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vattimo:1981:1

1 Nietzsche, além do sujeito

Al di là del soggetto: Nietzsche, Heidegger e l’ermeneutica (Milan: Feltrinelli, 1981)

1. O sentido do prefixo über constitui o ponto decisivo para compreender o Übermensch, conceito central do Nietzsche tardio e já posto no centro das reflexões de Bataille e de Heidegger, pois dele depende tanto a leitura correta de Nietzsche quanto a questão de sua suposta afinidade com o fascismo e o nazismo, que pressupõe um super-homem, ou melhor, um além-homem, concebido como pura e simples inversão de todos os ideais de Humanität herdados do humanismo europeu.

2. Mais do que a posição de Nietzsche na tradição humanista, está em jogo sua relação com a dialética hegeliano-marxiana, forma de pensamento que condensou exemplarmente os valores desse humanismo e que, como concepção materialista da história, ainda pretende ser a única filosofia da história viável, de modo que o sentido do über se torna fator decisivo para medir o esforço nietzschiano de diagnosticar os males da cultura moderna e para quem busca em Nietzsche respostas ainda prenhes de futuro.

3. A investigação do sentido do über que define o além-homem, e com ele a relação de Nietzsche com a tradição humanista e metafísica do Ocidente, esbarra inevitavelmente no problema do sujeito, havendo razões para afirmar que o além-homem, a partir de Assim falou Zaratustra, pode ser caracterizado como um sujeito reconciliado pensado no horizonte da dialética.

4. O Übermensch apresenta traços de sujeito reconciliado, entendido como ponto final de um movimento de Aufhebung, porque, ligado ao eterno retorno do mesmo, já não vive a tensão entre existência e sentido, ser e dever-ser, fato e valor, realizando a cada instante sua perfeita coincidência, à semelhança da coincidência entre essência e existência que a teologia medieval reservava a Deus, de modo que o indivíduo feliz capaz de querer o retorno do instante altera profundamente a estrutura ocidental da temporalidade como movimento rumo a valores transcendentes, abrindo a questão de se essa coincidência não seria apenas outro nome para a autotransparência do espírito hegeliano ou para o sujeito desalienado esperado da revolução comunista.

5. Embora a definição mais confiável do Übermensch continue sendo a identidade entre acontecimento e sentido, essa identidade não autoriza identificá-lo com o sujeito reconciliado da dialética, porque o Übermensch não pode sequer ser pensado como sujeito, já que o sujeito é alvo constante do desmascaramento nietzschiano da metafísica e da moral platônico-cristã, revelando-se não originário, mas algo produzido, uma simplificação que designa a potência que põe, inventa e experimenta, uma coisa entre as coisas.

6. A potência subjacente ao sujeito jamais pode vir a ser enquanto tal, oferecendo-se apenas em seus efeitos, e quando estes são marcados como efeitos de uma potência são como que traduzidos para uma linguagem inteiramente diversa, o que indica que a própria potência só se dá como tradução.

7. A força descoberta sob a noção tradicional de sujeito nada tem de comparável ao sujeito transcendental que, distinto do empírico, possibilita a dialética como identificação progressiva de ambos, pois a potência é dada apenas em seus efeitos, que são traduções, e o sujeito, assim como a vontade e a consciência, não passa de pós-produto e efeito de superfície, ficção e jogo de palavras nascido da crença na causalidade, a qual remonta à vontade, condicionada pelo medo diante de uma natureza ainda não dominada pela técnica e mediada pelas relações sociais de poder sacerdotal, de encontrar responsáveis pelo devir, crença que a história da morte de Deus tornou supérflua.

8. O caráter produzido do sujeito remete a atos de metaforização e interpretação determinados pelas relações sociais de poder, que nada falsificam, mas põem o mundo das coisas, da causalidade e da relação sujeito-objeto, um mundo com uma história provisoriamente selada pela morte de Deus, sem que isso obrigue a recorrer a estruturas mais originárias e verdadeiras, pois a própria noção de força é apenas uma designação por signo, um efeito linguístico como o sujeito.

9. Exclui-se chamar o Übermensch de sujeito, e com mais razão de sujeito reconciliado, porque a reconciliação, como remoção de um conflito, implica a conservação de um substrato, um subjectum, sem que isso faça do Übermensch, nem das demais palavras-guia tardias como eterno retorno, vontade de potência e niilismo, noções dotadas de sentido próprio subtraído à lei geral da interpretação, sendo justamente esse estatuto teórico das palavras-guia que fornece a chave do sentido do über e do caráter não dialético de sua superação da metafísica.

10. A emergência do caráter metafórico e produzido das noções metafísicas não conduz à recuperação de estruturas produtivas mais fundamentais, mas à generalização manifesta da própria produção, o que define a posição ultrametafísica de Nietzsche, para quem a morte de Deus é um acontecimento derivado da lógica interna da metafísica cuja tomada de consciência altera realmente a história desta, não pela recuperação da essência verdadeira do ser, mas por uma generalização e intensificação da produção metafórica, de modo que o homem moderno que reconhece o erro dos ideais ascéticos não encontra paz na verdade, mas vive em estado de hybris, violência contra si e contra as coisas.

11. A atitude moderna diante da natureza, violentada por máquinas e pela inventividade sem escrúpulos de técnicos e engenheiros, assim como a atitude diante de si mesmo, constitui hybris, pois se praticam consigo próprio experimentos que jamais se permitiriam com animais.

12. A referência mais iluminadora para compreender o über nietzschiano, ainda que sem vínculo etimológico documentável, é a noção de hybris, já que a passagem à condição sobre-humana, bem como do niilismo passivo ao ativo, não consiste em instaurar bem-estar espiritual, clareza, reconciliação e fim dos conflitos, mas em liberar as forças em jogo e intensificar toda a esfera vital, feita de avaliar, preferir, ser injusto, ser limitado e querer ser diferente.

13. Cabe perguntar se ao ideal de uma humanidade reconciliada pela posse da verdade e pela razão como guia da existência histórica se opõe aqui uma reivindicação vitalista das forças biológicas e da luta pela dominação, ou então a redução da existência à hybris dos procedimentos técnicos de controle e organização da realidade, como sustenta Heidegger ao ver em Nietzsche o filósofo da conclusão triunfante da metafísica convertida em organização científica do mundo.

14. Contra ambas as interpretações, que individuam uma força nomeada ora como força vital, ora como racionalidade técnica ordenadora, devem ser levados a sério os textos em que a força não pode ser nomeada nem identificada e se converte em fato fundamentalmente hermenêutico, de modo que a hybris afirmada com a descoberta da insensatez do devir, por nascer do reconhecimento de que não há fatos, só interpretações, só pode dar-se como interpretação em curso, na qual não há lugar para um sujeito reconciliado, razão pela qual Übermensch se traduz melhor como homem do além, cujo atributo mais próprio é o ato de ultrapassar como exercício hermenêutico de hybris.

15. O über do Übermensch não alude nem a uma superação dialética nem ao exercício da vontade de vida na luta pela existência ou na planificação técnico-científica do mundo, mas se pensa a partir da estrutura da experiência hermenêutica concebida de modo antimetafísico como acontecer e expansão do ser, sendo a interpretação constitutivamente injustiça, sobreposição e violência, o que exclui o ideal reconciliado de soberania como hegemonia e faz do Übermensch aquele que exerce a hybris com plena consciência, ao contrário do homem tradicional, neurótico covarde que se recusou a reconhecê-la, de modo que a violência, explicitada como constitutiva da doação das coisas, torna-se termo explicitamente hermenêutico e ficção, e o além-homem vive como quem sabe continuar sonhando ciente de que sonha, conferindo ao devir os atributos que antes pertenciam ao ser, na liquidação extrema de toda filosofia da reflexão e da noção de Bildung.

16. A referência à Bildung, entendida no historicismo idealista como itinerário de elevação da consciência empírica à transcendental até a autotransparência do espírito absoluto, não é nota marginal às consequências da dissolução nietzschiana do sujeito, pois o esforço incessante de definir pela vontade de potência os caminhos de uma criação planejada do Übermensch é essencial à própria definição dos conteúdos desse pensamento.

17. A formação do Übermensch como indivíduo da hybris não se configura como desmascaramento da verdadeira essência do homem e do ser, embora contenha esse processo como momento inseparável, já que o objeto do desmascaramento é o próprio processo interpretativo e seu resultado não é a apropriação do verdadeiro, mas a explicitação da produção de mentiras, superando-se os valores herdados por novas sobreposições e falsificações, o que levanta a suspeita de que a reconciliação retorne como absolutização da aparência e explosão livre de metáforas recuperadora de uma humanidade autêntica, leitura difundida no pensamento francês e presente na glorificação deleuziana do simulacro, que atribui ao devir os traços fortes e afirmativos do ser sem tomá-lo como ser único despotencializado.

18. Oculta-se nessa leitura um equívoco duplamente metafísico, porque ainda identifica e nomeia a força como criatividade e liberdade simbólica oposta à limitação social e à imposição de códigos, e porque sobrepõe a essa força, embora atribuídos aos simulacros, os caracteres luminosos e afirmativos que sempre pertenceram ao ser metafísico.

19. A concepção experimental do Übermensch se opõe a esse equívoco, pois uma sobre-humanidade entendida como emancipação de uma criatividade ilimitada não explica por que o além-homem exerce a hybris sobretudo sobre si mesmo, já que, num nominalismo total, o sujeito não tem constituição autêntica a emancipar e nada é senão a atividade de pôr, ultrapassar e falsificar, de modo que o experimento consiste em perguntar se a ciência pode fornecer fins de ação depois de ter provado que pode suprimi-los, enfrentamento heroico que exige reconhecer a natureza hermenêutica do ser e da experiência.

20. Permanece indeterminado o critério para avaliar o êxito ou o fracasso do experimento, uma vez que, sendo a interpretação violência e sobreposição, o sucesso não pode medir-se pela correspondência com a essência das coisas, que é apenas o nome do resultado do experimento, problema já tratado no escrito de 1873 sobre verdade e mentira em sentido extramoral, onde a experiência humana aparece como produção de metáforas sem vínculo objetivo com as coisas, a verdade como sistema metafórico imposto canonicamente pela sociedade organizada e os demais sistemas como confinados à validade subjetiva da poesia e da arte.

21. A hermenêutica madura representa uma virada decisiva em relação ao ensaio de 1873 graças à introdução da noção de força, pois o esquema juvenil, ao opor uma atividade poética livre e natural à obrigação social de mentir segundo regras, contém traços rousseaunianos que, levados ao extremo, reduziriam o Übermensch à libertação de uma simbolização natural de todo limite comunicativo, quando na verdade a fabulação do mundo verdadeiro e o afrouxamento dos códigos outrora exigidos pela organização do trabalho não implicam a explosão desenfreada do simbólico, mas um experimento que requer autossuperação do intérprete e pressupõe de algum modo um critério normativo.

22. A noção de experimento, mais atenta ao jogo de forças, afasta qualquer leitura rousseauniana, pois não há atividade metafórica fora da imposição de códigos nem simbolização em estado de natureza, e a introdução da força na hermenêutica revela, além da essência impositiva e nominalista da interpretação, seu caráter sempre diferencial, de modo que os sujeitos não lutam como pontos metafísicos últimos, mas se constituem dentro de um jogo de forças que os precede, o que exclui uma doutrina da vontade de domínio e configura a obra preparatória da vontade de potência como esboço de uma ontologia hermenêutica, tanto reconstrução desmascaradora das origens humanas dos valores supremos quanto teoria de um ser dado explicitamente como resultado de processos interpretativos.

23. O fracasso relativo de Nietzsche, a incompletude da obra capital projetada e a dificuldade de ordenar coerentemente as noções-chave de sua filosofia tardia coincidem com as dificuldades de todo projeto contemporâneo de ontologia hermenêutica, embora o estudo do sentido do Übermensch permita esclarecer alguns pontos sobre os quais se pode continuar construindo.

24. Uma ontologia hermenêutica radical implica abandonar a noção metafísica de sujeito como unidade, mesmo quando resultante de um processo dialético de identificação, pois a condição normal do Übermensch é a cisão, situando-se no extremo oposto de toda filosofia da reflexão como recomposição do sujeito consigo mesmo e como Bildung, filosofia que, no idealismo oitocentista, capta o caráter dividido do eu apenas para exorcizá-lo pela dialética da autoidentificação.

25. A descoberta do caráter constitutivamente cindido do sujeito vincula Nietzsche a diversos aspectos da cultura do século XX, tanto ao eu dissolvido experimentado pela arte de vanguarda e por figuras como Musil quanto, sobretudo, ao indivíduo de bom caráter das obras do período intermediário, que renunciou às certezas metafísicas sem nostalgias reativas e sabe apreciar a multiplicidade das aparências, homem do mundo da comunicação intensificada e da metacomunicação próximo às elaborações de Habermas e Bateson, cuja condição se torna a condição normal do homem pós-moderno, para quem a intensificação da comunicação abre caminho a uma experiência efetiva da individualidade como multiplicidade, o sonhar sabendo que se sonha.

26. A ontologia hermenêutica nietzschiana é também teoria do ser regida pelo princípio de imprimir ao devir o caráter do ser, e, para que a vontade, isto é, a hybris interpretativa, seja ela mesma, é preciso que o ser seja fraco, condição que possibilita o jogo de comunicação e metacomunicação em que as coisas se constituem e se desconstituem, de modo que ao sujeito cindido do além-homem já não pode corresponder um ser dotado dos traços tradicionais de potência, força, definição, eternidade e atualidade plena, e a teoria da vontade de potência acaba por fundar uma ontologia que repudia os elementos de poder dominantes no pensamento ocidental e aponta para uma concepção fraca do ser, adequada a certos aspectos problemáticos da experiência humana na modernidade tardia.

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