As duas atitudes do esoterismo moderno (SE:69-81)
RA1965
Contemporânea da crise das ciências ocidentais, a revolução husserliana marca para o Ocidente um renovamento radical quanto ao estudo do fundamento de vossas ciências e ao exercício dos poderes do espírito, e vossa importância não poderia ser comparada senão àquela da revolução cartesiana e galileana, da qual ela realiza e subverte o sentido. Para prevenir qualquer erro de interpretação, recordar-se-á imediatamente que esta fenomenologia recusa inscrever-se linearmente na sucessão das ciências e das filosofias europeias, e que se apresenta como o produto de um retorno sobre si mesmas dessas filosofias e dessas ciências: como o método cartesiano, ela pretende ser ciência das ciências, filosofia das filosofias, ciência do começo radical do conhecimento. Contudo, parece claro que ela será de efeito mais lento que a revolução cartesiana: ela exige uma ascese intelectual mais extensa. Descartes aceitava a evidência da experiência natural; Husserl não a aceita. Por conseguinte, não deveis surpreender-vos se o esoterismo contemporâneo, que vive sob o impulso que lhe deu um tradicionalista como René Guénon, ainda não se deixou penetrar pelos métodos da fenomenologia transcendental e se continua a demonstrar, em relação a toda filosofia ocidental, a desconfiança menos justificada.
Nada há de mais convergente, todavia, do que os ensinamentos daquilo que se denomina Tradição e os resultados desta fenomenologia. Cumpre primeiramente sublinhar o parentesco do Eu transcendental, do homem interior de São Paulo e do Atman dos vedantistas. Mas importa considerar sobretudo como, ao conferir à estrutura da visão absoluta o valor de fundamento ontológico único, esta mesma fenomenologia se encontra a iluminar por dentro certos dogmas tradicionais transmitidos por via de autoridade, tal como o dos seis dias, que descreve toda gênese, ou a explicitar estruturas misteriosas como a dos tarôs de Hermes e do alfabeto hebraico. Entra no objeto da coleção Correspondances proceder a esse respeito às demonstrações necessárias que não podem, evidentemente, encontrar lugar nesta introdução.
Entretanto, é sobretudo o espírito no qual são prosseguidas hoje as pesquisas esotéricas que nos parece dever ser objeto, aqui, da mais estrita revisão. Apesar das boas intenções afirmadas pelos esoteristas tradicionais, o esoterismo aparece sobretudo aos olhos do público como um libelo contra o mundo e a ciência modernos. No início do prefácio de vossa obra fundamental: O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, René Guénon indica que tudo, na manifestação, faz parte do plano de Deus e possui, por esse fato, um sentido positivo. É nesse espírito que o servo de Deus já dizia a Iahweh: Vós não poderíeis odiar nada do que fizestes. Não se pode, contudo, dissimular que, em vez de se consagrar, na linha deste propósito, à elucidação do sentido de todas as coisas, mesmo e sobretudo daquelas que são aparentemente, para o senso comum, as mais aberrantes, o esoterismo dito tradicional se transforma o mais das vezes, na esteira do próprio Guénon, em um longo panfleto e que, em nome da sabedoria do antigo Oriente, seu julgamento sobre o Ocidente e vossas doutrinas se resume em um puro e simples anátema. Ao criar assim adversários e ao lutar em vosso terreno, o esoterismo deixa crer que pode efetivamente ter adversários, e sobretudo que não possui um campo de ação que lhe pertença propriamente, onde todo inimigo se torna justamente, na interdependência universal e enquanto polo de estrutura e portador de sentido, um aliado. Ora, uma vez mais, a estrutura deveria ser aqui mais importante que o fato ou o evento que ela encerra e do qual integra a parcialidade. A razão profunda desta atitude polêmica é que este esoterismo não operou realmente a conversão do antigo objetivismo ingênuo, e que, conferindo um sentido absoluto a fatos separados, a intersubjetividade ainda não passa, para ele, de uma palavra.
Teríamos evidentemente, por nossa parte, de buscar também o sentido desta sobrevivência da polêmica no seio da ciência sagrada, e de nos interrogar para saber se a polêmica que travamos sobre o sentido da polêmica é também polêmica. Todavia, esta precaução nos parecerá cada vez mais supérflua à medida que os poderes interiores transfigurarem para nós todo instrumento exterior e que a própria doutrina da transfiguração for realmente vivida e encarnada. Resta que será essencial fazer em todo esoterista, e por exemplo em Guénon, a partilha da negatividade e da positividade. Trata-se de uma obra de fôlego e que não temos nem a ambição nem a possibilidade de conduzir de modo abrupto. O leitor perceberá, por exemplo, que o ensaio de Paul Sérant, que sucede a esta introdução, é de inspiração muito mais guenoniana do que husserliana, e até mesmo que Guénon nele está frequentemente presente, ao passo que Husserl não o está de modo algum. Poderíamos dizer aqui que não aceitamos boa parte dos julgamentos de Paul Sérant se não apresentássemos seu texto justamente pelo que ele é: o testemunho de um certo estado provisório da consciência moderna diante de um esoterismo em pleno movimento. Sérant opõe sociedades tradicionais e sociedade moderna de uma maneira linear, sem considerar que os vícios ou as coerções da sociedade atual são a condição necessária de uma tomada de consciência mais alta da própria Tradição. Vossa condenação do progresso técnico procede de uma alienação do campo do conhecimento transcendental no campo da técnica. Contudo, enquanto Guénon deixa a iniciação prisioneira de um formalismo ritualista que a iniciação tem justamente por fim elucidar, se não abolir, e discute o valor desse formalismo de uma maneira formal, em vez de lhe examinar a substância, Sérant deixa o problema aberto. Mas é porque ele ainda não tenta fazer da contemplação o paroxismo da meditação — um paroxismo inefável, decerto, mas cuja aproximação não o é — que a palavra conhecimento permanece ali cortada de vossos poderes de comunicação e que o diálogo com o não esoterista não se estabelece. Mas estes pontos são justamente aqueles pelos quais certas consciências modernas, notadamente aquelas que foram formadas pelo cristianismo tradicionalista, podem melhor iniciar vossa compreensão da simultaneidade, e é certo que a coleção Correspondances tem interesse, no estágio atual, em recusar até mesmo a aparência de ser uma ortodoxia. Assim, para me deter ao problema do progresso, limitar-me-ei aqui a colocar meu próprio problema, que não é o de proferir sobre o progresso um julgamento de valor — o que implicaria que uma escolha deve ser feita entre o progresso e a Tradição —, mas o de situar os campos respectivos da técnica e da gnose e mostrar como esses campos respectivamente se integram um no outro, cada qual insubstituível e necessário em vossa ordem. Para precisar minha posição, acrescentarei que me parece pouco rigoroso, quanto à condução do pensamento, declarar que a bomba atômica é aterrorizante e acusar a sociedade que a produz, enquanto não se houver posto em causa, no fundo de si mesmo, a noção subjetiva e ingênua de terror, e mesmo a de sociedade, para lhes relativizar o sentido. Espinosa já disse que a paz não é a ausência de guerra, mas uma virtude da alma.
Não deixa de ser verdade que duas vias de acesso ao esoterismo parecem hoje possíveis. A primeira é aquela que Guénon quis traçar com rigor ao reencontrar os ensinamentos dos Antigos, nomeadamente os da Índia, e ao propô-los aos ocidentais, ao mesmo tempo em que punha em evidência o caráter não tradicional, perigoso ou ilusório da ciência e da filosofia destes últimos. Tudo o que posso dizer é que esta via não é, ou antes, não é mais a minha, mesmo se persisto em pensar que o Bhagavad-Gita, por exemplo, é uma obra admirável e de um prodigioso poder de conversão, e se estimo que as análises guenonianas vieram a tempo de colocar um indispensável rigor no emaranhado ocultista do século XIX. Mas Guénon fecha os problemas, enquanto Husserl os abre. E há muitas maneiras de ser iluminado pelo Gita. Guénon, de resto, salvo erro, cessou assaz rápido de se interessar pelas preocupações fundamentais dos pesquisadores ocidentais. Embora contemporâneo de Husserl, não parece ter atribuído importância à vossa obra. Parece ter igualmente ignorado Hubert, o fundador da axiomática, que colocou os problemas últimos das matemáticas e iluminou vossa crise. O grande debate moderno sobre o intuicionismo e o formalismo não parece tê-lo tocado. Assim isolado do Ocidente realmente vivo, não é surpreendente que Guénon tenha tentado convertê-lo do exterior, e que esta conversão permaneça nele marcada por um literalismo e um ritualismo que, é um fato, contradizem desde Descartes o gênio do Ocidente. Daí decorre igualmente o pouco interesse que ele dedica aos problemas éticos e estéticos enquanto expressões particulares de nosso drama. Por outro lado, não se poderia imputar à obra guenoniana o fato de ela ainda não ter saído dos debates de escola: no Ocidente, nenhuma minoria avançada poderá por muito tempo ter a pretensão de agir de modo visível. Simplesmente, uma outra via se desenha, esta do interior mesmo do Ocidente, para todos aqueles que vivem a crise de nossas ciências e de nossas filosofias e esgotam esta crise por seu próprio paroxismo. Para estes, trata-se menos de colocar em causa os produtos da ciência — o que é uma atitude negativa — do que de proceder à elucidação positiva de vossos fundamentos. Para estes, o conhecimento dos ensinamentos da Tradição, por mais erudito e rigoroso que seja, exige ser fundido na matéria de vossa experiência particular de ocidentais, e tudo anuncia que a Tradição, por sua vez iluminada por dentro, receberá disso a expressão nova mais bem adaptada ao poder de conversão que ela deve exercer no futuro pentecostes.
Se a última nobreza do homem está no rigor intelectual, o último objeto desta é dedicar-se à convergência dessas duas vias, em um esforço de síntese fora do qual não haverá real reconstituição da Tradição. O que nos incomoda nos Vedas não é vosso conteúdo, que é sublime, é que eles nos chegam como um dado. Quereríamos escrever nós também nossos textos sagrados e, a esse respeito, não podemos contentar-nos em fazer a exegese dos Vedas. Ora, os partidários da atitude guenoniana parecem-nos, com ou sem razão, assumir cada vez mais a figura de exegetas. Em todo caso, vossa negação do Ocidente corta-os cada vez mais da problemática ocidental, que não é apenas aberta pela superstição da quantidade. Tomemos um exemplo. Talvez não haja problema mais significante, hoje, na Europa, do que aquele que se encontra colocado na vida íntima dos casais, e daí na vida coletiva, em seguida, por um lado, à relação de inversão que atua entre a virilidade das mulheres e a feminilidade dos homens, e, por outro lado, à inversão desta inversão, que marca a superação deste problema e seu esvanecimento. Esta situação é especialmente europeia: a vida europeia moderna é dominada pela rápida virilização das mulheres e pela rápida feminização dos homens. Ora, em um sentido, o acesso ao conhecimento é comandado pela saída para fora deste círculo. Se é evidente que esta situação não é nova, e que por exemplo a ela se faz alusão nas escrituras tântricas, pode-se com bom direito perguntar se, não a tendo realmente vivido, ser-se-ia capaz de a reconhecer no tantrismo, ou se, ao contrário, não é graças a esta experiência vivida que o tantrismo será enfim compreendido. Ao ver com que formalismo os tradicionalistas continuam a falar da dialética do Salvador-Salvo sem a fazer interferir com a experiência carnal do Esposo e da Esposa, pode-se ter por assegurado que, se esta experiência não lhes escapa, eles não sabem, em todo caso, reconhecê-la como crucificante.
A coleção Correspondances encontra-se assim colocada diante da necessidade de uma síntese cuja dificuldade não escapa a ninguém. Da apresentação literal de um texto tradicional até a reconstituição fenomenológica do simbolismo, passando pelo recenseamento e pela organização objetiva das estruturas psicanalíticas, a distância é considerável. É esta distância que cumpre cobrir. Apresentar, por outro lado, uma metodologia do esoterismo desembocando no limite nesta demonstração de que é preciso abolir o esoterismo, é uma tentativa paradoxal cujo sentido não poderá ser compreendido senão retrospectivamente, ao termo mesmo da experiência de cada um, e que implica um uso difícil da confiança do leitor. Assim também as primeiras obras apresentadas, na medida em que se limitarem a esses recenseamentos de estruturas parciais, mas positivas, arriscam aparecer como demasiado prudentemente empiristas, e vossa inserção no conjunto do movimento dialético não aparecerá claramente: elas correspondem, todavia, a uma fase necessária. Tanto quanto for possível, tentaremos não separar desses recenseamentos objetivos o exame dos problemas de metodologia que lhes estão ligados e que lhes relativizam o alcance. Mas não se deve dissimular que este exame, pela conversão intelectual prévia que exige, apela no filósofo a uma ordem de preocupações que até agora não habitam os próprios praticantes desses recenseamentos, e que estas duas funções se encontram ainda separadas. Integrá-las uma na outra será um dos objetivos da coleção. O esoterismo não pode mais contentar-se hoje em delimitar-se mais ou menos nitidamente das novas disciplinas que, tais como a psicanálise, a astrologia ou a parapsicologia, inclusive a sociologia, lhe tomam emprestado o vocabulário e apelam à vossa interpretação dos ritos ou dos mitos. Constatar-se-á então que a obra de saneamento empreendida por Guénon em relação ao espiritismo ou à teosofia não foi senão o começo de uma tarefa muito mais vasta e de elucidações muito mais exigentes. O esoterismo integrará o método e os ganhos fenomenológicos ou então será reduzido a um puro e simples dogmatismo exegético. Mas se integrar realmente este método e estes ganhos, e se, ao fazê-lo, neles se fundir, ele subverterá os fundamentos da astrologia, da parapsicologia e das psicanálises, ou, mais exatamente, lhes dará os fundamentos que ainda lhes faltam.
