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gusdorf:1966:5.3

5.3 Epistemologia do humano

GUSDORF, Georges. Les sciences humaines et la pensée occidentale. 14 volumes. Paris: Payot, 1966–1988. Tomo I: De l'histoire des sciences à l'histoire de la pensée (1966)

Capítulo V Rumo a uma outra história das ciências

Uma epistemologia compreensiva da realidade humana

1. A história das ciências deveria considerar o conhecimento científico em sua realidade solidária, pois ele mobiliza não um aspecto especializado da inteligência, mas o pensamento global de um indivíduo, que pressupõe o panorama cultural de uma época, de modo que a evolução cronológica das disciplinas está sempre submetida a influências sincrônicas e à regulação exercida pelo pensamento em seu conjunto.

2. Abandonada a ideia de um espaço abstrato da ciência pura, as ideias científicas só adquirem verdadeiro sentido no meio em que surgiram, já que cada aquisição nova é uma saída para um impasse do conhecimento que se tornara impasse de uma existência, e, como observa Henri Daudin, essas ideias permanecem inseparáveis das pesquisas concretas que motivavam, sendo o pensamento abstrato antes uma limitação que um aprofundamento do pensamento em ação.

3. Há uma diferença imensa entre a pseudo-história em que o historiador, como mestre-escola detentor da verdade, atribui notas aos cientistas, e a verdadeira história da pesquisa científica inseparável da existência comunitária, pois a lei do contexto cultural proíbe considerar abstratamente uma démarche do pensamento num espaço do conhecimento que é unitário, onde a busca de cada verdade particular era também busca da Verdade e do homem, e onde toda aquisição tem simultaneamente sentido disciplinar e valor de posição no domínio humano.

4. Para o cientista em seu tempo, o espaço do saber é percebido através de um espaço interior que é cultural, razão pela qual o historiador da física sensível apenas à física não vê realmente o que vê e toma os limites de sua informação pelos limites da natureza das coisas, quando somente uma sensibilidade interdisciplinar permite captar as conexões da inteligibilidade em seu desdobramento total.

5. O ensaio de Hooykaas sobre o princípio de uniformidade em geologia, biologia e teologia mostra que o desenvolvimento das ciências da terra e da vida, até Whewell, Lyell e Darwin, está ligado a afirmações metafísicas e teológicas fundamentais, de modo que quem exclui a teologia do domínio dos fatos e teorias científicas condena-se a não compreender a atividade científica.

6. O caso da geologia corresponde a uma constante da atividade científica que o positivismo francês por muito tempo recusou, salvo Koyré e Lenoble, mas que Burtt evidenciou ao mostrar que a ciência moderna não resultou de uma súbita capacidade de ver os fatos, e sim de uma mudança no modo de vê-los, sendo a nova física fruto de uma conversão metafísica que tornou possível a reforma galileana do entendimento.

7. As obras de Koyré sobre o mundo fechado e o universo infinito e sobre a revolução astronômica mostraram que a história da astronomia combina matemática, ontologia, cosmologia e representações religiosas, e que a revolução copernicana, embora nomeada no singular, foi um acontecimento múltiplo, influenciado pelos novos continentes e pelo misticismo neoplatônico do sol como imagem de Deus, exigindo nova concepção do espaço e da relação do homem com Deus que histórias especializadas são incapazes de examinar.

8. A pesquisa científica não segue o caminho reto da dedução rigorosa e da observação controlada, pois cada resultado põe em causa a atitude do homem diante do universo e os fatos exprimem orientações mentais e valores, de modo que Copernico, que segundo Koyré não era copernicano nem moderno, opôs ao sistema mítico tradicional outro sistema mítico, e a astronomia heliocêntrica desenvolveu-se contra ele embora procedesse dele, sem progressão linear de Copernico a Galileu.

9. Aceito o esquema simplista do progresso linear, as resistências à ciência nova e a condenação de Copernico e Galileu pelos tribunais romanos parecem pura má-fé, quando eram reações de defesa diante de uma ciência que ameaçava toda a habitação humana na terra, já que, como nota Kuhn, Kepler e Galileu forneciam provas astronômicas mas não respondiam aos argumentos físicos, cosmológicos e religiosos, e a revolução permanecia incompleta enquanto não se reajustassem os outros domínios do pensamento.

10. A revolução copernicana é apenas um exemplo das crises decisivas que se repetem nas ciências da natureza e do homem, como as revoluções não euclidiana, axiomática, quântica e darwiniana, ou as revoluções antropológica, histórica, marxiana e freudiana, nas quais as concepções novas, de início usadas pelos especialistas apesar de parecerem inadmissíveis, perdem seu caráter paradoxal e transformam as ciências vizinhas e, mais lentamente, o mundo do filósofo e do homem culto.

11. Uma história das ciências digna desse nome não pode limitar-se às filiações especializadas e deve ser uma história da inteligibilidade, pois a astronomia do século XVII passa pelo processo de Galileu e suas imensas consequências, como a clandestinidade de Descartes e a transferência da iniciativa científica para os países reformados, e a ciência nova suscita uma sensibilidade intelectual que marca a literatura e a poesia, entre o temor do abismo infinito e a expansão espacial do pensamento celebrada por Bruno.

12. O historiador das ciências protestará contra tais exigências, aceitando o Pascal da cicloide entre os matemáticos e o do Tratado do Vazio entre os físicos, mas remetendo ao professor de francês o Pascal do silêncio eterno dos espaços infinitos e dos dois infinitos, por julgar descabido exigir de quem estuda uma ciência que seja também historiador da literatura, da filosofia, da religião e da arte.

13. A história não existe para comodidade do historiador, e quem se atém à ciência apresenta uma realidade truncada, pois em cada época há uma mutualidade de significações no espaço mental e a mesma inteligência atua em todos os domínios com os mesmos elementos de inteligibilidade, como o mecanicismo do século XVII, presente da física à teologia relojoeira, da biologia de Harvey à sociologia de Hobbes, ou hoje as estruturas e a dialética, conceitos fundamentais indefiníveis que produzem em quem os invoca um efeito de plenitude.

14. Objetar que a história das ciências é história da verdade e não das opiniões levaria a excluir Copernico, cuja teoria nada tem a ver com a concepção atual, a reduzir Lavoisier a um tecido de erros e a eliminar o De Magnete de Gilbert, a física de Descartes e a obra de Francis Bacon, pois, subtraído dos clássicos o que se revelou falso, pouco restaria e nem sempre o mais significativo.

15. Uma história reduzida à verdade tornar-se-ia incompreensível, com verdades surgindo como relâmpagos sem origem, Galileu e Kepler brotando do nada sem Copernico e a ciência experimental sem Bacon, quando a ciência viva de uma época forma corpo e fazer justiça a Kepler, Newton ou Johannes Müller é compreender a organização de sua visão do universo, sendo a verdadeira história das ciências a história da representação científica do mundo através dos momentos da cultura, em que, segundo a fórmula de Marx, a humanidade só se põe questões que pode resolver, os elementos da pergunta são os da resposta e o conhecimento das coisas liga-se à possibilidade de exprimi-las.

16. O inventor modifica a linguagem ao modificar o pensamento e a figura do mundo muda pouco a pouco pela composição de impulsos descoordenados, como na passagem da ciência clássica à física da relatividade, quando, segundo Heisenberg, foi preciso abandonar a esperança newtoniana de explicar os novos fenômenos pelas leis conhecidas e criar novos conceitos adaptados a eles.

17. A história da física é expressão da história da inteligência científica, que por sua vez é aplicação da inteligência humana em geral, indecomponível sem desfiguração, o que revela a insuficiência, senão a impostura, das histórias das ciências que recapitulam séries de detalhes como se formassem um todo, deixando de lado o essencial, a afirmação da presença humana na terra dos homens e seu devir no tempo.

18. Essa história essencial exige do historiador envergadura intelectual e cultura raras, razão pela qual a verdadeira história das ciências está pouco avançada, como constatava Lovejoy ao lamentar a inexistência de uma história válida da ideia de evolução antes de Darwin, tanto no sentido estrito da transformação das espécies quanto no sentido amplo das concepções evolucionistas na astronomia, geologia, antropologia, cosmologia e teologia, cujas fases estão intimamente ligadas.

19. Uma tal história da ideia de evolução revelaria um dos grandes eixos do pensamento científico ocidental, do neoplatonismo a Teilhard de Chardin, e exigiria competência em todos os domínios, da biologia, paleontologia, genética e embriologia à filosofia, literatura e teologia, já que essa ideia, renovada por Lamarck e Darwin, impregna a Naturphilosophie, o romantismo alemão e as especulações leibnizianas antes de prolongar-se na meta-teologia de Teilhard.

20. O caso da evolução não é isolado, e o historiador das ciências engana a si e ao leitor ao desarticular artificialmente o que a condição humana engloba num todo solidário, donde se conclui, contra os preconceitos mais tenazes, que toda ciência deve ser considerada ciência do homem, pois o conhecimento não é um loteamento de pequenas propriedades independentes e cada disciplina, centrada num aspecto dos fenômenos, repercute em todo o espaço do saber e trabalha para o alargamento da consciência humana.

21. O homem não é feito para a matemática, a mecânica dos fluidos ou a briologia, mas estas são feitas pelo homem e para o homem, razão pela qual o desenvolvimento da física experimental provocou uma recomposição das outras disciplinas e uma redistribuição do espaço epistemológico, suscitando nova metafísica e modificando a teologia, sendo o processo de Galileu apenas um sinal desse reajuste geral inelutável.

22. Cada ciência é a tomada de posse pelo pensamento de um domínio especializado e uma medida do mundo que se reflete em medida do homem, centro universal de referência de todas as informações, de modo que todo conhecimento é conhecimento do homem, pertença originária que pode ser mascarada pela abstração das axiomáticas e pela complexidade dos aparelhos, quando o astrônomo ou o naturalista se julgam puramente objetivos.

23. Esse desprendimento de si é apenas um fenômeno de superfície, pois a astronomia é uma aventura maior da consciência humana, da astrobiologia aos cosmonautas, e a ascese objetiva da pesquisa é antes exaltação que apagamento da individualidade, assim como a correlação apontada por Brunschvicg entre consciência filosófica e ciências exatas tem dupla entrada, já que a filosofia orienta todas as atividades do conhecimento e as reclassifica na unidade da experiência humana, irredutível à causalidade física.

24. A humanidade busca através do saber uma lenta descoberta de si, e uma história das ciências compartimentada, restrita às ciências exatas e naturais e sem as ciências humanas, não compreende o valor do devir que expõe, enquanto o atraso destas as mantém em inferioridade diante de uma inteligibilidade exata erigida abusivamente em modelo de todo saber, como se o modo de conhecimento pudesse definir-se independentemente do objeto.

25. Como observou Heidegger, a investigação matemática da natureza não é exata por calcular com precisão, mas calcula assim porque seu setor de objetividade tem o caráter da exatidão, ao passo que as ciências do espírito e do vivente devem, justamente para permanecer rigorosas, situar-se fora da dimensão da exatidão, sendo a não exatidão das ciências históricas o cumprimento de uma exigência essencial e um labor mais árduo que o das ciências exatas.

26. Os primeiros êxitos do saber no domínio dos objetos materiais levaram à conclusão apressada e positivista de que a ciência seria matemática ou não seria, quando as ciências exatas chegaram primeiro por serem as mais fáceis, relativas à camada mais superficial dos fenômenos, e o conhecimento deve respeitar a natureza de seu objeto em vez de remodelá-lo segundo suas exigências.

27. O fenômeno humano é o fenômeno fundamental da realidade humana e não cabe às ciências das coisas, com seu pretenso direito de primogenitura, arbitrar as ciências do homem, o que só conduz à anarquia da dissociação do saber vista na época contemporânea, ao passo que as grandes épocas da cultura foram dominadas por modelos de inteligibilidade integrativa, como o Cosmos que solidarizava macrocosmo e microcosmo da Grécia ao Renascimento e a Revelação que modulava a civilização cristã.

28. A revolução galileana fez explodir o cosmos tradicional, que era tanto espiritual quanto físico, e uma nova representação física substituiu a antiga sem que nada assumisse a função de ordenação do homem e do mundo, de modo que o conhecimento do mundo se tornou exato enquanto o resto do saber se dissociou em elementos incoerentes e suspeitos, e a ciência, ao ganhar o mundo, esqueceu o homem.

29. Cassirer caracterizou essa situação ao afirmar que a teoria moderna do homem perdeu seu centro intelectual e caiu numa anarquia de pensamento, pois, embora antes houvesse discordâncias, existia um quadro de referência assegurado sucessivamente pela metafísica, pela teologia, pela matemática e pela biologia, até que desapareceu a autoridade central capaz de regular os esforços individuais, levando as disciplinas a se darem as costas e à deslocação da figura humana na cultura atual.

30. A história das ciências, enquanto história da inteligibilidade, deveria reencontrar o fio perdido dessa deslocação, pois, como dizia Hegel, se a terra já não é o centro do mundo físico, continua sendo o centro do mundo moral, e nele o homem permanece para o homem ponto de origem e centro de referência, de modo que toda pesquisa científica busca também a imagem do homem, ainda que não a procure.

31. Essa proposição capital impõe inverter o sentido de leitura da classificação das ciências, cuja série tradicional parte da matemática, primeira e mais perfeita, e progride para ciências cada vez menos rigorosas que a imitam cada vez pior, fazendo da classificação uma ladeira de degradação do valor científico que termina nas ciências do homem, tidas como as mais rudimentares e suspeitas.

32. Na situação presente da cultura, uma ciência é tanto mais ciência quanto mais abarca caracteres da realidade humana, e a antropologia, última em data, deve ter prioridade de direito e de valor como conhecimento pleno da realidade humana plena, enquanto a matemática é a disciplina mais abstrata e elementar, aquela em que a figura do homem é menos marcada, aperfeiçoando-se o conhecimento por complexidade crescente e integração, já que as ordens do saber se implicam mutuamente.

33. Aceita essa inversão dos valores epistemológicos, o foco da inteligibilidade deixa de ser a norma matemática e passa a ser a figura humana em sua presença concreta, e contra a convicção positivista de que um conhecimento é tanto mais verdadeiro quanto mais matemático, deve-se admitir que o saber é tanto mais verdadeiro quanto mais humanidade contém, sendo as ciências mais matematizadas as mais desumanizadas e sua verdade uma verdade sob restrição.

34. Não se contesta a legitimidade dos trabalhos do especialista em teoria dos conjuntos ou em macromoléculas, mas sua obra só vale sob benefício de inventário e só encontra sentido último reclassificada no humano, o que exige, em vez de encaixar todos os saberes numa axiomática matemática, situar as ciências teóricas e objetivas numa epistemologia compreensiva da condição humana, na qual a antropologia se torna a ciência das ciências.

35. Essa inversão influencia a própria constituição das disciplinas, sobretudo após a separação entre ciências da natureza e ciências do homem, pois a biologia muda de fisionomia conforme estude a vida sob o pressuposto da objetividade rigorosa ou na perspectiva da afirmação humana, e, como escreve Adolf Portmann, os cientistas devem ver os fatos humanos num horizonte mais amplo, renunciando à tática redutora e aos atrativos da simplificação.

36. Há uma biologia do humano que revela a marca da humanidade até na anatomia e na fisiologia, e assim como, segundo Haldane, a física deixa de ser exata na biologia, a biologia perde seu rigor aparente no nível da psicologia, enquanto a antropologia, ciência das convergências, impõe a todas as disciplinas uma sobredeterminação em segunda leitura, pois todo conhecimento humano é conhecimento sobre o homem, o homem é o único horizonte do homem, e pouca ciência afasta do homem, muita ciência a ele reconduz.

37. Em 1928, Max Scheler constatava que os problemas de antropologia se haviam tornado na Alemanha o centro de toda pesquisa filosófica e que biólogos, médicos, psicólogos e sociólogos buscavam uma nova representação da estrutura essencial do homem, embora jamais o homem tivesse sido tanto um problema para si mesmo, animado agora pela coragem da verdade.

38. Essa inspiração antropológica, presente na Alemanha e depois nos Estados Unidos, pouco influenciou a França, onde os filósofos permanecem presos ao espiritualismo universitário e os cientistas a um positivismo sem doutrina, donde a ideia de um saber que progride em ordem dispersa sob a precedência das normas matemáticas, o que explica o caráter truncado e variável dos sumários das histórias das ciências, que incluem ou excluem arbitrariamente biologia, medicina, antropologia, geologia, etnologia ou historiografia.

39. As razões dessas inclusões e exclusões nunca são claras nem procedem de opções intelectuais deliberadas, resultando da limitação de páginas e de uma vaga consciência de que o domínio da ciência propriamente dita termina em algum ponto além do qual só restariam saberes empíricos indignos do conhecimento exato.

40. A história da ciência parece limitada a priori pela cultura do historiador, pois o químico só vê no passado químicos resolvendo problemas químicos, o historiador do direito supõe formas jurídicas que se engendram mutuamente e o historiador da filosofia uma árvore genealógica de doutrinas, quando o domínio humano não se divide como as estantes de uma biblioteca e os espaços especializados são abstrações de um lugar comum em que cada época desdobra suas obras num horizonte compartilhado de inteligibilidade.

41. Existe uma epistemologia geral da consciência humana que reúne os elementos comuns a todas as aventuras do conhecimento e que deveria ter sua história, história da inteligibilidade humana e história das histórias, mas os estudos sobre o objeto e os métodos das ciências humanas tiveram desenvolvimento medíocre em comparação com os da matemática, da física e da biologia, desigualdade surpreendente dado que, sendo jovens, seu passado deveria ser mais fácil de explorar.

42. Se a história das ciências é pouco ensinada na França, a das ciências humanas não o é de modo algum porque não foi feita, e embora a história do direito, da economia política, da arte, das literaturas e da filosofia ocidental prosperem, não existe em francês nenhuma história válida da historiografia desde a tradução do livro de Fueter em 1914, hoje esgotado e superado, sendo as obras recentes sobre a historiografia francesa do século XIX de um suíço alemão, Peter Stadler, e de um soviético, B. Réizov.

43. A historiografia é ainda privilegiada diante de domínios totalmente abandonados, pois não há em francês história da antropologia, da etnologia ou da psicologia feita com seriedade, nem estudos retrospectivos sobre filologia e linguística, cuja história, como dizia Salomon Reinach, continua por escrever, e a história da geografia, embora esta corresponda à dimensão decisiva da posse intelectual da Terra e à aliança entre explorações, astronomia, geodésia e reflexão sobre o homem habitante do planeta, permanece desprezada até pelos geógrafos.

44. Também nas ciências das religiões há carência no domínio francês, pois, embora existam histórias da teologia, jamais se estudou o devir conjunto da epistemologia religiosa em suas diversas formas, mitologia, filologia bíblica, exegese, arqueologia religiosa, filosofia da religião, métodos comparativos e história das religiões, domínio imenso de influência capital sobre o pensamento e a existência que não encontrou seu historiador.

45. A bibliografia francesa é indigente em todos esses domínios, e embora o mundo germânico e anglo-saxão apresente iniciativas honrosas mas dispersas, o atraso epistemológico e historiográfico das ciências humanas parece caracterizar a cultura ocidental atual, como atesta Rothacker, que em 1946 tentou lançar uma coleção de história das ciências incluindo todas as disciplinas e quase não encontrou colaboradores para as ciências humanas.

46. Uma iniciativa alemã única em seu gênero, a coleção Orbis Academicus, propõe-se expor por documentos comentados a história dos problemas e métodos de todas as disciplinas importantes, com volumes sobre fundamentos da matemática, lógica formal, geologia, paleontologia, biologia, ciência do átomo e evolução, e também sobre psicopatologia, direito das gentes, linguística, historiografia, sociologia, mitologia e ciência da Antiguidade clássica.

47. Essa empresa, realizada com colaboradores competentes e espaço suficiente, abre uma via nova, mas sofre de um nacionalismo inconsciente que faz passar pela Alemanha o grande eixo das ciências humanas, e distribui o horizonte epistemológico em especialidades tratadas como histórias autônomas, quando o pensamento real se caracteriza pela interferência dos setores, como mostra o volume sobre o Novo Testamento, cuja problemática histórica também se encontra na evolução da linguística, das antiguidades, da historiografia, da mitologia, da teologia e da filosofia.

48. Nas ciências exatas e naturais pode-se, até certo ponto, definir problemas de modo restritivo e resolvê-los por procedimentos técnicos próprios, com interferências apenas em segunda leitura, ao passo que cada problema humano é um espelho da realidade humana, de modo que o Novo Testamento remete a outros livros sagrados e a todas as leituras possíveis, e a psicologia escapa ao psicólogo como a sociologia ao sociólogo.

49. A coleção Orbis Academicus tem seu centro em toda parte e sua circunferência em parte alguma, e apesar de seus méritos revela a impossibilidade de tratar as ciências humanas uma a uma, pois o essencial é o laço entre os volumes, o fator comum de humanidade que solidariza as abordagens do fenômeno humano e pressupõe uma epistemologia da realidade humana global, já que toda história das ciências remete a uma história da consciência.

50. Cassirer, atento a essa exigência, afirmava no fim da vida que a história da filosofia do homem permanecia um desiderato, enquanto as histórias da metafísica, das ciências naturais e do pensamento ético haviam sido minuciosamente estudadas, e que, havendo uma lógica da matemática desde Platão, da biologia desde Aristóteles, da ciência matemática da natureza com Descartes, Leibniz e Kant e esboços de uma lógica da história, os conceitos da linguística, da ciência da arte e das ciências religiosas continuavam errantes, sem lugar no sistema da lógica.

51. O problema mais urgente do saber é a ausência de uma lógica e de uma epistemologia das ciências humanas, que, sendo toda ciência filha do tempo, passa necessariamente pela história, pois a história das ciências é incompleta e ininteligível sem as ciências humanas, e estas têm como pano de fundo a história da consciência humana, de modo que a história do conhecimento é uma história concreta do advento do sentido e, como dizia Ranke, a história verdadeiramente compreendida é sua própria filosofia e seu cumprimento.

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