Ética
Chaui
ESPINOSA, Benedito de. Ética. Tr. Grupo de Estudos Espinosanos. São Paulo: EDUSP, 2015
Apresentação
Fomos acostumados a ler os filósofos do passado com duas atitudes opostas: ou como inteiramente determinados por sua época e, portanto, irremediavelmente ultrapassados, ou como gênios intemporais, como se não houvesse qualquer diferença entre sua época e a nossa. Esses dois hábitos interpretativos rivais são gêmeos, pois ambos esquecem o que são um clássico e uma obra de pensamento.
Um clássico, escreveu certa vez Merleau-Ponty, é aquele que sempre terá alguma coisa a nos dizer porque, ao pensar, nos deu a pensar e, no modo como enfrentou as questões de seu tempo e a elas ofereceu respostas, nos ensina a interrogar nosso próprio tempo. Sua obra é fecunda porque cria, por sua própria força, um campo novo de ideias no qual aprendemos a ouvir uma interrogação que abre caminho para a nossa.
Uma obra de pensamento é um trabalho de interrogação sobre o presente como um não-saber à procura de seu próprio sentido e abertura de um campo de racionalidade novo que não cessará de ser retomado pelas obras de seus leitores. Com frequência, o trabalho do leitor pode nascer de um primeiro encontro com a obra, de uma relação muito imediata e ingênua que mantém com ela, mas que inquieta e provoca indagações. No desejo de encontrar respostas para elas, o leitor inicia um lento trabalho de reflexão que o faz sentir-se quase situado no interior do discurso de um outro que, embora à distância, tem algo a lhe dizer. Pouco a pouco, porém, a diferença histórica reabre um percurso que nos faz compreender que as questões e respostas do filósofo já não se confundem com as de quem o lê. Todavia, justamente quando a distância é reaberta, o discurso lido ganha uma força inesperada, tornando-se capaz de suscitar de maneira nova questões que são nossas. Nesse momento, o leitor se sente interpelado pela obra passada.
Rovere
SPINOZA, Baruch. Éthique. Tradução: Maxime Rovere. Paris: Flammarion, 2021.
- A Ética se funda na aposta de que é possível instituir uma verdade realmente compartilhada, em vez de uma verdade teoricamente universal emanada de um indivíduo singular, e o próprio livro não constitui exatamente o lugar desse compartilhamento, mas antes um suporte para um trabalho coletivo peculiar, documentado numa carta de Simon De Vries a Spinoza, datada de 24 de fevereiro de 1663, na qual se descreve como o colégio se organiza: alguém faz a leitura, expõe sua própria compreensão do texto e apresenta a demonstração completa, seguindo a sequência e a ordem das proposições.
- Esse testemunho permite considerar o texto da Ética como um primeiro esboço destinado a uma assembleia de filósofos nada passiva, na qual os amigos refazem eles mesmos as demonstrações e suas sugestões parecem por vezes integradas ao texto final, como sugere o entusiasmo de De Vries ao reconhecer algo de si mesmo no escólio da proposição 19 e sua disposição declarada a continuar contribuindo no que estiver ao seu alcance.
- O interesse desse documento não está em retirar de Spinoza o estatuto de autor nem em reatribuir trechos da Ética a seus amigos, mas em promover dois ajustes importantes de perspectiva.
- Em primeiro lugar, ele relativiza a hierarquia entre as diferentes funções ligadas ao texto, esbatendo as fronteiras entre escrita, leitura, comentário, tradução e edição, todas essenciais à própria concepção dessa filosofia como prática cooperativa, ainda que Spinoza permaneça primeiro entre pares.
- Em segundo lugar, ele mostra que os amigos de Spinoza não se concebiam como discípulos, mas como parceiros de uma prática de reflexão coletiva, ainda que participassem dela com graus distintos de confiança, como evidencia a diferença entre a postura desenvolta de Lodewijk Meyer e a modéstia de Simon De Vries.
- A designação collegium usada por De Vries remete às reuniões documentadas em Amsterdã desde 1646, nas quais homens e mulheres de diferentes confissões comentavam o Novo Testamento sem admitir hierarquia entre suas leituras ou convicções, formando não um movimento unificado, mas uma prática colegiante de interpretação, escuta e exercício da discordância voltada à tolerância e à concórdia.
- Esses colegiantes buscavam definir uma espiritualidade sem Igreja, confiando cada qual em sua luz divina interior como livre-profeta, convencidos de que as verdades religiosas seriam alcançadas em conjunto pelo intercâmbio; vários amigos íntimos de Spinoza, como Pieter Balling, Jarig Jellesz e seu editor Jan Rieuwertsz, participaram dessas reuniões e do colégio em que a Ética nasceu, fazendo convergir as práticas racionalistas cartesianas com um impulso do coração voltado à concórdia social e ao cumprimento espiritual.
- Como Spinoza não comenta as Escrituras, sua resposta a essas aspirações apoia-se numa quarta tradição da qual a Ética retira seu próprio título: a literatura da ética secular, especialidade neerlandesa marcada por um pragmatismo cético ou indiferente aos dogmas religiosos, presente já no século XIV em Jacob Van Boendale, que propunha moderar as próprias paixões por amor de si mesmo, e desenvolvida por Hendrik Laurensz Spiegel e sobretudo por Dirck Volkertszoon Coornhert, considerado o maior desses autores.
- Para os compatriotas de Spinoza, as lições de Coornhert valiam tanto quanto as dos moralistas romanos Cícero e Sêneca ou as do humanista Erasmo de Roterdã, e ao intitular sua obra Zedekunst, mesmo título usado por Coornhert e, pouco antes, pelo professor de Leiden Arnout Geulincx, Spinoza reivindicava explicitamente sua filiação a essa linhagem profundamente neerlandesa de autores de ética.
