rosset:1971:1.3
1.3. Anti-ideologia
ROSSET, Clément. Logique du pire: éléments d'une philosophie tragique. Paris: Presses Universitaires de France, 1971.
DIGRESSÃO, CRÍTICA DE UM CERTO USO DAS FILOSOFIAS DE NIETZSCHE, MARX E FREUD DE CARÁTER IDEOLÓGICO. DAS TEORIAS ANTI-IDEOLÓGICAS. SABER TRÁGICO E SENSO COMUM. DEFINIÇÃO DA FILOSOFIA TRÁGICA
- Uma questão anexa, sem relação direta com a lógica do pior mas rica em consequências para outros discursos filosóficos, pergunta se o saber trágico é inaugurado pela cura terrorista e se o homem comum o ignora; a resposta às duas é negativa.
- Se o homem comum ignorasse o trágico, seria absurdo impor-lhe um conhecimento inútil, como os médicos que revelam o caráter fatal da doença por terem lido em manuais que o conhecimento sempre vale mais que a ignorância.
- O terrorismo trágico torna exprimível um conhecimento já possuído, e a ideia de que privilegie o conhecimento a qualquer preço é caricatura própria de filosofias muito ruins.
- Nesse ponto ganha sentido a frase de Pascal, em seu sentido degradado, de que os homens, não podendo curar a morte, a miséria e a ignorância, resolveram, para serem felizes, não pensar nelas.
- É fácil objetar que tal atitude é a mais sábia, se esses males são incuráveis, e valeria ocultar a morte se isso fosse possível.
- A morte, porém, é indissimulável, e a teoria pascaliana do divertimento trata não da dissimulação do trágico, mas de sua não utilização: o divertimento interdita ao homem servir-se do que sabe.
- Georges Bataille sustenta que Nietzsche teria sido o primeiro a fundar uma filosofia no “não sentido” ou no acaso, experiência tão desconcertante que só um “brilhante isolado” poderia tentá-la.
- O primeiro erro é histórico, pois tais visões não foram inauguradas por Nietzsche.
- O segundo é um contrassenso revelador da incapacidade dos “intelectuais” de dar a palavra ao trágico.
- Fazer do saber trágico privilégio de intelectuais brilhantes é visão superficial e “popular” do que o povo sabe; a situação é o oposto: o saber trágico é patrimônio da humanidade inteira, exceto de alguns intelectuais brilhantes como Bataille.
- As visões populares do mundo giram em torno de desordem, acaso e absurdo, resumidos na expressão “é a vida” em todas as línguas e épocas.
- A ideia de um mundo submetido a uma razão ou ordem é privilégio de poucos filósofos, cientistas e teólogos, cuja cegueira é crer que sua afirmação influencia profundamente as visões do povo.
- Muitos pensadores contemporâneos negam a universalidade do saber trágico por o trágico não falar, concluindo que não há “consciência” trágica em quem não fala trágico, isto é, em quase todos.
- Essa concepção confunde o não falado com o não pensado (“impensado”), num uso fraudulento do conceito freudiano de inconsciente que supõe que todo pensamento vem à palavra e que toda não palavra é não pensamento.
- Assim, tudo que o neurótico, o capitalista ideólogo ou o teólogo não diz seria um “branco” em seu pensamento, e Althusser se especializou em rastrear esses “brancos”, arrastando uma plêiade de jovens neomarxistas, neonietzschianos e neofreudianos.
- O esquema é fácil e fecundo no meio universitário, mas ignora os pensamentos que não “falam”.
- O neurótico não pensa sua neurose como pensa o que sabe exprimir, mas esse caráter provisoriamente inexprimível não se confunde com o inconsciente: falta-lhe disponibilidade para falar sua obsessão, e a cura leva o conteúdo recalcado menos à consciência, onde já está, do que à palavra.
- Passar do “impensado” ao pensamento é falar, escrever, formular, como na redação de uma obra filosófica.
- A Ética de Spinoza não era “impensada” antes de escrita, mas tampouco simplesmente pensada em silêncio: representar a redação como passagem do pensado calado ao pensado em voz alta é fantasma de mau escritor, pois toda obra pronta antes de sua realização é obra morta.
- Antes da Ética ou da Genealogia da moral, as visões de Spinoza sobre o racionalismo cartesiano e de Nietzsche sobre o niilismo não eram meros “brancos”.
- Do mesmo modo, a luta de classes, o desejo sexual interdito e o ressentimento existem no burguês, no neurótico e no teólogo não como “impensado”, mas como “não falado”.
- Da assimilação sumária entre silêncio e inconsciente resulta, em pensadores de uma nova geração que se quer anti-ideológica, uma concepção superficial da própria ideologia.
- Ao confundir impensado e não falado, reduziram o econômico, o psicológico e o erótico a um impensado a que bastaria dar “as luzes da consciência”, velho projeto de Hegel e sabedoria de Platão (deixai a ignorância e sereis justos e bons).
- Se o capitalista soubesse que explora, se o padre soubesse que prega vingança, se o neurótico soubesse que não se perdoa um desejo incestuoso: mas eles não sabem, diz-se, e basta dizer-lhes a verdade.
- Foi-lhes dita há uns vinte anos e nada mudou na luta de classes, nas ideias religiosas ou nos interditos sexuais; nada mudou porque nada lhes foi ensinado, já que sabiam tudo, e faltava-lhes aprender a falar.
- Isso um psicanalista às vezes consegue com um paciente, mas o discurso anti-ideológico é sem poder por ser ele próprio ideológico: crê na onipotência e na toda-verdade das ideias e supõe que basta entregar a ideia a alguém para lhe dar a palavra.
- Ideias como a exploração dos pobres pelos ricos, a onipotência do ressentimento e das pulsões sexuais estão desde sempre no “impensado” dos homens, e repeti-las é repetir um saber adquirido.
- Ao querer demarcar o vazio do discurso ideológico, o anti-ideológico esconde a verdade deste, que é ser vazio e pensar-se em silêncio como tal; ninguém apaga nada com nada.
- O discurso anti-ideológico, no fundo, leva a ideologia a sério, toma o homem ao pé da letra, e essa seriedade é a própria ideologia, que ressuscita literalmente a de Platão e de Hegel.
- O homem é muito mais desconfiado do que supõem essas empresas, pois a desconfiança é, como o bom senso, componente universal e indestrutível do pensamento humano, e a leveza ou otimismo dos filósofos é subestimar seu poder.
- Victor Brochard, em seu estudo Os céticos gregos, elogiado por Nietzsche, já destacava que o ceticismo é, antes de tudo, a voz popular do senso comum, e não a de poucos pensadores estranhos de pessimismo exacerbado.
- A crítica do caráter ideológico de certos discursos anti-ideológicos leva à fonte comum de onde derivam e onde se separam todas as formas de pensamento trágico e não trágico: a natureza do olhar do homem sobre suas ideias, problema da “ideologia” em terminologia moderna.
- A ideologia se caracteriza por sua inexistência, pois fala de não seres (justiça, riqueza, valores, direito, Deus, finalidade) e, como diz Romeu em Shakespeare, “fala de nadas”.
- Dois caminhos divergem a partir daí: ou se considera que o homem não sabe que fala de nadas, o que torna possível o discurso anti-ideológico e toda filosofia não trágica, já que sempre haverá um programa de desiludir os homens.
- Ou se considera que o homem sabe que fala de nadas, por um saber trágico que não é nem falado nem “impensado”, e o pensamento trágico parte instintivamente dessa segunda hipótese.
- Daí a vaidade de toda empresa anti-ideológica e, em certo sentido, de toda filosofia, pois a educação do homem nesse ponto já está feita.
- O princípio diferencial entre pensamento trágico e não trágico é atribuir ou não ao homem um saber que excede o que diz ou escreve, isto é, levar ou não a sério a ideologia.
- Uma só fórmula caracteriza o pensamento trágico: a impossibilidade de crer que possa haver crença.
- O argumento é simples: toda crença, posta à prova, é incapaz de precisar em que crê, logo é crença em nada, e crer em nada equivale a nada crer; o homem pode crer no que quiser, sem poder evitar saber silenciosamente que aquilo em que crê é nada.
- A intuição fundamental é a incapacidade dos homens não de se livrar de sua ideologia, mas de constituir uma ideologia.
- Disso decorrem três consequências para o pensamento trágico.
- Primeira: define-se a piedade trágica, pois ninguém é enganado por seu discurso; nem o juiz crê na justiça, nem o neurótico em sua neurose, nem o padre em Deus.
- A piedade nasce ao descobrir que o benefício da ilusão é recusado a uma humanidade que manifesta sem cessar sua necessidade dela.
- O pensamento não trágico, filosofia do primeiro grau, é implacável por crer que há adesão onde se fala de crença e não perdoa os homens por defenderem discursos odiosos ou absurdos; a filosofia de segundo grau, trágica, compadece-se da incapacidade de aderir a eles.
- O pensamento não trágico tem programa (arrancar os homens de sua ideologia); se o pensamento trágico tivesse um, seria o inverso, fazê-los crer em seus absurdos, mas tal programa é absurdo em si e o que resta é a piedade.
- Segunda: fica estabelecida a impossibilidade de toda luta anti-ideológica, pois ela apenas faria aparecer um “não saber” já conhecido como tal na ideologia.
- Onde o discurso anti-ideológico se esforça por demolir, o trágico constata que nada foi construído.
- Daí o caráter indestrutível de toda crença, pois não se destrói o que não foi construído, e a frivolidade da maioria das considerações não trágicas sobre o fanatismo.
- Terceira: revela-se a impossibilidade de todo pensamento não trágico constituir-se em filosofia, o que inverte o problema inicial: o que se torna questionável é a existência de qualquer outra filosofia.
- Se filosofia é um corpo de considerações que recebe adesão sem reservas, as únicas filosofias existentes são as trágicas.
- O não trágico é o que se diz sem conseguir pensar-se, e o trágico é o que se pensa sem em geral aceitar dizer-se.
- À luz dessas consequências, todo combate anti-ideológico procede de um elemento parcial e degradado de saber trágico.
- O pensador trágico sabe um pouco mais: sabe que o ideólogo sabe que “fala de nadas”, possuindo um “saber a mais”, expressão de A. Green em Um olho a mais, que lhe permite conhecer a vaidade da ideologia e também a de toda anti-ideologia.
- Sobre a ideologia, o pensamento trágico sabe, por definição, um pouco mais que todo pensamento anti-ideológico.
- Bem antes de Marx, Nietzsche e Freud, pensadores trágicos como Lucrécio, Montaigne, Pascal e Hume centraram o problema da filosofia na questão da ideologia, em sentido mais geral e agravado em relação às leituras otimistas desses três.
- Essas leituras são otimistas porque, crendo na eficácia da ideologia, creem na eficácia da ação anti-ideológica.
- A inanidade da ideologia, para o pensamento trágico, é a impossibilidade de constituir-se em crença, e por isso ele não é anti-ideológico, mas não ideológico, por não crer sequer na eficácia da ideologia.
- Em Lucrécio, Montaigne, Pascal e Hume, a crítica da ideologia mostra o “nada” que ela dissimula e, sobretudo, que esse nada, apenas falado, não recebe adesão alguma.
- Define-se assim o trágico da condição humana: o homem é levado a falar o não trágico, isto é, a ideologia, e portanto precisa dela, mas não dispõe de ideologia e fala de nadas em que não pode crer, contradição insolúvel de quem precisa de algo que é nada.
- Isso confirma a definição de Jankélévitch do trágico como aliança do necessário e do impossível, que exige precisão.
- É fácil desviar para uma interpretação não trágica, interpretando o “nada” do desejo como um “objeto faltante”; toda a orientação do pensamento depende de se poder confundir a ideia de nada com a de falta.
- Se o que falta ao desejo é uma existência, o desejo é necessidade de nada, não há outra coisa além do que existe onde alojar o objeto do desejo, e a metafísica é inútil, pois de que serve fabricar “outra coisa” sem ter nada a pôr nela?
- O trágico é a aliança do necessário e do impossível, com a condição de que a impossibilidade não seja a de uma satisfação, mas a da própria necessidade: a necessidade humana se choca não com a inacessibilidade dos objetos do desejo, mas com a inexistência do sujeito do desejo.
- Toda forma de pensamento não trágico começa por acrescentar à definição bruta do trágico uma modificação insensível: o homem precisaria não de algo que é nada, mas de algo que lhe falta.
- Entre a necessidade de nada e a necessidade de algo inobtível situa-se a distância decisiva entre pensamentos trágicos e ideológicos, mesmo os de intenção anti-ideológica que confiam num melhor tornado possível pelo fim das superstições.
- Pouco importa que o objeto de contentamento seja tido por inacessível ou não; importa que seja tido por “nada” ou por “inacessível”.
- O “nada” e o “inacessível” recobrem dois pensamentos não só diferentes, mas inconciliáveis.
- A inferência do nada do desejo para um “algo” fora do alcance humano é a fonte de todas as religiões, metafísicas e formas de pensamento não trágico.
- O pensamento trágico recusa essa inferência: desejar nada, e não “nada desejar”, cujo “ne” expletivo já pressupõe um manque metafísico, significa apenas reconhecer uma necessidade sem objeto, e não um objeto que falta à necessidade.
- A necessidade da insatisfação passa a ser atribuída à impossibilidade de o próprio desejo formular-se e constituir-se, e não ao caráter inacessível de suas visadas.
- A perspectiva trágica não faz miragem de um algo inacessível, objeto de falta e busca eternas que se confundem com a história da “espiritualidade” humana.
- Ela mostra o homem como o ser a quem nada falta, daí a necessidade trágica de contentar-se com tudo o que tem, pois tem tudo.
- O argumento é simples: quem quer ser crido ao afirmar faltar-lhe algo deve dizer o que lhe falta, e a filosofia nunca conseguiu dizê-lo; logo, nada falta.
- O trágico, do ponto de vista antropológico, está não num “déficit de ser”, mas num “pleno ser”: o pensamento mais duro é saber que não há “nada” de que se careça.
- A inaptidão da ideologia para constituir-se em pensamento e objeto de crença foi dita por Lucrécio, Montaigne, Pascal e Hume, antes de Marx, Nietzsche e Freud.
- O homem, que deseja nada, constitui discursos sobre nadas aos quais não pode aderir nem interessar-se, e a ideologia está condenada a permanecer no plano da palavra, falando de sonhos, como responde Mercutio a Romeu.
- Em Lucrécio, o próprio da superstição não é ser crida, mas não ser objeto de crença: o homem do De rerum natura não adere aos temas de que fez vã provisão e cuja inexistência conhece.
- Em Montaigne, a ênfase recai menos na fragilidade do pensamento humano do que no desinteresse do homem por aquilo que sente, pois pouca coisa nos distrai porque pouca coisa nos prende, e por aquilo que pensa, como o homem que sustentaria até o fogo uma opinião pela qual não arriscaria queimar a ponta do dedo entre amigos.
- Em Hume, a análise da crença mostra que o homem sempre defende suas crenças, mas é incapaz de precisar em que crê; por isso a crença é indestrutível, não por aderir demais ao objeto, mas por não aderir a nada, e não se desenraíza o que não tem raízes.
- Hume foi o único filósofo do século XVIII a compreender que o fanatismo, sendo apego a nada, não pode ser derrotado, daí seu pessimismo quanto ao progresso das luzes: toda destruição de crença leva a uma nova crença com novo pseudoconteúdo e o mesmo modo de crer.
- O gênio de Hume mostra a ausência de conteúdo nas operações mais comuns do entendimento, como a crítica da causalidade, que não duvida da eficácia da causa, mas nota que ninguém conseguiu dizer o que põe sob a palavra causa; Deus, eu, ordem e finalidade são criticados não por indemonstráveis, mas por inexprimíveis, por serem “nadas”.
- Hume não pergunta, como Kant, se há finalidade objetiva, mas se algo é pensado quando se fala de finalidade, e a resposta, já em Lucrécio e Montaigne, é negativa: o trágico humano é a impossibilidade de representar um fim ou uma felicidade, e, nas palavras de Montaigne na Apologia de Raymond Sebond, o pensamento, deixado a cortar e coser a seu gosto, não consegue sequer desejar o que lhe é próprio e satisfazer-se.
- Um deus da felicidade mistificador teria tarefa fácil: bastaria prometer todas as felicidades imaginárias com a condição de que lhe fossem descritas, e ninguém as descreveria, confirmando que nada há a desejar nem a lamentar.
- O “nada” da crença aparece na aposta das Pensamentos, cujo caráter trágico está na incapacidade de Pascal de definir uma das opções, Deus, que ele reconhece não representar nada de pensável.
- Por isso o saber trágico pode ser considerado “universal”: é o único, pois todo “saber” não trágico é nada.
- Por isso também o saber trágico, quando se constitui em filosofia, nunca foi refutado, fato notável para a lógica do pior.
- É a única forma de filosofia jamais criticada em si, pois é atacada de viés, nunca por ser trágica, provavelmente porque nisso reside o motivo real do ataque, e uma das leis do ataque é dizer tudo, exceto seus motivos.
- As tentativas de desvalorização ou recuperação incidem sempre sobre um vício de forma, como se o elemento trágico fosse o que não pode ser desvalorizado.
- O primeiro exemplo dessa evacuação por vício de forma é a atitude de Platão diante dos Sofistas.
- O Protágoras, único diálogo dirigido diretamente contra eles, conclui que o sofista, segundo suas próprias premissas, não deveria ensinar, mas ensina, logo se contradiz, sem abordar nenhum tema do pensamento sofístico.
- Platão é caluniador de gênio: atribuiu aos inimigos, que conseguiu eliminar materialmente, pois quase nenhum texto sofista sobreviveu, o vício próprio de sua filosofia, a “sofística”.
- O que Platão teme nos Sofistas é sua concepção trágica da natureza humana e do exercício do pensamento.
- Isso lembra a acusação de Rousseau aos grandes clássicos franceses: quem só conhecesse Molière e La Fontaine por tais testemunhos os veria como escritores desrecomendáveis, zombeteiros da verdade, indiferentes ao infortúnio alheio, sem moralidade e movidos por dinheiro e prazeres.
- A dissimulação é a mesma nos dois ataques: em vez de declarar o verdadeiro desacordo, diz-se com talento qualquer coisa.
- Platão censura os Sofistas por cupidez e vaidade, não por ceticismo, ateísmo ou materialismo, e Rousseau censura Molière e La Fontaine por “imoralidade”, não por sua visão trágica; diante de tais ataques, o pensamento trágico passa bem, pois ninguém parece disposto a criticá-lo.
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