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Espírito

DERRIDA, Jacques. De l’esprit: Heidegger et la question. Paris: Éditions Galilée, 1987. Trad. Cesar Marcondes.

Prefácio da tradução italiana de GINO ZACCARIA

De l’esprit é um texto intraduzível — como uma obra de poesia.

E “intraduzível” aqui não significa que não possa ser traduzido devido a uma distância, considerada intransponível, entre a língua do tradutor e a do autor. A palavra de Derrida, como toda fala dirigida ao outro, está desde sempre aberta à palavra do tradutor. E, partindo do princípio de que traduzir consiste em demonstrar o equilíbrio entre as duas palavras em jogo, pode-se, sem dúvida, afirmar, uma vez concluído o trabalho, que uma tradução foi realizada.

Mas a intraduzibilidade a que me refiro é mais essencial. Existem obras, de fato, nas quais o pensamento se entrega, sem reservas, à linguagem. Ao se entregar assim, o pensamento se expõe totalmente ao risco da palavra, abrindo-se simultaneamente à possibilidade do dizer autêntico. Nessas obras, diante da traduzibilidade da fala dirigida ao outro, há a intraduzibilidade do risco da linguagem — risco que permanece silenciosamente guardado na língua. É por isso que todo poema permanece felizmente intacto em sua própria língua, ou seja, não traduzido — como De l’esprit.

No entanto, existe uma tradução poética. Além de toda expectativa do intelecto comum, tal tradução é propriamente exigida, solicitada e, por fim, dominada pela intraduzibilidade desse risco. Este último torna-se, para quem traduz, inesquecível. Quem traduz, ajustando-se a esse risco e consentindo com ele, vive em primeira pessoa a experiência de pensar em uma língua que não é a materna, nem a habitual. Assim, no confronto direto com a não habitualidade de uma língua, delineiam-se a tarefa e o risco do tradutor: buscar a palavra certa. E, ao buscar a palavra certa, consuma-se o encontro entre duas línguas que tentam pensar juntas. A tradução poética torna-se, portanto, memória em ato da intraduzibilidade.

Ora, De l’esprit é, já em sua própria língua, uma obra da linguagem e uma tradução poética: ela procura pensar em francês o que deve ser pensado em alemão: o Geist. De l’esprit é, portanto, essencialmente, uma busca pela palavra certa.

O que, então, De l’esprit pede ao seu tradutor? Pede que se busque a palavra certa para uma palavra que já é tradução. Pede que se traduza uma obra da linguagem que também é uma tradução poética.

Confiei a tarefa de justificar algumas das minhas escolhas lexicais e interpretativas a algumas notas do tradutor. Apenas em uma delas me permiti propor um modesto comentário crítico: trata-se da nota 9 do capítulo sétimo — comentário que, na verdade, nada tira da argumentação rigorosa de Derrida.

No meu trabalho, fui muito auxiliado pelo próprio autor, que, ao longo de várias conversas, foi extremamente generoso com esclarecimentos. O diálogo assim estabelecido foi para mim de inestimável valor: agradeço, portanto, a Jacques Derrida por sua paciência e sua precisão.

Recorri também aos conselhos e à longa experiência derridiana de Stefano Agosti, com quem discuti alguns pontos controversos do texto. A ele, portanto, vai toda a minha gratidão.

Por fim, agradeço a Rocco Ronchi, que teve a paciência de ler o manuscrito com grande atenção e de discutir comigo muitas dúvidas e incertezas.

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