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PENSAMENTO MÍTICO (RICHIR)

RICHIR, Marc. L’expérience du penser. Phénoménologie, philosophie, mythologie. Grenoble: Millon, 1996, 424-425.

Em outras palavras, no pensamento mítico, as protensões e retenções da fase de presença que se realiza não são as mesmas que para nós, elas já estão sempre, pelo menos em parte, nos códigos simbólicos que procuram articular-se harmoniosamente no pensamento mítico, e isso é coextensivo à instituição simbólica, no trabalho de sua elaboração em vista de si mesma, de uma linguagem mítica, cujos “mitemas” são, se assim se quiser, os únicos semantemas possíveis (pré-pensáveis). É isso que, mais uma vez, nos dá a impressão de que o sentido não é tomado por si mesmo, ou que, se ele tem um (por exemplo, etiológico), é “irracional”. Quando procuramos dizer um sentido, também operamos a transposição arquitetônica da linguagem para a língua. Fazemos isso novamente, embora de outra maneira, quando contamos uma história (são então os eventos, supostamente reais, seja por hipótese ou por simulação, como na literatura, que se encadeiam, com o que eles mobilizam de “motivações”). Mas é preciso compreender que os eventos do mito são precisamente eventos míticos, na medida em que só “constituem” eventos na medida em que, em cada caso, se deu, na íntegra, a transposição arquitetônica como evento do pensamento no pensamento. Essa maneira, para o pensamento, de se “surpreender” na plasticidade de um “evento” para ele e nele, “evento” em que a transposição ocorreu de uma só vez, razão pela qual ele surpreende, essa maneira ainda se encontra hoje, mas de outra forma, já que o mito é, afinal, um relato em linguagem, na poesia. Não que a poesia seja uma maneira de “refazer” o mito, mas que, o “referencial” mítico e mítico-mitológico original da poesia (épica, lírica, trágica) se retirou, tendo sido retomado apenas na forma de uma poesia erudita e imitadora, o que constitui um evento para o pensamento e no pensamento teve que ser reencontrado de outra forma, no fundo do corpus mitológico-mitológico enterrado em uma espécie de horizonte vazio. A poesia ainda é uma elaboração simbólica, mas é, na melhor das hipóteses, de uma experiência “poética” e, de qualquer forma, não tem mais a “função” de “resolver” tal ou tal problema simbólico que se coloca à sociedade, ou seja, de fundar (e não instituir) a ordem simbólica quanto ao seu sentido. Correlativamente, as codificações simbólicas da experiência humana já não são tão pregnantes que contribuam diretamente para a figurabilidade de um relato: introduz-se nelas uma imprecisão, o que torna a invenção poética mais explícita — e isto desde a poesia clássica grega: vimos isso com Ésquilo, cuja invenção poética é ainda, no mesmo movimento, invenção mitico-mitológica — e, acima de tudo, o indivíduo ganha corpo no gênio do poeta, que, a partir de então, é um autor explicitamente reconhecido como tal. O que se perde em determinações simbólicas cegas dos códigos (que contribuem para o anonimato dos inventores de mitos) é recuperado, no campo agora estético, na capacidade individual de invenção do poeta. Isso significa também que a experiência individual do poeta começa a trabalhar por si mesma — e com ela a experiência individual de seus ouvintes ou leitores —, que de “experiência em pensamento” do pensamento que é o mito ou o relato mítico-mitológico, se transforma em trabalho simbólico da experiência cuja densidade se insinuou entre o mito e as indeterminações que ele deixa em aberto devido ao seu afastamento. O mito está agora “em outro lugar” — e será, na era moderna, cada vez mais profundamente enterrado — e o pensamento poético só poderá voltar a ele por meio da “metafora”, como a um campo de impensável onde a língua e a linguagem se encontram inchoativamente misturadas, tendo-se perdido os significados simbólicos das codificações míticas. É nesse sentido que Platão tinha razão ao dizer que os poetas não sabem o que imitam, mas é também nesse sentido que, por isso mesmo, eles são “inventores” ou “criadores”, que reelaboram simbolicamente a experiência de outra forma, com novos recursos, o que Platão também percebeu, mas para temê-lo, pensando, sem dúvida erroneamente, que a poesia apenas perpetuava cegamente essas histórias fatais de tiranos que não conseguiam se estabelecer como monarcas — a única maneira viável sendo aquela que ele acreditava poder elaborar com a filosofia.

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