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3 Amor
ROSSET, Clément. Le principe de cruauté. Paris: Éditions de Minuit, 1988.
- A crueldade da realidade ilustra-se de modo particularmente espetacular e significativo na crueldade do amor, tema conhecido e já abundantemente analisado, mas é privilégio das questões profundas permitir sempre uma análise parcialmente renovada, como é privilégio de toda grande obra de arte, musical por exemplo, oferecer sempre matéria a uma interpretação inédita que lhe renove perpetuamente o interesse.
- Sem pretender ambição tão vasta, cabe apenas relacionar o tema da crueldade do amor com o da crueldade em geral, mostrando que a primeira é somente uma variante, ou “variação obrigatória” (variation obligée), para permanecer na metáfora musical, da segunda.
- O termo “amor” é entendido em seu sentido mais amplo: amor de outra pessoa, mas também e talvez primeiro amor da vida (ou da realidade), e enfim amor de si; deixam-se de lado o amor de Deus, que reuniria os três casos citados, e o amor ao próximo, amor abstrato e irreal, muitas vezes revelador negativo de um ódio bem real, do qual nunca se achou vestígio fora dos romances de Tolstói e da literatura edificante.
- Poderia estranhar-se a preferência pelo amor das coisas e de si sobre o amor de uma pessoa amada, expressão mais aguda do amor segundo o senso comum, que tem toda a razão; mas é preciso distinguir o amor que faz mais mal, ou mais bem, no momento (amor de uma pessoa) e o que faz mais mal e traz mais dificuldades a longo prazo (amor de si, amor das coisas).
- O amor das coisas subordina-se ao amor de uma pessoa, mas é ainda mais verdadeiro que o amor de uma pessoa se subordina, por superioridade hierárquica e não por reciprocidade, ao amor das coisas.
- Vigny escreve, em dois versos célebres, que pouco lhe importam o dia e o mundo e que os dirá belos quando os olhos da amada o tiverem dito, mas a fórmula inversa seria ainda mais pertinente: só se acharão belos os olhos da amada se antes se acharem belos o dia e o mundo.
- Nada é tão importante e gratificante na vida quanto o amor no sentido corrente, salvo a própria vida, como exprime Spinoza ao definir o amor como “a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior”; o amor é apenas variante, a principal, do amor da vida.
- A crueldade do amor aqui tratada pouco tem a ver com a crueldade do erotismo segundo Georges Bataille, que descobre no amor carnal (mas também, necessariamente, um pouco mental) o projeto cruel de destruição física do ser amado, um atentado contra seu “indivíduo”, vontade de inspiração schopenhaueriana de quebrar o caráter individual para reconduzi-lo à espécie, numa desconstrução erótica que começa no beijo, primeira manifestação da vontade de morder, e termina, se o itinerário amoroso vai até o fim, no esquartejamento e na pulverização.
- Não cabe aqui indagar da justeza ou falsidade dessa tese, que parece um pouco das duas, mas apenas dizer que não entra diretamente no assunto.
- A crueldade do amor percebe-se facilmente em todos os níveis e acepções da palavra, seja amor de si, das coisas ou de uma pessoa: o paradoxo é que nenhum desses objetos é verdadeiramente amável, considerado friamente, e todo amante, por ter feito sempre e necessariamente uma escolha ruim, condena-se a venerar como melhor o que é na realidade o pior e que não tarda a reconhecer como tal, daí seu tormento.
- Catulo diz Odi et amo: odeio e amo, pergunta-se talvez como é possível, e responde que ignora, mas sente que assim é e está crucificado; esse constatação cruel vale para todas as formas de amor.
- Amo-me e detesto-me, pois consisto apenas num projeto, madura e sabiamente programado, de desaparecimento total, num morto não agraciado, mas com breve sursis; por isso o eu, como diz Pascal, é detestável.
- Amo as coisas do mundo e as detesto, porque tampouco estão melhor que eu quanto à duração.
- Amo uma pessoa e a detesto, pois ela está inevitavelmente fadada a deixar de me amar, caso mais cruel por ser o mais vexatório ao amor-próprio, a menos que eu mesmo deixe de amá-la, caso menos duro, mas talvez mais sinistro, pois me faz suspeitar que a origem de toda decepção está em mim, em minha incapacidade de permanecer eu mesmo, de fazer durar meu desejo, de manter um rumo, ou mesmo de seguir uma ideia.
- Chamfort resumiu os termos dessa alternativa sem esperança: a felicidade não é coisa fácil, é muito difícil achá-la em nós e impossível achá-la alhures.
- A crueldade do amor, como a da realidade, reside no paradoxo ou contradição de amar sem amar, de afirmar como durável o que é efêmero, cuja depuração mais seca seria dizer que algo existe e não existe ao mesmo tempo.
- Entra na essência do amor pretender amar sempre, mas em seu fato amar apenas por um tempo, de modo que a verdade do amor não concorda com a experiência do amor.
- O apaziguamento de uma mágoa de amor significa também aumento dessa mesma mágoa, como observa Rousseau em A nova Heloísa: um amigo julga consolar Saint-Preux, mergulhado em profunda aflição, notando que toda pena do coração se embota com o tempo, e Saint-Preux replica, com justeza, que é aumentar a pena pensar que ela acabará; o fim do amor é justamente o que há de mais cruel nele.
- Esquecer a dor equivale a reavivar o brilho de sua causa, que consiste ocasionalmente na dificuldade de amar uma pessoa e ser amado por ela, mas essencialmente na impossibilidade de amar qualquer coisa; o fim das penas, em matéria de amor, é apenas o começo do verdadeiro castigo.
- O amor foi dito feiticeiro (sorcier), no sentido de encantador, como sugere o título da célebre obra de Manuel de Falla, porque realiza, ou parece realizar, uma proeza impossível: transformar nada em algo e, por via inversa, algo em nada.
- Platão acerta, em O Banquete, ao reconduzir o problema do amor ao problema ontológico, a embriaguez amorosa ao sentimento inebriante de um contato fugidio com o ser.
- O amor, como Jano, é mágico de duplo e contrário rosto: faz surgir um objeto do nada por magia branca e o devolve a ele com um golpe de varinha, por magia negra.
- Manuel de Falla exprime essa magia em O amor bruxo: como o fogo-fátuo, o amor se desvanece (se desvanece, diz o texto espanhol de Martínez Sierra: apaga-se, evapora-se, volta de súbito ao nada).
- Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, A dupla inconstância, de Marivaux, e Così fan tutte, de Mozart, são outras ilustrações dessa evanescência cruel do amor, de sua dupla potência de aparecer e desaparecer, de ser e não ser; tal ambiguidade é a inerente a toda espécie de realidade.
- Uma última observação concerne ao amor no sentido usual, mas nada tem a ver com a tese geral do livro: o amor é sem dúvida a experiência mais gratificante, mas jamais, contra um preconceito tenaz, ocasião de verdadeira “descoberta”, pois se experimenta algo de que já se possuía a noção.
- Isso explica o fato aparentemente paradoxal de tantos pensadores, como Schopenhauer, Kierkegaard ou Nietzsche, terem falado tão profundamente do amor sem lhe ter conhecido a experiência real.
- O amor é como os cem táleres de Kant na Crítica da razão pura: os que estão no bolso têm a inestimável vantagem de existir e de ser meus, mas em nada diferem da ideia que antes se fazia deles.
- Freud exprime algo semelhante ao notar que a pretensa descoberta do amor, dada a semelhança entre o amor adulto e o amor infantil pela mãe, nunca passa de ocasião de reencontro.
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