rosset:1983:1.3
1.3 Alegria musical
La force majeure. Paris: Éditions de Minuit, 1983.
- Dado o papel central da jubilação e da experiência musical, sempre ligada àquela em Nietzsche, a credibilidade do pensamento nietzschiano depende da credibilidade de uma concepção da música cujo esboço, em O Nascimento da Tragédia, já é em certos aspectos definitivo; ela se resume em duas proposições complementares e recíprocas.
- Primeira proposição: música significa alegria (gaieté), a música é alegre por essência. Segunda, inversa: a alegria supõe a música, a alegria é musical por essência.
- Não se trata de estabelecer a validade universal dessas proposições, pois as exceções abundam a ponto de forçar a lei: muitos espíritos tristes adoram a música e muitos espíritos alegres a ignoram para sempre.
- Isso não invalida o pensamento nietzschiano, pois seu tema dominante, a alegria, interessa também aos que chegam à alegria sem a mediação musical, assim como interessa, contraditoriamente, aos que passam pelo prazer musical sem alcançar a alegria.
- Demonstrar que a relação complementar entre alegria e música é verdadeira ao menos para Nietzsche, que a afirma explicitamente em toda a obra, seria tarefa igualmente vã. A única questão plausível é se as duas proposições, que não podem ser tidas por verdadeiras nem falsas, são verossímeis, isto é, portadoras de sentido bastante consistente para serem tidas por verdadeiras por alguns e de certo ponto de vista.
- A primeira proposição examinada é a de que a alegria é musical por essência, e ela não merece discussão longa: em Nietzsche, como em outros, a música é o momento da mais intensa jubilação vital, comparável e superior a qualquer outro gozo físico e psíquico, notadamente o sexual.
- É igualmente evidente que o sentimento jubilatório do ser e o prazer de existir estão presentes em muitos independentemente de qualquer interesse musical.
- Em Nietzsche e em certas pessoas, a alegria de ser culmina na expressão musical, onde encontra seu cumprimento supremo; em outras, é diferente, sem que se deva deduzir daí uma jubilação menor.
- A outra proposição, a de que é da essência da música ser alegre, parece escabrosa (scabreuse), pois a opinião contrária é a mais corrente: admite-se que a música possa ser alegre, mas apenas por uma alegria acidental, acessória e sobreposta a sua vocação própria, que seria evocar a melancolia e a tristeza para “sublimá-las”.
- A frase de Rachmaninov, “a música é filha da mágoa”, resume um diagnóstico ancestral: a música não é mágoa, mas efeito e remédio da mágoa; em si mesma é felicidade, na medida em que remedeia a mágoa, felicidade negativa e compensatória, feita de subtração parcial e momentânea dos sofrimentos da existência, como um “tempo de respirar” diante da urgência do real.
- Essa concepção da música como trégua indica certo sofrimento quanto ao real e é própria de quem sente insuficiência e falta diante da realidade e da própria existência. O aforismo 370 de A Gaia Ciência, “O que é o romantismo?”, define esse sentimento de falta como a essência do “romantismo”, por oposição ao sentimento de plenitude do artista “clássico”.
- A música pode servir à expressão dessa falta, como mostram ilustres compositores, mas não se segue que tal música seja eminentemente musical: se a eminência da música está na aprovação do real, no “poder de dizer sim ao mundo”, a expressão musical da mágoa, ainda que superada pelo efeito apaziguador, é uma espécie de traição, um desvio do efeito musical para fins diversos da alegria sem reticência e sem falta.
- Esse desvio se percebe em Schumann, cuja música, segundo o aforismo 161 de O Viajante e sua Sombra, quer evocar “o eterno rapaz” e acaba lembrando “a eterna solteirona”.
- Percebe-se também na ruptura entre Mozart e Beethoven, muitas vezes lida como passagem do menos profundo ao mais profundo, de uma alegria superficial a uma felicidade refletida e duramente conquistada, logo mais sólida. Ouvidos mais finos julgam o inverso: deterioração da alegria, que deixa de ser júbilo incondicional para tornar-se felicidade raciocinada, menos confiável e menos profunda.
- Segundo esses intérpretes, há em Beethoven, além do desvio do efeito musical, uma virada geral da arte contra si mesma, como sugere Roland-Manuel ao ver nele o “príncipe dos rebeldes da arte”; talvez seja demais injuriar Beethoven ao honrar Mozart com a passagem do Zaratustra sobre as fontes envenenadas pela ralé.
- O próprio Nietzsche, no aforismo 245 de Para Além do Bem e do Mal, declara que o “bom tempo antigo” fez ouvir seu último canto em Mozart, cujo rococó, polidez do coração, gosto da graça, da ternura e da dança ainda nos tocam, enquanto Beethoven foi apenas a última expressão de uma ruptura e transição de estilo, produto híbrido de uma alma velha agonizante e de uma alma nova ainda por nascer, cuja música banha-se no claro-escuro de um luto eterno.
- É singular que a alegria, musical ou não, precise ser incessantemente defendida contra a tendência do espírito humano a vê-la como sentimento agradável porém desprezível, quando talvez seja a única coisa do mundo a poder pretender razoavelmente ser levada a sério.
- A alegria pura, sem sombra de reserva, é tida por suspeita de frivolidade, quando é o sentimento mais profundo, e de vulgaridade, quando é o mais nobre. Cioran resume essa reticência: é necessariamente vulgar tudo o que é isento de um quê de fúnebre; a fórmula inversa seria que é eminentemente nobre o que não se mistura com nenhum fúnebre, nem mesmo um quê.
- Roland-Manuel escreve sobre O Tricórnio de Falla que nada é vulgar na Espanha, “nem mesmo a alegria”, fórmula que revela sensibilidade comum e implica que o lugar da alegria é ordinariamente o da vulgaridade, de modo que seria façanha da Espanha ser alegre sem cair no vulgar.
- Tais reticências valem a fortiori para a alegria musical: a música só alegre é relegada por muitos à “segunda prateleira”, como anódina ou vulgar, sem carga afetiva digna de atenção.
- Contudo essa música não é alheia ao registro das emoções humanas: conhece-as melhor que ninguém, fundindo todas, até as piores, no cadinho de sua alegria universal, e sua alegria é a expressão da mais comovente das emoções, a alegria, tida por Espinosa como a primeira e principal afecção do ser humano.
- Offenbach é um músico cujo classicismo Nietzsche poderia ter oposto ao romantismo wagneriano tanto quanto o de Bizet: tido por leve porque reduz o efeito musical à expressão mais simples, de alegria soberana e irresistível, prodigiosa aos olhos do próprio compositor, que se espanta ingenuamente do que fez ao bom Deus para ter tanta alegria.
- É também tido por vulgar, até “rei da vulgaridade musical” segundo um célebre crítico, porque encerra a emoção mais intensa sob a máscara da paródia e do bufo, como Mozart antes dele e Ravel depois. Opinião tanto mais crível porque a distinção musical de Offenbach é muitas vezes eclipsada pela vulgaridade efetiva de sua interpretação, o que confirma o juízo de outro crítico: não há música ruim, só música mal tocada.
- Não é o lugar de opor considerações técnicas ao juízo corrente que o relega entre os músicos menores, nem de expor a originalidade e modernidade de seu ritmo, a graça mozartiana de sua melodia e o tratamento musical que dá à língua francesa, geralmente tão rebelde a ele.
- Basta lembrar um juízo tardio e eloquente de Nietzsche, que só conhecia Offenbach por raras audições: em 1887, nota que os judeus tocaram o gênio no domínio da arte com Heine e Offenbach.
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