User Tools

Site Tools


schelling:estudos:veto:7.4

7.4 Produtividade e produto

VETÖ, Miklos. De Kant à Schelling: les deux voies de l’idéalisme allemand. Grenoble: J. Millon, 1998.

1. Schelling celebra o cumprimento da natureza no homem, cumprimento há muito preparado pelo processo natural inteiro. A natureza é, sim, o passado do homem, mas esse passado não está separado do presente por divisórias estanques.

  • é no homem que a natureza acede à sua inteligibilidade plena, mas a inteligibilidade já estava presente no seio da matéria. Contemporâneos, entre eles o próprio Fichte, e sobretudo ele, viram nesse pan-espiritualismo uma espécie de recaída num dogmatismo vitalista
  • na realidade, porém, a Naturphilosophie se compreende a partir da lógica e da dinâmica de todo o idealismo. Desde o Vom Ich, Schelling aspira à unificação da própria razão, ao apagamento das diferenças entre entendimento e razão, e à restituição de seu poder, de seu alcance constitutivo, à razão
  • trata-se, portanto, de elevar o conhecimento ao plano de um saber total, incondicionado, absoluto, mas esse empreendimento só é possível se a razão teórica recebe a força e os recursos da razão prática. Schelling parece favorecer a razão teórica em detrimento da razão prática
  • na realidade, a razão teórica só obtém sua nova vitalidade por ser reforçada pela conquista da razão prática. Os críticos veem na Naturphilosophie um dinamismo impuro, fundado em construção ilegítima, pré-crítica, da razão teórica
  • na verdade, se a espontaneidade do teórico se compreende doravante como o recurso de um saber incondicionado, é porque a síntese do conhecimento é vista como efetuada pela própria liberdade. A Naturphilosophie pode ser compreendida como a instituição dos princípios regulativos da continuidade e da homogeneidade em princípios ontológicos
  • ora, essa ontologia não rompe com suas origens críticas, mas subsume o transcendental numa nova metafísica

2. Conceber a natureza como o passado inconsciente do eu, e o homem como o cumprimento do movimento da natureza, equivale a estabelecer continuidade entre os diversos graus do ser, e a ler em todo o real uma homogeneidade inteligível.

  • já desde seus começos, a Naturphilosophie enuncia a metáfora especulativa da Alma do Mundo, meio de todas as forças da natureza e princípio de todas as suas causas. Schelling apresenta a noção em contexto expressamente leibniziano: a inteligibilidade horizontal de todo o ser aparece sob a forma do pan-espiritualismo da sucessão, partindo das mônadas adormecidas, e passando pela percepção da matéria até os animais dotados de faculdade de adivinhação
  • é a harmonia preestabelecida de um vínculo que mantém a unidade do orgânico e do inorgânico, sendo a mesma força que anima a sensibilidade, a irritabilidade, a reprodução e o Kunsttrieb
  • Schelling desenvolve, sob diversos vocábulos, o tema da homogeneidade da natureza: tradução de uma produtividade una e indivisa em produtos de afinidade recíproca. Um princípio comum liga o orgânico e o inorgânico, uma única força atua em toda a natureza, um único Trieb mantém e faz progredir todas as suas organizações
  • a natureza se desenvolve a partir de uma única “involução”, de uma síntese única, ou melhor, não é senão um único organismo, tema que o Bruno retoma e generaliza: o real, em sua integralidade, é uma planta cujo todo o que existe não é senão folhas, brotos e frutos

3. Ora, o princípio da homogeneidade não diz respeito apenas ao universo da vida, da existência, mas também da essência: de um único ponto em pulsação a natureza se desenvolve num sistema. As coisas do mundo são os momentos de uma força, mas também de uma forma.

  • o Proteu da produtividade em ação nos fenômenos da natureza é também a articulação, ou mais precisamente, a autoarticulação do conceito. Os organismos do mundo representam diversidade infinita, mas, em última instância, são constituídos segundo arquétipo comum
  • o processo da natureza deve ser compreendido como imensa metamorfose que progride segundo regularidade sem falha, mas a regularidade da sucessão remete a uma afinidade das formas. Isso significa que, se se pode atribuir literalmente uma sequência às ideias da natureza, é porque suas formas apresentam um sistema
  • os dois grandes princípios da continuidade e da homogeneidade da natureza convocam o terceiro, o da especificação. A grande ambição do schellingismo será a dedução a priori dessa especificação
  • depois de afirmar e confirmar a inteligibilidade contínua e homogênea de toda a natureza, Schelling se dedica à tarefa de mostrar a diferença, isto é, a articulação dos momentos da natureza

4. A Naturphilosophie — lê-se no Primeiro Esboço — não tem por objetivo a explicação da continuidade da produtividade, mas a de sua interrupção, da fixação de seu movimento, em suma, de seus produtos. A natureza se deixa deduzir a partir da produtividade.

  • enquanto produtividade, é natureza naturante; enquanto produto, natureza naturada. E essas duas noções são os equivalentes respectivos de sujeito e objeto. Por outro lado, a produtividade, que é o princípio de toda continuidade na natureza, corresponde à ação, à atividade
  • dito de outro modo: a homogeneidade dinâmica sob cuja figura se representa a inteligibilidade da natureza não pertence a uma ontologia teórica, mas a uma reflexão transcendental, enraizada no prático. E, com efeito, o ser contém os traços ocultos da atividade, isto é, da própria liberdade
  • Schelling alargará, em seguida, essa intuição para generalizar a posição de Kant: a liberdade não é apenas o em-si do homem, mas de todas as coisas
  • quanto à Naturphilosophie, o fundo prático da produtividade aparece sob a imagética fichteanizante da preponderância gradual do subjetivo. A natureza, atividade inconsciente do espírito, é um equilíbrio instável do objetivo e do subjetivo, devendo a ascensão do processo da natureza ser compreendida como vitória progressiva do consciente sobre o inconsciente, do subjetivo sobre o objetivo
  • a atividade da natureza como sujeito é contínua, tendo todos os seus momentos dinâmicos seu princípio último no sujeito da natureza. A subjetividade em ação na natureza tende à clareza, à autoconsciência, em suma, à coincidência consigo mesma, mas se vê constantemente combatida, sendo os seres do cosmos, por assim dizer, as expressões e os monumentos desse conflito incessante

5. Schelling apresenta o mundo como lugar de uma luta incessante. Essa luta tem sua gênese metafísica na cisão primordial que é a própria vida da natureza. Ora, a essência profunda da natureza é a identidade, e a produtividade não é senão o meio por excelência de que ela dispõe para reconquistar a identidade.

  • a produtividade está, certamente, pontuada de produtos nos quais a cisão é como que consumada. Na realidade, os produtos não são senão compromissos provisórios que permitem à natureza reencontrar o repouso da identidade. Ela é “a besta mais indolente e execra a separação”. Se acaba consentindo nela, é precisamente para dela libertar-se
  • se aceita o advento do indivíduo, é simplesmente porque, no indivíduo, a divisão dos sexos, essa forma última, exacerbada da divisão, se encontra abolida. Schelling multiplica os desenvolvimentos sobre a dualidade originária da natureza, sua contradição fundamental, a luta incessante entre a produtividade e o produto
  • o essencial, porém, é compreender que a linguagem dinâmico-ontológica tem por referente, em negativo, as sínteses sucessivas pelas quais a Wissenschaftslehre se eleva do não-eu ao eu, sendo a finalidade de todos esses exercícios idealistas a dedução a priori das formas da natureza

6. O idealismo schellingiano ensina a inteligibilidade da natureza. A inteligibilidade é articulação. Isso significa que a identidade-homogeneidade da natureza deve diferenciar-se.

  • de um ponto de vista transcendental, a diferenciação aparece sob a forma da “síntese” primordial, que é o começo da existência efetiva da natureza. Do ponto de vista dinâmico, trata-se da relação mútua da produtividade e do produto
  • a Naturphilosophie parte da cisão primitiva da natureza, da contradição primordial que a penetra por toda parte. Ora, essa contradição é fecunda na medida em que é o arquétipo de toda articulação
  • a verdade da natureza é a produtividade, mas a produtividade só existe na medida em que celebra um compromisso com o produto. Schelling escreve que todos os produtos primordiais estão ocultos na produtividade. Equivale a dizer que a natureza é o compromisso primitivo entre produtividade e produto, sendo os produtos particulares apenas instâncias particulares dessa relação elementar

7. A doutrina do compromisso fundador da natureza, a descrição da natureza como uma produtividade a cada instante em trânsito no produto, funda a existência do produto ou, se se quiser, o produto em geral. Ora, a Naturphilosophie ambiciona também a explicação do produto particular, isto é, a dedução dos momentos da natureza.

  • Schelling expõe “primeiro” o que é um momento da natureza, “depois” tenta deduzir-lhe a estrutura

8. Oposto à fluidez absoluta da produtividade, o produto aparece como o rígido ou o fixo. O rio da natureza é uma corrente poderosa, ou antes um redemoinho onde se fazem e desfazem núcleos fixos. A produtividade gostaria de correr com velocidade infinita, mas os produtos retardam, ou antes atrasam, sua progressão.

9. A dualidade geral da natureza aparece pelo retardamento primitivo da produtividade. A natureza luta contra esse retardamento cujo princípio, porém, está inscrito em seu próprio coração. Para poder existir efetivamente, ela deve admitir pontos de obstáculo.

  • esses “pontos”, esses núcleos que pontuam o conflito incessante entre o sem-figura e a figura, são qualidades que Schelling expõe como os graus e as figuras do desenvolvimento do organismo absoluto. A qualidade aparece, portanto, como a forma primitiva da interrupção da identidade, o princípio de sua articulação
  • por outro lado, é também momento de sua estrutura inteligível e de seu desenrolar gradual

10. A qualidade é a forma primitiva da produtividade, a primeira formação que se destaca de seu processo. Traduz a impossibilidade em que se encontra a matéria de recair em sua primordialidade, explicitando os momentos do encadeamento que levam uma existência de virtualidade no seio do puro fluxo da produtividade.

  • a qualidade é ao mesmo tempo elementaridade inconstruível, embaixadora do empírico, tanto quanto a primeira prefiguração da essência, do conceito. É a determinação própria que condiciona o grau de coerência de um ser particular, exprimindo o equilíbrio instituído entre as forças primitivas da natureza, entre a expansão e a contração, em suma, a produtividade e o produto
  • por outro lado, é por sua qualidade que um ser pode ser dividido em partes individuais, cada uma das quais remete ao todo e o expõe fielmente

11. Tradicionalmente, considera-se a multiplicidade das qualidades como esfera recalcitrante ao conceito, um mundo de realidades sem afinidade mútua, inapto a integrar um encadeamento regular. Schelling, porém, crê entrever nas qualidades graus do desenvolvimento da natureza, momentos dessa história que expõe uma teoria a priori da natureza.

  • sem dúvida, não tenta apresentar diretamente, em si mesmas, as qualidades como constituindo a sucessão dos momentos da natureza, mas integra, sob forma de diversas construções, a qualidade no seio das figuras da natureza, devendo essas figuras, por sua vez, constituir uma gradação que seria uma verdadeira história a priori da natureza

12. Schelling sempre prezou a imagem da escada dos seres, da grande cadeia da vida. Do musgo, em que mal se distinguem traços do organismo, até a figura sublime que se libertou das cadeias da matéria, é sempre a mesma tendência em ação.

  • do cristal até a folha, e da folha até a figura humana, a natureza é um processo de determinações, uma série ininterrupta que engloba as coisas, do organismo mais simples até a obra de arte suprema. As formas e os fenômenos da natureza manifestam uma conexão que vai além do domínio natural, estendendo-se ao mundo do espírito
  • a Naturphilosophie acaba por ensinar a continuidade orgânica das figuras, da mais rude até a mais sublime, mas já o mundo natural stricto sensu é perfeita manifestação do encadeamento orgânico das figuras
  • a tendência à determinidade, à articulação, sobe poderosamente das pedras e dos metais, através dos vegetais, até o animal, onde termina como que hipostasiando-se e aproximando-se do homem que a contempla enquanto ela o olha, de olhos bem abertos, plenos de expressão.
schelling/estudos/veto/7.4.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki