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starobinski:1982:4.3

4.3 Erros médicos

STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).

O MOMENTO DO CORPO

OS “ERROS MÉDICOS”

1. Montaigne conhece suficientemente o sistema médico de sua época para o expor em um resumo circunstanciado e preciso, mas não o expõe senão para mostrar quanto em seus entrelaçamentos os fatores levados em consideração podem ocasionar erros.

2. Se o erro de um médico é perigoso, eis-nos em bem má situação, pois é muito difícil que não o repita amiúde, precisando ele de demasiado número de exames e de informações circunstanciadas para opinar judiciosamente.

3. Cabe-lhe conhecer o temperamento do doente, sua temperatura, seus humores, suas predisposições, suas ocupações e até o que pensa e sonha, cumprindo-lhe saber das condições ambientes, da natureza do lugar, do ar, do clima, da posição dos astros e suas influências.

4. É necessário que não ignore as causas da doença e seu caráter, seus efeitos, os dias críticos, e precisa conhecer o peso da droga que ministra, sua ação, o país de onde vem, seu aspecto e a data em que foi preparada a fim de calcular a quantidade a ser receitada.

5. Tudo calculado e entrosado harmonicamente, por pouco que se engane e que entre tantos elementos diferentes um só venha a falhar eis-nos perdidos, e só Deus sabe das dificuldades que há em conhecer tantas particularidades.

6. Como determinar o caráter preciso da doença se ela se apresenta sob tão variadas formas, e quantos debates e dúvidas provoca a análise da urina, sem tais dificuldades não andariam a discutir permanentemente acerca do diagnóstico e não teriam desculpas para o erro que cometem não raro de confundir alhos com bugalhos.

7. Cada vez que os consultou, por ínfima que fosse a dificuldade, nunca encontrou três da mesma opinião, e naturalmente suas observações baseiam-se principalmente na sua experiência pessoal.

8. Ao enumerar a série das coisas que o médico deve levar em consideração, Montaigne segue muito exatamente a ordem metódica das partes em que os tratados da época expõem os princípios da medicina, recomendando-se conhecer primeiro a fisiologia, isto é, as coisas naturais: os humores e o temperamento que os mistura em proporção variável segundo os indivíduos, as idades e as estações.

9. A segunda rubrica concerne à higiene, a qual consiste no uso que o indivíduo faz das seis coisas não naturais, coisas indiferentes, entre as quais o ar é considerado a principal, ao lado do beber e do comer, do trabalho e do repouso, do sono e da vigília, da excreção e da retenção, assim como das paixões da alma.

10. O conhecimento da doença ou coisas contra a natureza depende da patologia, cuja exposição nas principais obras trata sucessivamente dos objetos indicados por Montaigne: causas, sinais ou sintomas, efeitos, dias críticos.

11. Enfim Montaigne, a exemplo dos autores médicos, evoca a sanção terapêutica, arte de escolher as drogas apropriadas em cada uma das circunstâncias dadas, devendo as medicações ser administradas a fim de restabelecer pelo movimento dos contrários um equilíbrio, uma simetria, um meio-termo que reconstituirá a saúde comprometida.

12. Pois a saúde se define pelo equilíbrio exato das funções e dos elementos internos e pelo movimento favorável das influências externas sobre a vida corporal, segundo o princípio da isonomia respeitado pela ciência grega desde os escritos de Alcméon de Crotona.

13. Em algumas linhas sucintas Montaigne reúne então o aparelho conceitual utilizado por todos os médicos da época quando discutem sob o nome técnico de indicações as decisões que a situação observada impõe ao homem do ofício.

14. A doutrina médica de Paré admite no plano dos próprios fatos uma pluralidade de sinais e, correlativamente a essa polissemia, desenvolve um discurso explicativo polietiológico, pois as causas agem em múltiplos níveis e podem remontar a diversas etapas da duração precedente.

15. É por isso precisamente que Montaigne vê sobreviver o inevitável risco de erro, e argumenta implacavelmente que no momento em que o médico observa um sinal e deve tirar a indicação de uma administração terapêutica não será capaz de operar sem erro a dedução que lhe permitiria passar das regras gerais ao caso particular.

16. No plano do caso especial o raciocínio tomou tantos caminhos que, incapaz de discernir o sinal próprio da doença, atinge ao lado do alvo, e o que está exposto a padecer o erro não é apenas o meu mal enquanto espécie da doença mas sou eu enquanto indivíduo singular.

17. Se o raciocínio dedutivo está exposto a tantas armadilhas não é diferente com o raciocínio indutivo que com base em algum dado de observação pretende estabelecer uma regra ou lei geral, e atingido em sua qualidade de doente Montaigne dirige sua crítica ao que os médicos declaram a respeito da eficácia das drogas.

18. Eles legislam fundando-se em um exemplo fornecido pelo acaso, estabelecem relações simples de causa a efeito e ainda aqui não levam em conta a diversidade do real e das inúmeras bifurcações que podem confundir a progressão causal direta postulada pelo raciocínio.

19. Para além da crítica das indicações Montaigne acusa como precursor de Descartes as qualidades substanciais e as virtudes ocultas atribuídas aos objetos naturais, e assim é denunciado o próprio fundamento da terapêutica.

20. A experiência alegada pelos médicos é quase sempre uma experiência singular da qual não se tem o direito de induzir uma lei geral que em troca seria aplicável aos casos singulares que caíssem sob a sua jurisdição.

21. Ao terminar no ensaio II, XXXVII sua argumentação contra os médicos, Montaigne se dá conta de que ainda não encerrou a questão da experiência que levantou ao longo do percurso, e a edição de 1580 comporta já uma página final que tem o aspecto de um prolongamento.

22. Não quer terminar sem se referir ainda ao que os médicos nos apontam como garantia da eficiência de suas drogas: a experiência, pois dois terços pelo menos das virtudes dos remédios provêm da quinta-essência das ervas medicinais cujas propriedades recônditas somente o uso revela.

23. Ora a quinta-essência de uma coisa não é senão a qualidade principal que lhe é peculiar e que escapa à nossa razão, a qual não lhe pode descobrir a causa, e de que experiência os médicos se valem é o que Montaigne examina em três eventualidades.

24. Em primeiro lugar está a experiência inspirada tão freqüentemente alegada por Paracelso e seus discípulos, que é um modo do conhecimento imediato e da visão intuitiva em relação à qual Montaigne marca uma distância respeitosa que equivale a uma recusa.

25. Entre as provas de eficiência dizem eles algumas lhes foram reveladas por demônios, e quando o alegam Montaigne contenta-se em verdade com ouvi-los pois não discute milagres.

26. Em segundo lugar pode tratar-se de uma experiência que inferem de alguma qualidade ocasionalmente verificada, e sobre esse ponto pelo uso e pelo costume o vulgo sabe tanto quanto o médico, existindo aí apenas uma constatação banal que é fácil traduzir em jargão médico alegando uma oculta propriedade secativa.

27. Enfim certo objeto natural terá sido escolhido e certo efeito terá sido constatado por acaso, e postular-se-á uma relação constante na expectativa de outra ocasião em que verificar novamente esse efeito, o que está aí é o princípio do empirismo cego e não o de uma verdadeira ciência experimental.

28. Pois a multiplicação ilimitada dos observadores cujo consenso lhe pareceria mais digno de fé é ao mesmo tempo irrealizável e em nada contribui para organizar a experiência, e Montaigne critica o empirismo tradicional sem nada propor em seu lugar.

29. Do agente escolhido ao acaso e supostamente portador de virtude medicamentosa à afecção de que poderia ser o remédio específico os caminhos são inumeráveis e estão bloqueados, permanecendo a condição suficiente indeterminável.

30. Ser-lhe-ia necessário decidir previamente que entre os milhares de coisas a pesquisar figura em primeiro lugar o chifre de veado, que entre as inúmeras doenças deve aplicá-lo à epilepsia, e assim por diante, e não tendo por guia nem argumentos nem conjeturas nem inspiração divina seria preciso que uma coincidência realmente admirável interviesse em seu auxílio.

31. Mas admitamos a cura, e fora ainda imprescindível provar que o mal não estava chegando naturalmente ao fim, que não pode ser atribuído a outra causa, e que não se deve às orações de alguma avó ou tia, e ainda que o fato se provasse cumpriria saber quantas vezes se repetiu e se houve a longa série de experiências e verificações necessárias a uma conclusão.

32. Em 1588 Montaigne acrescenta um último parágrafo para melhor concluir sempre insistindo nas condições de validade da experiência, e um breve acréscimo posterior revela que o problema não cessava de o preocupar.

33. E a quem cabe tirá-la, pois entre mil indivíduos entregues a tais experiências três talvez as terão registrado e será um desses porventura quem haja chegado a essa conclusão, e admitir-se que três testemunhos de três doutores bastem para estabelecer as leis da saúde humana não seria razoável.

34. A busca de uma regra universal só pode ser vaga e errante, e quando a asserção se pretende geral e repousa apenas em três indivíduos que registraram suas experiências nenhuma necessidade pode ser atribuída à predicação causal.

35. A relação que eles afirmam é segundo toda a probabilidade casual e dependente da sorte, e o saber geral é não apenas na prática inaplicável em razão da diversidade das indicações mas é além disso em sua ambição de certeza não constituível em razão da insuficiência e da fragilidade das seqüências causais que considera regulares.

36. Sem nenhuma dúvida Montaigne depois de haver escrito o ensaio Da semelhança dos filhos com os pais teve a impressão de não ter esgotado o tema da experiência, tendo falado dela apenas de maneira polêmica visando aqueles que dela se valem para inspirar confiança.

37. Por importantes que tenham sido nesse ensaio as revelações de Montaigne sobre sua doença, ele ainda não expôs todas as razões que tornam legítimo a seus olhos o outro tipo de experiência, a experiência direta e íntima em sua singularidade e unicidade.

38. Confronte-se o final do capítulo II, XXXVII e o início do capítulo III, XIII, e serão encontradas frases que em termos mais gerais dão continuidade àquelas que acabam de ser citadas, podendo-se sustentar que o ensaio Da experiência é ele próprio uma longa glosa enxertada no ensaio Da semelhança dos filhos com os pais.

39. O desejo de conhecimento é o mais natural, experimentamos todos os meios suscetíveis de satisfazê-lo e quando a razão não basta apelamos para a experiência, sendo este segundo processo menos seguro do que o primeiro e menos digno, mas a verdade é tão valiosa que nada devemos desdenhar capaz de nos levar a ela.

40. É novamente para Montaigne confessar que não pode terminar dessa vez não mais esse ensaio mas seu livro inteiro sem colocar uma última vez com novos esforços a questão do saber e da experiência, e não transige então em especificar desde as primeiras linhas que a experiência é um conhecimento mediato e que na categoria dos conhecimentos mediatos ocupa uma posição inferior.

41. Assim o ensaio III, XIII será em primeiro lugar a oportunidade de voltar a uma idéia cuja importância já foi sublinhada, pois é inútil fixar o olhar em raros exemplos privilegiados e consagrar-lhes uma atenção respeitosa, e para quem sabe tirar-lhes a lição as vidas comuns não são menos exemplares que as vidas ilustres.

42. No limite nossa própria vida nos provê de exemplos perfeitamente adequados se simplesmente aceitamos colocar nossos erros na categoria de exemplos negativos, e sublinha-se de passagem uma ocorrência do erro que faz eco à página do ensaio II, XXXVII na qual Montaigne enumerava tudo que torna inevitável o erro do médico.

43. Quem se recorda dos males de que foi vítima ou de que se viu ameaçado e das circunstâncias sem gravidade que o puderam perturbar já se acha preparado para as agitações futuras e conhece sua condição, e a vida de César não nos oferece mais exemplos do que a nossa porque tanto a de um imperador como a de um homem vulgar são vidas humanas e sujeitas a todos os acidentes humanos.

44. Escutemos nossa experiência e veremos que nos diz tudo aquilo de que temos necessidade especial, e não é um tolo quem não desconfia afinal de seu juízo se reconhece ter sido por ele enganado mil vezes.

45. Montaigne nos dissera que o erro do médico é perigoso para seu paciente, e agora damos um passo mais no progresso da consciência, pois dessa vez a experiência consiste na lembrança de nós mesmos nos termos enganado muitas vezes.

46. O malogro da experiência que se propunha como fim a ciência objetiva se transmuta em um saber do malogro, e esse saber de mãos vazias se torna constitutivo da experiência íntima que salutariamente nos faz desconfiar.

47. Experiência de uma ordem inteiramente diversa, ética e ontológica, em que a relação atual consigo mesmo é primordial, e portanto o fracasso refletido e a reflexão sobre o fracasso constituem o exemplo que poderemos declarar nosso.

48. Na evidência do presente experimentado o despojamento possui paradoxalmente a autoridade que já não detêm mais os grandes autores do passado quando o que está em jogo é nossa própria vida.

49. Para Montaigne essa autoridade viva não se limita apenas ao testemunho de nossa consciência falível e consente em estendê-la à palavra que se ouviu diretamente no círculo dos amigos presentes, pois se é preciso confiar em alguém por que não lhes dar a preferência sobre tudo que se imprime e se dá a ler.

50. Que pensar deste povo que só aceita testemunhos escritos e só acredita nos homens quando falam por meio de livros, pois dizer li é para ele muito mais importante do que ouvi, e Montaigne dá igual valor ao que sai da boca como ao que vem da mão e acredita tanto em um amigo quanto em um macróbio e no que vê como no que escrevem.

51. Coletado no mais próximo, no que ouvimos, vemos ou sentimos, o exemplo só tem por ganhar em validade, e Montaigne declara que é pura tolice recorrer a exemplos alheios e escolásticos, pois nossa época fornece-nos um tão grande número deles quanto as épocas de Homero e Platão.

52. Não provirá o nosso erro de emprestarmos mais veracidade às citações do que ao que dizemos, como se apoiando-nos em Plantin provássemos mais do que em nos atendo ao que vemos em nossa aldeia, ou provirá do fato de não termos suficiente inteligência para analisar e realçar o valor e tirar conclusões do que ocorre ao redor de nós.

53. Não há como admitirmos que careçamos de autoridade para dar crédito a nosso testemunho, pois as coisas mais vulgares e comuns poderão se soubermos esclarecê-las colocar-nos em presença dos maiores milagres da natureza e fornecer-nos os mais maravilhosos exemplos.

54. À experiência e aos exemplos estranhos citados como testemunho pelos sábios e sobretudo pelos médicos, Montaigne considera-se autorizado a opor uma experiência e uma escolha de exemplos das quais é por si só a única testemunha.

55. Paradoxo aparente, pois o que não se pode crer de três homens entregues a registrar suas experiências buscadas no mundo dos objetos exteriores e formuladas como regras gerais torna-se digno de atenção quando se trata de um único homem, mas do qual toda a atenção consiste em manter um registro das experiências de sua vida.

56. Experiência que um sujeito enuncia na primeira pessoa limitando-se à particularidade do que ensaiou, provou e experimentou, enquanto deixa seu leitor decidir por comparação sobre uma eventual similitude de experiência em que se esboçaria uma generalização.

57. Em razão da própria qualidade de atenção que Montaigne dirige a si mesmo considera-se no direito de oferecer aos outros sua experiência para que dela tirem proveito, e seguramente sua experiência corporal é limitada apenas à sua pessoa mas ele não receia desafiar os artistas que se prevalecem de um saber geral de que nenhum doente se beneficia.

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