoas divinas ou a da encarnação consumada constituem, nesta segunda obra, um primeiro ensaio de exploração destas superestruturas. Do mesmo modo o que dizemos sobre a contiguidade e a fusão dos extremos, a assimetria enantiomórfica da Trindade e o fechamento do ciclo teogônico. Mas apresentamos estas teorias como hipóteses de trabalho, e nada mais, pois, apesar da importância que devemos e queremos conferir aos simples levantamentos matemáticos e genéticos, todo estudo deste gênero que não se acompanhasse, em cada etapa, de um mínimo de reflexão metafísica, ainda que aventurada, seria de interesse espiritual desprezível.
Independentemente dos desenvolvimentos a priori que exige inevitavelmente, no estágio em que ainda nos encontramos, um tal trabalho, tomei como suporte três textos tradicionais:
* primeiramente, fragmentos da Idra Rabba Kadisha, extraídos do Zohar. * em seguida, o início do Siphra di-Tzéniutha ou Livro Oculto, igualmente extraído do Zohar.
Estes dois textos estão, o segundo nomeadamente, entre os mais antigos da Cabala.
* enfim, os cinco primeiros versículos do Gênese, abrindo assim o estudo da Bíblia propriamente dita.
A extraordinária acumulação dos indícios fornecidos por um estudo mesmo rápido destes textos fará nascer, bem o sei, sentimentos contraditórios: primeiro, um sentimento de certeza — as chaves são boas, inquestionavelmente. Depois, uma decepção: por mais que tenhamos encontrado certos fios condutores de primeira importância que ligam entre si, infalivelmente, todas as palavras do texto, os estiquios dos versículos e os versículos entre si; por mais que nosso próprio ritmo vital se encontre engajado e se reconheça nestas pulsações que fazem oscilar e avançar o texto, há confirmações em demasia. Não estamos mais em presença de uma falta, mas de um excesso de elementos. A Bíblia oferece-nos um emaranhado de fatos, de encontros, de coincidências, de recordações, tão denso quanto a natureza o parecia aos primeiros experimentadores do século XVI; e avançar torna-se impossível se nos contentamos em repertoriar números sem os reunir em leis. Enfim, o cipoal alegórico do Zohar com suas repetições, seus retornos, sua insistência, suas interpolações, acrescenta de tal modo a esta impressão desagradável que a necessidade de uma síntese imediata se impõe ao espírito.
Não é seguro que um estudo puramente analítico alcance aqui seu objetivo; o contrário é mesmo muito provável. Jamais apareceu com mais força esta ideia de que o todo comanda a parte, e de que o conhecimento do detalhe não é concebível senão em vias de ordenar-se a um conhecimento de conjunto perpetuamente adiado para o futuro, e tomando sobre todo conhecimento parcial uma hipoteca nunca levantada. Por mais que o microcosmo repita o macrocosmo, o local contenha o global, as propriedades induzidas e as relações que um ser, fosse ele um número, sustenta com o meio ambiente, reduzam-se a propriedades intrínsecas e caracteres inerentes ao próprio ser, está doravante estabelecido que um alto grau de penetração matemática no detalhe não pode garantir uma plena descoberta. Já os matemáticos sabem que a redução das propriedades de situação às propriedades de estrutura, quer dizer, das propriedades extrínsecas às propriedades intrínsecas, nunca poderá ser concluída. Se a topologia, por exemplo, não pode desenvolver-se senão dando razão a Leibniz, isto é, reduzindo a estrutura de conjunto das mônadas à lei do devir interno de uma só delas, não deixa de ser verdade que esta mesma topologia encontra constantemente fatos que dão razão a Kant, e para além de Kant aos platônicos, no sentido de que certas propriedades dos corpos não se deixam descrever em termos de relações mútuas em uma estrutura que não seria própria senão a esses corpos, mas inscrevem-se em um sistema de referências privilegiado e universal como aquele que estabelecem no espaço as distinções fundamentais da direita e da esquerda, do alto e do baixo, etc. Assim, o proceder da ciência permanece analítico em um quadro que escapa à análise, não para a rejeitar, mas para a obrigar a avançar ainda. É o mesmo problema que encontrou Husserl ao levar a fenomenologia até essa redução onde a contradição explode e onde a existência sente em si mesma algo mais do que ela própria. Permaneçamos no quadro de nosso estudo. Problemas como os da criação ex nihilo e da gravitação dos números no interior dos ciclos, mesmo que cheguem a tomar uma formulação matemática precisa, dependem finalmente de uma concepção metafísica de conjunto, e da qual resta ainda saber se é de natureza discursiva ou iluminativa. Outro exemplo: introduzimos a noção de equivalência. Enquanto conceito matemático, ela não possui aqui nenhum rigor. Como se poderia dizer, matematicamente falando, que um número e sua reversão, por exemplo, são equivalentes: 26 e 62, 127 e 721? Não pode tratar-se senão de um conceito de aproximação, e todo nosso esforço deve ser o de introduzir ali esse rigor ainda ausente. Mas mesmo que o consigamos e que tal problema ponha em causa uma categoria propriamente matemática — a elucidação da função do 9 enquanto fator de periodicidade —, ele provém evidentemente e antes de tudo da interpretação metafísica, e mesmo esta interpretação acabará por tropeçar nos limites da consciência clara. Não basta notar novas categorias fenomenológicas para atingir o âmago das coisas, mesmo que tal proceder seja indispensável. Precisemos nosso pensamento: em matéria de ciência numeral sagrada, duas vias se oferecem, ambas analíticas, e que de modo algum se excluem: a de uma pesquisa matemática pura, finalmente independente do suporte zohárico e bíblico, e aplicando-se ao estudo do conjunto infinito constituído pelos valores secretos dos números, à determinação das regras gerais que comandam as estruturas e as mudanças de estruturas nos grupos numerais e nos ciclos, enfim à exploração do transfinito; — e a de uma análise literal cada vez mais presa aos detalhes mais ínfimos dos textos, mas buscando sempre descobrir sob a tradução demótica ou vulgar, e de uma forma mais ou menos arriscada, o prolongamento ontológico e cosmológico. Que a primeira seja mais nobre que a segunda, se esta se contentar com uma simples depuração exegética, é evidente: é a primeira que é conforme ao gênio ocidental, que consiste em reencontrar a Tradição, explicitá-la e dar-lhe sua nova forma na ponta dos ganhos do conhecimento claro, por meio de uma linguagem matemática universal, e finalmente em plena objetividade e absoluto rigor. E são, aliás, os matemáticos e não os exegetas que provocarão a revolução metafísica; ninguém mais pode duvidar disso há cinquenta anos. Hoje, esta convergência das duas análises não é um fato consumado, mas provável. Todavia, a Bíblia não seria um livro sagrado se sua compreensão não exigisse, mesmo em suas margens, a entrada em jogo de certas forças particulares, de natureza sintética, que se costuma chamar não somente intuitivas, mas iluminativas. Resta bem entendido que, no instante perfeito do fim, a iluminação perfeita se confunde com a plena consciência analítica, mas isto não é senão o fruto do fim: um supremo êxito. Até lá, o homem está preso em sua própria contradição vital, que é, aliás, o segredo de seu dinamismo; está encerrado nesta perpétua oscilação entre vertigem e consciência, onde todos os seus poderes se erguem e onde o seu próprio antagonismo os exercita e os multiplica. Os resultados que uma tal tensão permite depreender em um dado instante são forçosamente tão imperfeitos e provisórios quanto o próprio estado do homem nesse instante. Provisórios, revisáveis, mais ou menos comunicáveis, sempre aperfeiçoáveis.
É, por conseguinte, indispensável que, se os matemáticos aceitam ver na Bíblia um terreno de exercício matemático, aceitem também reconhecer que ela é muito mais: o suporte de uma experiência espiritual. Os progressos atuais que a técnica não cessa de provocar no manejo dos números e, nomeadamente, o aperfeiçoamento recente das máquinas de calcular e integrar, que põem em jogo, sem o saber, os dois problemas mais ocultos da aritmosofia — a saber, as propriedades de periodicidade inerentes ao número 9 e o problema das relações do zero e do um no seio da numeração binária considerada como numeração universal e primordial —, estes progressos são a garantia de que os matemáticos, quando se interessarem por isso, farão dar imediatamente um passo à frente decisivo à genética bíblica. Torna-se para nós quase certo que todo número, para entregar seu sentido metafísico e situar-se no seio de uma estrutura, deve ser primeiramente traduzido na numeração binária, que melhor dá conta das relações do Mesmo e do Outro, no sentido platônico, ou então do Ser e do Nada. Uma vez efetuada esta tradução, restará fazer caminhar ao mesmo passo a genética e a interpretação metafísica, a qual não pode contentar-se com receitas técnicas. Mas a história do homem só coloca os problemas que pode resolver. A metafísica, a ontologia e a cosmologia avançarão também: a fusão virá. Por si só, o primeiro versículo do Gênese já propõe entre seus sete números centenas de relações. Se a capacidade de organização dos matemáticos ciberneticistas se consagrasse à ordenação deste aparente caos, não há dúvida de que o terreno seria depois mais fácil. É preciso desejar esta aproximação, esta colaboração das disciplinas, e ver-se-á então que, posto que os extremos se tocam em toda parte, a superespecialização dos modernos era uma etapa necessária para a abolição final da especialização.
Façamos ainda duas observações:
Foi-me necessário, em uma matéria tão nova, utilizar uma terminologia particular que corre o risco de revelar-se inadequada em um estágio mais avançado do conhecimento. A justa designação das coisas nunca pode ser anterior à sua plena compreensão. Para designar certas gravitações ou certos ciclos, falo por exemplo de complexos enantiomorfos. É evidente que estes complexos não são aqueles de que se ocupa a topologia e aos quais se referem, em matemática, os números de Betti e o teorema de dualidade de Alexander. Quem pode dizer, entretanto, onde se situa a fronteira entre ciência sagrada e ciência profana? Ela apagar-se-á um dia. Assim, de uma forma mais geral, desejaria que um certo materialismo (que não torna enfermos apenas os ateus) cessasse de ser a atitude normal do sábio. O número sintético da gênese dois + Terra revela-se o número 48. Eis um fato extraído da ciência numeral. Eis um segundo: a primeira palavra do mesmo Gênese, que é também a primeira palavra da Bíblia, o famoso Bereschith (No princípio), vale 685, que é igual a 137 x 5. Se tentamos assinalar (sem segunda intenção dogmática, bem entendido) que o número 48 é também o dos cromossomos da célula humana, e que o número 137, constantemente encontrado na Bíblia, é também a constante cósmica de Eddington, um dos números importantes da alta física moderna, estas aproximações não suscitarão senão sorrisos ou hostilidade. É-nos necessário fazê-las, apesar de tudo, por via das dúvidas. Este risco deve ser corrido, e é pequeno: não compromete, em todo caso, nenhuma atitude espiritual ou científica particular. A menos de se confinar em uma fenomenologia cujo atual caráter revolucionário não pretendo de modo algum negar nem contestar os ganhos definitivos, mas que seria então mal compreendida, dever-se-á reconhecer que não se pode mais conduzir separadamente metafísica e matemática, e que a cada instante vossa fusão deve ser iluminativa. Lautman e Cavaillès, para falar apenas dos mortos, iniciaram esta reconciliação. Resta saber se esta síntese já não está presente nos textos sagrados, e se eles não são justamente sagrados porque a contêm.
É geralmente admitido hoje que um período de restituição e de desocultação dos antigos textos está em vias de abrir-se, em correlação com o enriquecimento constatado justamente no outro polo do conhecimento, isto é, nas ciências profanas e nomeadamente na matemática. O transtorno das teorias do conhecimento provocado pela importância assumida em matemática pela noção de estrutura encontra seu correlato na transformação profunda da ciência ou da mística dos números, sendo esta hesitação no vocabulário, aliás, significativa tanto das pretensões quanto da incerteza desta ciência.
Hoje, não se diz grande coisa quando se declara que todo número é um ideograma, ou seja, o suporte simbólico ou o evocador sintético de vários sentidos superpostos. Tal linguagem coloca inclusive a ênfase no caráter monádico do número, sua natureza de universo fechado, sua especificidade. Ora, hoje, em toda parte, o ponto de vista global ultrapassa em compreensão o ponto de vista local, o que se pode exprimir dizendo que a estrutura apaga o objeto. Um número deve aparecer-nos muito mais como um ponto de encontro, de abertura ou de fechamento de ciclos extrínsecos do que como um nó estático não gozando senão de propriedades inerentes, embora um mundo de puras relações seja finalmente impensável. Tal é o paradoxo da ideia-número: o problema da unicidade do número coloca-se no campo de uma globalidade que a nega, do mesmo modo que a consciência de cada homem se mantém em plena autonomia no campo indistinto da consciência cósmica.
Recordemos aqui alguns exemplos fundamentais:
O número 111, enquanto operador de quantidade, aparece-nos, em numeração decimal, como o total de cento e onze unidades intercambiáveis. Ao contrário, enquanto característica de estrutura, exprime a justaposição sintética (mas inseparável) da tri-unidade primordial em seu estatismo. E seus clivagens são então 1-1-1 e 1-11, que são igualmente interpretáveis em termos ontológicos ou metafísicos: o primeiro clivagem equilibra o triângulo, o segundo o desequilibra e recria um alto e um baixo, ou então uma direita e uma esquerda.
O pouco que nos chegou do fundo tradicional é justamente válido na medida em que se refere a estruturas. Conhece-se a célebre cadeia dos duplos e dos triplos do Timeu, onde Platão encerra todas as relações cósmicas. Esta cadeia escreve-se:
1 - 2 - 3 - 4 - 9 - 8 - 27
Sabe-se também que tradicionalmente as diversas cosmogonias dos antigos povos revelam sua comunidade de origem fundando-se todas sobre uma série de relações: entre o ternário e o quaternário, o senário e o septenário, o novenário e o denário, e mesmo a relação ainda mais dificilmente interpretável entre o octonário e o novenário. As relações do ternário ao quaternário são as do triângulo ao quadrado, do Espírito à Matéria, do invisível ao visível. As relações do senário ao septenário são as da criação realizada no tempo e chegada ao seu estado último de organização e multiplicidade específica à criação realizada fora do tempo e regressada ao repouso divino. O senário exprime o dinamismo máximo, o paroxismo existencial, o para-si. O septenário marca o retorno ao estatismo intemporal, à indeterminação essencial no seio do Ser absoluto ou do Não-Ser, o desaparecimento no em-si. Mas enquanto estas relações se situam no arquétipo, as do novenário e do denário tomam lugar em uma involução mais avançada e mesmo terminal. São as relações do Filho encarnado e do Pai, quando o Filho regressa ao seio do Absoluto. O nove é um fator conversível universal entre a existência e a essência e sua ambivalência é fundamental: marca, no Filho, a suprema especificação, a plena individualidade, e anuncia, todavia, em sua nadaificação pelo dez, a mais íntima participação no Si global.
No primeiro tomo de meu trabalho, mostrei como o septenário platônico do Timeu, que contém seis intervalos, exprime a dialética existencial do retorno à essência pelo jogo das relações recíprocas e involuantes do para-si e do para-outro. Assim, as estruturas tomam, entre outros, um sentido ontológico. Nesta mesma cadeia, o fechamento final e extramundano do 1 inicial e do 27 final exprime a oitava, princípio do recomeço sobre outro plano de manifestação. Assinalei, aliás, igualmente que toda junção de um número com a unidade anuncia uma encarnação e toda separação uma emanação. Aqui a encarnação recomeçada exprime-se pela aparição do número 28, valor secreto de 7. No estado intermediário e intemporal do fechamento propriamente dito 1-27, obtemos um complexo resumindo a totalidade do Ser ao mesmo tempo em-si e para-si, mas é um ser quebrado do qual não se pode dizer nem que existe, nem que não existe. Implica o que Sartre chama um nada de exterioridade e não possui sentido senão considerado como modo divino inconcebível em termos fenomênicos: é o complexo da teogênese, da gravitação interior de Deus, da saída do Ungrund. Utilizando novas chaves guemátricas, mostrei que a palavra hebraica bara, que é a segunda palavra do Gênese e significa criou ao mesmo tempo em que é o motor do Bereschith, vale igualmente 127. A título de número bruto, 127 informa-nos mal: é preciso clivá-lo segundo 1-27. As gravitações deste complexo, isto é, as relações em seu seio do 1 e do 27 constituem, aliás, a trama de todo o início do Gênese e provavelmente deste em vossa totalidade. Somente nos cinco primeiros versículos, dezenas de relações aparecem como variações sobre este esquema. O mistério da numeração decimal quer que os números brutos 111 e 127 intervenham também de uma maneira sistemática por outros clivagens colocando assim como em topologia o problema da mônada ou do operador quantitativo independentemente das estruturas universais, sem, aliás, que seja jamais possível reduzir a estrutura de conjunto das mônadas à lei do devir interno de uma só delas. Assim, o duplo caráter quantitativo e qualitativo do número coloca o problema mais misterioso, o da síntese viva mais dificilmente redutível em conceitos.
Este segundo tomo de nossa obra compreende duas partes: a primeira consagrada ao estudo das sephiroth da Cabala, a segunda aos cinco primeiros versículos do Gênese. Trazemos ali duas novas chaves que se acrescentam assim às três já fornecidas no tomo I. São as chaves Solve e Coagula e Adicionai e Multiplicai, modos operatórios particulares mas de emprego constante sobre as partes afinitivas dos valores secretos. Notar-se-á que a terceira chave que concerne à transmutação dos elementos (tomo I, cap. iv) não é senão um caso particular de solve e coagula aplicado ao agrupamento das letras-mães. A importância destas últimas justifica-nos examinar à parte o problema que colocam.
No presente volume, prosseguimos o estudo dos dois números fundamentais do Gênese que são, como se sabe, 29 e 38, respectivamente princípio da vida crístico-terrestre e da vida intermediária (celeste ou cósmica). Mas reencontramos ali também, e de uma maneira que aparecerá cada vez mais sistemática, o número 37, que chamamos o número gerador, valor das palavras eu sou (Ehïeh), de que o Zohar ensina o caráter eminente. Este número é a encarnação de 1-27.
Mas uma importante novidade da obra reside na aparição dos números 47 ou 74 diretamente emanados do valor secreto de 38, que é 741. Que é 74? É a duplicação de 37, isto é, no seio do ternário fundamental 3 x 37 = 111 que representa a Tri-unidade estática mais alta, o agrupamento particular de duas pessoas sobre três. Veremos que este agrupamento desempenha um papel considerável em domínios aparentemente muito diversos e, embora estejamos ainda na margem de uma imensa terra desconhecida, não hesitaremos em propor um embrião de sistema. Tudo se passa como se as duas pessoas inferiores da Trindade, ao se separarem da primeira permanecida estática, se pusessem a gravitar juntas, e é esta gravitação que cria a manifestação. Parece-nos desde agora assente que a passagem da genética à simbólica dos números não poderá efetuar-se senão por meio desta teoria das três pessoas, que é baseada no estudo do complexo triangular 37 x 3. Reencontraremos em toda parte os números 74 e 47. É o complexo 37 x 2 que anima a Shekhinah, Presença real de Deus nos mundos inferiores, bem como Malkuth, última sephirah, que é o símbolo da Mãe de baixo, da Virgem-Noiva ou da Esposa do Cântico, a Virgem negra das diversas tradições. Os números brutos da Shekhinah e de Malkuth pouco nos informam sobre a natureza profunda destas entidades. Mas tanto um como o outro são animados por 37 x 2 e facilmente redutíveis a este casal. Assim se verifica o ensinamento do Zohar que vê em Malkuth a figura da Shekhinah de baixo. Mas é este mesmo casal que, diretamente, está presente no tohu va-bohu, no Abismo e na Noite dos primeiros versículos da Bíblia. Ele aparece assim, não apenas para caracterizar o polo inferior da manifestação, mas a dualidade que habita este polo e lhe confere seu caráter dinâmico, esquarteja a matéria em sua ambivalência, e finalmente associa-se no sentido perpendicular ao eixo polar Alto-Baixo, para crucificar a alma universal sobre o corpo do mundo. Entretanto, o eixo Alto-Baixo é também o eixo Deus-Homem. Uma das mais sólidas confirmações metafísicas de nosso simbolismo cosmológico é trazida então pelo cálculo do número de Ha-Adam, o homem universal, que se revela também igual a 47, reversão do número 74. Assim o homem toma seu sentido ambíguo, ao mesmo tempo nesta parentela gloriosa com a Shekhinah e nesta comprometedora conaturalidade com a Noite. Mas o Dia que vale 57 sai da Noite justamente por uma encarnação que faz passar 74 ao estado de 75 e uma inversão epigenética que leva o homem do estado de 47 (Mem final = 600) ao estado de 57 (Mem final = 40). Assim os tempos são cumpridos. Na origem como no fim encontramos indistintamente o número 57, que é o valor de Ain (Nada), primeira palavra do Ain-Soph, mas também o de Ani (Eu), afirmação do indivíduo reunificado.
Restará saber como no seio do número 38, princípio da vida celeste ou cósmica e valor da palavra haïa (ser vivo), se operam estas gravitações. Sabemos que vs 38 = 741. A unidade que prepara a encarnação final no seio de 74 está, portanto, já presente de modo imanente no seio de 38. Entretanto, sabemos também que é equivalente postular 74 = 37 x 2 e postular 38 (CG, página 201). Assim, pelo paradoxo da imanência-transcendência, esta unidade complementar exigida pelo número da Noite e pelo número do Homem está desde sempre presente neles, embora lhes sendo estranha. Restará saber como se opera esta gravitação 47 <> 1 e como o número sintético 48 dá conta disso, bem como de gravitações mais complexas. Talvez a aproximação com a fórmula cromossômica do homem e seus diferentes jogos internos durante as gerações de machos e fêmeas apareça então como muito menos arbitrária, e perceber-se-á que os clivagens-chave de 48 segundo a ciência numeral são também os clivagens-chave na repartição dos cromossomos comuns e dos cromossomos sexuais.
Setembro de 1949.
Esta obra estava terminada quando pudemos tomar conhecimento do livro póstumo de P. D. Ouspensky, Fragments d'un enseignement inconnu (Stock, Paris 1950), que resume o ensinamento do mestre caucasiano G. Gurdjieff recentemente falecido em Paris. G. Gurdjieff não revelou as fontes de vosso conhecimento, e, no trabalho de Ouspensky, não se trata de exegese bíblica. Todavia, a aplicação do que chamam a lei das Três Forças (ativa, passiva e neutralizante) sobre a cadeia de involução da qual a Terra faz parte, e que compreende sucessivamente o Absoluto, Todos os mundos, Todos os sóis, o Sol, Todos os planetas, a Terra e a Lua (é um septenário calcado sobre o algoritmo geral), leva-os a submeter a terra a 48 forças. O número 48 aparece aqui também como característica de um certo estado sintético chamado Terra (que não compreende apenas a vida física da terra mas vossa vida orgânica). Estudar-se-á esta concordância e situar-se-á vossa posição no quadro do septenário platônico e da lei de oitava onde se inscreve toda a involução.
