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Maffesoli

Michel Maffesoli

Michel Maffesoli. Être postmoderne

A modernidade é lenta a morrer, mas sua agonia é inevitável — e os sintomas mais manifestos são o tribalismo, o nomadismo e o hedonismo, banhados numa atmosfera emocional que escapa aos costumes utilitários de uma civilização em deriva.

  • Essas são as características essenciais da mutação em curso, e é hipocrisia ou covardia não reconhecer sua espantosa atualidade.
  • Do coração humano se disse que era a fênix dos tagarelas — isto é, aquele cujas repetições são sempre novas; o mesmo vale para o coração pulsante desta nova época que é a pós-modernidade.
  • As banalidades que a constituem precisam ser repetidas porque, como sabe a sabedoria popular, é difícil levá-las em conta, embora elas assegurem os próprios alicerces de todo estar junto.

Nos períodos de mutação, prefere-se permanecer fixado nas convicções, opiniões e preconceitos — a famosa doxa — próprios do que se pode chamar de puberdade intelectual, cujas raízes estão no século XVIII e cujo apogeu se situa no XIX.

  • Os preconceitos de juventude são deslocados quando a experiência da vida obriga a constatar que os tempos mudaram.
  • Os jovens-velhos da sociedade oficial não têm mais nenhum talento para captar o essencial, o banal da vida cotidiana.
  • Numa época de grande mutação societária — a que sucedeu à Revolução Francesa —, Joseph de Maistre estigmatizava “a ignorante leveza de nossa época”; o mesmo poderia ser dito hoje, tanto as pantomimas políticas, filosóficas e midiáticas ocupam o cenário.
  • É coisa conhecida: o espírito humano resgata suas ignorâncias por seus erros.

Esse, porém, não é o essencial — pois nesse velho mundo em declínio há uma autêntica juventude completamente insensível ao falatório do pensamento correto, que paradoxalmente critica a imaturidade da intelligentsia com poder de dizer e de fazer.

  • Ela o faz simplesmente porque pressente e sente que o terreno social está subterraneamente vulcanizado.
  • É preciso portanto recordar, ainda que em poucas palavras, os desafios da crise vivida e que não se deve ter medo de nomear pós-modernidade — a qual não é em nada antimoderna.
  • É vão contestar a grandeza dos tempos modernos e inútil negar a realidade de suas conquistas; basta constatar que uma nova época está em gestação e que convém identificar os contornos do Renascimento em curso.
  • Essa atitude de bom senso permite evitar o declinismo e a sinistrose próprios de quem é incapaz de compreender que a saturação de uma civilização acarreta inevitavelmente a emergência de outra maneira de viver em comum.
  • É com as pedras de um monumento destruído que se elabora a construção de outro, mais adaptado ao espírito do tempo — há, em seu sentido simples, um ex-alçamento.
  • O desafio da época é pensar a assunção que são as novas maneiras de estar juntos e, como ocorreu no início da modernidade, formular um “discurso do método” — refletir sobre um pôr-se a caminho que permita orientar-se com a maior justeza possível.
  • Para isso, é preciso purgar-se das convicções e opiniões diversas — situar-se metaforicamente sobre a muralha, o que permite um olhar de cima; ou ainda, indo além dos juízos de valor, contentar-se em dar a ver o que é, o que está nascendo.
  • É preciso evitar as preconizações próprias dessa doença infantil do pensamento que é o militantismo — o que exige elaborar um pensamento autêntico capaz de, retomando Heidegger, conquistar “uma posição sólida diante do perigo da politização”, cuja pretensão é saber o que deve ser o mundo social.

Não se pode fazer sistema sobre a cultura em elaboração — é preciso, sem pretensão, contentar-se em dar alguns vislumbres.

  • É evitando a paranoia dos “sabedores” que se poderão compreender as diversas revoltas populares contra as elites estabelecidas e eventualmente avaliar suas consequências.
  • Basta, muito simplesmente, mostrar e dizer: “é assim.”
  • Diante das pretensões dos diversos dogmatismos, isso consiste em reconhecer que o único absoluto é o relativismo.
  • Diante do progressismo simplório ou devastador, é preciso aceitar a abordagem espiralesca da filosofia progressiva — ilustrável pela imagem da fita de Möbius, cujas duas faces, natureza e cultura, interagem uma sobre a outra num movimento sem fim.
  • Humildade e complementaridade resumem-se na abordagem apofática — atenta à inefabilidade da ordem das coisas, que nunca se aborda diretamente, mas com discernimento por toques sucessivos: um impressionismo do pensamento.
  • Essa dimensão apofática torna atento ao que paradoxalmente se pode chamar de “a palavra do silêncio” — arma formidável de que o povo sabe servir-se à maravilha; não é isso que sublinha santo Tomás de Aquino ao apontar a “miséria das palavras” (inopia vocabulorum)?

Invertendo o título de um famoso livro de Freud, há forte probabilidade de que o tabu se torne totem.

  • Para Freud, o tabu é análogo à neurose obsessiva — rejeição do que é inquietante e portanto considerado perigoso; e é certamente um medo neurótico que anima o establishment diante das características — tribalismo, nomadismo, hedonismo — que já foram mencionadas.
  • Esse tabu está se tornando totem simplesmente porque os valores em questão são amplamente vividos pela sociedade oficiosa — por todas as tribos que constituem concretamente o mosaico societário.
  • O totem é, simplesmente, o cimento, o ethos, isto é, a ética de base que estrutura toda vida em comunidade: um “nós” que é vivido e que convém portanto pensar.

Pensar esse “nós” de maneira radical significa identificar com o máximo de rigor as raízes desse “nós” em gestação — eis o coração pulsante da pós-modernidade e das páginas que se seguem.

  • Coração pulsante de uma filosofia progressiva que sublinha a imutabilidade de certos arquétipos societários — imutabilidade que não é em nada imobilidade estática, mas a força específica do que se chama, há várias décadas, enraizamento dinâmico.
  • Essa radicalidade na abordagem exige esforço — mas não é isso a especificidade do pensamento autêntico do homem honesto?
  • Ela exige também uma estrita neutralidade axiológica: ver as coisas e os homens como são e não como se gostaria que fossem — descrevê-los com serenidade e curiosidade, quase como um “voyeur.”
  • É esse cuidado de radicalidade que, com a ajuda preciosa de Hélène Strohl, conhecedora experiente da alta administração, levou a abordar em posfácio “o caso Macron” — de quem se ouviu frequentemente falar como o “presidente pós-moderno.”
  • Não se trata de fazer uma análise exaustiva: deixe-se ao tempo o cuidado de determinar o que é; mas, a título de simples vislumbre, poder-se-ia dizer que esse “new boy” da política é ao mesmo tempo um tecnocrata moderno e um místico pós-moderno da coisa pública.
  • Simulacro sem vida? Rebento atrasado da modernidade? Falso moedeiro gideano? Bom ator da teatrocracia própria ao espetáculo político? Em suma, sua inconsciente duplicidade histriônica não assume, através dos múltiplos disfarces que veste e de sua maquiagem permanente, uma força de autoparodia — o que seria a forma última da farsa democrática?
  • Está-se ainda no econômico ou não se está no econômico?
  • A escolha está amplamente aberta — e sem querer ser compreendido por qualquer um, pode-se ter certeza de que todos os que sabem ouvir, ouvirão.
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