User Tools

Site Tools


weil:2015:2

2 Conceito de valor

WEIL, Simone; SPRINGSTED, Eric O. Late philosophical writings. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2015.

1. O conceito de valor está no centro da filosofia, pois toda reflexão sobre o valor e sua hierarquia é filosófica e todo esforço de pensamento voltado a outra coisa lhe é alheio, e, como cada um orienta sua ação para algum bem e todo viver numa situação implica uma escolha de valores, o valor da própria filosofia está fora de discussão, ainda que raramente se pense nos valores pelos quais se vive, por se julgar já ter razões suficientes para sustentá-los.

2. Saber julgar entre valores é para todos a necessidade suprema e, ao mesmo tempo, algo que ninguém jamais descobrirá, porque todo conhecimento humano é hipotético e condicional, ao passo que o valor, que orienta a vida a cada instante, é admitido incondicionalmente, de modo que os valores são incognoscíveis.

3. Não se pode, contudo, renunciar a conhecê-los, pois isso seria renunciar a crer neles, o que é impossível porque a vida humana sempre tem uma direção, e assim há uma contradição no centro da vida humana.

4. Essa contradição, abstrata apenas pela dificuldade de exprimi-la, constitui sob formas diversas o drama essencial de todo ser humano, como no artista que, sem critério explícito para afirmar que uma obra é mais bela que outra, sabe no entanto que existe uma hierarquia estética, condição de busca de uma beleza incognoscível que mistura angústia a todo esforço criador e vale analogamente para todos.

5. Tudo o que pode ser tomado como fim é indefinível, enquanto os meios, como poder e dinheiro, definem-se facilmente, razão pela qual os homens se orientam exclusivamente para sua aquisição, caindo porém em outra contradição, a de tomar meios por fins.

6. Por transposição, encontra-se uma contradição análoga em toda situação humana, e por isso todo pensamento filosófico tem igualmente uma contradição em seu centro, sendo inaplicável à filosofia a regra lógica de não contradição.

7. Perguntar se as coisas têm valor ou se tudo é igualmente sem valor é desprovido de sentido, não só por faltar método para responder, mas porque tal pergunta repousa apenas na capacidade de juntar palavras, já que o espírito, tendendo sempre ao valor, não pode tomar a própria noção de valor como incerta sem tomar como incerta a própria existência.

8. Quanto à ordem dos valores estabelecida pela reflexão, nenhuma dúvida é possível, pois uma ideia desconhecida suposta mais verdadeira teria de ser pensável pelo mesmo espírito e se classificaria na hierarquia após as primeiras, de modo que, sendo o valor um caráter do pensamento e a verdade um valor do pensamento, nada exterior a ele pode intervir na noção de valor.

9. O rigor e a certeza da investigação filosófica superam os das ciências e a tornariam infalível se fosse efetivamente praticada, mas a natureza humana a torna quase impossível, porque o desapego necessário para julgar os valores exige um esforço que só se faz tomando o desapego como valor supremo, o que já supõe estar desapegado, círculo vicioso que faz da reflexão um milagre expresso pela palavra graça, frequentemente confundido com uma simples troca de valores.

10. O atleta no calor da disputa não pode perguntar por que quer vencer, e quando, exausto, passa a preferir o repouso, isso não é desapego, mas troca de valor, ao passo que o verdadeiro desapego consistiria em, no próprio instante do esforço, colocar a vitória em pé de igualdade com o repouso, o prazer, o trabalho bem feito ou a amizade e compará-los imparcialmente, o que seria um milagre.

11. A filosofia não consiste em acumular conhecimentos, mas em transformar a alma inteira, pois o valor envolve sensibilidade e ação e não passa de uma orientação da alma, sendo o desapego a renúncia a todos os fins possíveis, que põe um vazio no lugar do futuro como a iminência da morte, razão pela qual nos mistérios antigos, no platonismo, nas escrituras sânscritas e no cristianismo a iniciação à sabedoria sempre foi comparada a uma passagem pela morte.

12. Contra a opinião comum de que a filosofia é feita de conjecturas e sistemas contraditórios, existe uma tradição propriamente filosófica tão antiga quanto a humanidade, representada sobretudo por Platão, pela Bhagavad-Gita, por textos egípcios e chineses e, modernamente, por Descartes, Kant, Lagneau, Alain e Husserl, tradição una, eterna e insuscetível de progresso, cuja única renovação possível é a da expressão segundo as condições de cada época, civilização e lugar.

13. Essa transposição de uma época para outra é desejável e constitui a única razão para escrever sobre um assunto depois de Platão.

14. A identidade profunda desses filósofos é ocultada por diferenças de vocabulário, pois a linguagem não foi feita para a reflexão, que adapta as palavras transformando seu sentido sem poder defini-lo, de modo que a significação só aparece no conjunto das fórmulas visto do centro do pensamento de cada autor, como certos quadros que só se ordenam de determinado ponto de vista, tornando sem sentido comparar asserções isoladas.

15. Há autores não inspirados por essa tradição, o que não surpreende, já que a reflexão implica o milagre do desapego, e muitos tidos por filósofos são incapazes de reflexão rigorosa ou sustentada, embora alguns sejam de primeira ordem e mereçam o maior interesse, assim como outros praticam a reflexão de modo intermitente e têm fraquezas que os fazem divergir de pensadores da mesma linhagem.

16. As contradições presentes em todo pensamento filosófico, longe de serem uma imperfeição, são seu caráter essencial, sem o qual haveria apenas falsa aparência de filosofia.

17. A verdadeira filosofia nada constrói e apenas faz o inventário de um objeto dado, os pensamentos, sem suprimir as contradições encontradas, pois os sistemas construídos para eliminá-las, infinitamente variáveis, estão abaixo da conjectura e não podem ser pensados, como mostram os que negam o mundo exterior sem deixar de sentir a realidade da mesa e da cadeira ou os gregos que compuseram a linha de um número finito de pontos, razão pela qual expor honestamente as contradições essenciais tornaria filosofia e ciências mais precisas, restando a esses sistemas apenas valor de poesia.

18. É exatamente isso que Valéry procurava dizer.

weil/2015/2.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki